Artéria facial e artéria angular: trajeto, variantes e risco
Anatomia e segurança

Artéria facial e artéria angular: trajeto e risco

O desenho do livro mostra a artéria facial subindo pela prega nasogeniana até virar angular no canto do olho. Os estudos de dissecção, tomografia e Doppler mostram outra coisa: o ramo final muda, a relação com o sulco muda, a profundidade muda, um lado não repete o outro e a angular, às vezes, nem é da facial. Esta página reúne essas variantes com os números de cada estudo — e o que cada uma muda na hora de escolher plano e volume no sulco, na asa nasal e na olheira.

A artéria facial não é uma linha fixa no rosto: ela muda de ramo final, de lado em relação ao sulco nasogeniano, de profundidade e, em boa parte das pessoas, manda um tronco que atravessa a bochecha em vez de subir pela prega. A artéria angular, que deveria ser a continuação dela até o canto do olho, pode vir da oftálmica ou simplesmente não existir. Para quem injeta sulco, olheira, asa nasal ou malar medial, a pergunta não é “onde passa a facial?”, e sim “qual das variantes este paciente tem?”.

O trajeto em três trechos

Ramo da carótida externa, a facial cruza a borda inferior da mandíbula à frente do masseter, sobe em direção à comissura labial — onde emite as labiais — e segue ao lado do nariz em direção ao canto medial do olho. É esse percurso clássico, em linhas gerais, que o desenho abaixo mostra. Na prática, dá para dividi-lo em três trechos com comportamento diferente:

  1. Mandíbula até a comissura: vaso calibroso, tortuoso, em plano profundo.
  2. Comissura até a asa nasal: o trecho do sulco nasogeniano, onde a relação com a prega e a profundidade mais variam.
  3. Asa nasal até o canto do olho: o trecho que se torna superficial e que, como angular, se liga à circulação da órbita.
Trajeto da artéria facial da mandíbula até a artéria angular — Dr. Thiago Perfeito
Trajeto clássico da artéria facial (em destaque): cruza a borda da mandíbula, emite os ramos labiais junto à comissura e sobe ao lado do nariz como artéria angular, em direção ao canto medial do olho. Este é o padrão de livro — as seções a seguir mostram com que frequência o paciente real foge dele.

Onde a artéria termina: os tipos

Classificar a facial pelo ramo final é a forma mais usada de descrever a variação, e cada grupo de pesquisa chegou a uma distribuição própria:

O estudo de Nguyen e colaboradores (2024, Arch Craniofac Surg), com 102 artérias faciais dissecadas, mostra por que as classificações não coincidem: foram oito pontos de terminação diferentes e 35 combinações de padrão de ramificação, com assimetria marcada entre o lado direito e o esquerdo do mesmo cadáver. O desenho de um lado do rosto não prevê o do outro.

A relação com o sulco nasogeniano

Yang e colaboradores (2014, Plast Reconstr Surg) dissecaram 60 hemifaces e encontraram ramos da facial nas vizinhanças do sulco nasogeniano em 93,3% dos casos. A artéria passou, em média, 3,2 mm lateral à asa do nariz e 13,5 mm lateral à comissura. Ela cruzou o sulco em 33,9% dos casos e subiu a menos de 5 mm dele em 42,9%.

Pelo Doppler de Shen (2023), a artéria ficou com mais frequência do lado medial da prega — que os autores chamam de inferior — (50,0%), em trajeto pela derme e pelo subcutâneo. Daí a sugestão dos autores: em volta do sulco, depositar no plano profundo, sobre o periósteo, tende a ser mais seguro que trabalhar na altura do SMAS. Na meta-análise de Pourani, o trajeto medial à prega também foi o mais frequente (46,2%), seguido do que cruza a prega de medial para lateral (22,5%); correr inteira do lado lateral foi o mais raro (12,0%).

