Bloqueio anestésico para preenchimento labial (infraorbital e mentual)
O que o bloqueio faz — e o que ele não faz
O bloqueio do nervo infraorbital anestesia o lábio superior e o do nervo mentual anestesia o lábio inferior, sem infiltrar o vermelhão — o lábio fica insensível e mantém a forma que o injetor precisa ler. Os dois são nervos sensitivos, ramos do trigêmeo; o orbicular da boca é inervado pelo nervo facial. Por isso o lábio bloqueado continua se movendo: a paciente sorri, fala e faz bico, e a avaliação dinâmica segue possível durante a sessão.
O preço também precisa estar claro desde o início. O bloqueio tira a dor do procedimento e, junto com ela, a dor que avisaria de um evento vascular. E ele soma anestésico ao que já vem no gel. Nenhuma das duas coisas contraindica a técnica; as duas mudam o que se vigia.
A técnica do preenchimento em si está em preenchimento labial: técnica, volume e planos e em técnica russa passo a passo. Aqui o assunto é só a anestesia por bloqueio: quando ela vale, onde estão os forames, como chegar a eles e o que muda na sessão.
Antes de bloquear: as alternativas que já resolvem
Boa parte dos lábios se trata com conforto sem bloqueio — o bloqueio é um degrau, não o ponto de partida. O que costuma vir antes:
- Gel com lidocaína incorporada. Na linha Restylane, as versões com lidocaína trazem 3 mg/mL no próprio gel, conforme as bulas. A analgesia cresce à medida que o produto entra.
- Anestésico tópico na pele e na mucosa. Smith e Melnychuk (2005, Dermatol Surg) aplicaram creme de lidocaína a 5% ao mesmo tempo na pele, no vermelhão e na mucosa dos lábios, com uma barreira para manter o creme em contato com a mucosa, por 20 a 30 minutos, e descreveram anestesia profunda do lábio sem complicações — o que chamaram de "bloqueio com creme".
- Vibração. No estudo randomizado de lábio dividido de Guney e colaboradores (2017, Aesthet Surg J), com 25 pacientes, a dor média foi de 3,82 no lado com vibração contra 5,6 no lado sem, numa escala de 0 a 10; 92% sentiram menos dor com o estímulo, e 2 pacientes relataram mais dor.
- Frio local, entre uma etapa e outra.
O bloqueio entra quando a paciente tem baixa tolerância à dor, quando o plano prevê muitas punções no vermelhão — colunas verticais, contorno extenso, tubérculos — ou quando a experiência anterior dela com lábio foi ruim. A infiltração local direta no lábio também anestesia, mas incha justamente a área que precisa ser marcada e avaliada; o bloqueio, longe do vermelhão, preserva o desenho.
Forame infraorbital: onde está e quanto varia
O nervo infraorbital sai pelo forame infraorbital, na face anterior da maxila, alguns milímetros abaixo do rebordo orbital inferior, e se abre em ramos para a pálpebra inferior, a asa do nariz e o lábio superior. A artéria e a veia infraorbitais saem pelo mesmo forame — por isso o bloqueio também é uma injeção perto de vaso.
A posição tem referência, mas não é fixa. Nanayakkara e colaboradores (2016, Anat Res Int), medindo crânios secos de uma população do Sri Lanka, encontraram o forame a uma distância média de 6,52 ± 2,03 mm abaixo do rebordo orbital inferior do lado direito e 7,30 ± 1,57 mm do esquerdo; em relação aos dentes, a posição mais frequente foi o mesmo eixo vertical da cúspide vestibular do segundo pré-molar superior (37,5% à direita e 55,9% à esquerda), e forames acessórios apareceram em 7,4% dos crânios. Koç Direk e Acar (2026, Front Med), em 103 crânios secos (206 hemimaxilas), registraram diferenças significativas entre os lados e entre os sexos nas coordenadas do forame e encontraram forame infraorbital acessório em 18,4% das hemimaxilas.

