Anticoagulantes e injetáveis: suspender ou não
Complicações e segurança

Anticoagulantes e injetáveis: suspender ou não

O paciente toma apixabana desde a fibrilação atrial e quer tratar a glabela e o sulco antes do casamento da filha. A tentação é pedir que ele pare o remédio “só uns dias”. É a pior troca possível: um roxo a menos contra um risco de AVC que ninguém no consultório estético tem como medir nem tratar.

Em quem usa anticoagulante ou antiagregante por indicação clínica, o injetável estético pode ser feito com o remédio mantido: o que muda é o risco de equimose e de hematoma, que é maior e transitório, enquanto o risco de suspender é trombótico (infarto, AVC, embolia) e pode ser definitivo. A literatura de cirurgia de pele, que é mais invasiva que uma injeção, recomenda manter a medicação na maioria dos casos. Pausar um remédio prescrito é decisão de quem o prescreveu; o que o injetor ajusta é a técnica, a agenda e a conversa. Suplementos sem prescrição, como vitamina E e ginkgo, entram numa conversa à parte.

Dois riscos que não se comparam

A pergunta “suspendo o anticoagulante para fazer o preenchimento?” costuma ser feita como se os dois lados pesassem igual. Não pesam. A revisão de Trager e colaboradores (2025, J Am Acad Dermatol), feita para a cirurgia de pele, lista o que pode acontecer quando o antitrombótico é interrompido: acidente vascular cerebral, infarto do miocárdio, embolia pulmonar, trombose venosa profunda e oclusão de artéria da retina. Do outro lado está o sangramento do procedimento, que, numa injeção facial, quase sempre se resume a equimose, transitória.

A mesma revisão cobre a farmacologia de cada classe que o injetor vai encontrar na anamnese: varfarina; os anticoagulantes orais diretos (rivaroxabana, apixabana, edoxabana, dabigatrana); os antiagregantes (ácido acetilsalicílico, clopidogrel, prasugrel, ticagrelor, dipiridamol); heparina não fracionada, enoxaparina e dalteparina; fondaparinux; os inibidores de tirosina quinase de Bruton, como ibrutinibe e acalabrutinibe; e suplementos como alho, gengibre e ginkgo. Os autores registram que a conduta varia de cirurgião para cirurgião, e é exatamente por isso que vale olhar os números.

O que a cirurgia de pele já mediu

Os números maiores vêm da cirurgia de pele, que serve de teto: se a incisão com sutura tolera a medicação mantida, a punção de uma agulha fina não oferece argumento melhor para suspender.

Duas lições saem daí para o consultório de injetáveis. A primeira é que o paciente em monoterapia é, na maior parte das vezes, um paciente comum com mais chance de roxo. A segunda é que a dupla terapia (anticoagulante com antiagregante, ou dois antiagregantes) muda de patamar, e é nela que a conversa prévia com o prescritor deixa de ser opcional.

Ponta romba de cânula afastando um vaso comparada ao bisel de agulha — Dr. Thiago Perfeito
À esquerda, o bisel da agulha corta o tecido e pode atravessar o vaso no caminho; à direita, a ponta romba da cânula empurra o vaso para o lado. Em quem sangra mais, menos pontos de entrada e um instrumento que desvia do vaso são as variáveis que o injetor controla sem mexer na receita.

Toxina botulínica em quem usa antitrombótico

O dado mais robusto sobre toxina em anticoagulado vem da espasticidade, com injeção intramuscular nos músculos dos membros. Dimitrova e colaboradores (2020, CNS Drugs) reuniram 16 ensaios randomizados duplos-cegos de onabotulinumtoxinA em espasticidade pós-AVC: 1.182 dos 1.877 pacientes usavam antitrombótico. A incidência geral de sangramento ficou abaixo de 2%; com toxina, foi de 0,9% em quem usava antitrombótico e de 1,4% em quem não usava. Os estudos foram patrocinados pela Allergan, fabricante do Botox, e todos os autores eram funcionários da empresa, quatro deles com ações.

A revisão sistemática de Tan e Wee (2021, PM R), com 18 estudos de toxina e de eletromiografia em anticoagulados, encontrou prática muito variada e incidência baixa de sangramento e de síndrome compartimental, e concluiu que a medicação pode ser mantida, com alvo de INR entre 2 e 3 na varfarina e a menor agulha possível (calibre 25G ou mais fina) no comprimento adequado. Na toxina estética, a agulha costuma ser de 30 a 32G, bem mais fina do que esse limite. Por que o anticoagulante não é interação farmacológica da toxina, e o que mais entra nessa lista, está em interações medicamentosas da toxina botulínica.

Junção neuromuscular em corte com vesículas e o bloqueio do sinal destacado — Dr. Thiago Perfeito
Corte da junção neuromuscular, com as vesículas de acetilcolina e o ponto de bloqueio em destaque. É ali que a toxina age, e o anticoagulante não interfere nesse mecanismo: o que ele altera é o sangramento no trajeto da agulha até o músculo.

