Fios de PDO: tipos (lisos, espiculados, cones) e indicação
Fio de PDO é um fio de polidioxanona, o mesmo polímero da sutura cirúrgica absorvível, e o que muda de um fio para outro é o desenho da superfície: o liso estimula colágeno ao longo do trajeto, o espiculado prende o tecido e reposiciona, e o fio com cones — desenho que também aparece em outros polímeros — ancora por pontos distribuídos. A indicação nasce desse desenho. Quem escolhe o fio pela embalagem, e não pelo que o tecido precisa, coloca fio de estímulo em ptose e fio de tração em pele que só pedia qualidade.
O material: o que a polidioxanona faz no tecido
A polidioxanona é absorvível, em torno de 6 a 8 meses, e provoca no trajeto uma reação de corpo estranho controlada que termina em colágeno novo. Não é ácido poli-L-láctico nem caprolactona: esses polímeros pertencem a outras famílias de fio, como a linha absorvível da Aptos, feita de copolímero de ácido poli-L-láctico e ε-caprolactona.
Dois estudos em animal mostram a sequência biológica. Kim e colaboradores (2017, Dermatol Surg) implantaram fragmentos de fio de PDO espiculado monodirecional no dorso de 12 cobaias e colheram tecido em 1, 3 e 7 meses. Cada fragmento formou uma cápsula fibrosa ao redor do fio; a reação inflamatória, com infiltrado de células inflamatórias e fibroblastos, foi mais forte no primeiro mês e diminuiu depois. O colágeno tipo 1 e o TGF-β1 ficaram significativamente acima da pele normal durante os 7 meses do estudo.
Ha e colaboradores (2022, J Cosmet Dermatol) compararam PDO e policaprolactona (PCL) em rato, em quatro desenhos: fio simples, de 4 filamentos, de 12 filamentos e espiculado. A formação de colágeno subiu nas primeiras 12 semanas em todos os grupos e caiu depois. O PDO levou cerca de 24 semanas para se degradar, enquanto o PCL permaneceu no tecido por mais de um ano, com queda de colágeno mais tardia. Os autores observaram também que quanto maior a superfície de contato entre fio e tecido, maior a resposta — mais células inflamatórias, miofibroblastos e fibroblastos. Esse achado explica por que o desenho do fio importa tanto quanto o polímero.
Como os fios de PDO se classificam
Há quatro eixos úteis para o injetor, e cada um responde a uma pergunta diferente sobre o fio:
- Superfície: liso (mono), com vários filamentos ou torcido (multi, espiralado), espiculado (cog) e com cones.
- Direção das espículas: unidirecional ou bidirecional — define se o fio ancora numa ponta e traciona na outra ou se prende o tecido nos dois sentidos a partir do centro.
- Forma de inserção: em I, um trajeto reto a partir de um ponto de entrada, ou em U, em que o fio entra e volta formando uma alça a partir de dois pontos próximos.
- Veículo: fio montado em agulha ou em cânula, com calibre e comprimento definidos pelo fabricante de cada produto.
Liso (mono)
O fio liso não traciona. Sem espícula, ele não tem onde prender o septo fibroso, então o efeito é de estímulo: colágeno ao redor de cada trajeto, distribuído em malha superficial. Shin e colaboradores (2019, J Cosmet Laser Ther) inseriram quatro tipos de fio de PDO e um fio monofilamentar de ácido polilático (PLA) no dorso de rato. Os fios com múltiplos filamentos produziram mais colágeno na segunda semana do que o fio simples, e aumentar o número de fios aumentou a síntese. Na 12ª semana o colágeno tinha caído de forma acentuada, e os fios seguiam no tecido envoltos em estrutura semelhante a cápsula fibrosa. A mensagem clínica é coerente com a da indicação: o fio liso trabalha qualidade e firmeza, em malha, e o resultado depende de densidade de trajetos, não de vetor.
Multi e espiralado
São variações do fio sem espícula com mais superfície por trajeto: vários filamentos trançados ou um filamento enrolado em espiral sobre a agulha. Pelo achado de Ha e colaboradores, mais superfície significa mais resposta tecidual. Na prática, servem para estímulo concentrado em área pequena, onde se quer um pouco mais de corpo no trajeto sem a tração de um fio espiculado.
Espiculado (cog)
É o fio que reposiciona. As espículas prendem os septos fibrosos da gordura subcutânea e, quando o fio é tensionado, o tecido acompanha o sentido do vetor. O bidirecional prende o tecido nos dois sentidos a partir do meio do fio; o unidirecional depende de uma ancoragem firme na extremidade oposta à tração. Kapicioğlu e colaboradores (2019, Dermatol Surg) compararam fio espiculado de PDO e fio de ácido poli-L-láctico (PLLA) em 30 ratas, divididas entre controle, fio espiculado e fio de PLLA. No primeiro mês, só o grupo PLLA aumentou de forma significativa a espessura da derme e o número de fibroblastos em relação ao controle. Aos 3 e 6 meses os dois grupos ficaram parecidos entre si e ambos superiores ao controle: o espiculado de PDO também espessa derme e estimula colágeno, só que um pouco mais tarde.

