Artéria facial e artéria angular: trajeto e risco
A artéria facial não é uma linha fixa no rosto: ela muda de ramo final, de lado em relação ao sulco nasogeniano, de profundidade e, em boa parte das pessoas, manda um tronco que atravessa a bochecha em vez de subir pela prega. A artéria angular, que deveria ser a continuação dela até o canto do olho, pode vir da oftálmica ou simplesmente não existir. Para quem injeta sulco, olheira, asa nasal ou malar medial, a pergunta não é “onde passa a facial?”, e sim “qual das variantes este paciente tem?”.
O trajeto em três trechos
Ramo da carótida externa, a facial cruza a borda inferior da mandíbula à frente do masseter, sobe em direção à comissura labial — onde emite as labiais — e segue ao lado do nariz em direção ao canto medial do olho. É esse percurso clássico, em linhas gerais, que o desenho abaixo mostra. Na prática, dá para dividi-lo em três trechos com comportamento diferente:
- Mandíbula até a comissura: vaso calibroso, tortuoso, em plano profundo.
- Comissura até a asa nasal: o trecho do sulco nasogeniano, onde a relação com a prega e a profundidade mais variam.
- Asa nasal até o canto do olho: o trecho que se torna superficial e que, como angular, se liga à circulação da órbita.

Onde a artéria termina: os tipos
Classificar a facial pelo ramo final é a forma mais usada de descrever a variação, e cada grupo de pesquisa chegou a uma distribuição própria:
- Lee e colaboradores (2015, Plast Reconstr Surg), em 54 faces de cadáver, dividiram o padrão final em três tipos: nasolabial (51,8%), nasolabial com tronco infraorbital (29,6%) e frontal, com ramo que sobe até a fronte (18,6%). Cada tipo foi subdividido ainda pela profundidade e pela relação da artéria com a camada muscular da face.
- Koziej e colaboradores (2022, Clin Anat) reuniram 24 estudos e 2.119 artérias faciais numa meta-análise: o desfecho mais frequente foi terminar como artéria nasal lateral ou angular, em 69,81% (IC 95% de 59,83% a 78,94%).
- No Doppler de Shen e colaboradores (2023, J Plast Reconstr Aesthet Surg), que acompanhou o vaso da mandíbula até o último ramo em 33 pacientes, a terminação angular foi a mais comum (59,1%).
- Somando estudos com Doppler, Pourani e colaboradores (2025, J Cosmet Dermatol) chegaram a 71,8% de terminação angular, contra 27,9% de nasal lateral e 5,7% de labial superior.
O estudo de Nguyen e colaboradores (2024, Arch Craniofac Surg), com 102 artérias faciais dissecadas, mostra por que as classificações não coincidem: foram oito pontos de terminação diferentes e 35 combinações de padrão de ramificação, com assimetria marcada entre o lado direito e o esquerdo do mesmo cadáver. O desenho de um lado do rosto não prevê o do outro.
A relação com o sulco nasogeniano
Yang e colaboradores (2014, Plast Reconstr Surg) dissecaram 60 hemifaces e encontraram ramos da facial nas vizinhanças do sulco nasogeniano em 93,3% dos casos. A artéria passou, em média, 3,2 mm lateral à asa do nariz e 13,5 mm lateral à comissura. Ela cruzou o sulco em 33,9% dos casos e subiu a menos de 5 mm dele em 42,9%.
Pelo Doppler de Shen (2023), a artéria ficou com mais frequência do lado medial da prega — que os autores chamam de inferior — (50,0%), em trajeto pela derme e pelo subcutâneo. Daí a sugestão dos autores: em volta do sulco, depositar no plano profundo, sobre o periósteo, tende a ser mais seguro que trabalhar na altura do SMAS. Na meta-análise de Pourani, o trajeto medial à prega também foi o mais frequente (46,2%), seguido do que cruza a prega de medial para lateral (22,5%); correr inteira do lado lateral foi o mais raro (12,0%).

A tomografia com contraste de 52 cadáveres feita por Peng e colaboradores (2024, Aesthetic Plast Surg) descreveu três tipos de relação com a prega; no mais comum, presente em 83,7% dos espécimes, a facial continuava como angular. A recomendação dos autores divide o sulco em dois: no terço superior, plano supraperiosteal; nos dois terços inferiores, plano dérmico ao longo da prega.