O que as bulas dos injetáveis dizem

As bulas separam duas situações que a anamnese também precisa separar:

Para ter ideia do ponto de partida: na bula americana do Xeomin, nos dois ensaios de linhas faciais superiores (glabela, testa e pés de galinha) com até três aplicações repetidas, em 720 participantes, o hematoma no local foi a reação adversa mais comum, em 8%, e a frequência tendeu a cair nas aplicações seguintes. O roxo faz parte do procedimento; o antitrombótico aumenta a chance, não cria um problema novo. A comparação completa das bulas de bioestimulador está em contraindicações dos bioestimuladores de colágeno.

Suplementos, anti-inflamatórios e arnica

Aqui a lógica se inverte, porque não há prescritor protegendo uma indicação. O suplemento que a paciente toma por conta própria pode ser pausado numa conversa direta com ela.

Quando ligar para o prescritor antes

  1. Dupla terapia, como anticoagulante com ácido acetilsalicílico, que no estudo de Fahmy multiplicou o risco de sangramento.
  2. Varfarina sem controle recente ou com INR fora da faixa que o prescritor estabeleceu.
  3. Proposta de ponte com heparina feita por alguém para viabilizar o procedimento estético: na revisão de Scherer, a ponte com heparina pode aumentar o sangramento em relação a manter o anticoagulante oral.
  4. Procedimento de muitas punções ou de volume grande, em que um hematoma extenso teria consequência estética ou clínica maior.
  5. Paciente que já decidiu suspender sozinha “para não ficar roxa”: a orientação é manter e conversar com quem prescreveu.
Corte sagital do lábio com as artérias labiais entre o músculo orbicular e a mucosa — Dr. Thiago Perfeito
Perfil com o lábio em corte: as artérias labiais superior e inferior, em destaque, correm entre o músculo orbicular da boca e a mucosa. O lábio recebe muitas punções pequenas sobre vasos de bom calibre; no paciente anticoagulado, é uma das regiões em que vale planejar menos entradas.

A técnica no paciente anticoagulado

Com a medicação mantida, o injetor trabalha nas variáveis que controla:

Modelo · Antitrombótico e suplemento na anamnese de injetável

  1. Qual remédio, qual dose, para quê e quem prescreveu? Fibrilação atrial, stent, trombose prévia e prótese valvar mudam o peso da conversa.
  2. Usa mais de um? Anticoagulante com antiagregante, ou dois antiagregantes: falar com o prescritor antes de marcar.
  3. Varfarina? Data e valor do último INR.
  4. Suplementos e anti-inflamatórios sem prescrição? Vitamina E, ginkgo, alho, gengibre, anti-inflamatório de uso eventual: conversar sobre pausa.
  5. Já teve roxo grande em procedimento anterior? Registrar a região e o instrumento usado.
  6. Consentimento. Registrar que a medicação foi mantida e que o risco maior de equimose foi explicado.

As situações em que o melhor é não aplicar naquele dia, com ou sem anticoagulante, estão em quando não aplicar injetável.

Transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante; as marcas aparecem aqui como referência de bula e de estudo.

Do remédio na receita à mão na seringa

Ler a lista de medicamentos e decidir o que fazer com ela é uma das partes da consulta em que o médico que começa mais hesita, e a resposta raramente é suspender. Na Pós Prática, formação do Dr. Thiago Perfeito (CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa) para médicos, a seleção de candidato e a teoria de complicações ficam no pré-work gravado de cada módulo, e a técnica de injeção se treina no sábado presencial. Toxina, preenchimento e o bloco de segurança vascular estão no Módulo B1; zonas de risco máximo, lábio e rinomodelação, no Módulo A1. Na INTI, no Lago Sul, a turma é de até oito médicos: a parte teórica do dia é a demonstração comentada, e a prática é o aluno aplicando em paciente modelo sob supervisão. Todos os módulos estão em Cursos.

Perguntas frequentes

Precisa suspender anticoagulante para aplicar botox ou preenchimento?

Em regra, não. A literatura de cirurgia de pele, mais invasiva que uma injeção, mostra mais sangramento em quem usa antitrombótico, mas não mostra redução do sangramento quando o remédio é suspenso, e registra eventos tromboembólicos graves em quem suspendeu. Qualquer pausa de remédio prescrito é decisão do médico que o prescreveu.

Anticoagulante aumenta o risco de roxo depois do preenchimento?

Aumenta a chance de equimose e de hematoma no local. As bulas americanas do Radiesse registram que quem usa ácido acetilsalicílico ou varfarina pode ter mais equimose e sangramento, como em qualquer injeção. A bula australiana do HArmonyCa vai além e diz que o produto não deve ser usado em quem trata com substâncias que prolongam o sangramento.

Ácido acetilsalicílico em dose baixa precisa ser suspenso?

