Nódulos após preenchimento: inflamatórios, não inflamatórios e biofilme
Nódulo depois de preenchimento não é um diagnóstico, é um achado. Ele cabe em três famílias: o nódulo não inflamatório (gel acumulado ou fora do plano, em geral precoce, indolor e de pele normal), o nódulo inflamatório tardio (reação imune ou infecção de baixo grau, muitas vezes ligada a biofilme) e o granuloma de corpo estranho. A pergunta que decide a conduta é se há inflamação. Sem inflamação, a hialuronidase em dose baixa resolve a maior parte dos casos; com inflamação, a infecção precisa ser considerada antes de qualquer corticoide, e a hialuronidase entra junto com antibiótico.
Esta página organiza o raciocínio diagnóstico, a linha do tempo de cada tipo e o que a literatura propõe para cada um. A dose de hialuronidase não está aqui: ela está em dose de hialuronidase por cenário.
O nome engana: nódulo é sinal, não causa
Convery, Davies, Murray e Walker (2021, J Clin Aesthet Dermatol) chamam os nódulos de início tardio de um grupo de complicações pouco compreendido e insistem em que eles não são um diagnóstico. Segundo os autores, a falta de diagnóstico presuntivo leva a dois extremos igualmente ruins: a polifarmácia "em leque", com tudo ao mesmo tempo, e a inércia clínica. Os dois favorecem a cronicidade. A saída proposta é um modelo médico de cuidado, com uso mais rotineiro de histopatologia, marcadores inflamatórios e ultrassom.
Ledon e colaboradores (2013, Am J Clin Dermatol) dão a divisão que serve de ponto de partida. Os nódulos não inflamatórios costumam aparecer logo após a aplicação e quase sempre decorrem de colocação inadequada do produto. Os inflamatórios podem surgir de dias a anos depois; são mais comuns com preenchedores permanentes, mas também descritos com ácido hialurônico, e podem ser secundários a infecção ou biofilme, o que torna arriscado tratá-los só com corticoide.
A linha do tempo como primeira pista
Kroumpouzos e colaboradores (2023, J Plast Reconstr Aesthet Surg), ao revisar as complicações de lábio e região perioral, usam uma classificação por tempo de início que vale para o rosto todo: imediata (nas primeiras 24 horas), precoce (de 24 horas a 4 semanas) e tardia (depois de 4 semanas). O tempo não fecha o diagnóstico, mas muda a probabilidade de cada causa.
Para as reações tardias, a revisão sistemática com metanálise de Seo e colaboradores (2026, Aesthet Surg J Open Forum), com 242 estudos, estimou uma incidência combinada de reação inflamatória tardia de 0,0005 evento por paciente-ano, o equivalente a um caso para cada 2.000 pacientes acompanhados por um ano. A mediana de início foi de 3 meses, com faixa de 2 semanas a 12 anos, e as apresentações mais comuns foram nódulo, vermelhidão, inchaço e endurecimento. É raro, mas a faixa de início explica por que o paciente nem sempre associa o nódulo ao preenchimento feito anos antes.
Nódulo não inflamatório
Como se apresenta. Indolor, de pele com cor normal, móvel ou bem delimitado, notado nos primeiros dias ou semanas. É produto: um bolus grande demais para o plano, gel superficial, acúmulo num ponto de passagem repetida da cânula ou produto que migrou. Nas áreas de pele fina pode vir junto com o tom azulado do efeito Tyndall; a lógica é a mesma, gel no lugar errado.
O que fazer. A revisão de Kroumpouzos e Treacy (2024, JMIR Dermatol) coloca o nódulo não inflamado entre as complicações não emergentes, tratadas com hialuronidase em dose baixa a moderada, e registra que a orientação por ultrassom pode aumentar a eficácia da intervenção. O passo a passo da injeção guiada está em hialuronidase guiada por ultrassom.
Nódulo inflamatório e biofilme
Como se apresenta. Aparece semanas a anos depois, com vermelhidão, calor, dor ou endurecimento; pode ser único ou múltiplo, pode ir e voltar e às vezes acompanha um quadro gripal, uma infecção dentária ou outro estímulo imune. Por trás dele estão duas causas que se misturam: reação de hipersensibilidade tardia ao gel e infecção de baixo grau sustentada por biofilme.
