Botox ou Dysport: diferenças que importam para o injetor
Toxina botulínica

Botox ou Dysport: diferenças que importam para o injetor

“Quantas unidades de Dysport equivalem a uma de Botox?” É a primeira pergunta de quem começa a injetar — e a resposta que mais protege o paciente é que essa conta não existe. As duas toxinas agem no mesmo alvo, mas cada uma é medida na própria unidade, reconstituída do próprio jeito e estudada em protocolos próprios. O que separa o injetor seguro do inseguro não é a marca escolhida: é saber o que muda de verdade entre elas e o que é folclore.

Botox e Dysport bloqueiam o mesmo alvo com a mesma neurotoxina — o que muda é a formulação, o fabricante e, principalmente, a unidade em que cada frasco é medido. Para o injetor, isso tem uma consequência prática que pesa mais que qualquer debate de marca: a dose de um produto não se traduz na dose do outro por regra de bolso. Quem entende isso escolhe a toxina por critério (paciente, área, histórico e consistência) e não por boato de corredor.

Mesmo alvo, formulações diferentes

As duas são toxina botulínica tipo A e agem no mesmo lugar: a junção neuromuscular, onde impedem a liberação de acetilcolina: o impulso nervoso chega ao terminal, mas o músculo não recebe o sinal para contrair. O mecanismo é o mesmo. A diferença está no que vem dentro do frasco e em como esse conteúdo foi padronizado.

Um estudo laboratorial de Field e colaboradores (2018, Toxins) resume bem o ponto de partida: os produtos comerciais têm processos de fabricação, excipientes e formulações próprios e unidades de potência não intercambiáveis, mas o efeito de todos é mediado pela mesma neurotoxina de 150 kDa. Os autores mediram por ELISA a quantidade dessa neurotoxina por frasco e encontraram conteúdos diferentes entre os produtos. Vale registrar o conflito de interesse: parte dos autores era funcionária da Ipsen. O recado útil para o injetor não é o número: unidade não é massa de toxina, e frascos com o mesmo número de unidades de marcas diferentes não carregam a mesma coisa.

Junção neuromuscular — bloqueio do sinal pela toxina botulínica tipo A — Dr. Thiago Perfeito
Junção neuromuscular: a toxina botulínica tipo A impede a liberação de acetilcolina no terminal nervoso. Botox e Dysport atuam neste mesmo ponto; o que muda entre eles é a formulação e a unidade de medida.

Por que a unidade de um não é a unidade do outro

A unidade de toxina botulínica é uma medida de atividade biológica, obtida pelo ensaio de potência de cada fabricante. Como cada empresa usa o próprio método, o número impresso no frasco só tem sentido dentro daquele produto. As bulas dizem isso com todas as letras:

A bula brasileira do Dysport ainda registra que a razão fixa de conversão usada no passado pode ser inadequada. A literatura recente vai na mesma direção. Rahman e colaboradores (2026, Aesthetic Plastic Surgery) construíram um modelo farmacodinâmico in silico com dados de 49 ensaios clínicos e submissões regulatórias, simulando cada formulação em 10.000 pacientes virtuais. A equivalência calculada entre os produtos não ficou parada: mudou ao longo das semanas, porque início, pico e queda do efeito seguem curvas diferentes. A conclusão dos autores é que razões de conversão estáticas não representam o comportamento dinâmico das toxinas. É um estudo de simulação (nível de evidência IV), mas o recado converge com o das bulas.

Por isso esta página não traz tabela de conversão. A regra que funciona no consultório é outra: a dose de cada produto vem da bula dele e do seu registro clínico com aquele produto naquele paciente.

Reconstituição e conservação: o que as bulas declaram

Aqui o detalhe operacional muda de verdade entre as marcas, e é onde o médico iniciante mais erra por copiar a rotina de uma para a outra. Os números abaixo são das bulas americanas (Prescribing Information), não das brasileiras. Servem para entender a lógica de cada produto; no consultório, vale a bula brasileira do frasco que está na sua mão.

As duas diluições do Dysport foram comparadas por Kaufman e colaboradores (2019, Dermatol Surg) num estudo randomizado de fase IV com 60 pacientes tratados na glabela com a dose de bula. Dois dos autores eram da Galderma. No 30º dia, 90,0% (1,5 mL) e 86,7% (2,5 mL) tiveram melhora de pelo menos 1 ponto na gravidade das linhas, sem diferença significativa de eficácia ou de duração entre os volumes. O início mediano do efeito foi de 48 horas, a resposta máxima veio no 14º dia e mais de 40% mantinham o efeito no 120º dia em cada grupo.

