Diluição do Dysport: como reconstituir conforme a bula
Toxina botulínica

Diluição do Dysport: como reconstituir conforme a bula

“Com quanto soro eu diluo o Dysport?” A pergunta parece técnica, mas costuma esconder o erro que de fato machuca: achar que a diluição muda a dose. Não muda. O soro decide quanto volume carrega cada unidade Speywood — e, com ele, o tamanho da gota que chega ao músculo. A dose é a que você escreve no prontuário, em unidades, e ela só está certa se a conta do frasco estiver certa.

A objeção vem rápido: “cada colega usa uma diluição diferente, então qualquer uma serve”. Serve — desde que você saiba o que ela muda. A diluição não muda a dose: muda quanto volume carrega cada unidade Speywood. Com 1,5 mL ou com 2,5 mL de soro, 10 unidades continuam sendo 10 unidades; o que muda é o tamanho da gota que vai ao músculo e, com ela, a precisão da seringa e o alcance da toxina. O erro que machuca o paciente quase nunca é escolher 1,5 em vez de 2,5. É converter unidade de outra marca, perder a conta do frasco ou guardar o produto além do prazo.

O que a bula declara — e de qual bula estamos falando

No Brasil, quem decide é a bula vigente do frasco que está na sua mão. O Dysport tem registro MS 1.6977.0001, com bula aprovada pela Anvisa em 18/03/2025: toxina botulínica A na forma de complexo toxina-hemaglutinina tipo A de Clostridium botulinum, com albumina humana 20% e lactose como excipientes. É produzido pela Ipsen Biopharm (Wrexham, Reino Unido) e comercializado no Brasil pela Galderma — a Galderma vende, quem fabrica é a Ipsen. A dose é expressa em unidades Speywood, que a bula brasileira declara específicas da preparação e não intercambiáveis.

A apresentação do frasco registrada no Brasil e o volume de reconstituição para uso estético estão na bula brasileira vigente — confira lá antes de abrir o frasco. Os números abaixo não são da bula brasileira: vêm da bula americana do Dysport (Prescribing Information, versão de 2017), transcritos do texto original. Ela traz uma única indicação estética, as linhas glabelares, e descreve a reconstituição do frasco de 300 U. Servem para entender a lógica da conta; no seu consultório, vale a bula brasileira — e, se ela disser outro volume, é o dela que você usa.

Reconstituição estética na bula americana (frasco de 300 U)

A mesma bula americana lista frascos de 300 U e de 500 U, mas a reconstituição estética descrita é só a do frasco de 300 U. Para qualquer outra apresentação, o volume de soro é o que constar da bula vigente.

A conta, sem atalho

Concentração é unidades do frasco divididas pelos mililitros de soro; volume do ponto é a dose desejada dividida pela concentração. Não há mais nada. Com os números da bula: 300 ÷ 2,5 = 120 U/mL, isto é, 12 U em cada 0,1 mL. E 300 ÷ 1,5 = 200 U/mL, isto é, 20 U em cada 0,1 mL.

Exemplo: os 50 U da glabela nas duas diluições da bula

Diluição de 2,5 mL (120 U/mL): 10 U ÷ 120 U/mL = 0,083 mL por ponto — a bula arredonda para 0,08 mL, e é por isso que escreve, ao mesmo tempo, “10 U em 0,08 mL” e “12 U por 0,1 mL”. Cinco pontos de 0,08 mL somam 0,40 mL.

Diluição de 1,5 mL (200 U/mL): 10 U ÷ 200 U/mL = 0,05 mL exatos por ponto. Cinco pontos somam 0,25 mL.

Mesma dose total (50 U); volume total diferente (0,40 mL contra 0,25 mL).

A conta também mostra o que a diluição faz com a sua seringa. Um erro de leitura de 0,01 mL vale 1,2 U na diluição de 2,5 mL e 2 U na de 1,5 mL. Quanto mais concentrada a solução, mais cada marca da graduação pesa em unidades — e mais a seringa precisa ser lida com o olho na altura do êmbolo.