Na prática, isso quer dizer palpar sempre, dos dois lados. O rebordo orbital inferior é palpável; o forame costuma ser percebido como uma depressão discreta abaixo dele, na linha que desce pela pupila. A medida de um estudo não substitui o dedo na paciente que está na maca.
Bloqueio infraorbital: via intraoral ou via cutânea
As duas vias anestesiam o lábio superior; no ensaio que as comparou lado a lado, a anestesia do lábio durou mais com a via intraoral, e a diferença na taxa de sucesso não alcançou significância. Lynch e colaboradores (1994, Acad Emerg Med) fizeram um ensaio cruzado randomizado em 12 voluntários, com bloqueio intraoral de um lado e cutâneo do outro, agulha de 27G e 2,5 mL de lidocaína a 2% tamponada em cada lado. A via intraoral, precedida de anestésico tópico na mucosa, anestesiou o lábio superior em 12 de 12 voluntários, contra 9 de 12 na cutânea, que foi feita sem tópico — diferença sem significância estatística; a anestesia durou 1,6 ± 0,8 hora contra 0,9 ± 0,4 hora. A dor da aplicação foi menor na via intraoral, mas a diferença não alcançou significância.
Karkut e colaboradores (2010, J Am Dent Assoc), em 40 adultos e desenho cruzado, compararam as duas vias com 1,8 mL de lidocaína a 2% com epinefrina 1:100.000. O foco era a polpa dentária — e ali os bloqueios falharam nos incisivos centrais e laterais —, mas um achado vale para o lábio: a dor da punção e as queixas depois do procedimento foram mais comuns na via cutânea.
O roteiro da via intraoral, em princípio:
- Anestésico tópico no fundo do vestíbulo, na altura dos pré-molares superiores, com a mucosa seca.
- Dedo indicador da outra mão sobre o forame, abaixo do rebordo, protegendo o olho e servindo de alvo.
- Lábio afastado, agulha no fundo de sulco, avançando em direção ao dedo, rente ao osso.
- Aspiração antes de depositar — o feixe tem artéria e veia — e injeção lenta junto ao forame. O princípio corrente é não avançar a agulha para dentro do canal.
- Massagem leve sobre o forame e espera da latência antes de testar o lábio.
- Bilateral. Pelo princípio da técnica, os dois lados são bloqueados: a linha média do lábio pode receber inervação do lado oposto, e o bloqueio de um lado só tende a deixar o centro sensível.
Forame e bloqueio mentual
O nervo mentual sai pelo forame mentual, no corpo da mandíbula, e inerva a pele do mento e o lábio inferior; o bloqueio é feito pelo vestíbulo inferior, na altura dos pré-molares. Kim e Hur (2025, Diagnostics), em 32 hemimandíbulas de 16 cadáveres coreanos dentados, encontraram o forame mais frequentemente abaixo do segundo pré-molar (75%), seguido da região entre o segundo pré-molar e o primeiro molar (15,6%). As distâncias médias do forame à margem gengival, à borda inferior da mandíbula e à linha média foram de 16,6 mm, 15,5 mm e 26,5 mm. Na tomografia, o canal mentual se abriu em direção posterolateral em metade das peças e lateral na outra metade.

O roteiro segue a mesma lógica do superior: tópico no vestíbulo, dedo palpando a região do forame por fora, agulha no fundo de sulco entre os pré-molares inferiores, avanço curto até a vizinhança do forame, aspiração e injeção lenta, junto ao forame e não dentro do canal. O bloqueio também se faz dos dois lados, pelo mesmo raciocínio da linha média.
Quanto anestésico — e como somar
O limite que importa é o da soma: anestésico dos bloqueios, lidocaína do gel e tópico, na mesma sessão. A bula europeia do Belotero Balance Lidocaine traz a conta pronta: o volume máximo de preenchedor por sessão para a face inteira, de 8 mL, corresponde a 24 mg de lidocaína. E as bulas europeias da linha Belotero com lidocaína lembram que, quando outro anestésico local é usado junto, a recomendação para adultos saudáveis é que a dose total de lidocaína sem epinefrina não passe de 300 mg (ou 4,5 mg/kg) por sessão.
