Como aplicar fios de PDO na face: vetores e plano
Fios de sustentação

Como aplicar fios de PDO na face: vetores e plano

O fio de PDO espiculado acerta ou erra em duas decisões: a camada por onde ele corre e o sentido em que ele puxa. Abaixo, o plano que os estudos em cadáver sustentam, onde ancorar longe da artéria temporal superficial, por que mais vetores não significam mais resultado e a sequência de inserção do primeiro ao último fio.

Fio de PDO espiculado se aplica na gordura subcutânea profunda, logo acima do SMAS, e é tracionado no sentido oposto ao da queda do tecido, com a ponta de ancoragem numa região de pouca mobilidade. Plano e vetor são as duas decisões que separam o fio que sustenta do fio que marca a pele, migra ou encosta em nervo e vaso. O resto da técnica — ponto de entrada, pinçamento, tensionamento, acabamento — existe para manter essas duas decisões até o fim do trajeto.

Antes da agulha: diagnóstico e marcação

A marcação é feita com a paciente sentada, em posição neutra, porque é de pé que a gravidade mostra o que desceu. Três coisas vão para a pele antes da antissepsia:

Para a paciente de 45 a 60 anos, a marcação também é o momento de mostrar no espelho o que o fio desloca e o que ele não alcança: volume perdido e excesso de pele ficam fora do vetor e pedem outra ferramenta.

O plano: gordura subcutânea profunda, acima do SMAS

O fio espiculado precisa de septos fibrosos para prender, e eles estão na gordura subcutânea. Mais superficial, junto à derme, o fio aparece, é palpável e a espícula puxa a pele para dentro. Mais profundo, abaixo do SMAS, entra no território dos ramos do nervo facial, da parótida e do seu ducto.

Yi e colaboradores (2026, Front Med) testaram esse plano em oito cadáveres frescos. A partir de um único ponto de entrada na têmpora, inseriram três fios no terço lateral da face e conferiram a posição por micro-tomografia com contraste e por ultrassom. Os fios ficaram na camada correta, superficial ao SMAS, sem lesar vasos, nervos ou músculos do terço lateral. Os autores concluem que a camada imediatamente acima do SMAS é o caminho anatomicamente favorável para elevar o terço lateral com menos risco de complicação iatrogênica.

Ultrassom mostrando fio de sustentação na fáscia temporal superficial e na gordura subcutânea acima do SMAS — Dr. Thiago Perfeito
Ultrassom em cadáver: à esquerda, na têmpora, o fio (pontas de seta amarelas) corre dentro da fáscia temporal superficial; à direita, na região zigomática, o fio (pontas de seta pretas) está na porção profunda da gordura subcutânea, logo acima do SMAS. Na têmpora, a artéria temporal superficial corre dentro dessa fáscia ou colada a ela, e por isso a ancoragem temporal que a separa da artéria, no estudo de Hong (2026) descrito abaixo, é a do plano entre as fáscias superficial e profunda. Figure 5 de Yi KH et al., Front Med (Lausanne) 2026 (PMID 41684922), reproduzida sob licença CC BY.

Pinçar para achar o plano

Pinçar a pele levanta camadas diferentes conforme a força. Oh e colaboradores (2019, Dermatol Surg) pinçaram a têmpora de três cadáveres frescos em 11 pontos e examinaram o que subia junto com a pele. No pinçamento suave, a gordura subcutânea se separou da fáscia temporal superficial e veio com a pele, e a artéria temporal superficial e os ramos temporais do nervo facial ficaram intactos. No pinçamento profundo, a própria fáscia temporal superficial se descolou da fáscia temporal profunda e subiu junto. A conclusão dos autores: o pinçamento suave ajuda a colocar o fio na gordura subcutânea, separada da fáscia que carrega a artéria e o nervo; o profundo ajuda a ancorar na fáscia temporal.

