Anticoagulantes e injetáveis: suspender ou não
Em quem usa anticoagulante ou antiagregante por indicação clínica, o injetável estético pode ser feito com o remédio mantido: o que muda é o risco de equimose e de hematoma, que é maior e transitório, enquanto o risco de suspender é trombótico (infarto, AVC, embolia) e pode ser definitivo. A literatura de cirurgia de pele, que é mais invasiva que uma injeção, recomenda manter a medicação na maioria dos casos. Pausar um remédio prescrito é decisão de quem o prescreveu; o que o injetor ajusta é a técnica, a agenda e a conversa. Suplementos sem prescrição, como vitamina E e ginkgo, entram numa conversa à parte.
Dois riscos que não se comparam
A pergunta “suspendo o anticoagulante para fazer o preenchimento?” costuma ser feita como se os dois lados pesassem igual. Não pesam. A revisão de Trager e colaboradores (2025, J Am Acad Dermatol), feita para a cirurgia de pele, lista o que pode acontecer quando o antitrombótico é interrompido: acidente vascular cerebral, infarto do miocárdio, embolia pulmonar, trombose venosa profunda e oclusão de artéria da retina. Do outro lado está o sangramento do procedimento, que, numa injeção facial, quase sempre se resume a equimose, transitória.
A mesma revisão cobre a farmacologia de cada classe que o injetor vai encontrar na anamnese: varfarina; os anticoagulantes orais diretos (rivaroxabana, apixabana, edoxabana, dabigatrana); os antiagregantes (ácido acetilsalicílico, clopidogrel, prasugrel, ticagrelor, dipiridamol); heparina não fracionada, enoxaparina e dalteparina; fondaparinux; os inibidores de tirosina quinase de Bruton, como ibrutinibe e acalabrutinibe; e suplementos como alho, gengibre e ginkgo. Os autores registram que a conduta varia de cirurgião para cirurgião, e é exatamente por isso que vale olhar os números.
O que a cirurgia de pele já mediu
Os números maiores vêm da cirurgia de pele, que serve de teto: se a incisão com sutura tolera a medicação mantida, a punção de uma agulha fina não oferece argumento melhor para suspender.
- Bonadurer e colaboradores (2022, Arch Dermatol Res), metanálise: entre 9.214 pacientes em uso de antitrombótico, 323 (3,5%) tiveram complicação hemorrágica, contra 265 de 21.696 controles (1,2%), razão de chances de 2,63. Suspender ou manter não mudou a taxa de sangramento (razão de chances de 1,16, sem significância). Numa coorte de 59 pacientes que suspenderam a medicação, houve dois eventos tromboembólicos graves. A conclusão dos autores é que a prática aceita é manter.
- Scherer e colaboradores (2021, J Dtsch Dermatol Ges), revisão com dois ensaios randomizados e 19 coortes prospectivas: é incerto se manter o ácido acetilsalicílico aumenta o sangramento pós-operatório importante; manter a femprocumona (antagonista da vitamina K) pode aumentá-lo (diferença de risco de 0,02); e fazer ponte da femprocumona com heparina pode aumentá-lo em relação a simplesmente mantê-la (diferença de risco de 0,07). A qualidade da evidência foi julgada muito baixa, e a conclusão é que não se identificou risco maior de sangramento grave mantendo os antitrombóticos em cirurgia de pele menor.
- Ireland e colaboradores (2024, Int J Dermatol), revisão sistemática só com anticoagulantes orais diretos: a taxa média de complicação hemorrágica mantendo o remédio foi de 1,74%; a de evento tromboembólico entre quem suspendeu, de 0,15%; e suspender não reduziu o sangramento (P = 0,93). Para os autores, o anticoagulante oral direto pode, muitas vezes, ser mantido em procedimento menor.
- Fahmy e colaboradores (2024, Dermatol Surg), 2.181 cirurgias de Mohs em cinco anos: o anticoagulante oral direto sozinho não aumentou o sangramento pós-operatório em relação a quem não usava antitrombótico (razão de chances de 1,70, sem significância). A combinação com ácido acetilsalicílico, sim: razão de chances de 20,5, num grupo pequeno, de 15 casos. Nenhum desses sangramentos deixou sequela a longo prazo.
Duas lições saem daí para o consultório de injetáveis. A primeira é que o paciente em monoterapia é, na maior parte das vezes, um paciente comum com mais chance de roxo. A segunda é que a dupla terapia (anticoagulante com antiagregante, ou dois antiagregantes) muda de patamar, e é nela que a conversa prévia com o prescritor deixa de ser opcional.

