Fios de sustentação: complicações e como evitar
Fios de sustentação

Fios de sustentação: complicações e como evitar

Quase toda complicação de fio de sustentação tem endereço: o plano em que o fio correu, a tensão com que foi cortado ou a paciente para quem foi indicado. Abaixo, complicação por complicação, o que a causa, como preveni-la e o que fazer quando ela aparece — do dimpling ao pseudoaneurisma tardio.

As complicações dos fios de sustentação vêm, na maioria, de três decisões do injetor — plano, tensão e seleção da paciente — e por isso quase todas são previsíveis: dimpling e fio palpável nascem de fio superficial ou tracionado demais, lesão de nervo e de parótida nasce de fio profundo demais, e a frustração nasce de indicação errada. Edema e equimose fazem parte do pós-procedimento esperado. O que pede intervenção — irregularidade persistente, fio exposto, infecção, granuloma, lesão de glândula, nervo ou vaso — tem causa identificável e conduta própria.

O que as séries de casos mostram

Duas séries ajudam a dimensionar o problema, cada uma de um ângulo. Bertossi e colaboradores (2019, Aesthet Surg J) revisaram 160 pacientes consecutivos tratados com fios espiculados de PDO no terço médio e na linha da mandíbula. A taxa de complicações no pós-procedimento precoce foi de 34% (55 de 160):

Na mesma série, a melhora da ptose foi imediata e se manteve no primeiro mês, caiu de forma perceptível até o sexto mês e não estava mais presente em um ano. Os autores recomendam reservar o procedimento a pacientes com contraindicação a cirurgia facial mais invasiva. É um dado que precisa entrar no consentimento: o fio espiculado de PDO reposiciona por um período, não para sempre.

Li e colaboradores (2021, Plast Reconstr Surg Glob Open) olharam do outro lado do balcão: 190 pacientes que chegaram a um hospital de referência em Pequim para tratar complicações de fios aplicados em outros serviços, entre 2014 e 2020. A distribuição foi esta: dimpling em 40,5%, irregularidade de contorno em 16,8%, fio visível em 16,3%, infecção em 8,9%, extrusão em 5,3%, edema em 4,7%, paralisia facial incompleta em 2,6%, hiperpigmentação em 2,1% e hematoma em 2,1%. Por ser uma série de encaminhamento, esses percentuais descrevem o perfil de quem procurou tratamento, não a incidência. A causa que os autores apontam é o que interessa a quem treina: desconhecimento de anatomia facial, técnica pouco treinada e leitura estética equivocada.

As incidências combinadas da meta-análise de complicações já foram discutidas na página sobre como escolher um curso de fios de sustentação. Aqui o foco é causa, prevenção e conduta, complicação por complicação.

Dimpling e irregularidade de contorno

Causa: fio perto demais da derme, espícula presa à pele, ou tensão excessiva no momento do corte. A revisão de Yi e Park (2025, J Cosmet Dermatol) coloca o dimpling entre as complicações comuns e o atribui sobretudo a técnica inadequada ou a fatores anatômicos. Park e colaboradores (2025, J Craniofac Surg) descrevem duas manobras para manter o fio na camada pretendida — o pinçamento e a reunião do tecido reticular antes de avançar — e insistem em alinhar o fio ao movimento do tecido e ao SMAS.

Prevenção: pinçamento suave para ficar no subcutâneo, resistência uniforme durante todo o trajeto, tensão progressiva e conferência visual de cada fio antes de cortar.

Conduta: a revisão de Yi e Park lista, em escalada, massagem, injeção de soro ou de preenchedor, toxina botulínica e intervenção cirúrgica nos casos persistentes ou graves. A depressão dos primeiros dias, que melhora com a acomodação do tecido, é diferente da espícula presa à derme, que tende a não melhorar sozinha e pode exigir liberação do ponto ou retirada do fio.

Fio visível, palpável ou exposto

É o erro de plano que aparece na superfície. Fio superficial pode ser visto, palpado e, quando a ponta fica sob tensão perto da pele, extruir. Yi e colaboradores (2025, J Craniofac Surg) relataram o caso de uma mulher de 32 anos com fio colocado superficialmente, retirado por técnica minimamente invasiva com um gancho de extração, sem complicações. A lição prática é ter, no consultório onde se aplica fio, instrumental e treino para retirar fio — antes de precisar.

