Botox ou Dysport: diferenças que importam para o injetor
Botox e Dysport bloqueiam o mesmo alvo com a mesma neurotoxina — o que muda é a formulação, o fabricante e, principalmente, a unidade em que cada frasco é medido. Para o injetor, isso tem uma consequência prática que pesa mais que qualquer debate de marca: a dose de um produto não se traduz na dose do outro por regra de bolso. Quem entende isso escolhe a toxina por critério (paciente, área, histórico e consistência) e não por boato de corredor.
Mesmo alvo, formulações diferentes
As duas são toxina botulínica tipo A e agem no mesmo lugar: a junção neuromuscular, onde impedem a liberação de acetilcolina: o impulso nervoso chega ao terminal, mas o músculo não recebe o sinal para contrair. O mecanismo é o mesmo. A diferença está no que vem dentro do frasco e em como esse conteúdo foi padronizado.
- Botox — onabotulinumtoxinA. Fabricado pela Allergan, empresa da AbbVie. Segundo a bula, os excipientes são albumina humana e cloreto de sódio.
- Dysport — abobotulinumtoxinA, descrito na bula como complexo toxina-hemaglutinina tipo A de Clostridium botulinum. Fabricado pela Ipsen (Wrexham, Reino Unido) e comercializado no Brasil pela Galderma, que não é a fabricante. Os excipientes são albumina humana e lactose, e a dose é expressa em unidades Speywood, específicas do produto.
Um estudo laboratorial de Field e colaboradores (2018, Toxins) resume bem o ponto de partida: os produtos comerciais têm processos de fabricação, excipientes e formulações próprios e unidades de potência não intercambiáveis, mas o efeito de todos é mediado pela mesma neurotoxina de 150 kDa. Os autores mediram por ELISA a quantidade dessa neurotoxina por frasco e encontraram conteúdos diferentes entre os produtos. Vale registrar o conflito de interesse: parte dos autores era funcionária da Ipsen. O recado útil para o injetor não é o número: unidade não é massa de toxina, e frascos com o mesmo número de unidades de marcas diferentes não carregam a mesma coisa.

Por que a unidade de um não é a unidade do outro
A unidade de toxina botulínica é uma medida de atividade biológica, obtida pelo ensaio de potência de cada fabricante. Como cada empresa usa o próprio método, o número impresso no frasco só tem sentido dentro daquele produto. As bulas dizem isso com todas as letras:
- Bula brasileira do Botox: “as unidades da atividade biológica de BOTOX® não podem ser comparadas ou convertidas em unidades de quaisquer outras toxinas botulínicas”.
- Bula brasileira do Dysport: “as unidades de DYSPORT® (unidades Speywood) são específicas para a preparação e não são intercambiáveis”.
A bula brasileira do Dysport ainda registra que a razão fixa de conversão usada no passado pode ser inadequada. A literatura recente vai na mesma direção. Rahman e colaboradores (2026, Aesthetic Plastic Surgery) construíram um modelo farmacodinâmico in silico com dados de 49 ensaios clínicos e submissões regulatórias, simulando cada formulação em 10.000 pacientes virtuais. A equivalência calculada entre os produtos não ficou parada: mudou ao longo das semanas, porque início, pico e queda do efeito seguem curvas diferentes. A conclusão dos autores é que razões de conversão estáticas não representam o comportamento dinâmico das toxinas. É um estudo de simulação (nível de evidência IV), mas o recado converge com o das bulas.
Por isso esta página não traz tabela de conversão. A regra que funciona no consultório é outra: a dose de cada produto vem da bula dele e do seu registro clínico com aquele produto naquele paciente.
Reconstituição e conservação: o que as bulas declaram
Aqui o detalhe operacional muda de verdade entre as marcas, e é onde o médico iniciante mais erra por copiar a rotina de uma para a outra. Os números abaixo são das bulas americanas (Prescribing Information), não das brasileiras. Servem para entender a lógica de cada produto; no consultório, vale a bula brasileira do frasco que está na sua mão.
- Botox Cosmetic: a bula declara uma única concentração, 4 U por 0,1 mL — frasco de 100 U com 2,5 mL, ou frasco de 50 U com 1,25 mL, de soro fisiológico 0,9% sem conservante. Recomenda carregar a solução de preferência em seringa de tuberculina e aplicar com agulha 30 a 33 G. Depois de reconstituído, uso em até 24 horas, guardado entre 2 e 8 °C.
- Dysport: frasco de 300 U, com duas reconstituições licenciadas — 2,5 mL (10 U a cada 0,08 mL) ou 1,5 mL (10 U a cada 0,05 mL), em alíquotas iguais, com agulha 30 G. Depois de reconstituído, fica no frasco original, entre 2 e 8 °C e protegido da luz, por até 24 horas, e não pode ser congelado.