Toxina botulínica em quem usa antitrombótico
O dado mais robusto sobre toxina em anticoagulado vem da espasticidade, com injeção intramuscular nos músculos dos membros. Dimitrova e colaboradores (2020, CNS Drugs) reuniram 16 ensaios randomizados duplos-cegos de onabotulinumtoxinA em espasticidade pós-AVC: 1.182 dos 1.877 pacientes usavam antitrombótico. A incidência geral de sangramento ficou abaixo de 2%; com toxina, foi de 0,9% em quem usava antitrombótico e de 1,4% em quem não usava. Os estudos foram patrocinados pela Allergan, fabricante do Botox, e todos os autores eram funcionários da empresa, quatro deles com ações.
A revisão sistemática de Tan e Wee (2021, PM R), com 18 estudos de toxina e de eletromiografia em anticoagulados, encontrou prática muito variada e incidência baixa de sangramento e de síndrome compartimental, e concluiu que a medicação pode ser mantida, com alvo de INR entre 2 e 3 na varfarina e a menor agulha possível (calibre 25G ou mais fina) no comprimento adequado. Na toxina estética, a agulha costuma ser de 30 a 32G, bem mais fina do que esse limite. Por que o anticoagulante não é interação farmacológica da toxina, e o que mais entra nessa lista, está em interações medicamentosas da toxina botulínica.

O que as bulas dos injetáveis dizem
As bulas separam duas situações que a anamnese também precisa separar:
- Distúrbio de coagulação (a doença) é contraindicação nas bulas americanas do Radiesse e do Radiesse (+).
- Medicamento que prolonga o sangramento é, nas mesmas bulas do Radiesse, precaução: quem usa ácido acetilsalicílico ou varfarina pode ter, como em qualquer injeção, mais equimose ou sangramento no local. A bula internacional do Sculptra usa a mesma lógica para antiagregantes, trombolíticos e anticoagulantes. A australiana do HArmonyCa é mais restritiva e diz que o produto não deve ser usado em quem trata com substâncias que prolongam o sangramento, citando ácido acetilsalicílico, anticoagulantes, trombolíticos, anti-inflamatórios e inibidores da enzima conversora de angiotensina.
- Toxina: o guia ao paciente da bula americana do Botox Cosmetic pede que ele informe o uso de antiagregante ou anticoagulante. A instrução de suspender antiagregante pelo menos 3 dias antes aparece na bula do Botox terapêutico, e só para a injeção na bexiga por cistoscopia, um procedimento de outra natureza; ela não se transpõe para a toxina estética.
Para ter ideia do ponto de partida: na bula americana do Xeomin, nos dois ensaios de linhas faciais superiores (glabela, testa e pés de galinha) com até três aplicações repetidas, em 720 participantes, o hematoma no local foi a reação adversa mais comum, em 8%, e a frequência tendeu a cair nas aplicações seguintes. O roxo faz parte do procedimento; o antitrombótico aumenta a chance, não cria um problema novo. A comparação completa das bulas de bioestimulador está em contraindicações dos bioestimuladores de colágeno.
Suplementos, anti-inflamatórios e arnica
Aqui a lógica se inverte, porque não há prescritor protegendo uma indicação. O suplemento que a paciente toma por conta própria pode ser pausado numa conversa direta com ela.
- Vitamina E. A revisão narrativa de Puizina e colaboradores (2026, Nutrients) registra que a vitamina E aumenta o risco de equimose sem mudar a eficácia da toxina, e recomenda evitar dose alta no período do procedimento.
- Alho, gengibre e ginkgo estão entre os suplementos que Trager e colaboradores incluem na avaliação de sangramento.
- Quanto tempo antes. No artigo de Fagien e colaboradores (2016, Dermatol Surg) sobre o ácido deoxicólico injetável, a sugestão é suspender, quando possível, medicamentos e suplementos que aumentam a atividade anticoagulante ou antiagregante 7 a 10 dias antes, para reduzir a equimose. O artigo trata de um produto da Kythera, empresa do grupo Allergan, e se apoia num estudo de fase 3b desse produto. Lido junto com a literatura de cirurgia de pele acima, o “quando possível” cabe ao suplemento e ao anti-inflamatório de uso eventual; o anticoagulante de quem tem fibrilação atrial só para por decisão de quem o prescreveu.
- Arnica. Ryzhaya e Rivers (2025, Dermatol Surg) compararam o que se diz nas redes com o que se publicou: 91,7% dos 48 vídeos do TikTok e 58% das 305 postagens do Reddit recomendavam arnica, e a literatura trazia um único estudo em procedimento injetável de pele. A conclusão é que a eficácia para reduzir roxo e inchaço depois de injetáveis é inconclusiva. Se a paciente quiser usar, não substitui técnica de poucas punções e compressão.