Em U ou em I: duas lógicas para o mesmo espiculado
A revisão de Hong e colaboradores (2025, Life (Basel)) separa os fios espiculados pela forma de inserção. O fio em U, do tipo suspensão, faz alça a partir de dois pontos próximos e se ancora na região temporal; os autores descrevem efeito de elevação mais forte, com risco maior de sangramento, dimpling e lesão de tecido nos pontos de saída. O fio em I, inserido em trajeto reto, traumatiza menos o tecido e incomoda menos a paciente, com elevação menos dramática. A conclusão da revisão é útil para quem está montando o próprio repertório: o melhor resultado veio da seleção de paciente e da combinação de desenhos, e não de um único tipo de fio aplicado a todos.
Com cones
Em vez de espículas cortadas ou moldadas no corpo do fio, a ancoragem é feita por pequenos cones distribuídos ao longo do trajeto. O tecido se acomoda ao redor de cada cone, e a tração se concentra nesses pontos, não ao longo de uma fileira contínua de espículas. O comportamento sob tensão é diferente do espiculado, e por isso a técnica de tensionamento e o número de pontos de ancoragem precisam ser aprendidos com o produto específico na mão. O material do fio e dos cones também muda de um produto para outro, então a composição se confere na instrução de uso antes de classificar o fio como PDO.
Tabela: cada desenho, o que faz e onde entra
| Desenho | Mecanismo principal | Indicação típica | O que ele não faz |
|---|---|---|---|
| Liso (mono) | Colágeno ao redor do trajeto, em malha | Firmeza e textura de pele, flacidez discreta sem descida de tecido | Não reposiciona tecido |
| Multi / espiralado | Mais superfície por trajeto, mais resposta tecidual | Estímulo concentrado em área pequena | Não substitui preenchedor nem fio de tração |
| Espiculado (cog) | Espículas prendem os septos da gordura subcutânea | Ptose leve a moderada: cauda da sobrancelha, linha da mandíbula, região cervical | Não remove excesso de pele |
| Com cones | Ancoragem por pontos ao longo do fio | Reposicionamento com tração distribuída em pontos | Não se tensiona como o espiculado |
Como a indicação sai do diagnóstico
A pergunta que decide o fio não é "qual fio a paciente quer", e sim "o que aconteceu com este tecido". Três cenários organizam a escolha:
- Pele que perdeu qualidade, sem descida de tecido. A queixa é textura, firmeza e brilho. O fio liso em malha é candidato; fio espiculado aqui só acrescenta risco.
- Tecido que desceu, com pele que ainda acompanha. Jowl incipiente, cauda da sobrancelha caída, contorno cervical frouxo. É a indicação do espiculado (ou do fio com cones), com vetor oposto à queda.
- Excesso de pele, flacidez acentuada ou perda de volume dominante. O fio sozinho não entrega o que a paciente imagina. Excesso de pele é território cirúrgico; perda de volume pede preenchedor ou bioestimulador primeiro.
A idade pesa na escolha do material, e os dados de prática mostram isso. Okumura e colaboradores (2026, Aesthetic Plast Surg) analisaram 106.639 pacientes de 105 clínicas no Japão, entre 2020 e 2024. O PDO foi usado em 57,2% dos casos, sobretudo em pacientes de 20 a 39 anos, enquanto o PCL predominou nos mais velhos; o número médio de fios por procedimento foi maior no grupo PDO (10,52 contra 6,57). Para a paciente de 45 a 60 anos, que já tem descida de terço médio e inferior, a escolha costuma ir além do PDO isolado: material de maior permanência, combinação com outras modalidades e uma conversa franca sobre o que o fio consegue fazer.

PDO, PLLA/PCL e Aptos: o material muda o comportamento
Na mesma categoria comercial de "fio de sustentação" convivem polímeros diferentes, e a escolha do material é tão clínica quanto a do desenho:
- PDO (polidioxanona): absorvível em torno de 6 a 8 meses, bioestímulo e sustentação leve.
- PLLA e PCL: ácido poli-L-láctico e policaprolactona, isolados ou em copolímero. No estudo de Ha e colaboradores, o PCL permaneceu no tecido por mais de um ano e manteve a formação de colágeno por mais tempo que o PDO.
- Aptos (linha absorvível): copolímero de poli-L-lactídeo e ε-caprolactona, P(LA/CL), algumas linhas com cobertura de ácido hialurônico; sustentação mecânica imediata somada a bioestímulo progressivo. A mesma marca tem uma linha não absorvível, de polipropileno, que é outra decisão clínica.

Erros de indicação mais comuns
- Vender fio liso como lifting. Sem espícula ou cone, o fio não tem como reposicionar tecido.
- Usar espiculado em pele fina sem descida de tecido. A tração não tem o que corrigir e a pele fina mostra cada espícula.
- Tratar excesso de pele com fio. A expectativa não fecha, e a paciente sai frustrada mesmo com a técnica correta.