Por que a diluição muda o volume do ponto, e não a dose total

A dose total é decidida antes do frasco; o soro só decide em quanto líquido ela viaja. Esse ponto foi testado com as duas diluições da bula americana. No ensaio de Kaufman e colaboradores (2019, Dermatol Surg), 60 pacientes receberam 50 U na glabela, reconstituídas em 1,5 mL ou em 2,5 mL. No dia 30, 90,0% e 86,7% tinham melhora de pelo menos 1 ponto na gravidade das linhas, sem diferença significativa de eficácia nem de duração; a mediana de início do efeito foi de 48 horas. Dois dos autores eram da Galderma.

O volume por ponto também já foi dobrado em estudo. Punga e colaboradores (2016, Dermatol Surg) entregaram a mesma dose de 10 U por ponto em 0,05 mL ou em 0,1 mL, e o volume dobrado foi não inferior ao volume de bula pelo potencial de ação muscular composto. Schlessinger e colaboradores (2021, J Drugs Dermatol) foram além: frasco de 300 U em 3 mL, cinco injeções de 0,1 mL (10 U) na glabela, 224 pacientes tratados contra 77 com placebo; no primeiro mês, a resposta composta de 2 graus foi de 65,8% contra 0%. Atenção: 3 mL é o volume desse ensaio de fase III, não um dos dois volumes descritos na versão da bula americana citada aqui — use o que a bula brasileira vigente declarar.

O que o volume muda, então, é o campo. A revisão de Brodsky e colaboradores (2012, Tremor Other Hyperkinet Mov) conclui que volume de injeção, concentração e dose influenciam a difusão — e que são justamente os fatores que o médico controla. Hexsel e colaboradores (2013, JAMA Dermatol), em 19 mulheres com injeções de mesmo volume na fronte, concluíram que a difusão depende da dose: a dose mais potente difunde mais. Na prática, perto de uma estrutura que você não quer atingir, o raciocínio é volume pequeno por ponto e dose exata.

Junção neuromuscular — bloqueio da liberação de acetilcolina pela toxina botulínica — Dr. Thiago Perfeito
Terminal nervoso sobre a placa motora. Em destaque, a vesícula de acetilcolina junto à membrana: é essa fusão, que libera o sinal para o músculo, que a toxina tipo A impede. O soro não muda esse mecanismo; muda até onde a toxina chega antes de se ligar ao terminal.

Como reconstituir sem espuma, passo a passo

  1. Confira o frasco: marca, unidades por frasco, lote e validade. Pela bula americana, o frasco fechado fica na geladeira, entre 2 e 8 °C, protegido da luz.
  2. Escolha o volume antes de abrir e escreva a conta: unidades do frasco ÷ mL de soro = unidades por mL.
  3. Diluente: cloreto de sódio 0,9% sem conservante, que é o que a bula americana declara (confira o da bula brasileira). Outro diluente está fora da bula.
  4. Aspire o volume exato em seringa graduada, sem bolha.
  5. Limpe a rolha com antisséptico e deixe secar.
  6. Confira o vácuo: ao atravessar a rolha, o vácuo do frasco deve puxar o soro. A bula americana manda não usar o frasco se não houver vácuo. Segure o êmbolo para que o vácuo não puxe o soro de uma vez.
  7. Deixe o soro escorrer pela parede: agulha inclinada, bisel voltado para o vidro, o diluente descendo pela parede interna do frasco — nunca em jato direto sobre o pó.
  8. Dissolva girando: movimento circular suave até não restar pó. A bula americana diz “gire suavemente para dissolver”; não agite.
  9. Rotule e carregue: data, hora e concentração no frasco; seringas carregadas com a dose de cada ponto antes de começar.
Reconstituição do frasco de toxina — diluente escorrendo pela parede do frasco — Dr. Thiago Perfeito
Agulha inclinada contra a parede interna do frasco: o diluente escorre pelo vidro até o pó, sem jato e sem espuma. Depois, o frasco é girado suavemente até a dissolução completa.