Um detalhe de técnica que vale para as duas marcas, na conduta do Dr. Thiago: toxina não se aspira antes de injetar. Agulha fina (30 a 32 G), microbolus, ponto e plano certos — e toxina não se aplica com microcânula.

Difusão e campo de efeito: o que os estudos mostram

“O Dysport espalha mais” é talvez a frase mais repetida em curso de toxina. O estudo que melhor testa essa ideia é brasileiro. Hexsel e colaboradores (2013, JAMA Dermatol) fizeram um ensaio randomizado duplo-cego em 19 mulheres: cada uma recebeu 2 U de abobotulinumtoxinA de um lado da fronte e 2 U de onabotulinumtoxinA do outro, em injeções de mesmo volume. Aos 28 dias, os halos de anidrose (diâmetros e área) foram significativamente maiores do lado da onabotulinumtoxinA, sem diferença na escala de rugas nem no potencial de ação muscular.

A leitura correta não é “então o Botox espalha mais”. A conclusão dos autores é que a difusão depende da dose: a dose mais potente difunde mais. Como a mesma unidade rotulada não representa a mesma potência nos dois produtos, comparar “difusão de marca” sem fixar a dose não tem sentido. O campo de efeito é uma variável que o injetor controla — com dose, volume por ponto, plano e distância entre pontos — e não uma propriedade fixa da marca.

Início de ação e duração: dados verificados

E quando as duas são colocadas lado a lado no mesmo protocolo? Gonçalves e colaboradores (2026, J Cosmet Dermatol) randomizaram 40 mulheres de 25 a 50 anos para onabotulinumtoxinA ou para uma formulação pronta para uso (líquida) de abobotulinumtoxinA — não o pó liofilizado que se reconstitui — na glabela, com seguimento de 5 meses. Não houve diferença entre os grupos na atividade eletromiográfica do prócero e do corrugador nem na gravidade das linhas. A satisfação foi maior no grupo da onabotulinumtoxinA aos 2 meses, e a dor na injeção foi maior com a formulação líquida.

Gráfico de eletromiografia do prócero e do corrugador após onabotulinumtoxinA e abobotulinumtoxinA pronta para uso — Dr. Thiago Perfeito
Atividade eletromiográfica em contração máxima do prócero (A) e do corrugador do supercílio (B) ao longo de 5 meses: as curvas dos dois grupos ficam próximas, e os autores não encontraram diferença entre eles em nenhum momento. Figura 2 de Gonçalves JR et al., J Cosmet Dermatol 2026 (PMID 41889091), reproduzida sob licença CC BY.

Na prática do consultório do Dr. Thiago, o efeito da toxina na face dura de 3 a 4 meses, o retorno de revisão é feito entre 15 e 30 dias e o intervalo mínimo entre aplicações é o das bulas: a do Dysport manda não reaplicar com frequência maior que a cada 3 meses, e a do Botox registra que aplicações mais frequentes que isso não foram avaliadas quanto à segurança e à eficácia.

Como o injetor escolhe

Se a molécula-alvo é a mesma e os ensaios lado a lado não mostram vencedor claro, o que decide? Um estudo multicêntrico ajuda a responder. Germani e colaboradores (2026, J Cosmet Dermatol) trataram 125 pacientes em cinco centros com a mesma técnica padronizada de 5 pontos na glabela, usando onabotulinumtoxinA ou abobotulinumtoxinA. Dos 119 que completaram o estudo, o padrão de contração glabelar não mudou o resultado; idade e índice de massa corporal mudaram. Em outras palavras, anatomia muscular e características do paciente pesam mais que o desenho da ruga na pele. O estudo não foi desenhado para comparar as marcas entre si; o que ele mostra é que o resultado depende de quem está sendo tratado e de onde a toxina é colocada.