- Escolher o material pela marca, não pelo tempo de permanência. Polímeros diferentes ficam tempos diferentes no tecido e estimulam colágeno por tempos diferentes.
- Repetir o mesmo desenho em toda paciente. Como resumiu a revisão de Hong, o resultado vem da seleção e da combinação, não de um tipo único de fio.
Onde isso vira mão
Classificação de fio se aprende lendo; escolher o fio certo para o tecido certo se aprende diante da paciente. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), os fios ficam no Módulo A1, Face Avançada: o pré-work gravado cobre materiais e mecanismos de PDO, PLLA/PCL e Aptos, e o sábado presencial na clínica INTI, em Brasília, inclui hands-on de fios com vetor planejado em paciente modelo, numa turma de no máximo oito médicos. Os fios de PDO entram discriminados por desenho (mono, multi, espiralado e espiculado) e por região — supraciliar, linha da mandíbula e cervical. Para comparar formações com critério, veja como escolher um curso de fios de sustentação; os quatro módulos estão em Cursos.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre fio de PDO liso e espiculado?
O liso estimula colágeno; o espiculado reposiciona tecido. Sem espículas, o fio liso não prende o septo fibroso da gordura subcutânea e trabalha em malha, por firmeza e textura. O espiculado tem espículas que prendem o tecido e, sob tensão, levam-no no sentido do vetor planejado.
Fio com cones é a mesma coisa que fio espiculado?
Não. No espiculado, a ancoragem é feita por uma fileira de espículas no corpo do fio; no fio com cones, por pequenos cones distribuídos ao longo do trajeto. A tração se concentra em pontos e o tensionamento é diferente, então a técnica precisa ser aprendida com o produto específico — e o material do fio com cones varia conforme o fabricante.
Quanto tempo o fio de PDO fica no tecido?
A polidioxanona é absorvível em torno de 6 a 8 meses. Em rato, Ha e colaboradores observaram degradação do PDO em cerca de 24 semanas, enquanto a policaprolactona permaneceu por mais de um ano.
Fio de PDO e fio Aptos são o mesmo material?
Não. O PDO é polidioxanona. A linha absorvível da Aptos é um copolímero de poli-L-lactídeo e ε-caprolactona, P(LA/CL), com algumas versões cobertas de ácido hialurônico; a marca também tem uma linha não absorvível, de polipropileno.
Quando o fio de PDO não é indicado?
Quando a queixa principal é excesso de pele, flacidez acentuada ou perda de volume dominante. Excesso de pele é indicação cirúrgica, e perda de volume pede preenchedor ou bioestimulador. Fio espiculado em pele fina sem descida de tecido também tende a marcar a pele sem benefício.
Fio liso de PDO dá efeito lifting?
Não. O fio liso não tem estrutura de ancoragem; o efeito é de estímulo de colágeno ao redor dos trajetos. Em rato, Shin e colaboradores mostraram que mais filamentos e mais fios aumentam a produção de colágeno, mas isso é qualidade de pele, não reposicionamento.
O que é fio espiculado em U e em I?
É a forma de inserção. O fio em I segue um trajeto reto a partir de um ponto de entrada; o fio em U entra e volta formando uma alça a partir de dois pontos próximos, em geral ancorado na região temporal. Na revisão de Hong e colaboradores, o U deu elevação mais forte com mais complicações, e o I, menos trauma com elevação menor.
Referências
- Kim J, Zheng Z, Kim H, et al. Investigation on the Cutaneous Change Induced by Face-Lifting Monodirectional Barbed Polydioxanone Thread. Dermatol Surg. 2017;43(1):74-80. · PMID 27748691 · DOI 10.1097/DSS.0000000000000925
- Ha YI, Kim JH, Park ES. Histological and molecular biological analysis on the reaction of absorbable thread; Polydioxanone and polycaprolactone in rat model. J Cosmet Dermatol. 2022;21(7):2774-2782. · PMID 34847267 · DOI 10.1111/jocd.14587
- Shin JJ, Park TJ, Kim BY, et al. Comparative effects of various absorbable threads in a rat model. J Cosmet Laser Ther. 2019;21(3):158-162. · PMID 29979893 · DOI 10.1080/14764172.2018.1493511
- Kapicioğlu Y, Gül M, Saraç G, et al. Comparison of Antiaging Effects on Rat Skin of Cog Thread and Poly-L-Lactic Acid Thread. Dermatol Surg. 2019;45(3):438-445. · PMID 30608294 · DOI 10.1097/DSS.0000000000001717
- Hong GW, Wan J, Yoon SE, et al. Pre- and Post-Procedural Considerations and Thread Types for Thread Lifting. Life (Basel). 2025;15(1):85. · PMID 39860025 · DOI 10.3390/life15010085
- Okumura K, Tamura T, Funakoshi Y, Teranishi H. Five-Year Trends in Facial Thread-Lift Practice: A Nationwide Cross-Sectional Analysis of 106,639 Cases by Age Group and Thread Material. Aesthetic Plast Surg. 2026;50(3):786-794. · PMID 41053478 · DOI 10.1007/s00266-025-05302-z
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