Lip flip com toxina: técnica, dose e limites
Lip flip é a aplicação de microdoses de toxina botulínica na porção marginal do orbicular da boca, junto à borda do vermelhão do lábio superior: o músculo relaxa, o vermelhão gira para fora e aparece mais lábio sem acrescentar volume. Os estudos usam doses totais baixas — 4 U de onabotulinumtoxinA no ensaio mais recente, 4 a 6 U na revisão sistemática —, e o limite do procedimento é funcional: o mesmo músculo que everte o lábio é o que veda a boca para beber de canudo, assobiar e articular algumas consoantes.
O que o lip flip faz — e o que ele não faz
O orbicular da boca não é um anel simples. Ele tem uma porção periférica, mais larga, e uma porção marginal, que corre junto ao vermelhão e é a que dobra o lábio para dentro quando o paciente fecha a boca com força ou sorri. Relaxar parcialmente essa porção marginal deixa o vermelhão rolar para fora.
Germani e colaboradores (2026, Aesthetic Plastic Surgery) mediram isso em 17 mulheres tratadas com 4 U de onabotulinumtoxinA, por estereofotogrametria. A altura do lábio superior aumentou de forma modesta, mas significativa, em 15 dias, e o volume do lábio não mudou. Os autores concluem que o lip flip projeta o lábio por neuromodulação seletiva, não por aumento de volume.
A consequência prática é a indicação. O lip flip mostra o lábio que já existe; não cria corpo, não corrige assimetria de volume e não substitui o preenchedor em quem quer lábio maior. Quem precisa disso é paciente de preenchedor — plano e volume em como fazer preenchimento labial: técnica, volume e planos e, para altura com micro-depósitos verticais, em técnica russa, passo a passo.

Nem todo lábio tem a mesma porção marginal
Park e colaboradores (2020, Aesthetic Surgery Journal) examinaram o orbicular do lábio superior por ultrassom e classificaram a porção marginal na linha média em três tipos:
- Tipo I (20,0%) — porção marginal rara, só em traços;
- Tipo IIa (42,9%) — porção marginal bem desenvolvida e contínua;
- Tipo IIb (37,1%) — porção marginal presente, mas descontínua.
Os autores propõem essa classificação como referência para injetar toxina no lábio superior. A leitura clínica é intuitiva: se a faixa que a toxina relaxa quase não existe, há pouco a everter, e a dose acaba indo para a porção periférica — a responsável pela vedação. Lábio que se enrola para dentro ao sorrir, deixando o vermelhão sumir, é o que costuma ter mais a ganhar.
Quem é bom candidato — e quem não é
- Bom candidato: lábio superior com vermelhão razoável que “desaparece” no sorriso; paciente que quer um ganho sutil e aceita um efeito temporário; quem quer testar a ideia de lábio mais visível antes de pensar em preenchedor.
- Mau candidato: quem precisa de volume (o lip flip não dá); lábio muito fino, sem vermelhão para everter; quem depende da vedação labial no trabalho — instrumentistas de sopro, cantores, profissionais de fala intensa. Para essas pessoas, alguns dias de dificuldade para articular ou para soprar já são um problema real.
- Cuidado redobrado: assimetria de mímica prévia (um lado do lábio já sobe ou se enrola diferente) e lábio superior longo — casos em que vale começar com dose menor e rever antes de completar.
Técnica: pontos, plano e volume
Os estudos concordam no alvo — a borda do vermelhão do lábio superior — e divergem no plano.
- No estudo de Germani e colaboradores, a injeção foi intramuscular no orbicular, com pontos padronizados no lábio superior.
- Bohórquez e colaboradores (2026, JPRAS Open), em três pacientes tratados com letibotulinumtoxinA, reconstituíram a toxina a 4 U/0,1 mL e injetaram 1 U por ponto, superficialmente, ao longo da borda do vermelhão superior, evitando as comissuras e as camadas musculares mais profundas. Em duas semanas, os três tinham eversão sutil do lábio superior e suavização das rugas verticais.
