Anatomia da região malar para preenchimento
O que é a região malar para quem injeta
A região malar é uma pilha de camadas apoiada no corpo do zigoma e na maxila: pele, gordura superficial dividida em compartimentos, a camada muscular e o SMAS, a gordura profunda e, por fim, o periósteo. Preencher bem a malar é escolher em qual dessas camadas o gel vai trabalhar — o plano profundo projeta e sustenta; o superficial suaviza transições e acompanha a mímica.
O nome popular, “maçã do rosto”, esconde que a região tem pelo menos três subunidades com comportamento diferente: a eminência zigomática lateral, a bochecha anteromedial, que encosta no sulco nasojugal, e a área submalar abaixo dela. A própria bula americana do Juvéderm Voluma XC organiza o terço médio assim — região zigomaticomalar, bochecha anteromedial e região submalar — e registra volumes medianos de 2,0 mL, 2,0 mL e 2,1 mL em cada uma no estudo de registro. O diagnóstico começa por saber qual delas perdeu sustentação.
O esqueleto: o suporte que envelhece
Parte do que parece “bochecha caída” é osso recuando. Shaw e Kahn (2007, Plast Reconstr Surg) mediram tomografias com reconstrução tridimensional de 60 adultos, 30 mulheres e 30 homens, em três faixas etárias. O ângulo maxilar e o ângulo glabelar diminuíram significativamente com a idade nos dois sexos; a área da abertura piriforme aumentou da faixa jovem para a de meia-idade. A maxila perde projeção anterior, a gordura que se apoia nela perde base e o terço médio se aplana.

Para o injetor, isso define a lógica do tratamento: repor a base antes da superfície. Gel colocado só na gordura superficial de um terço médio sem suporte ósseo infla a pele sem devolver o ângulo — é o caminho mais curto para o rosto pesado.
As camadas, de fora para dentro
A malar tem dois sistemas de gordura separados pelo SMAS e pelos músculos da mímica, e cada sistema responde ao gel de um jeito.
- Gordura superficial. Rohrich e Pessa (2007, Plast Reconstr Surg), em 30 hemifaces dissecadas com azul de metileno, mostraram que a gordura subcutânea da face é dividida em compartimentos independentes. O que se chamava de “gordura malar” são três compartimentos — medial, médio e lateral temporal da bochecha — e o sulco nasolabial é uma unidade própria. Parte dos chamados ligamentos de retenção nada mais é que o ponto de fusão de septos entre compartimentos vizinhos.
- Camada muscular e SMAS. O orbicular do olho na parte superior, os zigomáticos maior e menor e o levantador do ângulo da boca mais abaixo. Os músculos da elevação do lábio nascem no osso e cruzam a região — por isso volume mal colocado aparece no sorriso.
- Gordura profunda. Abaixo do orbicular, a gordura suborbicular do olho (SOOF), medial e lateral; inferior e medialmente a ela, a gordura profunda medial da bochecha, apoiada na maxila, e a profunda lateral. Lateralmente, sobre o corpo do zigoma, fica o espaço prezigomático.
- Periósteo. O plano de contato com o osso, onde ficam os depósitos de suporte estrutural.

Entre as camadas correm os ligamentos de retenção. O ligamento retentor do orbicular, na borda inferior da órbita, e o ligamento zigomático-cutâneo, mais abaixo, ancoram a pele ao osso e desenham os sulcos que o paciente vê: o sulco nasojugal e o sulco médio da bochecha. Entender onde estão é o que permite tratar o sulco por baixo, no compartimento profundo, em vez de encher o degrau por cima. É a sequência que a revisão de Hong et al. (2026, JPRAS Open) descreve para o sulco médio da bochecha: suporte profundo na SOOF e na gordura malar profunda, e acabamento superficial só onde for preciso.
Por que o plano profundo projeta e o superficial se move
Gordura profunda e gordura superficial não se comportam da mesma forma — nem em repouso, nem no sorriso. Cotofana et al. (2019, Plast Reconstr Surg) injetaram contraste com reologia semelhante à de preenchedores comerciais nos compartimentos profundos de 40 cabeças de cadáver e acompanharam por tomografia e ressonância. Aumentar o volume nos compartimentos profundos — piriforme profundo, medial e lateral profundos da bochecha, nasolabial profundo e a SOOF medial e lateral — não fez o material descer. Para os autores, é isso que dá ao depósito em contato com o osso o papel de sustentar as camadas de cima e projetar para a frente.