O biofilme é uma comunidade de bactérias aderida ao material implantado e protegida por uma matriz própria, o que a torna pouco acessível ao sistema imune e aos antibióticos. Zhang e colaboradores (2023, Front Microbiol) analisaram 61 pacientes com complicação tardia de preenchedor num único centro: 42 com nódulos, 15 com reação inflamatória crônica e 4 com infecção ativa. A cultura do tecido retirado em cirurgia foi positiva em 7 pacientes (4 com Staphylococcus aureus, 1 com S. epidermidis, 1 com S. saprophyticus e 1 com Mycobacterium abscessus), e a histologia mostrou infiltrado extenso de linfócitos mononucleares com reação de células gigantes no tecido fibroso. Os autores concluem que o biofilme é fator de risco relevante para complicação tardia e atribuem a origem à contaminação por bactérias residentes no local da injeção.

O que a literatura propõe. Artzi e colaboradores (2020, Clin Cosmet Investig Dermatol) montaram um painel de consenso com 18 injetores experientes de 10 países para propor um algoritmo de tratamento da reação inflamatória tardia ao ácido hialurônico; é recomendação de painel, construída sobre revisão da literatura e experiência clínica. Dezesseis preferiram antibiótico como primeira linha, em esquema duplo: uma fluoroquinolona associada a uma tetraciclina ou a um macrolídeo, por 3 a 6 semanas. A maioria evitou corticoide intralesional ou sistêmico, reservando-o para reações desfigurantes ou refratárias. A hialuronidase intralesional foi recomendada por 13 painelistas, parte deles preferindo observar por 48 horas a 2 semanas antes de aplicá-la ou usá-la quando o antibiótico não trouxe melhora. Kroumpouzos e Treacy (2024) seguem a mesma linha: no nódulo inflamado, a hialuronidase entra com antibiótico oral prévio ou simultâneo. Droga e dose de cada antibiótico são decisão do médico assistente, conforme o caso e a cultura quando houver.
O motivo de tanta cautela com o corticoide é o biofilme. Se a causa é infecção de baixo grau, suprimir a inflamação sem tratar a bactéria alivia por alguns dias e deixa o nódulo voltar. Por isso a sequência habitual é: examinar, fazer ultrassom, puncionar e mandar para cultura o que for coleção, começar antibiótico quando há inflamação e só então decidir sobre enzima e corticoide.
Granuloma de corpo estranho
O granuloma é uma resposta crônica do tecido ao material, com macrófagos e células gigantes organizados ao redor do gel. Clinicamente é um nódulo firme, às vezes múltiplo e simétrico nas áreas tratadas, que aparece meses depois. No estudo de ultrassom de Gonzalez e colaboradores (2024, Clin Dermatol), a reação pseudossarcoídea, de granuloma de corpo estranho, respondeu por 15% das complicações não vasculares do ácido hialurônico documentadas. Para os casos que não respondem ao corticoide intralesional, Kroumpouzos e Treacy (2024) registram que a hialuronidase pode ser tentada; a confirmação, quando a dúvida persiste, é histológica.

O papel do ultrassom
O ultrassom de alta frequência é o exame que separa os três grupos sem cortar nada. Khorasanizadeh e colaboradores (2026, Clin Imaging), revisando o padrão de cada preenchedor, descrevem o ácido hialurônico como depósito anecoico ou hipoecoico de aspecto pseudocístico; o granuloma como nódulo hipoecoico, com possível calcificação ou vascularização; e o abscesso como lesão anecoica ou hipoecoica com debris e reforço acústico posterior. A celulite aparece como aumento de ecogenicidade, septos espessados e edema. Saad e Tannous (2025, J Cosmet Dermatol), numa série de casos de complicação tardia, destacam o ultrassom como ferramenta para diagnosticar e para guiar a hialuronidase e o corticoide no ponto certo.