As duas diluições do Dysport foram comparadas por Kaufman e colaboradores (2019, Dermatol Surg) num estudo randomizado de fase IV com 60 pacientes tratados na glabela com a dose de bula. Dois dos autores eram da Galderma. No 30º dia, 90,0% (1,5 mL) e 86,7% (2,5 mL) tiveram melhora de pelo menos 1 ponto na gravidade das linhas, sem diferença significativa de eficácia ou de duração entre os volumes. O início mediano do efeito foi de 48 horas, a resposta máxima veio no 14º dia e mais de 40% mantinham o efeito no 120º dia em cada grupo.
Um detalhe de técnica que vale para as duas marcas, na conduta do Dr. Thiago: toxina não se aspira antes de injetar. Agulha fina (30 a 32 G), microbolus, ponto e plano certos — e toxina não se aplica com microcânula.
Difusão e campo de efeito: o que os estudos mostram
“O Dysport espalha mais” é talvez a frase mais repetida em curso de toxina. O estudo que melhor testa essa ideia é brasileiro. Hexsel e colaboradores (2013, JAMA Dermatol) fizeram um ensaio randomizado duplo-cego em 19 mulheres: cada uma recebeu 2 U de abobotulinumtoxinA de um lado da fronte e 2 U de onabotulinumtoxinA do outro, em injeções de mesmo volume. Aos 28 dias, os halos de anidrose (diâmetros e área) foram significativamente maiores do lado da onabotulinumtoxinA, sem diferença na escala de rugas nem no potencial de ação muscular.
A leitura correta não é “então o Botox espalha mais”. A conclusão dos autores é que a difusão depende da dose: a dose mais potente difunde mais. Como a mesma unidade rotulada não representa a mesma potência nos dois produtos, comparar “difusão de marca” sem fixar a dose não tem sentido. O campo de efeito é uma variável que o injetor controla — com dose, volume por ponto, plano e distância entre pontos — e não uma propriedade fixa da marca.
Início de ação e duração: dados verificados
- Botox: a bula descreve denervação química um a dois dias após a injeção, com intensidade crescente durante a primeira semana. Na metanálise de Glogau e colaboradores (2012, Dermatol Surg), que reuniu 4 ensaios de fase III com 621 pacientes tratados na glabela com 20 U, a duração mediana do efeito nos que responderam no 30º dia foi de 120 dias em contração máxima e 131 dias em repouso.
- Dysport: a revisão sistemática de Nestor e colaboradores (2020, J Clin Aesthet Dermatol), com 42 trabalhos sobre o terço superior, encontrou início mediano em 2 a 3 dias (já em 24 horas em 2 estudos) e duração relatada com mais frequência de quatro meses (18 estudos), variando de 3 a 6 meses entre os estudos. A revisão foi patrocinada pela Ipsen — leia com isso em mente.
E quando as duas são colocadas lado a lado no mesmo protocolo? Gonçalves e colaboradores (2026, J Cosmet Dermatol) randomizaram 40 mulheres de 25 a 50 anos para onabotulinumtoxinA ou para uma formulação pronta para uso (líquida) de abobotulinumtoxinA — não o pó liofilizado que se reconstitui — na glabela, com seguimento de 5 meses. Não houve diferença entre os grupos na atividade eletromiográfica do prócero e do corrugador nem na gravidade das linhas. A satisfação foi maior no grupo da onabotulinumtoxinA aos 2 meses, e a dor na injeção foi maior com a formulação líquida.

Na prática do consultório do Dr. Thiago, o efeito da toxina na face dura de 3 a 4 meses, o retorno de revisão é feito entre 15 e 30 dias e o intervalo mínimo entre aplicações é o das bulas: a do Dysport manda não reaplicar com frequência maior que a cada 3 meses, e a do Botox registra que aplicações mais frequentes que isso não foram avaliadas quanto à segurança e à eficácia.
Como o injetor escolhe
Se a molécula-alvo é a mesma e os ensaios lado a lado não mostram vencedor claro, o que decide? Um estudo multicêntrico ajuda a responder. Germani e colaboradores (2026, J Cosmet Dermatol) trataram 125 pacientes em cinco centros com a mesma técnica padronizada de 5 pontos na glabela, usando onabotulinumtoxinA ou abobotulinumtoxinA. Dos 119 que completaram o estudo, o padrão de contração glabelar não mudou o resultado; idade e índice de massa corporal mudaram. Em outras palavras, anatomia muscular e características do paciente pesam mais que o desenho da ruga na pele. O estudo não foi desenhado para comparar as marcas entre si; o que ele mostra é que o resultado depende de quem está sendo tratado e de onde a toxina é colocada.