Doppler do sulco nasogeniano — trajeto e profundidade da artéria facial — Dr. Thiago Perfeito
Doppler colorido do sulco nasogeniano em corte longitudinal: em (a), as camadas do sulco e a artéria facial acima da maxila, junto ao espaço piriforme; em (b), perto do músculo levantador do lábio superior e da asa do nariz, a artéria em trajeto tortuoso — os autores chamam a atenção para essa variação, que pode pôr o vaso em planos diferentes. Figure 9 de Vasconcelos-Berg R et al., Diagnostics (Basel) 2024 (PMID 39594210), reproduzida sob licença CC BY.

A tomografia com contraste de 52 cadáveres feita por Peng e colaboradores (2024, Aesthetic Plast Surg) descreveu três tipos de relação com a prega; no mais comum, presente em 83,7% dos espécimes, a facial continuava como angular. A recomendação dos autores divide o sulco em dois: no terço superior, plano supraperiosteal; nos dois terços inferiores, plano dérmico ao longo da prega.

Profundidade: funda embaixo, rasa em cima

A meta-análise de Trzeciak e colaboradores (2025, Aesthetic Plast Surg) é a que melhor mostra a curva da profundidade ao longo do trajeto, com mais de 400 artérias medidas em cada um de cinco níveis:

NívelProfundidade médiaIC 95%
Comissura labial9,72 mm6,50 a 12,94 mm
Entre a comissura e a asa nasal10,34 mm5,24 a 15,44 mm
Asa nasal9,21 mm7,05 a 11,38 mm
Entre a asa nasal e o canto medial4,68 mm4,04 a 5,31 mm
Canto medial do olho2,38 mm1,38 a 3,38 mm

Dois recados saem da tabela. Até a asa nasal, a artéria corre em média perto de um centímetro abaixo da pele, mas o intervalo do trecho intermediário é tão largo que a média quase não serve ao caso individual — por isso os autores sugerem ultrassom na consulta antes de tratar a porção superior do sulco. E acima da asa a profundidade cai à metade e depois a um quarto: perto do canto do olho, a artéria está a pouco mais de 2 mm da superfície. Para a comissura, os autores consideram seguro injetar até 4,5 mm, superficialmente à artéria.

O calibre acompanha o trajeto ao contrário. No Doppler de Shen (2023), o diâmetro médio foi de 1,56 mm na origem mandibular, 1,40 mm na comissura e 1,32 mm junto à asa do nariz; o lado direito foi, em média, mais calibroso que o esquerdo.

O ramo que desvia pela bochecha

Em parte dos pacientes, a facial não sobe só pela prega: um tronco faz uma curva pela bochecha e passa pela região infraorbital. Yang (2014) encontrou a facial com ramos desviados em 30,0% dos casos. Nesses, a artéria se voltava medialmente sobre a área infraorbital a 39,2 mm da linha média e 35,2 mm abaixo da linha que une os cantos mediais; a porção nasojugal acompanhava a borda inferior do orbicular do olho e depois subia em direção à fronte, formando a angular.

Cong e colaboradores (2021, Dermatol Surg) mapearam esse ramo em tomografia tridimensional de 118 hemifaces e o encontraram em 39,8%. Em 29 desses 47 casos, coexistiam o tronco desviado e o tronco nasolabial; nos outros 18, só havia o tronco desviado — não havia artéria acompanhando a prega. A profundidade é o dado que pesa para o injetor: o tronco nasceu a 5,9 mm da pele, fez a curva a 5,7 mm e, ao chegar ao plano do rebordo orbitário inferior, estava a 2,8 mm de profundidade, 17,1 mm lateral à linha média. É exatamente a região da goteira nasojugal.

Artéria angular: a ponte para a oftálmica

Kim e colaboradores (2014, Dermatol Surg) dissecaram 57 hemifaces de cadáveres coreanos e tailandeses e classificaram a angular em quatro tipos:

A tomografia de Zhu e colaboradores (2018, Plast Reconstr Surg) dá a dimensão da ligação com a órbita: metade das angulares (50%) eram canais anastomóticos diretos entre os territórios da facial e da oftálmica, e 29,2% pertenciam ao território da oftálmica. Na dissecção da goteira lacrimal de Jitaree e colaboradores (2018, Plast Reconstr Surg), a angular encontrada junto ao canto medial também era ramo da oftálmica.