E se fizer espuma? O único ensaio clínico localizado sobre isso foi feito com outra toxina: Trindade de Almeida e colaboradores (2003, Dermatol Surg) trataram seis voluntárias em hemiface, uma metade com onabotulinumtoxinA reconstituída com cuidado e a outra com o frasco agitado de propósito, e não viram diferença de paralisia muscular em 15 dias nem em 4 meses. Isso não autoriza sacudir o Dysport: é um estudo pequeno, com outra marca, e a bula do Dysport pede dissolução suave. O ganho de evitar espuma é prático — espuma atrapalha a leitura da seringa, e bolha aspirada é volume que não carrega unidade.

Guarda depois de reconstituir: o relógio de 24 horas

Pela bula americana, o Dysport reconstituído fica no frasco original, na geladeira, entre 2 e 8 °C, protegido da luz, por até 24 horas — e é descartado se não for usado nesse prazo. Não se congela o produto reconstituído, e o frasco é de uso único. No Brasil, prazo e condição de guarda são os da bula vigente; se ela disser diferente, ela vence.

O manuseio aparece na literatura como causa de toxina que “não pegou”. A revisão de Kroumpouzos e Silikovich (2025, JMIR Dermatol) lista o manuseio inadequado da toxina entre os fatores que desencadeiam a falta de resposta, ao lado de práticas de injeção incorretas. Por isso, quando o paciente volta dizendo que o efeito foi fraco, a primeira hipótese é dose subdimensionada, ponto fora do músculo ou frasco mal conservado — não anticorpo.

Rótulo e rastreabilidade

Uma dose escrita em mililitros, sem a concentração ao lado, não é dose: é volume. “0,1 mL na glabela” significa 12 U numa diluição e 20 U na outra. O registro que permite repetir ou corrigir o tratamento no retorno tem quatro camadas:

Por que não existe conversão para outra marca

A bula brasileira do Dysport declara que as unidades Speywood são específicas da preparação e não são intercambiáveis — e registra que a razão fixa de conversão usada no passado pode ser inadequada. As bulas do Botox e do Xeomin dizem o mesmo das unidades delas. O consenso de Maas e colaboradores (2012, Aesthet Surg J), feito por um comitê de 13 médicos, concluiu que doses de preparações diferentes não podem ser convertidas com uma razão fixa, e que o tamanho do “campo de efeito” é difícil de medir, com comparações entre produtos de resultado equívoco.

Na prática: trocar de marca é escrever uma prescrição nova, em unidades da nova marca e pela bula dela — nunca multiplicar a dose antiga por um fator. Tabela de conversão de aula não tem lastro em bula de fabricante.

Erros comuns na diluição do Dysport

O Dr. Thiago Perfeito declara não ter relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica.

Onde isso se aprende na mão

A conta do frasco se aprende no papel; a leitura da seringa, a marcação e a injeção, só com o produto na mão. A formação Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa) é organizada em módulos presenciais de um sábado, com pré-work gravado antes do encontro, turmas pequenas e aplicação em paciente modelo sob supervisão. Os módulos estão em /cursos/, e outros textos da biblioteca para médicos em /cursos/blog/.

Perguntas frequentes

Qual a diluição do Dysport conforme a bula?

A apresentação e o volume de reconstituição que valem no Brasil são os da bula brasileira vigente (registro MS 1.6977.0001) — confira na bula que acompanha o frasco. Os números a seguir não são dela: a bula americana (Prescribing Information) descreve, para uso estético, o frasco de 300 U reconstituído com 2,5 mL de cloreto de sódio 0,9% sem conservante (12 U por 0,1 mL) ou com 1,5 mL (20 U por 0,1 mL).

Diluir mais o Dysport deixa a toxina mais fraca?

Não, se a dose em unidades for mantida. Mais soro reduz as unidades por 0,1 mL, então você injeta mais volume para entregar as mesmas unidades. No ensaio de Kaufman e colaboradores (2019), 50 U reconstituídas em 1,5 mL ou 2,5 mL não tiveram diferença significativa de eficácia nem de duração.

Quantas unidades de Dysport há em 0,1 mL?

Depende da diluição: é a conta unidades do frasco ÷ mL de soro. Com os números da bula americana (no Brasil, confira os da bula brasileira), 300 U em 2,5 mL dão 120 U/mL (12 U por 0,1 mL); 300 U em 1,5 mL dão 200 U/mL (20 U por 0,1 mL).