Fio de PDO espiculado na gordura subcutânea, acima do SMAS, em bloco de camadas da face — Dr. Thiago Perfeito
Bloco de tecido da face em corte: pele, gordura subcutânea, SMAS, gordura profunda e periósteo. O fio espiculado corre na gordura subcutânea, rente ao SMAS; é nesse plano que as espículas encontram septos para prender quando o fio é tensionado.

A ancoragem: onde o fio segura

Vetor bom com ancoragem frouxa não sustenta nada. Rungsawang e colaboradores (2021, Plast Reconstr Surg Glob Open) mediram com dinamômetro a resistência do tecido à passagem de uma cânula 22G nas quatro camadas do terço médio e inferior, em 20 hemifaces de 10 cadáveres. Nas regiões nasolabial e perioral, a resistência no plano abaixo do SMAS foi maior que no SMAS e no subcutâneo, e os autores preferem ali o plano profundo para prender a extremidade; nas regiões bucal e parotideomassetérica inferior, ao contrário, o plano abaixo do SMAS foi frouxo, por causa da cápsula da bola de Bichat e da gordura subplatismal, e deve ser evitado. Firmeza não é o único critério: na altura da comissura, a artéria facial corre por baixo do zigomático maior e do risório, e abaixo do SMAS na bochecha lateral passam os ramos do nervo facial e o ducto parotídeo. Para quem está começando, a extremidade fica no subcutâneo, e a fixação profunda no terço inferior é decisão de quem já domina a anatomia em camadas.

Na têmpora, a ancoragem muda de plano. A artéria temporal superficial corre dentro da fáscia temporal superficial ou colada a ela. Hong e colaboradores (2026, J Craniofac Surg) simularam em cadáver fios espiculados a partir da linha do cabelo temporal: no plano subcutâneo superficial, o fio podia ocupar a mesma camada dos ramos da artéria e comprimi-los quando tensionado; no plano entre as fáscias temporal superficial e profunda, ficava separado da artéria. O mesmo estudo descreveu um modo de falha — um fio que começou profundo e migrou para a superfície, cruzando um ramo anterior da artéria. Yi e Oh (2024, Skin Res Technol), com micro-tomografia em 24 hemicabeças, situaram a zona segura de fixação na fáscia temporal profunda entre as linhas temporais superior e inferior, numa faixa vertical de 1 a 3 cm à frente do trago.

Vetores: contra a queda, sem excesso

O vetor é o sentido oposto ao da descida do tecido. A porção espiculada fica no tecido que se quer reposicionar; a extremidade de ancoragem fica no tecido estável. Na face que desce mais na vertical, o vetor acompanha essa vertical. Kang e colaboradores (2017, Dermatol Surg) descreveram fios curtos de PDO, de 6 cm, inseridos verticalmente para baixo nas regiões malar anterior e submalar de 39 pacientes coreanos, em sessão única. Aos 6 meses, dois avaliadores independentes classificaram 10,3% dos casos como muitíssimo melhorados, 43,6% como muito melhorados e 33,3% como melhorados; 89,7% dos pacientes se declararam satisfeitos, com complicações pouco frequentes e leves. O argumento dos autores é anatômico: o vetor se opõe diretamente à descida vertical, com menor risco de acentuar a projeção do zigoma.

Dois desenhos de inserção de fios espiculados em I na bochecha a partir de pontos de entrada temporais — Dr. Thiago Perfeito
Dois arranjos de fios espiculados em I no terço médio e inferior: à esquerda, fios em leque a partir de dois pontos de entrada; à direita, fios paralelos, cada um com o próprio ponto de entrada (em vermelho). A seta indica a direção de inserção dos fios. Figure 4 de Hong GW et al., Life (Basel) 2025 (PMID 39860025), reproduzida sob licença CC BY.