Os estudos de bloqueio citados acima usaram 2,5 mL de lidocaína a 2% tamponada (Lynch) e 1,8 mL de lidocaína a 2% com epinefrina (Karkut) por bloqueio — volumes de estudos odontológicos e de pronto-socorro, que servem de referência de ordem de grandeza, não de protocolo de lábio. O raciocínio prático: o menor volume que anestesia, aspiração antes de cada depósito, e a soma anotada na ficha.

O que muda na sessão com o lábio bloqueado
- A dor deixa de avisar. Dor desproporcional é um dos sinais de isquemia; com o lábio bloqueado, ela some. O olho passa a ser o monitor: cor do vermelhão e da pele acima dele, enchimento capilar, livedo. Qualquer palidez que persiste quando a injeção para pede o protocolo de oclusão vascular por ácido hialurônico, com a dose de enzima de dose de hialuronidase por cenário.
- Fotos e marcação antes. A paciente com lábio dormente percebe a boca maior do que está; registrar o ponto de partida antes da anestesia evita discutir o resultado depois.
- Movimento preservado. Como o nervo facial não é atingido, o sorriso e o bico continuam servindo para conferir simetria e excesso.
- Edema da punção. O depósito do bloqueio fica longe do vermelhão, mas a mucosa do vestíbulo pode inchar; isso não deforma o desenho do lábio.
Complicações do bloqueio
- Hematoma, pela vizinhança da artéria e da veia que saem com o nervo; compressão sobre o forame ao fim da injeção.
- Injeção intravascular do anestésico; a aspiração antes de depositar e a injeção lenta são a prevenção.
- Parestesia prolongada por trauma direto do nervo — uma das razões do princípio de depositar junto ao forame, e não dentro do canal.
- Mordedura e queimadura do lábio dormente: orientar a não mastigar nem tomar bebida quente até a sensibilidade voltar.
- Dormência fora do lábio. No bloqueio infraorbital, a anestesia pode se estender à pálpebra inferior e à asa do nariz, que são território do mesmo nervo; vale avisar a paciente antes.
Paciente com herpes labial recorrente tem a profilaxia antiviral definida antes da sessão, com ou sem bloqueio.
Onde a anestesia do lábio é ensinada
Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, a anestesia não é aula separada: ela entra dentro de cada técnica, e no bloco do lábio isso significa as opções de anestesia do próprio lábio. O lábio está no Módulo A1 · Face Avançada, ao lado das artérias labiais, das técnicas por plano e da profilaxia herpética. No sábado presencial, a demonstração comentada responde pela parte teórica e a execução supervisionada pelo aluno, em paciente modelo, pela parte prática, numa turma de até 8 médicos. A grade dos quatro módulos está em /cursos/.
Perguntas frequentes
Qual nervo se bloqueia para anestesiar o lábio superior e o inferior?
O infraorbital para o lábio superior e o mentual para o lábio inferior. Os dois são sensitivos, ramos do trigêmeo, e o bloqueio se faz dos dois lados, porque a linha média do lábio pode receber inervação do lado oposto.
O bloqueio deixa o lábio paralisado?
Não. O movimento do lábio depende do nervo facial, que o bloqueio não atinge. A paciente continua sorrindo e fazendo bico, o que permite conferir simetria durante a sessão.
Via intraoral ou pela pele?
No ensaio de Lynch e colaboradores, a via intraoral, feita depois de anestésico tópico na mucosa, anestesiou o lábio superior em 12 de 12 voluntários, contra 9 de 12 na cutânea, sem significância estatística; a anestesia durou mais na intraoral. No estudo de Karkut e colaboradores, a dor da punção e as queixas posteriores foram mais comuns na via cutânea.
Onde fica o forame infraorbital?
Na face anterior da maxila, alguns milímetros abaixo do rebordo orbital inferior; num estudo de crânios secos, a média foi de 6,52 a 7,30 mm abaixo do rebordo, e a posição mais frequente em relação aos dentes foi o eixo do segundo pré-molar superior. Forames acessórios e diferenças entre os lados existem, por isso se palpa sempre.