Modelo · Os 4 critérios de escolha
- Paciente — o que ele já usou, como respondeu e quanto tempo durou. Um paciente com boa resposta documentada a um produto é argumento para manter o produto.
- Área e bula — as indicações estéticas aprovadas não são iguais: no rótulo americano, o Dysport tem só a glabela, enquanto o Botox Cosmetic tem glabela, linhas cantais laterais, fronte e platisma. Fora do rótulo, a decisão e a responsabilidade técnica são suas.
- Hábito — a mão calibrada numa diluição e num mapa de pontos é um ativo. Trocar de marca é recalibrar.
- Consistência — mesma marca e mesma diluição no mesmo paciente permitem comparar uma sessão com a outra. Toda troca é um experimento: registre marca, lote, diluição, pontos e unidades no prontuário.

Erros comuns
- Converter por regra de bolso. Nenhuma das bulas sustenta razão fixa entre marcas, e o modelo de Rahman mostra por que ela não se mantém ao longo do tempo.
- Trocar marca e diluição ao mesmo tempo. Se o resultado mudar, você não saberá qual das duas variáveis causou a mudança.
- Copiar a rotina de reconstituição de uma marca para a outra. Volume de diluente, concentração e prazo após reconstituir são declarados por produto.
- Tratar “difusão” como atributo da marca. O estudo de Hexsel mostra que o campo de efeito acompanha a dose.
- Culpar anticorpo antes de revisar a dose. Quando o paciente diz que “perdeu efeito rápido”, a primeira hipótese é dose subdimensionada; anticorpo neutralizante existe, mas é raro. A revisão de Kroumpouzos e Silikovich (2025, JMIR Dermatol) lista entre os fatores de não resposta secundária o manuseio inadequado da toxina, a técnica de injeção incorreta, aplicações com menos de 3 meses de intervalo e doses cumulativas mais altas — quase tudo sob controle do injetor.
- Não registrar a marca no prontuário. Sem esse dado, a próxima sessão começa do zero.
Uma nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica — nem com a Allergan/AbbVie, nem com a Ipsen, nem com a Galderma. A comparação acima é por critério clínico, não por marca vencedora.
Onde isso se treina
Ler bula e estudo organiza o raciocínio; calibrar a mão exige paciente. A Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito é formada por módulos presenciais de um sábado, com pré-work gravado obrigatório e hands-on em paciente modelo, em turmas pequenas de até 8 médicos. O módulo de Toxina e Preenchimento trata farmacologia e marcas do mercado brasileiro, início de ação, duração e diluição, com marcação e aplicação de toxina full face em paciente modelo. Os demais módulos estão em /cursos/.
Perguntas frequentes
Botox e Dysport são a mesma substância?
São toxina botulínica tipo A e agem no mesmo alvo, a junção neuromuscular. Mas são formulações diferentes: Botox é onabotulinumtoxinA (Allergan/AbbVie), com albumina humana e cloreto de sódio; Dysport é abobotulinumtoxinA (Ipsen), um complexo toxina-hemaglutinina com albumina humana e lactose, medido em unidades Speywood.
Dá para converter unidades de Botox para Dysport?
Não com segurança. As bulas brasileiras das duas afirmam que as unidades não são intercambiáveis, e a do Dysport registra que a razão fixa usada no passado pode ser inadequada. Um modelo farmacodinâmico publicado em 2026 (Rahman e colaboradores) mostrou que a equivalência entre produtos muda ao longo do tempo. A dose de cada produto vem da bula dele e do seu registro clínico com o paciente.
Quem fabrica o Dysport?
A Ipsen, no Reino Unido. No Brasil, o Dysport é comercializado pela Galderma, mas a fabricante é a Ipsen.
O Dysport difunde mais que o Botox?
No estudo que melhor testou essa ideia, a difusão acompanhou a dose. No ensaio randomizado de Hexsel e colaboradores (2013), com o mesmo número de unidades rotuladas de cada produto na fronte de 19 mulheres, o halo de anidrose foi maior do lado da onabotulinumtoxinA. Os autores concluíram que a dose mais potente difunde mais. O campo de efeito se controla com dose, volume por ponto, plano e distância entre pontos.
Qual age mais rápido e qual dura mais?