Quando é prescrito para prevenir evento cardiovascular, não se suspende por conta própria. Na revisão de Scherer e colaboradores (2021), é incerto se manter o ácido acetilsalicílico aumenta o sangramento importante em cirurgia de pele menor. O que pede conversa com o prescritor é a combinação com anticoagulante, que no estudo de Fahmy e colaboradores (2024) multiplicou o risco de sangramento.

E os anticoagulantes orais diretos, como rivaroxabana e apixabana?

Também costumam ser mantidos em procedimento menor. Na revisão de Ireland e colaboradores (2024), a complicação hemorrágica mantendo o remédio foi de 1,74% em média, e suspender não reduziu o sangramento. Em 2.181 cirurgias de Mohs, o anticoagulante oral direto sozinho não aumentou o sangramento de forma significativa.

Quais suplementos aumentam o roxo?

Vitamina E, alho, gengibre e ginkgo estão entre os citados. A revisão de Puizina e colaboradores (2026) recomenda evitar vitamina E em dose alta perto do procedimento. Suplemento sem prescrição pode ser pausado numa conversa direta com a paciente; Fagien e colaboradores (2016), escrevendo sobre o ácido deoxicólico, sugerem 7 a 10 dias quando possível.

Arnica ajuda a evitar roxo depois de injetável?

A eficácia não está estabelecida. Ryzhaya e Rivers (2025) acharam a arnica amplamente recomendada nas redes sociais e um único estudo em procedimento injetável de pele, e concluíram que o efeito sobre roxo e inchaço é inconclusivo. Não substitui técnica de poucas punções e compressão.

Toxina botulínica pode ser aplicada em quem usa varfarina?

Em regra, sim, sem mexer no remédio (decisão de quem o prescreveu) e com a técnica ajustada. Em ensaios de espasticidade patrocinados pela Allergan, o sangramento após onabotulinumtoxinA foi de 0,9% em quem usava antitrombótico e de 1,4% em quem não usava. A revisão de Tan e Wee (2021) sugere manter a varfarina com INR entre 2 e 3 e usar a agulha mais fina possível.

Referências

  1. Trager MH, Gordon ER, Humphreys TR, Samie FH. Part 1: Management of antithrombotic medications in dermatologic surgery. J Am Acad Dermatol. 2025;92(3):389-404. · PMID 38735483 · DOI 10.1016/j.jaad.2024.01.096
  2. Bonadurer GF 3rd, Langeveld AP, Lalla SC, et al. Hemorrhagic complications of cutaneous surgery for patients taking antithrombotic therapy: a systematic review and meta-analysis. Arch Dermatol Res. 2022;314(6):533-540. · PMID 34132885 · DOI 10.1007/s00403-021-02250-x
  3. Scherer FD, Dressler C, Valles GA, Nast A. Risk of complications due to antithrombotic agents in cutaneous surgery: a systematic review and meta-analysis. J Dtsch Dermatol Ges. 2021;19(10):1421-1432. · PMID 34596345 · DOI 10.1111/ddg.14579
  4. Ireland PA, Borruso L, Spencer SKR, Rosen R, Rosen R. Direct oral anticoagulants in skin surgery: a systematic review of their complications and recommendations for perioperative management. Int J Dermatol. 2024;63(4):413-421. · PMID 38009338 · DOI 10.1111/ijd.16916
  5. Fahmy LM, Dowd ML, Loesch E, et al. Postoperative Bleeding Complications Associated With Novel Oral Anticoagulants in Mohs Micrographic Surgery. Dermatol Surg. 2024;50(1):1-4. · PMID 37792670 · DOI 10.1097/DSS.0000000000003967
  6. Dimitrova R, James L, Liu C, et al. Safety of OnabotulinumtoxinA with Concomitant Antithrombotic Therapy in Patients with Muscle Spasticity: A Retrospective Pooled Analysis of Randomized Double-Blind Studies. CNS Drugs. 2020;34(4):433-445. · PMID 32170665 · DOI 10.1007/s40263-020-00709-5
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  8. Fagien S, McChesney P, Subramanian M, Jones DH. Prevention and Management of Injection-Related Adverse Effects in Facial Aesthetics: Considerations for ATX-101 (Deoxycholic Acid Injection) Treatment. Dermatol Surg. 2016;42 Suppl 1:S300-S304. · PMID 27787270 · DOI 10.1097/DSS.0000000000000898
  9. Puizina E, Martinovic D, Lasic S, et al. Botulinum Toxin Effects and Its Association with Vitamin and Mineral Supplementation: A Narrative Review. Nutrients. 2026;18(3):491. · PMID 41683312 · DOI 10.3390/nu18030491
  10. Ryzhaya N, Rivers JK. Myth Versus Reality: A Review of Social Media Claims and Scientific Evidence for Arnica montana in Postinjectable Procedures. Dermatol Surg. 2025;51(7):668-672. · PMID 40014034 · DOI 10.1097/DSS.0000000000004599
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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