Botox no lábio superior (código de barras)
As rugas verticais do lábio superior — o “código de barras” — nascem da contração repetida do orbicular da boca sobre uma pele que perdeu espessura e suporte; a toxina trata a parte dinâmica, com microdoses em poucos pontos superficiais junto à borda do vermelhão, e a parte estática pede preenchedor fino ou recapeamento da pele. No ensaio de dose de Cohen e colaboradores, 7,5 U de onabotulinumtoxinA distribuídas em quatro pontos bastaram para reduzir as linhas por até 16 semanas, com menos efeitos adversos do que 12 U.
De onde vêm as linhas
O código de barras é multifatorial. Kadunc e colaboradores (2007, Dermatol Surg) listam o dano actínico, o tabagismo, a perda de volume das estruturas profundas, a posição de dormir, alterações ortodônticas e o componente dinâmico. Para o injetor, a pergunta útil é qual parcela de cada linha é movimento e qual já é marca fixa na pele:
- Peça um bico e depois relaxe. Linhas que aparecem ou se aprofundam no bico e quase somem em repouso são dinâmicas — território da toxina.
- Linhas visíveis em repouso, com a boca relaxada, já são estáticas. A toxina reduz a força que continua dobrando a pele, mas não preenche o sulco.
- Olhe o lábio inteiro. Vermelhão fino, perda de altura e filtro alongado mudam o plano: às vezes o melhor tratamento das linhas começa devolvendo suporte ao lábio.
- Pergunte pelos hábitos. O tabagismo está na lista de causas de Kadunc; quem usa muito canudo ou toca instrumento de sopro sente antes qualquer perda de força do orbicular.
A anatomia que dita a profundidade
O orbicular da boca tem uma porção periférica e uma porção marginal, que corre logo acima da borda do vermelhão. Hwang e colaboradores (2007, Journal of Craniofacial Surgery) mediram essa porção marginal em cortes do lábio superior de 11 cadáveres: ela ocupava de 1,3 a 2,5 mm acima da borda do vermelhão, descia até 2,5 a 3,1 mm abaixo dela e tinha de 1,1 a 2,0 mm de espessura — a parte mais fina junto ao canto da boca. É uma faixa estreita e rasa. Toxina aplicada funda ou alta demais no lábio branco sai dela e alcança fibras que fazem a vedação da boca.

Técnica: poucos pontos, rasos e simétricos
Os estudos citados aqui trabalham com poucos pontos junto à borda do vermelhão: quatro no total no ensaio de Cohen, dois de um só lado no estudo de Kadunc. O desenho prático é de pares simétricos no lábio superior, longe das comissuras, e um par no lábio inferior só quando as linhas estão lá.
- Fotografe em repouso e em bico. Sem as duas imagens, não há como separar o que a toxina tratou do que ficou para o preenchedor.
- Marque poucos pontos, simétricos — o ensaio de Cohen usou quatro no total —, sobre as linhas mais marcadas e logo acima da borda do vermelhão. Mantenha distância das comissuras e não pique a linha média do arco do cupido.
- Injete raso. A porção marginal tem de 1,1 a 2,0 mm de espessura e fica logo abaixo da pele; a injeção superficial deixa a dose nessa faixa, e a funda alcança as fibras da vedação.
- Use volume mínimo. Na conduta do Dr. Thiago, toxina se aplica com agulha de 30 a 32 G, em microbolus, sem aspirar e nunca com microcânula.
- Lábio inferior só se as linhas estiverem lá — e com a mesma parcimônia, porque a vedação depende dos dois lábios.
- Registre e reveja entre 15 e 30 dias, com a mesma foto de bico.
Dose: o que o ensaio de Cohen mostrou
A bula do Botox, a do Dysport e a do Xeomin não trazem indicação nem dose para rugas periorais; o número vem de estudo. Cohen e colaboradores (2012, Dermatol Surg) randomizaram 60 mulheres para receber onabotulinumtoxinA em quatro pontos, num total de 7,5 U ou de 12,0 U, e acompanharam até a 20ª semana:
- com 12,0 U, a gravidade das linhas caiu até a semana 20; com 7,5 U, até a semana 16;
- a taxa de resposta só se separou na semana 12 (77% com 12,0 U contra 36% com 7,5 U);
- a satisfação com o lábio melhorou nos dois grupos;
- a maioria dos efeitos adversos foi leve a moderada, típica da toxina no lábio — e a incidência subiu com a dose.