É essa ligação que transforma o canto medial em zona de risco visual: produto que entra na angular pode seguir, por fluxo retrógrado, até a oftálmica. O mecanismo está descrito em glabela e risco de cegueira no preenchimento. No Doppler de 74 hemifaces de Shen e colaboradores (2023, Aesthetic Plast Surg), o curso da angular apresentou alta variabilidade.

Doppler da goteira lacrimal — artéria e veia angulares e artéria infraorbital — Dr. Thiago Perfeito
Doppler colorido da goteira lacrimal em corte transversal: à esquerda, a artéria e a veia angulares lado a lado; ao centro, a artéria infraorbital; acima, o músculo orbicular do olho e, à direita, o SOOF. Figure 5 de Vasconcelos-Berg R et al., Diagnostics (Basel) 2024 (PMID 39594210), reproduzida sob licença CC BY.

O que a variação muda na técnica

Modelo · Cinco consequências práticas da variação

  1. Cada lado é um paciente. Com assimetria marcada entre os lados e calibre diferente à direita, a marcação de uma hemiface não se espelha na outra.
  2. Ausência na prega não é ausência na região. Quando só existe o tronco desviado, a artéria está na bochecha e na goteira nasojugal, a menos de 3 mm da pele no rebordo.
  3. A asa nasal é a virada. Abaixo dela, a artéria tende a estar profunda; acima, sobe para a superfície e se aproxima da circulação da órbita. O terço superior do sulco pede outro plano e outra cautela.
  4. O canto medial é território da oftálmica. Em boa parte das pessoas a angular é ponte direta ou ramo da oftálmica; ali, volume mínimo por depósito e pressão baixa.
  5. O Doppler acha o vaso. Na meta-análise de Pourani, a artéria foi visualizada em praticamente todos os exames nos três níveis estudados — o mapeamento antes da injeção é factível no consultório.
Cânula de ponta romba versus agulha diante de um vaso — Dr. Thiago Perfeito
Dois instrumentos diante do mesmo vaso: a agulha, de bisel cortante, entra no tecido rente à parede; a cânula de ponta romba (em destaque) empurra o tecido e afasta o vaso. A ponta romba diminui a chance de entrar na artéria, sem zerá-la — num trajeto que varia como o da facial, plano, ângulo e velocidade continuam decidindo.

Sobre esse mapa entram as rotinas que não dependem da variante: injeção lenta, depósito pequeno e instrumento em movimento nos trajetos longos. No consultório do Dr. Thiago, a aspiração antes de depositar preenchedor ou bioestimulador é etapa fixa, somada às demais — nenhuma delas protege sozinha. Hialuronidase e protocolo ficam à mão antes de começar: a dose por situação está em dose de hialuronidase por cenário, a conduta diante de sinal de isquemia em oclusão vascular por ácido hialurônico, e a mira guiada por imagem em hialuronidase guiada por ultrassom. O panorama das demais regiões da face está no mapa de zonas de risco vascular.

Do estudo à marcação no paciente

Saber que a angular faltou em um quarto das hemifaces dissecadas não diz se falta na paciente da maca. Essa passagem — do percentual para o exame de quem está na sua frente — se aprende marcando e injetando sob supervisão. A Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito organiza isso em módulos de um sábado presencial em Brasília, cada um com pré-work gravado obrigatório antes, turma limitada a 8 médicos e paciente modelo. O sulco nasolabial e o nasojugal, junto com o protocolo de oclusão e a hialuronidase, estão no módulo de Toxina e Preenchimento; a anatomia vascular de risco por região, a olheira e a rinomodelação, no módulo de Face Avançada. A visão geral da formação está em /cursos/.

Perguntas frequentes

A artéria facial sempre termina como artéria angular?