O ultrassom em pessoas vivas mostra o outro lado. Schelke et al. (2021, J Cosmet Dermatol) examinaram 48 terços médios de 24 voluntários entre o repouso e o sorriso: os compartimentos superficiais subiram em média 3,7 mm; os profundos, 0,1 mm. A consequência prática é dupla. Primeiro, o gel de estrutura vai no plano profundo, onde a mímica quase não o desloca. Segundo, o gel superficial precisa ser macio e pouco, porque vai se mover com o sorriso — e um depósito rígido ali vira bola quando a paciente ri.

O mapa de superfície
Antes da primeira punção, a anatomia profunda precisa virar marcação na pele. Surek et al. (2015, Plast Reconstr Surg) dissecaram 12 hemifaces e propuseram uma análise em seis passos. Uma linha longitudinal que parte da base do sulco alar cruza a borda medial do levantador do ângulo da boca a 1,9 cm, a borda lateral dele a 2,6 cm e o zigomático maior a 4,6 cm, dividindo a bochecha em duas regiões estéticas. A análise define três áreas-alvo e duas zonas de evento adverso:
- Malar medial: projeção anterior da bochecha e suavização do sulco nasojugal.
- Malar médio: transição pálpebra–bochecha e turgor do compartimento superficial.
- Malar lateral: projeção lateral; é onde fica o espaço prezigomático.
- Zona de evento adverso superior: localiza o ramo palpebral da artéria infraorbital.
- Zona de evento adverso inferior: dá a explicação anatômica para o “jowl” inadvertido que aparece depois de injeção na bochecha anterior.
O forame infraorbital é o outro marco obrigatório. Em 40 hemifaces de cadáver, Ercikti et al. (2017, Surg Radiol Anat) encontraram o forame sobre a linha que liga a comissura palpebral lateral à asa do nariz em 75% dos casos, a uma distância média de 8,8 mm da margem infraorbital e de 30,3 mm da linha média. Palpar a margem orbital, projetar essa linha e marcar o forame antes de injetar reduz a chance de o depósito medial cair sobre o feixe infraorbital.
Zonas de risco: o que passa na região
A malar não é a região mais perigosa da face, mas os vasos que a atravessam se comunicam com territórios que são. Hufschmidt et al. (2019, J Plast Reconstr Aesthet Surg) estudaram a artéria infraorbital em 18 cadáveres frescos, com injeções de ácido hialurônico corado. A artéria e seus ramos ficaram nas regiões comuns de injeção e se anastomosaram com a supratroclear, a dorsal do nariz e a angular — o caminho anatômico para embolia retrógrada. Os autores descreveram duas zonas de perigo: injeção superficial demais no meio da bochecha e injeção no periósteo na correção do sulco infraorbital e da olheira, além de desaconselharem o depósito sobre o periósteo do arco zigomático.
O arco zigomático tem outro problema: o gel não fica onde foi posto. Schelke et al. (2024, Dermatol Surg) examinaram por ultrassom 200 pacientes com preenchimento na bochecha lateral e encontraram preenchedor migrado do zigoma para a parte baixa da têmpora, em quatro padrões que dependiam da camada da injeção original — do SMAS para a fáscia temporal superficial, da SOOF lateral para o plano interfascial ou para o coxim de gordura temporal superficial, e do supraperiosteal para o coxim superficial. Em injeções controladas, os depósitos se deslocaram já durante a aplicação. Na prática: projeção lateral se constrói sobre o corpo do zigoma, não sobre o arco.
Completam o mapa a veia facial, que acompanha a borda da gordura profunda medial da bochecha, e o feixe zigomaticofacial, que emerge pelo forame no corpo do osso. O panorama vascular da face inteira, com as anastomoses que ligam a malar à órbita, está em zonas de risco vascular da face.
Do mapa à agulha: como a anatomia vira técnica
A anatomia da malar se traduz em quatro decisões: subunidade, plano, instrumento e volume.
- Subunidade. Qual das três perdeu suporte: eminência zigomática, bochecha anteromedial ou submalar? Tratar a que não precisa é o começo do excesso.
- Plano. Suporte e projeção no plano profundo, em contato com o osso ou na gordura profunda; acabamento, se necessário, no superficial, com gel mais macio e pouco volume.
- Instrumento. Depósito pontual sobre o corpo do zigoma costuma ser feito com agulha; distribuição na gordura profunda medial, com cânula entrando por baixo do SMAS. Na rotina do Dr. Thiago, com preenchedor e bioestimulador ele sempre aspira antes de injetar, inclusive com cânula 22G.