Os princípios que valem nas duas versões:
- Avalie em repouso, em sorriso e em bico. Veja quanto vermelhão some no sorriso, se há assimetria e como o paciente fecha a boca.
- Marque pontos simétricos e afastados das comissuras. Perto do canto da boca, a toxina pode alcançar o modíolo e os músculos que posicionam a comissura.
- Fique raso e perto da borda. A porção marginal é fina e anterior; profundidade maior e ponto alto no lábio branco levam a dose para a porção periférica.
- Volume mínimo por ponto. Concentração alta, microbolus, agulha de 30 a 32 G — na conduta do Dr. Thiago, toxina se aplica sem aspirar e nunca com microcânula.
- Deixe o lábio inferior fora. O lip flip descrito nos estudos é do lábio superior; poupar o inferior preserva parte da vedação da boca.
Dose: de onde vem cada número
Lip flip é uso fora de bula — nenhuma bula de Botox, Dysport ou Xeomin declara dose para o lábio. Os números disponíveis são de estudo:
- Revisão sistemática de Pitchford e colaboradores (2025, Arch Dermatol Res): dos 48 artigos encontrados, sete detalhavam pontos e doses; o procedimento costuma usar 4 a 6 U no orbicular.
- Germani e colaboradores: 4 U de onabotulinumtoxinA no lábio superior.
- Li e colaboradores (2021, Journal of Cosmetic Dermatology): 4 U no total, na borda do vermelhão superior, em três pacientes.
Esses números são de onabotulinumtoxinA (em Bohórquez, de letibotulinumtoxinA). As bulas declaram que unidades de toxinas diferentes não são intercambiáveis; o que se ensina na formação do Dr. Thiago é uma conversão de referência — 1 U de Botox para 2,5 U de Dysport, 1 para 1 com Xeomin — corrigida pela resposta do paciente. E, num lábio em que poucas unidades separam eversão de canudo que vaza, a troca de marca começa abaixo da dose equivalente.
O que esperar do resultado
No estudo de Germani, a satisfação foi alta (FACE-Q médio de 79,2 ± 19,9; mediana de GAIS igual a 1) e a melhora da autoavaliação perioral foi significativa. Li e colaboradores mediram, em 3D, um vermelhão superior mais alto e um lábio branco superior mais curto duas semanas depois — o filtro parece encurtar porque parte dele passa a mostrar vermelhão.

No consultório do Dr. Thiago, o lip flip dura o que a toxina dura na face: 3 a 4 meses. Reaplicar antes de 3 meses contraria o intervalo mínimo das bulas; a revisão fica entre 15 e 30 dias, quando já dá para julgar simetria e eversão.
Limites e efeitos adversos
O que limita o lip flip é a função do orbicular:
- Incompetência labial. Dificuldade de beber de canudo, assobiar ou soprar é o efeito mais descrito. Na revisão de Pitchford, esses efeitos foram leves e transitórios, resolvendo em semanas. No estudo de Germani, dormência temporária e limitação funcional se resolveram espontaneamente em até 30 dias. Nos três pacientes de Li, a paralisia perioral leve e a incompetência da boca duraram cerca de um mês.
- Fala. O orbicular também participa da articulação das consoantes que fecham os lábios; quanto mais a dose sai da porção marginal, mais a fala fica exposta — mais um motivo para dose baixa e ponto raso.
- Assimetria. Um lado everte mais. Corrige-se na revisão, com dose pequena do lado que ficou para trás — nunca acrescentando dose ao lado que já everteu.
- Sorriso alterado. Ponto perto demais da comissura pode mudar o formato do canto da boca.
O paciente precisa ouvir isso antes, por escrito, no termo de consentimento — e a conversa vale mais do que qualquer ajuste de técnica: quem toca trompete na semana seguinte não é candidato.
Lip flip e código de barras tratam o mesmo músculo com objetivos diferentes: o lip flip quer everter o vermelhão; o código de barras quer suavizar as rugas verticais da pele acima dele. Se o paciente vem pelas duas queixas, o planejamento é um só. Nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica.