Por quanto tempo o Dysport reconstituído pode ser guardado?

Pela bula americana, até 24 horas, no frasco original, na geladeira entre 2 e 8 °C e protegido da luz; depois disso, descarta-se. Não se congela o reconstituído. No Brasil, vale o que estiver na bula vigente.

Qual diluente usar para reconstituir o Dysport?

Cloreto de sódio 0,9% sem conservante, que é o diluente declarado em bula. Qualquer outro diluente está fora da bula.

Fazer espuma na reconstituição estraga a toxina?

A bula do Dysport pede dissolução suave, girando o frasco. Um estudo pequeno com onabotulinumtoxinA (seis voluntárias, 2003) não encontrou diferença de efeito com espuma, mas foi feito com outra marca e não autoriza agitar o Dysport. Evitar espuma também preserva a leitura correta da seringa.

Existe tabela para converter unidades de Botox em Dysport?

Não com lastro em bula. A bula brasileira do Dysport declara que as unidades Speywood não são intercambiáveis e que a razão fixa usada no passado pode ser inadequada; o consenso de Maas e colaboradores (2012) concluiu que não há razão fixa de conversão. Trocar de marca é prescrever de novo, pela bula da nova marca.

O que anotar no prontuário depois de reconstituir?

Marca, lote, validade, volume de soro, concentração resultante, unidades por ponto e total, e o mapa de pontos. Dose anotada só em mL, sem concentração, não permite repetir nem corrigir o tratamento no retorno.

Referências

  1. Kaufman J, Cohen JL, Peredo MI, et al. Clinical Assessment of 2 Licensed AbobotulinumtoxinA Injection Volumes for the Treatment of Glabellar Lines. Dermatol Surg. 2019;45(10):1274-1284. · PMID 30893159 · DOI 10.1097/DSS.0000000000001926
  2. Punga AR, Alimohammadi M, Fagrell D, et al. A Randomized, Comparative Study to Evaluate Efficacy and Safety of Two Injection Volumes of AbobotulinumtoxinA in Treatment of Glabellar Lines. Dermatol Surg. 2016;42(8):967-976. · PMID 27399956 · DOI 10.1097/DSS.0000000000000805
  3. Schlessinger J, Friedmann DP, Mayoral F, et al. AbobotulinumtoxinA Treatment of Glabellar Lines Using a New Reconstitution and Injection Volume: Randomized, Placebo-Controlled Data. J Drugs Dermatol. 2021;20(9):988-995. · PMID 34491022 · DOI 10.36849/jdd.6130
  4. Brodsky MA, Swope DM, Grimes D. Diffusion of botulinum toxins. Tremor Other Hyperkinet Mov (N Y). 2012;2. · PMID 23440162 · DOI 10.7916/D88W3C1M
  5. Hexsel D, Hexsel C, Siega C, et al. Fields of effects of 2 commercial preparations of botulinum toxin type A at equal labeled unit doses: a double-blind randomized trial. JAMA Dermatol. 2013;149(12):1386-1391. · PMID 24108521 · DOI 10.1001/jamadermatol.2013.6440
  6. Trindade De Almeida AR, Kadunc BV, Di Chiacchio N, Neto DR. Foam during reconstitution does not affect the potency of botulinum toxin type A. Dermatol Surg. 2003;29(5):530-531. · PMID 12752523 · DOI 10.1046/j.1524-4725.2003.29125.x
  7. Kroumpouzos G, Silikovich F. Exploring Nonresponse to Botulinum Toxin in Aesthetics: Narrative Review of Key Trigger Factors and Effective Management Strategies. JMIR Dermatol. 2025;8:e69960. · PMID 40273416 · DOI 10.2196/69960
  8. Maas C, Kane MA, Bucay VW, et al. Current aesthetic use of abobotulinumtoxinA in clinical practice: an evidence-based consensus review. Aesthet Surg J. 2012;32(1 Suppl):8S-29S. · PMID 22941910 · DOI 10.1177/1090820X12455192
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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