Mais vetores não significam mais resultado. Liew e colaboradores (2020, Dermatol Surg) compararam, em cinco cabeças de cadáver mantidas em pé, fios bidirecionais de PDO e de PCL inseridos por cânula 18G de 100 mm. A técnica de vetor duplo, mirando o sulco labiomandibular e o ângulo da mandíbula, levantou mais na vertical (4,45 contra 2,99 mm), mas menos na horizontal (0,33 contra 0,49 mm), e reduziu menos o volume do jowl (0,32 contra 0,41 cc) e da linha da mandíbula (0,46 contra 0,87 cc) do que o vetor único. Os autores concluíram que o vetor duplo não foi superior. Cada fio a mais é mais um trajeto, mais uma chance de erro de plano e mais material a absorver.

Passo a passo da inserção

Modelo · Sequência de um fio espiculado

  1. Marcar sentada o tecido a mover, o vetor e a zona de ancoragem.
  2. Antissepsia ampla e anestesia local no ponto de entrada e ao longo do trajeto planejado.
  3. Abrir o ponto de entrada na zona de ancoragem, de preferência na linha do cabelo.
  4. Pinçar suavemente e avançar agulha ou cânula paralela à pele, sentindo resistência uniforme; mudança brusca de resistência é mudança de plano.
  5. Conferir o trajeto antes de liberar o fio: nem ondulação na superfície, nem sensação de profundidade excessiva. Onde houver ultrassom, ele confirma o plano.
  6. Retirar o veículo e tensionar no sentido do vetor, aos poucos — puxando a extremidade livre ou deslizando o tecido sobre o fio, conforme o desenho das espículas —, observando o tecido se mover sem formar depressão.
  7. Cortar e acomodar a ponta abaixo da pele no ponto de entrada e massagear suavemente qualquer irregularidade.
  8. Registrar produto, lote, número de fios, vetores e plano no prontuário, com foto padronizada.

A forma de fixar a extremidade também conta. Unal e colaboradores (2021, J Dermatolog Treat) trataram 38 pacientes com fio de PDO espiculado bidirecional inserido no subcutâneo por agulha cortante 23G de 90 mm. Para evitar migração, amarraram entre si os fios que saíam pelo mesmo ponto de entrada. Na escala GAIS, 78,9% ficaram muitíssimo melhorados, 18,4% muito melhorados e 2,6% melhorados.

Antes e depois de fios de sustentação Aptos com marcação de vetores na face e no pescoço em Brasília — Dr. Thiago Perfeito
Cada caso é individual e os resultados variam de pessoa para pessoa.

Erros de técnica que estragam um bom vetor

  1. Marcar deitada. Com a paciente em decúbito, o tecido já voltou para cima e o vetor sai errado.
  2. Perder o plano no meio do trajeto. O fio começa certo e sobe para a derme no fim: é a ponta que vai marcar.
  3. Ancorar em tecido móvel. A ponta de fixação acompanha a mímica, e o fio solta.
  4. Tensionar demais de uma vez. O tecido franze na entrada ou no trajeto e a paciente sai com depressão visível.
  5. Somar fios para compensar vetor ruim. O estudo de Liew mostra que vetor a mais não é resultado a mais.
  6. Ancorar na têmpora pelo subcutâneo. No estudo de Hong, o fio nesse plano podia ocupar a camada dos ramos da artéria temporal superficial e comprimi-los sob tensão; a ancoragem temporal se faz entre as fáscias.

Do cadáver para a paciente

A técnica do fio é sensação tátil — resistência do plano, quanto a espícula já prendeu, quanto o tecido aceita de tensão — e isso não se aprende em vídeo. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), o Módulo A1 trata fios de PDO e Aptos com o vetor oposto à queda, a anatomia de risco do ramo temporal, do marginal mandibular e do ducto parotídeo, a inserção, o tensionamento e a anestesia dos fios. No sábado presencial em Brasília, cada médico da turma, de no máximo oito, faz o hands-on de fios com vetor planejado em paciente modelo, com supervisão direta, depois do pré-work gravado. Para a anatomia de risco em outras regiões, veja o mapa de zonas de risco vascular da face; para o uso do ultrassom na conferência de plano, o que aprender primeiro em ultrassom.