Prevenção: manter o plano até o fim do trajeto (a ponta é a parte que mais sobe), cortar o excedente com a pele relaxada e acomodar a extremidade abaixo do ponto de entrada.

Infecção, granuloma e fibrose

Na série de Bertossi, a infecção foi de 6,2%. Park e colaboradores lembram que granulomas, infecções e fibrose excessiva podem ocorrer e que, às vezes, retirar o fio é a conduta mais segura. Na prática, isso se traduz em três regras:

  1. Técnica asséptica de procedimento, não de injeção: antissepsia ampla, campo, luvas estéreis e fio que não toca superfície não estéril.
  2. Dor crescente depois dos primeiros dias, calor, flutuação ou secreção pedem reavaliação presencial no mesmo dia. Não é edema esperado.
  3. Coleção ou nódulo inflamatório que não responde ao tratamento clínico indica retirada do fio. O ultrassom ajuda a localizar o fio e a coleção antes de abordar.

Nervo facial e parótida

Lesão de nervo e de glândula é o preço do fio profundo demais. Na série de encaminhamento de Li, 2,6% chegaram com paralisia facial incompleta; na de Bertossi, 1,2% tiveram rigidez facial temporária. Yi e Park classificam lesão nervosa e de parótida entre as complicações menos frequentes, mas de manejo difícil, e relatam que a técnica guiada por ultrassom reduziu o risco sobretudo de lesão glandular e vascular. Park e colaboradores incluem a parotidite entre as complicações de origem anatômica.

Micro-tomografia mostrando SMAS e platisma recobrindo a parótida e o masseter na bochecha lateral — Dr. Thiago Perfeito
Micro-tomografia da bochecha no nível da asa nasal: o platisma (pontas de seta vermelhas) e o SMAS (laranja) recobrem a parótida (PG) e parte do masseter (MA), com pouco espaço entre eles; em amarelo, os zigomáticos maior e menor. Fio que atravessa o SMAS nessa região pode chegar à glândula. Figure 3 de Yi KH et al., Front Med (Lausanne) 2026 (PMID 41684922), reproduzida sob licença CC BY.

Prevenção: o fio de sustentação corre acima do SMAS. Três estruturas precisam estar desenhadas na cabeça antes da primeira punção — o ramo frontal do nervo facial, que cruza o arco zigomático; o ramo marginal mandibular, junto à borda da mandíbula; e a parótida com o ducto, na bochecha lateral. Paciente que refere dor ao mastigar, edema pré-auricular ou saída de saliva por um ponto deve ser examinada com ultrassom.

Vasos: artéria temporal superficial, artéria facial e o nariz

A complicação vascular do fio é rara e costuma ser tardia, o que a torna fácil de não reconhecer. Li e colaboradores (2026, J Craniofac Surg) descreveram uma mulher de 60 anos que, dois meses depois de um fio aplicado em clínica estética, desenvolveu uma massa pulsátil na têmpora: um pseudoaneurisma da artéria temporal superficial, ressecado por completo, sem recidiva. Os autores recomendam treino adequado e atenção à anatomia da face e do pescoço durante o procedimento.

Trajeto da artéria facial da borda da mandíbula até a artéria angular no canto medial do olho — Dr. Thiago Perfeito
Trajeto da artéria facial (em destaque), da borda da mandíbula, à frente do masseter, até a artéria angular junto ao canto medial do olho. Fios do terço médio e inferior terminam no território desse vaso; a ponta não se aprofunda perto do sulco nasogeniano e da comissura.

O nariz merece um parágrafo à parte. Mlosek (2026, Diagnostics (Basel)) relatou uma mulher de 52 anos que recebeu ácido hialurônico e fios de PDO no nariz e evoluiu com eritema, edema, dor, palidez e equimose; foi tratada com hialuronidase e prednisona. Quatro meses depois, o ultrassom de alta frequência mostrou os fios e os depósitos de ácido hialurônico muito próximos da artéria dorsal do nariz, e o Doppler mostrou alteração de fluxo nessa artéria, que o autor atribui provavelmente à compressão pelos fios.