Não sempre. Na meta-análise de Koziej e colaboradores (2022), com 2.119 artérias, ela terminou como nasal lateral ou angular em 69,81%. Lee e colaboradores (2015) descreveram também um padrão com tronco infraorbital (29,6%) e um padrão com ramo até a fronte (18,6%).

A artéria facial passa por cima do sulco nasogeniano?

Com frequência, sim. Na dissecção de Yang e colaboradores (2014), ela cruzou o sulco em 33,9% dos casos e subiu a menos de 5 mm dele em 42,9%. No Doppler de Shen (2023), a posição mais comum foi medial à prega, em 50,0%.

Em que profundidade fica a artéria facial no sulco?

Na meta-análise de Trzeciak (2025), a média foi de 9,72 mm na comissura e 10,34 mm entre a comissura e a asa nasal, com intervalo de 5,24 a 15,44 mm neste último trecho. Acima da asa, a média cai para 4,68 mm e, no canto medial, para 2,38 mm.

O que é a artéria facial de desvio?

É um tronco da facial que atravessa a bochecha pela região infraorbital, em vez de subir pela prega, e forma a angular junto à goteira nasojugal. Apareceu em 30,0% dos casos de Yang (2014) e em 39,8% das hemifaces de Cong (2021), chegando ao rebordo orbitário inferior a cerca de 2,8 mm da pele.

A artéria angular pode não existir?

Sim. Na classificação de Kim e colaboradores (2014), a angular estava ausente em 26,3% das hemifaces e, em 22,8%, chegava ao canto medial por um ramo da artéria oftálmica, e não pela facial.

Por que o canto medial do olho é região de risco visual?

Porque ali a angular costuma ligar o território da facial ao da oftálmica: na tomografia de Zhu e colaboradores (2018), 50% das angulares eram canais diretos entre os dois e 29,2% pertenciam ao território da oftálmica. Nesse ponto, a artéria fica a pouco mais de 2 mm da pele.

Referências

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  2. Koziej M, Bonczar M, Ostrowski P, et al. Termination points of the facial artery-A meta-analysis. Clin Anat. 2022;35(4):469-476. · PMID 34851525 · DOI 10.1002/ca.23817
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  6. Yang HM, Lee JG, Hu KS, et al. New anatomical insights on the course and branching patterns of the facial artery: clinical implications of injectable treatments to the nasolabial fold and nasojugal groove. Plast Reconstr Surg. 2014;133(5):1077-1082. · PMID 24445874 · DOI 10.1097/PRS.0000000000000099
  7. Peng T, Yu H, Hong WJ, et al. Three-Dimensional Location of the Facial Artery in Relation to the Nasolabial Fold in Asian People: A Cadaveric CTA Study. Aesthetic Plast Surg. 2024;48(20):4077-4085. · PMID 38872060 · DOI 10.1007/s00266-024-04181-0
  8. Trzeciak M, Ostrowski P, Gładysz T, et al. The Depth of the Facial Artery, Meta-analysis. Aesthetic Plast Surg. 2025;49(13):3793-3802. · PMID 40164893 · DOI 10.1007/s00266-025-04833-9
  9. Cong LY, Kong XX, Luo CE, Luo SK. Three-Dimensional Computed Tomography of the Detoured Facial Artery: Variations and Implications for Nasojugal Groove Correction. Dermatol Surg. 2021;47(6):785-790. · PMID 33941736 · DOI 10.1097/DSS.0000000000003000
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  13. Shen WW, Du JN, Ma JX, et al. Evaluation of Supratrochlear, Supraorbital and Angular Artery Course Variations and Depth by Doppler Ultrasound. Aesthetic Plast Surg. 2023;47(2):791-798. · PMID 36443416 · DOI 10.1007/s00266-022-03188-9
  14. Vasconcelos-Berg R, Desyatnikova S, Bonavia P, et al. Best Practices for the Use of High-Frequency Ultrasound to Guide Aesthetic Filler Injections-Part 2: Middle Third of the Face, Nose, and Tear Troughs. Diagnostics (Basel). 2024;14(22):2544. · PMID 39594210 · DOI 10.3390/diagnostics14222544
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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