Perguntas frequentes

Em qual plano se aplica o fio de PDO espiculado na face?

Na gordura subcutânea profunda, logo acima do SMAS. Em cadáver, Yi e colaboradores confirmaram por micro-tomografia e ultrassom que fios nesse plano não lesaram vasos, nervos nem músculos do terço lateral. Superficial demais, o fio marca a pele; abaixo do SMAS, entra no território do nervo facial e da parótida.

Como definir o vetor do fio de sustentação?

No sentido oposto ao da queda do tecido, marcado com a paciente sentada. A porção espiculada fica no tecido a reposicionar, e a extremidade de ancoragem, num tecido de pouca mobilidade, em geral perto da linha do cabelo.

Vetor duplo levanta mais que vetor único?

Não necessariamente. No estudo em cadáver de Liew e colaboradores, o vetor duplo levantou mais na vertical, mas menos na horizontal, e reduziu menos o volume do jowl e da linha da mandíbula. Os autores concluíram que ele não foi superior ao vetor único.

Onde ancorar o fio na têmpora sem atingir a artéria temporal superficial?

Entre a fáscia temporal superficial e a profunda, não no subcutâneo superficial. Em cadáver, Hong e colaboradores viram fios subcutâneos comprimirem ramos da artéria quando tensionados. Yi e Oh situaram a zona segura na fáscia temporal profunda, entre as linhas temporais, numa faixa de 1 a 3 cm à frente do trago.

Pinçar a pele ajuda a colocar o fio no plano certo?

Sim, e a força do pinçamento muda a camada. Oh e colaboradores mostraram em cadáver que o pinçamento suave levanta a gordura subcutânea com a pele, plano seguro para o fio, e o profundo levanta a fáscia temporal superficial, útil para ancorar.

Como evitar que o fio de PDO migre depois de inserido?

Ancorar em tecido estável, manter o plano até o fim do trajeto e não tensionar além do que o tecido aceita. Unal e colaboradores, em 38 pacientes, amarraram entre si os fios que saíam pelo mesmo ponto de entrada como técnica para prevenir migração.

Fio de PDO se aplica com agulha ou com cânula?

Os dois existem, e o veículo vem montado de fábrica. Unal e colaboradores usaram agulha cortante 23G de 90 mm; Liew e colaboradores, cânula 18G de 100 mm. O calibre e o comprimento seguem o produto escolhido; o plano e o vetor são do injetor.

Referências

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  3. Rungsawang C, Tansatit T, Fasunloye LK, Uruwan S. Achieving the Most Effective Hanging Points at the Lower End of the Face for Thread Lifting: Quantitative Measurement of Tissue Resistance in Different Facial Layers. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2021;9(7):e3701. · PMID 34367848 · DOI 10.1097/GOX.0000000000003701
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  5. Yi KH, Oh SM. Lateral facial thread lifting procedure with temporal anchoring in deep temporal fascia: Anatomical perspectives of superficial temporal artery. Skin Res Technol. 2024;30(2):e13587. · PMID 38279572 · DOI 10.1111/srt.13587
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  7. Liew S, Frank K, Kolenda J, et al. Comparison of Single- Versus Dual-Vector Technique Using Facial Suspension Threads: A Cadaveric Study Using Skin Vector Displacement Analysis. Dermatol Surg. 2020;46(12):1721-1727. · PMID 33252465 · DOI 10.1097/DSS.0000000000002574
  8. Unal M, İslamoğlu GK, Ürün Unal G, Köylü N. Experiences of barbed polydioxanone (PDO) cog thread for facial rejuvenation and our technique to prevent thread migration. J Dermatolog Treat. 2021;32(2):227-230. · PMID 31267809 · DOI 10.1080/09546634.2019.1640347
  9. Hong GW, Wan J, Yoon SE, et al. Pre- and Post-Procedural Considerations and Thread Types for Thread Lifting. Life (Basel). 2025;15(1):85. · PMID 39860025 · DOI 10.3390/life15010085
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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