Quando ligar para o prescritor antes
- Dupla terapia, como anticoagulante com ácido acetilsalicílico, que no estudo de Fahmy multiplicou o risco de sangramento.
- Varfarina sem controle recente ou com INR fora da faixa que o prescritor estabeleceu.
- Proposta de ponte com heparina feita por alguém para viabilizar o procedimento estético: na revisão de Scherer, a ponte com heparina pode aumentar o sangramento em relação a manter o anticoagulante oral.
- Procedimento de muitas punções ou de volume grande, em que um hematoma extenso teria consequência estética ou clínica maior.
- Paciente que já decidiu suspender sozinha “para não ficar roxa”: a orientação é manter e conversar com quem prescreveu.

A técnica no paciente anticoagulado
Com a medicação mantida, o injetor trabalha nas variáveis que controla:
- Menos pontos de entrada. Na toxina, distribuir a dose no menor número de punções que o mapa de pontos permite; no preenchedor e no bioestimulador, preferir a cânula onde a técnica da região a admite, com poucos portais. A discussão de quando usar cada instrumento está em cânula ou agulha no preenchimento.
- Ver as veias antes de furar. Boa luz, pele esticada e o trajeto venoso marcado quando visível.
- Compressão no ponto logo depois de cada punção que sangrar, antes de seguir para o próximo.
- Agenda. Marcar longe de casamento, viagem ou foto importante, e avisar por escrito que o roxo pode ser maior e durar mais.
- Distinguir roxo de alarme. Equimose é a mancha arroxeada no ponto da punção; dor desproporcional, palidez ou rede violácea após preenchedor pedem o raciocínio de sinal de alerta de oclusão, com ou sem anticoagulante.
Modelo · Antitrombótico e suplemento na anamnese de injetável
- Qual remédio, qual dose, para quê e quem prescreveu? Fibrilação atrial, stent, trombose prévia e prótese valvar mudam o peso da conversa.
- Usa mais de um? Anticoagulante com antiagregante, ou dois antiagregantes: falar com o prescritor antes de marcar.
- Varfarina? Data e valor do último INR.
- Suplementos e anti-inflamatórios sem prescrição? Vitamina E, ginkgo, alho, gengibre, anti-inflamatório de uso eventual: conversar sobre pausa.
- Já teve roxo grande em procedimento anterior? Registrar a região e o instrumento usado.
- Consentimento. Registrar que a medicação foi mantida e que o risco maior de equimose foi explicado.
As situações em que o melhor é não aplicar naquele dia, com ou sem anticoagulante, estão em quando não aplicar injetável.
Transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante; as marcas aparecem aqui como referência de bula e de estudo.
Do remédio na receita à mão na seringa
Ler a lista de medicamentos e decidir o que fazer com ela é uma das partes da consulta em que o médico que começa mais hesita, e a resposta raramente é suspender. Na Pós Prática, formação do Dr. Thiago Perfeito (CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa) para médicos, a seleção de candidato e a teoria de complicações ficam no pré-work gravado de cada módulo, e a técnica de injeção se treina no sábado presencial. Toxina, preenchimento e o bloco de segurança vascular estão no Módulo B1; zonas de risco máximo, lábio e rinomodelação, no Módulo A1. Na INTI, no Lago Sul, a turma é de até oito médicos: a parte teórica do dia é a demonstração comentada, e a prática é o aluno aplicando em paciente modelo sob supervisão. Todos os módulos estão em Cursos.
Perguntas frequentes
Precisa suspender anticoagulante para aplicar botox ou preenchimento?
Em regra, não. A literatura de cirurgia de pele, mais invasiva que uma injeção, mostra mais sangramento em quem usa antitrombótico, mas não mostra redução do sangramento quando o remédio é suspenso, e registra eventos tromboembólicos graves em quem suspendeu. Qualquer pausa de remédio prescrito é decisão do médico que o prescreveu.
Anticoagulante aumenta o risco de roxo depois do preenchimento?
Aumenta a chance de equimose e de hematoma no local. As bulas americanas do Radiesse registram que quem usa ácido acetilsalicílico ou varfarina pode ter mais equimose e sangramento, como em qualquer injeção. A bula australiana do HArmonyCa vai além e diz que o produto não deve ser usado em quem trata com substâncias que prolongam o sangramento.
Ácido acetilsalicílico em dose baixa precisa ser suspenso?
Quando é prescrito para prevenir evento cardiovascular, não se suspende por conta própria. Na revisão de Scherer e colaboradores (2021), é incerto se manter o ácido acetilsalicílico aumenta o sangramento importante em cirurgia de pele menor. O que pede conversa com o prescritor é a combinação com anticoagulante, que no estudo de Fahmy e colaboradores (2024) multiplicou o risco de sangramento.
E os anticoagulantes orais diretos, como rivaroxabana e apixabana?