Quanto anestésico se pode usar somando bloqueio e gel?
As bulas europeias da linha Belotero com lidocaína recomendam que, com anestésico local associado, a dose total de lidocaína sem epinefrina não passe de 300 mg, ou 4,5 mg/kg, por sessão em adultos saudáveis. A conta soma bloqueios, gel e tópico.
O bloqueio aumenta o risco de não perceber uma oclusão?
Ele tira a dor, que é um dos avisos. Por isso, com o lábio bloqueado, a vigilância passa a ser visual: cor do vermelhão, enchimento capilar, livedo e palidez que persiste.
Precisa de bloqueio em todo preenchimento labial?
Não. Gel com lidocaína, anestésico tópico na pele e na mucosa, vibração e frio resolvem boa parte dos casos. O bloqueio é reservado a baixa tolerância à dor ou a planos com muitas punções no vermelhão.
Referências
- Lynch MT, Syverud SA, Schwab RA, Jenkins JM, Edlich R. Comparison of intraoral and percutaneous approaches for infraorbital nerve block. Acad Emerg Med. 1994;1(6):514-9 — 12 voluntários; 27G, 2,5 mL de lidocaína 2% tamponada; lábio anestesiado em 12/12 (intraoral) × 9/12 (cutânea); duração 1,6 × 0,9 h. · PMID 7600397 · DOI 10.1111/j.1553-2712.1994.tb02543.x
- Karkut B, Reader A, Drum M, Nusstein J, Beck M. A comparison of the local anesthetic efficacy of the extraoral versus the intraoral infraorbital nerve block. J Am Dent Assoc. 2010;141(2):185-92 — 40 adultos; 1,8 mL de lidocaína 2% com epinefrina 1:100.000; dor de punção e sequelas mais comuns na via extraoral. · PMID 20123877 · DOI 10.14219/jada.archive.2010.0137
- Nanayakkara D, Peiris R, Mannapperuma N, Vadysinghe A. Morphometric Analysis of the Infraorbital Foramen: The Clinical Relevance. Anat Res Int. 2016;2016:7917343 — forame 6,52 ± 2,03 mm (direito) e 7,30 ± 1,57 mm (esquerdo) abaixo do rebordo orbital; acessórios em 7,4%. · PMID 28116162 · DOI 10.1155/2016/7917343
- Koç Direk F, Acar A. Morphometric analysis and spatial localization of the infraorbital foramen in adult dry human skulls: bilateral symmetry, sexual dimorphism, and accessory foramina. Front Med (Lausanne). 2026;13:1914818 — 206 hemimaxilas; forame acessório em 18,4%. Figuras 1 e 2 reproduzidas sob licença CC BY. · PMID 42620689 · DOI 10.3389/fmed.2026.1914818
- Kim YH, Hur MS. Anatomical and CBCT-Based Evaluation of the Mental Foramen in Korean Adults: Clinical Implications for Implant Surgery and Mental Nerve Block. Diagnostics (Basel). 2025;15(24):3109 — forame abaixo do segundo pré-molar em 75%; distâncias médias de 16,6 mm (margem gengival), 15,5 mm (borda inferior) e 26,5 mm (linha média). · PMID 41464109 · DOI 10.3390/diagnostics15243109
- Smith KC, Melnychuk M. Five percent lidocaine cream applied simultaneously to the skin and mucosa of the lips creates excellent anesthesia for filler injections. Dermatol Surg. 2005;31(11 Pt 2):1635-7 — creme de lidocaína 5% por 20 a 30 minutos na pele, vermelhão e mucosa. · PMID 16416650 · DOI 10.2310/6350.2005.31253
- Guney K, Sezgin B, Yavuzer R. The Efficacy of Vibration Anesthesia on Reducing Pain Levels During Lip Augmentation: Worth the Buzz? Aesthet Surg J. 2017;37(9):1044-1048 — 25 pacientes, lábio dividido; dor 3,82 × 5,6; 92% com menos dor. · PMID 29025227 · DOI 10.1093/asj/sjx073
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