A conclusão dos autores é a que serve de regra de bolso: sem resposta clara à dose maior e com menos efeitos adversos, 7,5 U parecem adequadas por até 16 semanas. Semchyshyn e Sengelmann (2003, Dermatol Surg), numa série de 18 pacientes tratados nas linhas verticais do lábio, já descreviam, além da suavização das linhas, ganho de eversão e de plenitude do lábio superior; 72% dos pacientes seguiram com o tratamento.
Esses números são de onabotulinumtoxinA, e as bulas declaram que unidades de toxinas diferentes não são intercambiáveis; para quem usa outra marca, a formação do Dr. Thiago ensina a conversão de referência (Botox:Dysport 1:2,5; Botox:Xeomin 1:1), partindo da dose equivalente ou de um pouco menos e ajustando pela resposta.
O mesmo músculo é alvo do lip flip, mas com outro objetivo: lá se quer everter o vermelhão; aqui, suavizar as linhas verticais da pele acima dele.
Toxina sozinha ou combinada
Como a maior parte dos códigos de barras tem componente estático, a combinação costuma render mais do que qualquer ferramenta isolada:
- Toxina + ácido hialurônico. No ensaio multicêntrico de Carruthers e colaboradores (2010, Dermatol Surg), 90 mulheres de 35 a 55 anos foram randomizadas para preenchedor sozinho, onabotulinumtoxinA sozinha ou os dois; a combinação foi superior a cada tratamento isolado em todos os desfechos e na maioria dos tempos. Barbarino e colaboradores (2021, Journal of Cosmetic Dermatology) trataram 10 mulheres com até 10 U de incobotulinumtoxinA na região perioral seguidas de 1 a 3 mL de ácido hialurônico intradérmico nas mesmas linhas (somando a região periorbital): a melhora de pelo menos 1 ponto nas linhas periorais foi observada em 89,2%, 86,5% e 73,0% em 1, 3 e 6 meses.
- Toxina antes do recapeamento. Kadunc e colaboradores aplicaram toxina na borda do vermelhão de um lado só, uma semana antes da quimioabrasão do lábio superior (ácido tricloroacético 35% seguido de dermoabrasão manual), em 12 mulheres. Do 90º dia até o 3º ano, o lado com toxina teve linhas mais leves que o lado controle — a toxina protegeu o resultado do recapeamento enquanto a pele se remodelava.
O preenchedor das linhas periorais é volume pequeno e superficial, e as bulas dão a ordem de grandeza: o Restylane Silk declara até 1,0 mL por tratamento para rítides periorais, o Belotero Balance Lidocaine até 1,0 mL para linhas periorais (IFU europeia), e nos estudos pivotais as medianas nas linhas periorais foram de 0,20 mL com Restylane Kysse e de 0,3 mL com Juvéderm Volbella XC. Ao trabalhar junto à borda, vale lembrar o trajeto da artéria labial.

A técnica do preenchimento labial em si, com planos e volumes, está em como fazer preenchimento labial.
Efeitos adversos e como evitá-los
- Dificuldade de vedar a boca. Beber de canudo, assobiar, soprar e pronunciar consoantes labiais fica mais difícil quando a dose sai da porção marginal. No ensaio de Cohen, os efeitos adversos acompanharam a dose — a melhor prevenção é a dose menor que funciona.
- Assimetria do sorriso ou da boca em repouso. Pontos assimétricos ou perto da comissura mudam o desenho do lábio. Simetria na marcação e distância do canto evitam a maior parte.
- Expectativa errada. Linha estática profunda não some com toxina. Dizer isso antes evita a sensação de que “não pegou”.
Hábitos contam: o paciente fumante precisa saber que o tratamento suaviza as linhas, mas a causa continua agindo. Nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica.
Onde isso entra na formação
O código de barras exige ler o lábio em duas camadas ao mesmo tempo — o músculo que franze e a pele que já marcou — e escolher entre toxina, preenchedor fino e recapeamento. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, a toxina full face, com os pontos e as doses de referência dos três terços, é conteúdo do módulo de Toxina e Preenchimento, e as rítides periorais voltam no módulo de Bioestimuladores e Skin Quality, junto com a qualidade de pele. Cada módulo é um sábado presencial com pré-work gravado obrigatório, turma de até 8 médicos e prática executada pelo aluno em paciente modelo, sob supervisão, depois da demonstração comentada. A lista completa está em /cursos/.
