Lip flip com toxina: técnica, dose e limites
Toxina botulínica

Lip flip com toxina: técnica, dose e limites

O lip flip virou pedido de consultório antes de virar literatura: poucas unidades, nenhum volume e um lábio que parece maior. A literatura chegou depois e confirmou o mecanismo — eversão, não preenchimento. Também confirmou o limite: o músculo que everte o lábio é o mesmo que fecha a boca em volta do canudo.

Lip flip é a aplicação de microdoses de toxina botulínica na porção marginal do orbicular da boca, junto à borda do vermelhão do lábio superior: o músculo relaxa, o vermelhão gira para fora e aparece mais lábio sem acrescentar volume. Os estudos usam doses totais baixas — 4 U de onabotulinumtoxinA no ensaio mais recente, 4 a 6 U na revisão sistemática —, e o limite do procedimento é funcional: o mesmo músculo que everte o lábio é o que veda a boca para beber de canudo, assobiar e articular algumas consoantes.

O que o lip flip faz — e o que ele não faz

O orbicular da boca não é um anel simples. Ele tem uma porção periférica, mais larga, e uma porção marginal, que corre junto ao vermelhão e é a que dobra o lábio para dentro quando o paciente fecha a boca com força ou sorri. Relaxar parcialmente essa porção marginal deixa o vermelhão rolar para fora.

Germani e colaboradores (2026, Aesthetic Plastic Surgery) mediram isso em 17 mulheres tratadas com 4 U de onabotulinumtoxinA, por estereofotogrametria. A altura do lábio superior aumentou de forma modesta, mas significativa, em 15 dias, e o volume do lábio não mudou. Os autores concluem que o lip flip projeta o lábio por neuromodulação seletiva, não por aumento de volume.

A consequência prática é a indicação. O lip flip mostra o lábio que já existe; não cria corpo, não corrige assimetria de volume e não substitui o preenchedor em quem quer lábio maior. Quem precisa disso é paciente de preenchedor — plano e volume em como fazer preenchimento labial: técnica, volume e planos e, para altura com micro-depósitos verticais, em técnica russa, passo a passo.

Orbicular da boca e músculos periorais em vista frontal — diagrama — Dr. Thiago Perfeito
O orbicular da boca circunda os lábios; o lip flip mira só a faixa dele que fica junto à borda do vermelhão do lábio superior. Acima, os elevadores do lábio; abaixo, o depressor do ângulo da boca e o mentual — músculos que a microdose do lip flip não deve alcançar.

Nem todo lábio tem a mesma porção marginal

Park e colaboradores (2020, Aesthetic Surgery Journal) examinaram o orbicular do lábio superior por ultrassom e classificaram a porção marginal na linha média em três tipos:

Os autores propõem essa classificação como referência para injetar toxina no lábio superior. A leitura clínica é intuitiva: se a faixa que a toxina relaxa quase não existe, há pouco a everter, e a dose acaba indo para a porção periférica — a responsável pela vedação. Lábio que se enrola para dentro ao sorrir, deixando o vermelhão sumir, é o que costuma ter mais a ganhar.

Quem é bom candidato — e quem não é

Técnica: pontos, plano e volume

Os estudos concordam no alvo — a borda do vermelhão do lábio superior — e divergem no plano.

Os princípios que valem nas duas versões:

  1. Avalie em repouso, em sorriso e em bico. Veja quanto vermelhão some no sorriso, se há assimetria e como o paciente fecha a boca.
  2. Marque pontos simétricos e afastados das comissuras. Perto do canto da boca, a toxina pode alcançar o modíolo e os músculos que posicionam a comissura.
  3. Fique raso e perto da borda. A porção marginal é fina e anterior; profundidade maior e ponto alto no lábio branco levam a dose para a porção periférica.
  4. Volume mínimo por ponto. Concentração alta, microbolus, agulha de 30 a 32 G — na conduta do Dr. Thiago, toxina se aplica sem aspirar e nunca com microcânula.
  5. Deixe o lábio inferior fora. O lip flip descrito nos estudos é do lábio superior; poupar o inferior preserva parte da vedação da boca.

Dose: de onde vem cada número

Lip flip é uso fora de bula — nenhuma bula de Botox, Dysport ou Xeomin declara dose para o lábio. Os números disponíveis são de estudo:

Esses números são de onabotulinumtoxinA (em Bohórquez, de letibotulinumtoxinA). As bulas declaram que unidades de toxinas diferentes não são intercambiáveis; o que se ensina na formação do Dr. Thiago é uma conversão de referência — 1 U de Botox para 2,5 U de Dysport, 1 para 1 com Xeomin — corrigida pela resposta do paciente. E, num lábio em que poucas unidades separam eversão de canudo que vaza, a troca de marca começa abaixo da dose equivalente.

O que esperar do resultado

No estudo de Germani, a satisfação foi alta (FACE-Q médio de 79,2 ± 19,9; mediana de GAIS igual a 1) e a melhora da autoavaliação perioral foi significativa. Li e colaboradores mediram, em 3D, um vermelhão superior mais alto e um lábio branco superior mais curto duas semanas depois — o filtro parece encurtar porque parte dele passa a mostrar vermelhão.