Os três tipos lado a lado
| Tipo | Quando aparece | Como é ao exame | Ultrassom | Primeira conduta |
|---|---|---|---|---|
| Não inflamatório | Dias a semanas | Indolor, pele normal, delimitado | Depósito anecoico ou hipoecoico do gel | Hialuronidase em dose baixa, dentro do depósito |
| Inflamatório (reação tardia ou biofilme) | Semanas a anos | Vermelho, quente, doloroso ou endurecido; pode ir e voltar | Gel com sinais inflamatórios ao redor; coleção se houver abscesso | Antibiótico; hialuronidase junto ou depois; corticoide só em casos selecionados |
| Granuloma de corpo estranho | Meses | Firme, às vezes múltiplo nas áreas tratadas | Nódulo hipoecoico, às vezes vascularizado | Corticoide intralesional; hialuronidase se não responder; biópsia na dúvida |
Prevenção
- Assepsia de verdade. Se a origem do biofilme são bactérias residentes no local da injeção, o preparo da pele e a técnica limpa contam desde a primeira picada. Saad e Tannous (2025) listam técnica asséptica, triagem do paciente e treino do injetor entre as medidas que reduzem o risco.
- Adiar diante de foco infeccioso. Munavalli e colaboradores (2022, Arch Dermatol Res) listam limpeza dentária e doença bacteriana ou viral entre os cenários em que a reação tardia ao ácido hialurônico já foi descrita; lesão ativa de pele, infecção dentária em curso ou quadro gripal no dia são motivo para remarcar.
- Volume e plano. Bolus grande em plano raso é a receita do nódulo não inflamatório; depósitos menores, no plano indicado para a região, reduzem esse risco.
- Produto escolhido para a região. A seleção pela reologia e pela área, segundo Hong e colaboradores (2025, J Cosmet Dermatol), ajuda a evitar reações inflamatórias tardias, além de Tyndall e sobrepreenchimento.
- Registro. Anotar produto, lote, volume e plano de cada região. Quando o nódulo aparece anos depois, é esse registro que diz o que está ali.
Onde se aprende a ler o nódulo
Distinguir um acúmulo de gel de uma infecção de baixo grau é raciocínio clínico que se constrói vendo casos e discutindo a conduta. Na Pós Prática, a formação do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), o nódulo precoce e tardio está no bloco de intercorrências do módulo B1 · Toxina e Preenchimento Essencial, e o módulo B2 · Colágeno, Qualidade de Pele e Tecnologias trata a fisiopatologia, a prevenção e a conduta por tipo dos nódulos de bioestimulador. O pré-work gravado traz a teoria; no sábado em Brasília, a turma de até oito médicos assiste à demonstração comentada e executa sob supervisão em paciente modelo.
Síntese
Diante de um nódulo depois do preenchimento, três perguntas organizam a conduta: quando apareceu, se está inflamado e o que o ultrassom mostra. Nódulo precoce, indolor e de pele normal é gel, e se resolve com enzima em dose baixa. Nódulo tardio e inflamado pede antibiótico antes de corticoide, porque o biofilme é uma causa real. Granuloma firme e persistente pede corticoide intralesional e, se não responder, enzima e biópsia. Outras complicações estão na Biblioteca.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre nódulo inflamatório e não inflamatório após preenchimento?
O não inflamatório é produto acumulado ou fora do plano: aparece cedo, é indolor e a pele tem cor normal. O inflamatório surge de semanas a anos depois, com vermelhidão, dor ou endurecimento, e pode ser reação imune tardia ou infecção ligada a biofilme (Ledon et al., 2013).
O que é biofilme no preenchimento?
É uma comunidade de bactérias aderida ao gel e protegida por uma matriz própria. No estudo de Zhang e colaboradores (2023), com 61 pacientes, a cultura do tecido retirado foi positiva em 7, com predomínio de Staphylococcus aureus, e os autores atribuem a origem a bactérias residentes no local da injeção.
Nódulo inflamatório se trata com corticoide?
Em geral, não como primeira escolha. No painel de Artzi e colaboradores (2020), a maioria preferiu antibiótico como primeira linha e reservou o corticoide para reações desfigurantes ou refratárias, porque suprimir a inflamação sem tratar uma infecção de baixo grau deixa o nódulo voltar.
Hialuronidase resolve nódulo de ácido hialurônico?
No nódulo não inflamado, em geral sim, em dose baixa a moderada dentro do depósito. No nódulo inflamado, ela entra com antibiótico oral prévio ou simultâneo, e no granuloma que não respondeu ao corticoide intralesional pode ser tentada (Kroumpouzos e Treacy, 2024).