Os dados não apontam vencedor claro. A bula do Botox descreve efeito em um a dois dias, crescente na primeira semana; uma metanálise de 621 pacientes mostrou duração mediana de 120 dias na glabela em contração máxima. Para o Dysport, uma revisão sistemática patrocinada pela Ipsen encontrou início mediano em 2 a 3 dias e duração mais relatada de quatro meses. Num ensaio de 2026 com 40 mulheres, a formulação líquida de abobotulinumtoxinA e a onabotulinumtoxinA não diferiram na eletromiografia ao longo de 5 meses.
Como se reconstitui o Dysport segundo a bula?
A bula americana declara duas opções para o frasco de 300 U: 2,5 mL de soro fisiológico 0,9% sem conservante (10 U a cada 0,08 mL) ou 1,5 mL (10 U a cada 0,05 mL), com agulha 30 G. Um ensaio de 60 pacientes não encontrou diferença significativa de eficácia ou duração entre os dois volumes. Depois de reconstituído, a bula americana manda guardar entre 2 e 8 °C, protegido da luz, por até 24 horas. No Brasil, vale a bula brasileira da apresentação que você tem em mãos.
Posso trocar de marca no meio do acompanhamento de um paciente?
Pode, mas trate a troca como mudança de variável: não altere marca e diluição ao mesmo tempo, faça a dose pela bula do novo produto e registre marca, lote, diluição, pontos e unidades no prontuário. Sem isso, você não consegue comparar uma sessão com a outra.
O paciente diz que a toxina perdeu efeito rápido. É anticorpo?
Raramente. A primeira hipótese é dose subdimensionada. Anticorpo neutralizante existe, mas é raro, e a revisão de Kroumpouzos e Silikovich (2025) aponta como fatores de não resposta secundária o manuseio inadequado, a técnica incorreta, aplicações com menos de 3 meses de intervalo e doses cumulativas mais altas.
Referências
- Field M, Splevins A, Picaut P, et al. AbobotulinumtoxinA (Dysport), OnabotulinumtoxinA (Botox), and IncobotulinumtoxinA (Xeomin) Neurotoxin Content and Potential Implications for Duration of Response in Patients. Toxins (Basel). 2018;10(12):535. · PMID 30551641 · DOI 10.3390/toxins10120535
- Rahman E, Rao P, Sayed K, et al. Challenging Interchangeability: Dynamic Dose-Response Modelling of Botulinum Toxin A Products. Aesthetic Plast Surg. 2026;50(11):4275-4291. · PMID 41709018 · DOI 10.1007/s00266-026-05700-x
- Kaufman J, Cohen JL, Peredo MI, et al. Clinical Assessment of 2 Licensed AbobotulinumtoxinA Injection Volumes for the Treatment of Glabellar Lines. Dermatol Surg. 2019;45(10):1274-1284. · PMID 30893159 · DOI 10.1097/DSS.0000000000001926
- Hexsel D, Hexsel C, Siega C, et al. Fields of effects of 2 commercial preparations of botulinum toxin type A at equal labeled unit doses: a double-blind randomized trial. JAMA Dermatol. 2013;149(12):1386-1391. · PMID 24108521 · DOI 10.1001/jamadermatol.2013.6440
- Glogau R, Kane M, Beddingfield F, et al. OnabotulinumtoxinA: a meta-analysis of duration of effect in the treatment of glabellar lines. Dermatol Surg. 2012;38(11):1794-1803. · PMID 23106853 · DOI 10.1111/j.1524-4725.2012.02582.x
- Nestor M, Cohen JL, Landau M, et al. Onset and Duration of AbobotulinumtoxinA for Aesthetic Use in the Upper Face: A Systematic Literature Review. J Clin Aesthet Dermatol. 2020;13(12):E56-E83. · PMID 33488922
- Gonçalves JR, Valesan LF, Shishido ACLN, et al. Is Ready-To-Use AbobotulinumtoxinA More Effective Than OnabotulinumtoxinA for Glabellar Lines? A Randomized, Controlled, Triple-Blinded Clinical Trial. J Cosmet Dermatol. 2026;25(4):e70816. · PMID 41889091 · DOI 10.1111/jocd.70816
- Germani M, Munoz-Lora VRM, Geroldo AM, et al. Advancing the Evidence on Glabellar Contraction Patterns: A Prospective Multicenter Study on Its Clinical Relevance for Glabellar Neuromodulator Injections. J Cosmet Dermatol. 2026;25(5):e70911. · PMID 42130059 · DOI 10.1111/jocd.70911
- Kroumpouzos G, Silikovich F. Exploring Nonresponse to Botulinum Toxin in Aesthetics: Narrative Review of Key Trigger Factors and Effective Management Strategies. JMIR Dermatol. 2025;8:e69960. · PMID 40273416 · DOI 10.2196/69960
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