Modelo · Os 4 critérios de escolha

  1. Paciente — o que ele já usou, como respondeu e quanto tempo durou. Um paciente com boa resposta documentada a um produto é argumento para manter o produto.
  2. Área e bula — as indicações estéticas aprovadas não são iguais: no rótulo americano, o Dysport tem só a glabela, enquanto o Botox Cosmetic tem glabela, linhas cantais laterais, fronte e platisma. Fora do rótulo, a decisão e a responsabilidade técnica são suas.
  3. Hábito — a mão calibrada numa diluição e num mapa de pontos é um ativo. Trocar de marca é recalibrar.
  4. Consistência — mesma marca e mesma diluição no mesmo paciente permitem comparar uma sessão com a outra. Toda troca é um experimento: registre marca, lote, diluição, pontos e unidades no prontuário.
Antes e depois de toxina botulínica na glabela em Brasília — Dr. Thiago Perfeito
Cada caso é individual e os resultados variam de pessoa para pessoa.

Erros comuns

  1. Converter por regra de bolso. Nenhuma das bulas sustenta razão fixa entre marcas, e o modelo de Rahman mostra por que ela não se mantém ao longo do tempo.
  2. Trocar marca e diluição ao mesmo tempo. Se o resultado mudar, você não saberá qual das duas variáveis causou a mudança.
  3. Copiar a rotina de reconstituição de uma marca para a outra. Volume de diluente, concentração e prazo após reconstituir são declarados por produto.
  4. Tratar “difusão” como atributo da marca. O estudo de Hexsel mostra que o campo de efeito acompanha a dose.
  5. Culpar anticorpo antes de revisar a dose. Quando o paciente diz que “perdeu efeito rápido”, a primeira hipótese é dose subdimensionada; anticorpo neutralizante existe, mas é raro. A revisão de Kroumpouzos e Silikovich (2025, JMIR Dermatol) lista entre os fatores de não resposta secundária o manuseio inadequado da toxina, a técnica de injeção incorreta, aplicações com menos de 3 meses de intervalo e doses cumulativas mais altas — quase tudo sob controle do injetor.
  6. Não registrar a marca no prontuário. Sem esse dado, a próxima sessão começa do zero.

Uma nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica — nem com a Allergan/AbbVie, nem com a Ipsen, nem com a Galderma. A comparação acima é por critério clínico, não por marca vencedora.

Onde isso se treina

Ler bula e estudo organiza o raciocínio; calibrar a mão exige paciente. A Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito é formada por módulos presenciais de um sábado, com pré-work gravado obrigatório e hands-on em paciente modelo, em turmas pequenas de até 8 médicos. O módulo de Toxina e Preenchimento trata farmacologia e marcas do mercado brasileiro, início de ação, duração e diluição, com marcação e aplicação de toxina full face em paciente modelo. Os demais módulos estão em /cursos/.

Perguntas frequentes

Botox e Dysport são a mesma substância?

São toxina botulínica tipo A e agem no mesmo alvo, a junção neuromuscular. Mas são formulações diferentes: Botox é onabotulinumtoxinA (Allergan/AbbVie), com albumina humana e cloreto de sódio; Dysport é abobotulinumtoxinA (Ipsen), um complexo toxina-hemaglutinina com albumina humana e lactose, medido em unidades Speywood.

Dá para converter unidades de Botox para Dysport?

Não com segurança. As bulas brasileiras das duas afirmam que as unidades não são intercambiáveis, e a do Dysport registra que a razão fixa usada no passado pode ser inadequada. Um modelo farmacodinâmico publicado em 2026 (Rahman e colaboradores) mostrou que a equivalência entre produtos muda ao longo do tempo. A dose de cada produto vem da bula dele e do seu registro clínico com o paciente.

Quem fabrica o Dysport?

A Ipsen, no Reino Unido. No Brasil, o Dysport é comercializado pela Galderma, mas a fabricante é a Ipsen.

O Dysport difunde mais que o Botox?

No estudo que melhor testou essa ideia, a difusão acompanhou a dose. No ensaio randomizado de Hexsel e colaboradores (2013), com o mesmo número de unidades rotuladas de cada produto na fronte de 19 mulheres, o halo de anidrose foi maior do lado da onabotulinumtoxinA. Os autores concluíram que a dose mais potente difunde mais. O campo de efeito se controla com dose, volume por ponto, plano e distância entre pontos.

Qual age mais rápido e qual dura mais?

Os dados não apontam vencedor claro. A bula do Botox descreve efeito em um a dois dias, crescente na primeira semana; uma metanálise de 621 pacientes mostrou duração mediana de 120 dias na glabela em contração máxima. Para o Dysport, uma revisão sistemática patrocinada pela Ipsen encontrou início mediano em 2 a 3 dias e duração mais relatada de quatro meses. Num ensaio de 2026 com 40 mulheres, a formulação líquida de abobotulinumtoxinA e a onabotulinumtoxinA não diferiram na eletromiografia ao longo de 5 meses.