Também costumam ser mantidos em procedimento menor. Na revisão de Ireland e colaboradores (2024), a complicação hemorrágica mantendo o remédio foi de 1,74% em média, e suspender não reduziu o sangramento. Em 2.181 cirurgias de Mohs, o anticoagulante oral direto sozinho não aumentou o sangramento de forma significativa.
Quais suplementos aumentam o roxo?
Vitamina E, alho, gengibre e ginkgo estão entre os citados. A revisão de Puizina e colaboradores (2026) recomenda evitar vitamina E em dose alta perto do procedimento. Suplemento sem prescrição pode ser pausado numa conversa direta com a paciente; Fagien e colaboradores (2016), escrevendo sobre o ácido deoxicólico, sugerem 7 a 10 dias quando possível.
Arnica ajuda a evitar roxo depois de injetável?
A eficácia não está estabelecida. Ryzhaya e Rivers (2025) acharam a arnica amplamente recomendada nas redes sociais e um único estudo em procedimento injetável de pele, e concluíram que o efeito sobre roxo e inchaço é inconclusivo. Não substitui técnica de poucas punções e compressão.
Toxina botulínica pode ser aplicada em quem usa varfarina?
Em regra, sim, sem mexer no remédio (decisão de quem o prescreveu) e com a técnica ajustada. Em ensaios de espasticidade patrocinados pela Allergan, o sangramento após onabotulinumtoxinA foi de 0,9% em quem usava antitrombótico e de 1,4% em quem não usava. A revisão de Tan e Wee (2021) sugere manter a varfarina com INR entre 2 e 3 e usar a agulha mais fina possível.
Referências
- Trager MH, Gordon ER, Humphreys TR, Samie FH. Part 1: Management of antithrombotic medications in dermatologic surgery. J Am Acad Dermatol. 2025;92(3):389-404. · PMID 38735483 · DOI 10.1016/j.jaad.2024.01.096
- Bonadurer GF 3rd, Langeveld AP, Lalla SC, et al. Hemorrhagic complications of cutaneous surgery for patients taking antithrombotic therapy: a systematic review and meta-analysis. Arch Dermatol Res. 2022;314(6):533-540. · PMID 34132885 · DOI 10.1007/s00403-021-02250-x
- Scherer FD, Dressler C, Valles GA, Nast A. Risk of complications due to antithrombotic agents in cutaneous surgery: a systematic review and meta-analysis. J Dtsch Dermatol Ges. 2021;19(10):1421-1432. · PMID 34596345 · DOI 10.1111/ddg.14579
- Ireland PA, Borruso L, Spencer SKR, Rosen R, Rosen R. Direct oral anticoagulants in skin surgery: a systematic review of their complications and recommendations for perioperative management. Int J Dermatol. 2024;63(4):413-421. · PMID 38009338 · DOI 10.1111/ijd.16916
- Fahmy LM, Dowd ML, Loesch E, et al. Postoperative Bleeding Complications Associated With Novel Oral Anticoagulants in Mohs Micrographic Surgery. Dermatol Surg. 2024;50(1):1-4. · PMID 37792670 · DOI 10.1097/DSS.0000000000003967
- Dimitrova R, James L, Liu C, et al. Safety of OnabotulinumtoxinA with Concomitant Antithrombotic Therapy in Patients with Muscle Spasticity: A Retrospective Pooled Analysis of Randomized Double-Blind Studies. CNS Drugs. 2020;34(4):433-445. · PMID 32170665 · DOI 10.1007/s40263-020-00709-5
- Tan YL, Wee TC. Botulinum Toxin Injection and Electromyography in Patients Receiving Anticoagulants: A Systematic Review. PM R. 2021;13(8):880-889. · PMID 32896110 · DOI 10.1002/pmrj.12486
- Fagien S, McChesney P, Subramanian M, Jones DH. Prevention and Management of Injection-Related Adverse Effects in Facial Aesthetics: Considerations for ATX-101 (Deoxycholic Acid Injection) Treatment. Dermatol Surg. 2016;42 Suppl 1:S300-S304. · PMID 27787270 · DOI 10.1097/DSS.0000000000000898
- Puizina E, Martinovic D, Lasic S, et al. Botulinum Toxin Effects and Its Association with Vitamin and Mineral Supplementation: A Narrative Review. Nutrients. 2026;18(3):491. · PMID 41683312 · DOI 10.3390/nu18030491
- Ryzhaya N, Rivers JK. Myth Versus Reality: A Review of Social Media Claims and Scientific Evidence for Arnica montana in Postinjectable Procedures. Dermatol Surg. 2025;51(7):668-672. · PMID 40014034 · DOI 10.1097/DSS.0000000000004599
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