Perguntas frequentes
Onde aplicar botox no código de barras?
Em poucos pontos superficiais na pele do lábio superior, logo acima da borda do vermelhão, em pares simétricos e longe das comissuras — o ensaio de Cohen usou quatro pontos no total —, e no lábio inferior só se houver linhas ali. O alvo é a porção marginal do orbicular da boca, que tem de 1,1 a 2,0 mm de espessura (Hwang e colaboradores, 2007).
Quantas unidades de botox no código de barras?
É uso fora de bula. No ensaio de Cohen e colaboradores (2012), 7,5 U de onabotulinumtoxinA em quatro pontos reduziram as linhas por até 16 semanas, com menos efeitos adversos do que 12 U. Em outra marca, a dose segue a conversão de referência com ajuste pela resposta.
Botox resolve o código de barras sozinho?
Resolve a parte dinâmica das linhas. A parte estática, visível em repouso, pede preenchedor fino ou recapeamento da pele. No ensaio de Carruthers e colaboradores (2010), toxina mais ácido hialurônico foi superior a cada um isolado.
Quanto dura o botox no código de barras?
No estudo de Cohen, a redução das linhas durou até 16 semanas com 7,5 U e até 20 semanas com 12 U. A reaplicação respeita o intervalo mínimo de 3 meses das bulas.
Quais os efeitos colaterais da toxina nas rugas periorais?
Os típicos são dificuldade de beber de canudo, assobiar, soprar e articular consoantes labiais, além de assimetria da boca. São transitórios e, no estudo de Cohen, mais frequentes com a dose maior — por isso a dose começa baixa e os pontos ficam rasos e simétricos.
Qual a diferença entre código de barras e lip flip?
Os dois tratam o orbicular da boca. O lip flip busca everter o vermelhão do lábio superior; o tratamento do código de barras busca suavizar as rugas verticais da pele acima do lábio.
Referências
- Cohen JL, Dayan SH, Cox SE, Yalamanchili R, Tardie G. OnabotulinumtoxinA dose-ranging study for hyperdynamic perioral lines. Dermatol Surg. 2012;38(9):1497-1505. · PMID 22621180 · DOI 10.1111/j.1524-4725.2012.02456.x
- Semchyshyn N, Sengelmann RD. Botulinum toxin A treatment of perioral rhytides. Dermatol Surg. 2003;29(5):490-495. · PMID 12752516 · DOI 10.1046/j.1524-4725.2003.29118.x
- Hwang K, Kim DJ, Hwang SH. Musculature of the pars marginalis of the upper orbicularis oris muscle. J Craniofac Surg. 2007;18(1):151-154. · PMID 17251855 · DOI 10.1097/01.scs.0000248649.77168.ec
- Carruthers A, Carruthers J, Monheit GD, Davis PG, Tardie G. Multicenter, randomized, parallel-group study of the safety and effectiveness of onabotulinumtoxinA and hyaluronic acid dermal fillers (24-mg/ml smooth, cohesive gel) alone and in combination for lower facial rejuvenation. Dermatol Surg. 2010;36 Suppl 4:2121-2134. · PMID 21134044 · DOI 10.1111/j.1524-4725.2010.01705.x
- Barbarino SC, Woodward JA, Levine J, Fezza J. Evaluating an incobotulinumtoxinA and Cohesive Polydensified Matrix hyaluronic acid filler combination to treat moderate-to-severe periorbital and perioral rhytids. J Cosmet Dermatol. 2021;20(5):1459-1466. · PMID 33051971 · DOI 10.1111/jocd.13745
- Kadunc BV, Trindade de Almeida AR, Vanti AA, Di Chiacchio N. Botulinum toxin A adjunctive use in manual chemabrasion: controlled long-term study for treatment of upper perioral vertical wrinkles. Dermatol Surg. 2007;33(9):1066-1072. · PMID 17760597 · DOI 10.1111/j.1524-4725.2007.33220.x
- Kim JS. 9-point Injection Technique for Lip Augmentation and Lip Corner Lifting Using Sonographic Imaging of the Labial Artery Pathway. Aesthet Surg J. 2024;44(10):1080-1090. · PMID 38649792 · DOI 10.1093/asj/sjae086
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