Ultrassom de alta frequência com fios de PDO ao redor da artéria dorsal do nariz e Doppler da artéria — Dr. Thiago Perfeito
Ultrassom de alta frequência na raiz do nariz: os fios de PDO aparecem em corte transversal como estruturas ovais hiperecoicas (setas vermelhas), e entre eles corre a artéria dorsal do nariz (seta azul), confirmada como artéria pelo espectro de fluxo no Doppler. Figure 2 de Mlosek RK, Diagnostics (Basel) 2026 (PMID 41594247), reproduzida sob licença CC BY.

Prevenção: ancoragem temporal entre as fáscias, e não no subcutâneo da têmpora, onde o fio pode ocupar a mesma camada dos ramos da artéria temporal superficial; mapa vascular da região antes de inserir e, onde houver, mapeamento com Doppler. Massa pulsátil, sopro ou dor localizada semanas depois do fio pedem ultrassom com Doppler. Para o raciocínio vascular por região, veja o mapa de zonas de risco vascular da face.

Insatisfação: a complicação que nasce na indicação

Resultado aquém do esperado também é desfecho adverso, e ele tem fatores de risco medidos. Okumura e colaboradores (2025, Plast Reconstr Surg Glob Open) analisaram 1.500 pacientes tratados com fio de PDO em clínicas no Japão e definiram insatisfação como retorno por resultado insuficiente. Ela ocorreu em 3,4% (51 pacientes). Idade (razão de chances de 1,06 por ano) e número de fios (1,09 por fio) foram preditores independentes, com pontos de corte de 43 anos e de 10 fios. Para a paciente de 45 a 60 anos, já acima desse ponto de corte de idade, isso pede duas coisas: avaliação que inclua as outras ferramentas — bioestimulador, preenchedor, tecnologia, cirurgia — e consentimento que diga por escrito quanto tempo o efeito do fio costuma durar.

Checklist de prevenção

Modelo · Antes, durante e depois do fio

  1. Antes: indicação pelo diagnóstico (descida de tecido com pele que acompanha); excluir excesso de pele e perda de volume dominante; expectativa e duração registradas no termo; foto padronizada.
  2. Antes: mapa de nervos, parótida e vasos da região; ultrassom quando disponível.
  3. Durante: técnica asséptica de procedimento; pinçamento suave; plano acima do SMAS do início ao fim do trajeto; ancoragem temporal entre as fáscias.
  4. Durante: tensão progressiva; conferir cada fio antes de cortar; número de fios proporcional ao vetor, não à expectativa.
  5. Depois: orientação escrita sobre sinais de alarme (dor crescente, calor, secreção, assimetria nova, massa pulsátil); retorno programado; canal de contato direto.
  6. Sempre: instrumental de retirada de fio no consultório e um protocolo de conduta para dimpling, extrusão e infecção.

Onde se treina a conduta

Ler sobre complicação ensina a reconhecê-la; conduzi-la exige ter passado pela sequência antes. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), o Módulo A1, Face Avançada, reúne fios PDO e Aptos, a anatomia de risco do ramo temporal, do marginal mandibular e do ducto parotídeo e, no sábado presencial em Brasília, uma simulação de conduta em dimpling e extrusão, ao lado da simulação de oclusão vascular. O hands-on de fios é em paciente modelo, com vetor planejado, em turma de até oito médicos. Para o raciocínio de complicação em injetáveis de forma mais ampla, veja como escolher um curso de complicações; os quatro módulos estão em Cursos.

Perguntas frequentes

Qual é a complicação mais comum do fio de sustentação?

Edema e equimose fazem parte do pós-procedimento; entre as complicações que pedem conduta, dimpling e fio superficial lideram. Na série de 160 pacientes de Bertossi e colaboradores, houve deslocamento superficial do fio em 11,2% e dimpling em 6,2%. Entre 190 pacientes encaminhados por complicação na série de Li e colaboradores, o dimpling respondeu por 40,5%.

Dimpling depois de fio de PDO desaparece sozinho?

Depende da causa. A depressão dos primeiros dias, por acomodação do tecido, tende a melhorar. A espícula presa à derme não melhora sozinha. A revisão de Yi e Park descreve a escalada: massagem, soro ou preenchedor, toxina botulínica e intervenção cirúrgica nos casos persistentes.

Quando retirar o fio de sustentação?