Quanto tempo depois do preenchimento pode aparecer um nódulo?
De dias a anos. Na metanálise de Seo e colaboradores (2026), a reação inflamatória tardia teve início mediano em 3 meses, com faixa de 2 semanas a 12 anos.
Precisa de ultrassom para avaliar nódulo de preenchimento?
Ajuda muito. O ultrassom de alta frequência mostra se há gel, onde ele está, se existe coleção que sugira abscesso e se o padrão é de granuloma, e permite guiar a enzima e o corticoide até o ponto certo.
Referências
- Convery C, Davies E, Murray G, Walker L. Delayed-onset Nodules (DONs) and Considering their Treatment following use of Hyaluronic Acid (HA) Fillers. J Clin Aesthet Dermatol. 2021;14(7):E59-E67 · PMID 34840652
- Ledon JA, Savas JA, Yang S, Franca K, Camacho I, Nouri K. Inflammatory nodules following soft tissue filler use: a review of causative agents, pathology and treatment options. Am J Clin Dermatol. 2013;14(5):401-11 · PMID 24037757 · DOI 10.1007/s40257-013-0043-7
- Kroumpouzos G, Harris S, Bhargava S, Wortsman X. Complications of fillers in the lips and perioral area: Prevention, assessment, and management focusing on ultrasound guidance. J Plast Reconstr Aesthet Surg. 2023;84:656-669 · PMID 37002059 · DOI 10.1016/j.bjps.2023.01.048
- Seo J, Kadouch J, Pavicic T, et al. Incidence and Characteristics of Delayed Inflammatory Reactions Secondary to Hyaluronic Acid Filler Injections: A Systematic Review With Meta-Analysis. Aesthet Surg J Open Forum. 2026;8:ojag165 · PMID 42781409 · DOI 10.1093/asjof/ojag165
- Kroumpouzos G, Treacy P. Hyaluronidase for Dermal Filler Complications: Review of Applications and Dosage Recommendations. JMIR Dermatol. 2024;7:e50403 · PMID 38231537 · DOI 10.2196/50403
- Zhang YL, Sun ZS, Hong WJ, Chen Y, Zhou YF, Luo SK. Biofilm formation is a risk factor for late and delayed complications of filler injection. Front Microbiol. 2023;14:1297948 · PMID 38260874 · DOI 10.3389/fmicb.2023.1297948
- Artzi O, Cohen JL, Dover JS, et al. Delayed Inflammatory Reactions to Hyaluronic Acid Fillers: A Literature Review and Proposed Treatment Algorithm. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2020;13:371-378 · PMID 32547150 · DOI 10.2147/CCID.S247171
- Gonzalez C, Duque-Clavijo V, Kroumpouzos G, et al. Ultrasonographic features of nonvascular complications of hyaluronic acid fillers: a retrospective study. Clin Dermatol. 2024;42(5):538-546 · PMID 38763380 · DOI 10.1016/j.clindermatol.2024.05.006
- Khorasanizadeh F, Momeni A, Daneshvar A, et al. Ultrasonographic evaluation of cosmetic fillers: patterns and frequent complications - A literature review. Clin Imaging. 2026;131:110708 · PMID 41505983 · DOI 10.1016/j.clinimag.2025.110708
- Saad Y, Tannous Z. Management of Delayed Complications of Hyaluronic Acid Fillers: Case Series From the Middle East. J Cosmet Dermatol. 2025;24(4):e70166 · PMID 40257429 · DOI 10.1111/jocd.70166
- Munavalli GG, Guthridge R, Knutsen-Larson S, et al. COVID-19/SARS-CoV-2 virus spike protein-related delayed inflammatory reaction to hyaluronic acid dermal fillers: a challenging clinical conundrum in diagnosis and treatment. Arch Dermatol Res. 2022;314(1):1-15 · PMID 33559733 · DOI 10.1007/s00403-021-02190-6
- Hong GW, Wan J, Yoon SE, Wong S, Yi KH. Conditions to Consider When Choosing Fillers. J Cosmet Dermatol. 2025;24(3):e70075 · PMID 40062708 · DOI 10.1111/jocd.70075
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