Profundidade: funda embaixo, rasa em cima
A meta-análise de Trzeciak e colaboradores (2025, Aesthetic Plast Surg) é a que melhor mostra a curva da profundidade ao longo do trajeto, com mais de 400 artérias medidas em cada um de cinco níveis:
| Nível | Profundidade média | IC 95% |
|---|---|---|
| Comissura labial | 9,72 mm | 6,50 a 12,94 mm |
| Entre a comissura e a asa nasal | 10,34 mm | 5,24 a 15,44 mm |
| Asa nasal | 9,21 mm | 7,05 a 11,38 mm |
| Entre a asa nasal e o canto medial | 4,68 mm | 4,04 a 5,31 mm |
| Canto medial do olho | 2,38 mm | 1,38 a 3,38 mm |
Dois recados saem da tabela. Até a asa nasal, a artéria corre em média perto de um centímetro abaixo da pele, mas o intervalo do trecho intermediário é tão largo que a média quase não serve ao caso individual — por isso os autores sugerem ultrassom na consulta antes de tratar a porção superior do sulco. E acima da asa a profundidade cai à metade e depois a um quarto: perto do canto do olho, a artéria está a pouco mais de 2 mm da superfície. Para a comissura, os autores consideram seguro injetar até 4,5 mm, superficialmente à artéria.
O calibre acompanha o trajeto ao contrário. No Doppler de Shen (2023), o diâmetro médio foi de 1,56 mm na origem mandibular, 1,40 mm na comissura e 1,32 mm junto à asa do nariz; o lado direito foi, em média, mais calibroso que o esquerdo.
O ramo que desvia pela bochecha
Em parte dos pacientes, a facial não sobe só pela prega: um tronco faz uma curva pela bochecha e passa pela região infraorbital. Yang (2014) encontrou a facial com ramos desviados em 30,0% dos casos. Nesses, a artéria se voltava medialmente sobre a área infraorbital a 39,2 mm da linha média e 35,2 mm abaixo da linha que une os cantos mediais; a porção nasojugal acompanhava a borda inferior do orbicular do olho e depois subia em direção à fronte, formando a angular.
Cong e colaboradores (2021, Dermatol Surg) mapearam esse ramo em tomografia tridimensional de 118 hemifaces e o encontraram em 39,8%. Em 29 desses 47 casos, coexistiam o tronco desviado e o tronco nasolabial; nos outros 18, só havia o tronco desviado — não havia artéria acompanhando a prega. A profundidade é o dado que pesa para o injetor: o tronco nasceu a 5,9 mm da pele, fez a curva a 5,7 mm e, ao chegar ao plano do rebordo orbitário inferior, estava a 2,8 mm de profundidade, 17,1 mm lateral à linha média. É exatamente a região da goteira nasojugal.
Artéria angular: a ponte para a oftálmica
Kim e colaboradores (2014, Dermatol Surg) dissecaram 57 hemifaces de cadáveres coreanos e tailandeses e classificaram a angular em quatro tipos:
- Tipo I, persistente (11%): percorre a face lateral do nariz.
- Tipo II, de desvio (18%): atravessa a bochecha e a goteira lacrimal.
- Tipo III, alternativo (22,8%): chega ao canto medial por um ramo da artéria oftálmica.
- Tipo IV, latente (26,3%): a angular está ausente.
A tomografia de Zhu e colaboradores (2018, Plast Reconstr Surg) dá a dimensão da ligação com a órbita: metade das angulares (50%) eram canais anastomóticos diretos entre os territórios da facial e da oftálmica, e 29,2% pertenciam ao território da oftálmica. Na dissecção da goteira lacrimal de Jitaree e colaboradores (2018, Plast Reconstr Surg), a angular encontrada junto ao canto medial também era ramo da oftálmica.
É essa ligação que transforma o canto medial em zona de risco visual: produto que entra na angular pode seguir, por fluxo retrógrado, até a oftálmica. O mecanismo está descrito em glabela e risco de cegueira no preenchimento. No Doppler de 74 hemifaces de Shen e colaboradores (2023, Aesthetic Plast Surg), o curso da angular apresentou alta variabilidade.

O que a variação muda na técnica
Modelo · Cinco consequências práticas da variação
- Cada lado é um paciente. Com assimetria marcada entre os lados e calibre diferente à direita, a marcação de uma hemiface não se espelha na outra.
- Ausência na prega não é ausência na região. Quando só existe o tronco desviado, a artéria está na bochecha e na goteira nasojugal, a menos de 3 mm da pele no rebordo.
- A asa nasal é a virada. Abaixo dela, a artéria tende a estar profunda; acima, sobe para a superfície e se aproxima da circulação da órbita. O terço superior do sulco pede outro plano e outra cautela.
- O canto medial é território da oftálmica. Em boa parte das pessoas a angular é ponte direta ou ramo da oftálmica; ali, volume mínimo por depósito e pressão baixa.
- O Doppler acha o vaso. Na meta-análise de Pourani, a artéria foi visualizada em praticamente todos os exames nos três níveis estudados — o mapeamento antes da injeção é factível no consultório.