- Volume. Quem fixa o teto é a bula do gel em uso. Como referência, a bula americana do Restylane Contour limita a 6 mL por sessão nas bochechas e no terço médio; a do Voluma XC orienta distribuir o gel em alíquotas pequenas, de 0,1 a 0,2 mL, em área ampla, para reduzir o risco de irregularidade persistente. Para o gel aprovado no Brasil, vale a bula dele.
Checklist · Antes de tratar a malar
- Diagnóstico: subunidade com déficit identificada em repouso e no sorriso.
- Marcação: margem orbital, forame infraorbital e limite inferior da área tratada.
- Plano: profundo para estrutura; superficial só para acabamento.
- Lateral: corpo do zigoma, não o arco.
- Resgate: hialuronidase na sala antes da primeira punção.
O que um resultado bem feito entrega se mede em escala. No estudo de registro do VYC-20L, gel de ácido hialurônico a 20 mg/mL desenvolvido para volumização do terço médio, Jones e Murphy (2013, Dermatol Surg) randomizaram 235 pacientes para tratamento e 47 para controle: 85,6% do grupo tratado melhoraram ao menos um ponto na escala de déficit de volume do terço médio aos 6 meses, e quase metade manteve a correção por 24 meses.
O erro mais comum: volume no lugar errado
A malar é a região em que o excesso aparece primeiro. Volume repetido no compartimento superficial, injeção anterior que invade a zona inferior, gel lateral que migra para a têmpora — cada um desses desvios tem endereço anatômico, e todos somam para o rosto que se lê como “feito”. O mecanismo, com o papel do septo facial transverso, está em síndrome da face sobrepreenchida. A palidez ou o livedo durante a aplicação seguem o protocolo de oclusão vascular por ácido hialurônico.
Onde a anatomia vira mão
A malar é, para muitos médicos, a primeira região de volume — e é por isso que ela merece ser aprendida com o osso na ponta dos dedos, não só no atlas. Na formação do Dr. Thiago Perfeito, o terço médio está no Módulo B1, Toxina e Preenchimento Essencial: compartimentos de gordura, reabsorção óssea, reologia do ácido hialurônico e projeção malar chegam no pré-work gravado, e o sábado presencial traz hands-on em paciente modelo, em turma de até 8 médicos, com o bloco de segurança vascular no centro do dia.
Perguntas frequentes
Em que plano se injeta o preenchedor na região malar?
Para suporte e projeção, no plano profundo: sobre o periósteo do corpo do zigoma ou na gordura profunda, como a SOOF e a gordura profunda medial da bochecha. Em cadáver, volume nesses compartimentos não desceu (Cotofana et al., 2019), e no ultrassom eles quase não se movem no sorriso (Schelke et al., 2021). O plano superficial fica para acabamento, com gel macio e pouco volume.
Quais são os compartimentos de gordura da região malar?
Na camada superficial, a antiga “gordura malar” é formada por três compartimentos independentes — medial, médio e lateral temporal da bochecha (Rohrich e Pessa, 2007). Na camada profunda, abaixo do orbicular e do SMAS, ficam a SOOF medial e lateral, a gordura profunda medial e a profunda lateral da bochecha, além do espaço prezigomático sobre o zigoma.
Onde fica o forame infraorbital em relação à malar?
Em cadáver, Ercikti et al. (2017) o encontraram sobre a linha que liga a comissura palpebral lateral à asa do nariz em 75% dos casos, em média a 8,8 mm da margem infraorbital e a 30,3 mm da linha média. Marcá-lo antes de injetar protege o feixe infraorbital no tratamento da bochecha anteromedial.
Por que não injetar sobre o arco zigomático?
Por dois motivos. Hufschmidt et al. (2019), ao mapear os riscos da artéria infraorbital, desaconselham o depósito sobre o periósteo do arco, e Schelke et al. (2024), no ultrassom de 200 pacientes, encontraram preenchedor da bochecha lateral migrado para a parte baixa da têmpora. A projeção lateral se constrói sobre o corpo do zigoma.
Quanto ácido hialurônico se usa na região malar?
Quem define o teto é a bula do gel em uso. Como referência, a bula americana do Restylane Contour limita a 6 mL por sessão em bochechas e terço médio, e a do Voluma XC registra medianas de 2,0 mL na região zigomaticomalar, 2,0 mL na bochecha anteromedial e 2,1 mL na submalar no estudo de registro, distribuídas em alíquotas de 0,1 a 0,2 mL.
Por que o preenchimento malar às vezes deixa o rosto pesado?