Gráfico da altura do lábio superior e da distância nariz-lábio em 0, 15, 30 e 90 dias após lip flip — figura de estudo — Dr. Thiago Perfeito
Altura média do lábio superior (laranja) e distância entre a base do nariz e o lábio (verde), em milímetros, no início e 15, 30 e 90 dias depois do lip flip. O ganho de altura do lábio aparece em 15 dias e se desfaz ao longo dos meses seguintes. Fig. 3 de Germani M et al., Aesthetic Plast Surg 2026 (PMID 41915065), reproduzida sob licença CC BY.

No consultório do Dr. Thiago, o lip flip dura o que a toxina dura na face: 3 a 4 meses. Reaplicar antes de 3 meses contraria o intervalo mínimo das bulas; a revisão fica entre 15 e 30 dias, quando já dá para julgar simetria e eversão.

Limites e efeitos adversos

O que limita o lip flip é a função do orbicular:

O paciente precisa ouvir isso antes, por escrito, no termo de consentimento — e a conversa vale mais do que qualquer ajuste de técnica: quem toca trompete na semana seguinte não é candidato.

Lip flip e código de barras tratam o mesmo músculo com objetivos diferentes: o lip flip quer everter o vermelhão; o código de barras quer suavizar as rugas verticais da pele acima dele. Se o paciente vem pelas duas queixas, o planejamento é um só. Nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica.

Onde a dose fina se calibra

Num lábio, a diferença entre eversão e canudo que vaza é de uma ou duas unidades e de um ou dois milímetros de profundidade — calibração que vem de olhar a mímica de perto e de injetar com supervisão. No módulo de Toxina e Preenchimento da Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, o terço inferior entra no mapa de pontos e doses de referência da toxina full face: a parte teórica do sábado é a demonstração comentada; a parte prática, o aluno executando em paciente modelo sob supervisão, em turmas de até 8 médicos, depois de cumprir o pré-work gravado. Como se escolhe um curso de toxina que vá além do terço superior está em melhor curso de toxina botulínica avançada.

Perguntas frequentes

O que é lip flip?

É a aplicação de microdoses de toxina botulínica na porção marginal do orbicular da boca, junto à borda do vermelhão do lábio superior. O músculo relaxa e o vermelhão gira para fora, mostrando mais lábio sem acrescentar volume — no estudo de Germani e colaboradores (2026), a altura do lábio aumentou e o volume não mudou.

Quantas unidades de toxina se usam no lip flip?

É uso fora de bula; os números vêm de estudo. A revisão sistemática de Pitchford e colaboradores (2025) descreve 4 a 6 U no orbicular, e os estudos de Germani (2026) e de Li (2021) usaram 4 U de onabotulinumtoxinA no total. Em outra marca, a dose segue a conversão de referência com ajuste pela resposta, começando abaixo.

Quanto tempo dura o lip flip?

No consultório do Dr. Thiago, 3 a 4 meses — o mesmo tempo da toxina no restante da face. No estudo de Germani, o ganho de altura do lábio apareceu em 15 dias e foi se desfazendo ao longo de 90 dias.

Lip flip substitui o preenchimento labial?

Não. O lip flip everte o lábio que já existe e não dá volume. Para corpo, projeção ou correção de assimetria de volume, a ferramenta é o preenchedor; os dois podem ser combinados no mesmo planejamento.

Quais os efeitos colaterais do lip flip?

Os mais descritos são dificuldade de beber de canudo, assobiar ou soprar, alteração leve na fala e dormência temporária, todos transitórios nos estudos — resolvidos em semanas na revisão de Pitchford e em até 30 dias no estudo de Germani. Assimetria se corrige na revisão de 15 a 30 dias.

Quem não deve fazer lip flip?

Quem precisa de volume, quem tem lábio superior muito fino e quem depende da vedação labial no trabalho, como instrumentistas de sopro e cantores. Lábio superior longo e assimetria de mímica prévia pedem cautela e dose menor.

Qual a diferença entre lip flip e botox no código de barras?

Os dois tratam o orbicular da boca, mas com objetivos diferentes: o lip flip quer everter o vermelhão do lábio superior; o código de barras quer suavizar as rugas verticais da pele acima do lábio.

Referências

  1. Germani M, Munoz-Lora VRM, Roschel P, Cotofana S. Lip Flip Revisited: Clinical Outcomes and Neuromodulatory Basis of Upper Lip Eversion. Aesthetic Plast Surg. 2026;50(11):4437-4440. · PMID 41915065 · DOI 10.1007/s00266-026-05727-0
  2. Pitchford CA, Desrosiers AS, Tolkachjov SN. The lip flip: a systematic review of botulinum toxin lip augmentation. Arch Dermatol Res. 2025;317(1):765. · PMID 40377719 · DOI 10.1007/s00403-025-04265-0
  3. Park HJ, Lee KL, Gil YC, et al. Sonographic Analysis of the Upper Labial Orbicularis Oris and Its Clinical Implications. Aesthet Surg J. 2020;40(7):778-783. · PMID 31761947 · DOI 10.1093/asj/sjz341
  4. Li Y, Chong Y, Yu N, Dong R, Long X. The use of botulinum toxin A in upper lip augmentation. J Cosmet Dermatol. 2021;20(1):71-74. · PMID 32969573 · DOI 10.1111/jocd.13731
  5. Bohórquez JMC, Wan J, Wong IKJ, et al. Botulinum neurotoxin for lip flip. JPRAS Open. 2026;51:165-168. · PMID 42434768 · DOI 10.1016/j.jpra.2026.05.041
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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