Sobre esse mapa entram as rotinas que não dependem da variante: injeção lenta, depósito pequeno e instrumento em movimento nos trajetos longos. No consultório do Dr. Thiago, a aspiração antes de depositar preenchedor ou bioestimulador é etapa fixa, somada às demais — nenhuma delas protege sozinha. Hialuronidase e protocolo ficam à mão antes de começar: a dose por situação está em dose de hialuronidase por cenário, a conduta diante de sinal de isquemia em oclusão vascular por ácido hialurônico, e a mira guiada por imagem em hialuronidase guiada por ultrassom. O panorama das demais regiões da face está no mapa de zonas de risco vascular.
Do estudo à marcação no paciente
Saber que a angular faltou em um quarto das hemifaces dissecadas não diz se falta na paciente da maca. Essa passagem — do percentual para o exame de quem está na sua frente — se aprende marcando e injetando sob supervisão. A Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito organiza isso em módulos de um sábado presencial em Brasília, cada um com pré-work gravado obrigatório antes, turma limitada a 8 médicos e paciente modelo. O sulco nasolabial e o nasojugal, junto com o protocolo de oclusão e a hialuronidase, estão no módulo de Toxina e Preenchimento; a anatomia vascular de risco por região, a olheira e a rinomodelação, no módulo de Face Avançada. A visão geral da formação está em /cursos/.
Perguntas frequentes
A artéria facial sempre termina como artéria angular?
Não sempre. Na meta-análise de Koziej e colaboradores (2022), com 2.119 artérias, ela terminou como nasal lateral ou angular em 69,81%. Lee e colaboradores (2015) descreveram também um padrão com tronco infraorbital (29,6%) e um padrão com ramo até a fronte (18,6%).
A artéria facial passa por cima do sulco nasogeniano?
Com frequência, sim. Na dissecção de Yang e colaboradores (2014), ela cruzou o sulco em 33,9% dos casos e subiu a menos de 5 mm dele em 42,9%. No Doppler de Shen (2023), a posição mais comum foi medial à prega, em 50,0%.
Em que profundidade fica a artéria facial no sulco?
Na meta-análise de Trzeciak (2025), a média foi de 9,72 mm na comissura e 10,34 mm entre a comissura e a asa nasal, com intervalo de 5,24 a 15,44 mm neste último trecho. Acima da asa, a média cai para 4,68 mm e, no canto medial, para 2,38 mm.
O que é a artéria facial de desvio?
É um tronco da facial que atravessa a bochecha pela região infraorbital, em vez de subir pela prega, e forma a angular junto à goteira nasojugal. Apareceu em 30,0% dos casos de Yang (2014) e em 39,8% das hemifaces de Cong (2021), chegando ao rebordo orbitário inferior a cerca de 2,8 mm da pele.
A artéria angular pode não existir?
Sim. Na classificação de Kim e colaboradores (2014), a angular estava ausente em 26,3% das hemifaces e, em 22,8%, chegava ao canto medial por um ramo da artéria oftálmica, e não pela facial.
Por que o canto medial do olho é região de risco visual?
Porque ali a angular costuma ligar o território da facial ao da oftálmica: na tomografia de Zhu e colaboradores (2018), 50% das angulares eram canais diretos entre os dois e 29,2% pertenciam ao território da oftálmica. Nesse ponto, a artéria fica a pouco mais de 2 mm da pele.
Referências
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- Koziej M, Bonczar M, Ostrowski P, et al. Termination points of the facial artery-A meta-analysis. Clin Anat. 2022;35(4):469-476. · PMID 34851525 · DOI 10.1002/ca.23817
- Shen WW, Jiao CB, Ma JX, et al. Evaluation of facial artery course variations, diameters, and depth by Doppler ultrasonography. J Plast Reconstr Aesthet Surg. 2023;84:79-86. · PMID 37327736 · DOI 10.1016/j.bjps.2023.05.017
- Pourani MR, Ebrahimzade M, Goudarzi E, et al. Evaluation of Facial Artery Course Variations, Diameters, and Depth Using Doppler Ultrasonography: A Systematic Review and Meta-Analysis. J Cosmet Dermatol. 2025;24(9):e70431. · PMID 40874402 · DOI 10.1111/jocd.70431
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- Peng T, Yu H, Hong WJ, et al. Three-Dimensional Location of the Facial Artery in Relation to the Nasolabial Fold in Asian People: A Cadaveric CTA Study. Aesthetic Plast Surg. 2024;48(20):4077-4085. · PMID 38872060 · DOI 10.1007/s00266-024-04181-0
- Trzeciak M, Ostrowski P, Gładysz T, et al. The Depth of the Facial Artery, Meta-analysis. Aesthetic Plast Surg. 2025;49(13):3793-3802. · PMID 40164893 · DOI 10.1007/s00266-025-04833-9
- Cong LY, Kong XX, Luo CE, Luo SK. Three-Dimensional Computed Tomography of the Detoured Facial Artery: Variations and Implications for Nasojugal Groove Correction. Dermatol Surg. 2021;47(6):785-790. · PMID 33941736 · DOI 10.1097/DSS.0000000000003000
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