Geralmente por volume no plano ou no ponto errado: gel repetido na gordura superficial, que se move no sorriso, ou injeção na bochecha anterior que atinge a zona de evento adverso inferior, à qual Surek et al. (2015) atribuem o “jowl” inadvertido. Repor primeiro a base profunda e respeitar o limite inferior da área tratada evita a maior parte desses casos.
Quanto tempo dura o preenchimento malar?
Depende do gel, do plano e do paciente. No estudo de registro de um ácido hialurônico de 20 mg/mL desenvolvido para o terço médio (Jones e Murphy, 2013), 85,6% dos tratados tinham melhora de ao menos um ponto aos 6 meses, e quase metade manteve a correção por 24 meses.
Referências
- Rohrich RJ, Pessa JE. The fat compartments of the face: anatomy and clinical implications for cosmetic surgery. Plast Reconstr Surg. 2007 — 30 hemifaces; gordura subcutânea em compartimentos independentes; a gordura malar é formada por três compartimentos (medial, médio e lateral temporal da bochecha). · PMID 17519724 · DOI 10.1097/01.prs.0000265403.66886.54
- Shaw RB Jr, Kahn DM. Aging of the midface bony elements: a three-dimensional computed tomographic study. Plast Reconstr Surg. 2007 — 60 adultos; ângulos maxilar e glabelar diminuem com a idade nos dois sexos; abertura piriforme aumenta do grupo jovem para o de meia-idade. · PMID 17230106 · DOI 10.1097/01.prs.0000246596.79795.a8
- Cotofana S, Gotkin RH, Frank K, et al. The Functional Anatomy of the Deep Facial Fat Compartments: A Detailed Imaging-Based Investigation. Plast Reconstr Surg. 2019 — 40 cabeças; aumentar o volume nos compartimentos profundos do terço médio não deslocou o material para baixo. · PMID 30589776 · DOI 10.1097/PRS.0000000000005080
- Schelke L, Velthuis PJ, Lowry N, et al. The mobility of the superficial and deep midfacial fat compartments: An ultrasound-based investigation. J Cosmet Dermatol. 2021 — 48 terços médios de 24 voluntários; no sorriso, compartimentos superficiais subiram 3,7 mm e profundos 0,1 mm. · PMID 34365716 · DOI 10.1111/jocd.14374
- Surek CC, Beut J, Stephens R, et al. Pertinent anatomy and analysis for midface volumizing procedures. Plast Reconstr Surg. 2015 — 12 hemifaces; linha a partir da base do sulco alar: 1,9 cm, 2,6 cm e 4,6 cm; três áreas-alvo e duas zonas de evento adverso (ramo palpebral da artéria infraorbital; jowl). · PMID 25919264 · DOI 10.1097/PRS.0000000000001226
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- Hufschmidt K, Bronsard N, Foissac R, et al. The infraorbital artery: Clinical relevance in esthetic medicine and identification of danger zones of the midface. J Plast Reconstr Aesthet Surg. 2019 — 18 cadáveres; anastomoses com supratroclear, dorsal do nariz e angular; perigo na injeção superficial do meio da bochecha e periosteal na olheira; desaconselha depósito sobre o periósteo do arco zigomático. · PMID 30327185 · DOI 10.1016/j.bjps.2018.09.010
- Schelke L, Lowrey N, Mojallal A, et al. Post-Treatment Displacement of Facial Soft Tissue Fillers — A Retrospective Ultrasound-based Investigation of 382 Zygomatic Regions. Dermatol Surg. 2024 — 200 pacientes; preenchedor do zigoma redistribuído para a têmpora em quatro padrões conforme a camada da injeção. · PMID 38833408 · DOI 10.1097/DSS.0000000000004257
- Jones D, Murphy DK. Volumizing hyaluronic acid filler for midface volume deficit: 2-year results from a pivotal single-blind randomized controlled study. Dermatol Surg. 2013 — 235 tratados e 47 controles; 85,6% com melhora ≥1 ponto aos 6 meses; quase metade manteve a correção por 24 meses. · PMID 24093664 · DOI 10.1111/dsu.12343
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- Molinari P, Urso SU, Faso C, et al. Mastering Midface Rejuvenation: A Proposal for a New Three-Layer, Ultrasound-Guided Technique. J Cosmet Dermatol. 2026 — técnica em três planos (profundo, superficial e dérmico) guiada por ultrassom; Figure 1 reproduzida sob licença CC BY. · PMID 41532951 · DOI 10.1111/jocd.70664
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