Onde a dose fina se calibra
Num lábio, a diferença entre eversão e canudo que vaza é de uma ou duas unidades e de um ou dois milímetros de profundidade — calibração que vem de olhar a mímica de perto e de injetar com supervisão. No módulo de Toxina e Preenchimento da Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, o terço inferior entra no mapa de pontos e doses de referência da toxina full face: a parte teórica do sábado é a demonstração comentada; a parte prática, o aluno executando em paciente modelo sob supervisão, em turmas de até 8 médicos, depois de cumprir o pré-work gravado. Como se escolhe um curso de toxina que vá além do terço superior está em melhor curso de toxina botulínica avançada.
Perguntas frequentes
O que é lip flip?
É a aplicação de microdoses de toxina botulínica na porção marginal do orbicular da boca, junto à borda do vermelhão do lábio superior. O músculo relaxa e o vermelhão gira para fora, mostrando mais lábio sem acrescentar volume — no estudo de Germani e colaboradores (2026), a altura do lábio aumentou e o volume não mudou.
Quantas unidades de toxina se usam no lip flip?
É uso fora de bula; os números vêm de estudo. A revisão sistemática de Pitchford e colaboradores (2025) descreve 4 a 6 U no orbicular, e os estudos de Germani (2026) e de Li (2021) usaram 4 U de onabotulinumtoxinA no total. Em outra marca, a dose segue a conversão de referência com ajuste pela resposta, começando abaixo.
Quanto tempo dura o lip flip?
No consultório do Dr. Thiago, 3 a 4 meses — o mesmo tempo da toxina no restante da face. No estudo de Germani, o ganho de altura do lábio apareceu em 15 dias e foi se desfazendo ao longo de 90 dias.
Lip flip substitui o preenchimento labial?
Não. O lip flip everte o lábio que já existe e não dá volume. Para corpo, projeção ou correção de assimetria de volume, a ferramenta é o preenchedor; os dois podem ser combinados no mesmo planejamento.
Quais os efeitos colaterais do lip flip?
Os mais descritos são dificuldade de beber de canudo, assobiar ou soprar, alteração leve na fala e dormência temporária, todos transitórios nos estudos — resolvidos em semanas na revisão de Pitchford e em até 30 dias no estudo de Germani. Assimetria se corrige na revisão de 15 a 30 dias.
Quem não deve fazer lip flip?
Quem precisa de volume, quem tem lábio superior muito fino e quem depende da vedação labial no trabalho, como instrumentistas de sopro e cantores. Lábio superior longo e assimetria de mímica prévia pedem cautela e dose menor.
Qual a diferença entre lip flip e botox no código de barras?
Os dois tratam o orbicular da boca, mas com objetivos diferentes: o lip flip quer everter o vermelhão do lábio superior; o código de barras quer suavizar as rugas verticais da pele acima do lábio.
Referências
- Germani M, Munoz-Lora VRM, Roschel P, Cotofana S. Lip Flip Revisited: Clinical Outcomes and Neuromodulatory Basis of Upper Lip Eversion. Aesthetic Plast Surg. 2026;50(11):4437-4440. · PMID 41915065 · DOI 10.1007/s00266-026-05727-0
- Pitchford CA, Desrosiers AS, Tolkachjov SN. The lip flip: a systematic review of botulinum toxin lip augmentation. Arch Dermatol Res. 2025;317(1):765. · PMID 40377719 · DOI 10.1007/s00403-025-04265-0
- Park HJ, Lee KL, Gil YC, et al. Sonographic Analysis of the Upper Labial Orbicularis Oris and Its Clinical Implications. Aesthet Surg J. 2020;40(7):778-783. · PMID 31761947 · DOI 10.1093/asj/sjz341
- Li Y, Chong Y, Yu N, Dong R, Long X. The use of botulinum toxin A in upper lip augmentation. J Cosmet Dermatol. 2021;20(1):71-74. · PMID 32969573 · DOI 10.1111/jocd.13731
- Bohórquez JMC, Wan J, Wong IKJ, et al. Botulinum neurotoxin for lip flip. JPRAS Open. 2026;51:165-168. · PMID 42434768 · DOI 10.1016/j.jpra.2026.05.041
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