Quando o fio está exposto ou palpável na superfície, quando há infecção ou granuloma que não responde ao tratamento clínico e quando a irregularidade persiste apesar das medidas conservadoras. Park e colaboradores apontam a retirada como a conduta mais segura em parte dos casos de granuloma, infecção e fibrose.

Fio de sustentação pode lesar o nervo facial?

Pode, sobretudo quando passa abaixo do SMAS. Na série de encaminhamento de Li e colaboradores, 2,6% chegaram com paralisia facial incompleta. O fio de sustentação corre acima do SMAS; os ramos frontal e marginal mandibular e a parótida precisam estar mapeados antes da inserção.

Fio no nariz tem risco vascular?

Tem. Mlosek relatou uma paciente que recebeu ácido hialurônico e fios de PDO no nariz e evoluiu com alteração de fluxo na artéria dorsal do nariz, provavelmente por compressão dos fios, vista no ultrassom com Doppler quatro meses depois.

Por quanto tempo dura o efeito do fio espiculado de PDO?

O reposicionamento é temporário. Na série de Bertossi e colaboradores, a melhora foi imediata, caiu de forma perceptível até o sexto mês e não estava mais presente em um ano. Isso precisa constar no termo de consentimento.

Quem tem mais chance de ficar insatisfeito com o fio?

Pacientes mais velhas e procedimentos com muitos fios. Em 1.500 pacientes, Okumura e colaboradores encontraram idade e número de fios como preditores independentes de insatisfação, com pontos de corte de 43 anos e de 10 fios.

Referências

  1. Bertossi D, Botti G, Gualdi A, et al. Effectiveness, Longevity, and Complications of Facelift by Barbed Suture Insertion. Aesthet Surg J. 2019;39(3):241-247. · PMID 29474522 · DOI 10.1093/asj/sjy042
  2. Li YL, Li ZH, Chen XY, et al. Facial Thread Lifting Complications in China: Analysis and Treatment. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2021;9(9):e3820. · PMID 34549008 · DOI 10.1097/GOX.0000000000003820
  3. Yi KH, Park SY. Facial Thread Lifting Complications. J Cosmet Dermatol. 2025;24(1):e16745. · PMID 39760325 · DOI 10.1111/jocd.16745
  4. Park SY, Wan J, Yoon SE, et al. Facial Thread Lifting Complications: Underlying Causes. J Craniofac Surg. 2025;36(2):547-552. · PMID 39787499 · DOI 10.1097/SCS.0000000000011064
  5. Yi KH, Park SY, Rosellini I, Yoon JH. Effective Management of Thread Misplacement in Thread Lifting Procedures: A Clinical Case Utilizing the Hook for Extraction. J Craniofac Surg. 2025;36(5):1525-1526. · PMID 40029651 · DOI 10.1097/SCS.0000000000011152
  6. Li H, Zhang S, Cao W, et al. Superficial Temporal Artery Pseudoaneurysm Following Facial Thread-Lift: A Rare Complication. J Craniofac Surg. 2026;37(7-8):e677-e679. · PMID 41468260 · DOI 10.1097/SCS.0000000000012291
  7. Mlosek RK. The Usefulness of High-Frequency Ultrasound in Assessing Complications After Minimally Invasive Aesthetic Medicine Procedures, Using the Example of Assessing Blood Flow in the Dorsal Artery of the Nose. Diagnostics (Basel). 2026;16(2):271. · PMID 41594247 · DOI 10.3390/diagnostics16020271
  8. Okumura K, Tamura T, Funakoshi Y, Teranishi H. Predictors of Dissatisfaction After Polydioxanone Thread Lift: A Multicenter Retrospective Analysis. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2025;13(10):e7190. · PMID 41050972 · DOI 10.1097/GOX.0000000000007190
  9. Yi KH, Lee HJ, Lee JH. Anatomical layer analysis for safe thread insertion using micro-CT and ultrasonography: enhancing precision in facial thread-lifting procedures. Front Med (Lausanne). 2026;13:1581406. · PMID 41684922 · DOI 10.3389/fmed.2026.1581406
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

Pós Prática em Medicina Estética Avançada

Formação médico-exclusiva: anatomia, ultrassom, complicações e prática supervisionada — sem atalhos.

Conhecer a formação →