Como se reconstitui o Dysport segundo a bula?

A bula americana declara duas opções para o frasco de 300 U: 2,5 mL de soro fisiológico 0,9% sem conservante (10 U a cada 0,08 mL) ou 1,5 mL (10 U a cada 0,05 mL), com agulha 30 G. Um ensaio de 60 pacientes não encontrou diferença significativa de eficácia ou duração entre os dois volumes. Depois de reconstituído, a bula americana manda guardar entre 2 e 8 °C, protegido da luz, por até 24 horas. No Brasil, vale a bula brasileira da apresentação que você tem em mãos.

Posso trocar de marca no meio do acompanhamento de um paciente?

Pode, mas trate a troca como mudança de variável: não altere marca e diluição ao mesmo tempo, faça a dose pela bula do novo produto e registre marca, lote, diluição, pontos e unidades no prontuário. Sem isso, você não consegue comparar uma sessão com a outra.

O paciente diz que a toxina perdeu efeito rápido. É anticorpo?

Raramente. A primeira hipótese é dose subdimensionada. Anticorpo neutralizante existe, mas é raro, e a revisão de Kroumpouzos e Silikovich (2025) aponta como fatores de não resposta secundária o manuseio inadequado, a técnica incorreta, aplicações com menos de 3 meses de intervalo e doses cumulativas mais altas.

Referências

  1. Field M, Splevins A, Picaut P, et al. AbobotulinumtoxinA (Dysport), OnabotulinumtoxinA (Botox), and IncobotulinumtoxinA (Xeomin) Neurotoxin Content and Potential Implications for Duration of Response in Patients. Toxins (Basel). 2018;10(12):535. · PMID 30551641 · DOI 10.3390/toxins10120535
  2. Rahman E, Rao P, Sayed K, et al. Challenging Interchangeability: Dynamic Dose-Response Modelling of Botulinum Toxin A Products. Aesthetic Plast Surg. 2026;50(11):4275-4291. · PMID 41709018 · DOI 10.1007/s00266-026-05700-x
  3. Kaufman J, Cohen JL, Peredo MI, et al. Clinical Assessment of 2 Licensed AbobotulinumtoxinA Injection Volumes for the Treatment of Glabellar Lines. Dermatol Surg. 2019;45(10):1274-1284. · PMID 30893159 · DOI 10.1097/DSS.0000000000001926
  4. Hexsel D, Hexsel C, Siega C, et al. Fields of effects of 2 commercial preparations of botulinum toxin type A at equal labeled unit doses: a double-blind randomized trial. JAMA Dermatol. 2013;149(12):1386-1391. · PMID 24108521 · DOI 10.1001/jamadermatol.2013.6440
  5. Glogau R, Kane M, Beddingfield F, et al. OnabotulinumtoxinA: a meta-analysis of duration of effect in the treatment of glabellar lines. Dermatol Surg. 2012;38(11):1794-1803. · PMID 23106853 · DOI 10.1111/j.1524-4725.2012.02582.x
  6. Nestor M, Cohen JL, Landau M, et al. Onset and Duration of AbobotulinumtoxinA for Aesthetic Use in the Upper Face: A Systematic Literature Review. J Clin Aesthet Dermatol. 2020;13(12):E56-E83. · PMID 33488922
  7. Gonçalves JR, Valesan LF, Shishido ACLN, et al. Is Ready-To-Use AbobotulinumtoxinA More Effective Than OnabotulinumtoxinA for Glabellar Lines? A Randomized, Controlled, Triple-Blinded Clinical Trial. J Cosmet Dermatol. 2026;25(4):e70816. · PMID 41889091 · DOI 10.1111/jocd.70816
  8. Germani M, Munoz-Lora VRM, Geroldo AM, et al. Advancing the Evidence on Glabellar Contraction Patterns: A Prospective Multicenter Study on Its Clinical Relevance for Glabellar Neuromodulator Injections. J Cosmet Dermatol. 2026;25(5):e70911. · PMID 42130059 · DOI 10.1111/jocd.70911
  9. Kroumpouzos G, Silikovich F. Exploring Nonresponse to Botulinum Toxin in Aesthetics: Narrative Review of Key Trigger Factors and Effective Management Strategies. JMIR Dermatol. 2025;8:e69960. · PMID 40273416 · DOI 10.2196/69960
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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