Padrões de rugas da testa e distribuição da dose
As rugas da testa seguem padrões que dependem da forma do frontal e da direção em que ele puxa a pele — e a distribuição da dose acompanha esses padrões. Linhas retas, com a pele subindo na vertical, pedem pontos mais centrais; linhas onduladas, com a pele puxada em diagonal para fora, pedem pontos mais laterais. Em todos os casos, o total parte da bula do produto — 20 U de Botox Cosmetic ou de Xeomin na testa, nas bulas americanas, sempre com a glabela tratada junto — e o que muda de paciente para paciente é onde essas unidades ficam.
Por que a testa não tem um desenho só
O frontal não é uma lâmina uniforme. Os estudos de anatomia e de movimento descrevem pelo menos três fontes de variação que aparecem na pele como padrões diferentes de rugas:
- A forma do músculo. Abramo e colaboradores (2016, Aesthetic Plast Surg) dissecaram 20 cadáveres frescos e descreveram quatro formatos anatômicos do frontal, cada um com um padrão próprio de linhas horizontais paralelas na pele. Os mesmos padrões apareceram na contração voluntária de 20 pacientes vivos.
- Até onde ele vai para fora. Na dissecção de 44 hemifaces de Lee e colaboradores (2019, Plast Reconstr Surg), a borda lateral do frontal cobria a linha temporal superior em 84% dos casos (tipo I) e praticamente coincidia com ela em 16% (tipo II).
- Para onde ele puxa. Os estudos de deslocamento da pele em 3D, descritos abaixo, mostram vetores verticais, oblíquos para fora e, raramente, oblíquos para dentro — e cada direção pede uma distribuição diferente de pontos.
Uma classificação morfológica do frontal em três variações, por outro grupo, e a sua relação com a sobrancelha de cauda caída estão na página de técnica: como aplicar botox na testa sem baixar a sobrancelha. Esta página trata do passo seguinte — como ler o padrão das rugas e distribuir a dose.

Linhas retas e linhas onduladas
A forma da ruga é a pista mais fácil de ver. Frank e colaboradores (2019, J Cosmet Dermatol) analisaram por imagem 3D a testa de 37 voluntários, em repouso e em contração máxima, e relacionaram o ângulo do movimento da pele com a forma das linhas horizontais:
- linhas onduladas se associaram a ângulo de movimento maior (21,34° ± 5,9);
- linhas retas se associaram a ângulo menor (6,68° ± 2,9);
- mulheres tiveram linhas retas com mais frequência que homens (68,4% contra 44,4%);
- a idade não mudou o ângulo médio de movimento.
A conclusão dos autores é a regra de distribuição mais simples da testa: linhas onduladas pedem pontos mais laterais; linhas retas pedem pontos mais centrais. A lógica é mecânica — onde a pele é puxada em diagonal para fora, o músculo ativo está na lateral, e é lá que a toxina precisa estar.
A direção do vetor e a testa que só sobe
Kwon e colaboradores (2023, Yonsei Med J) fizeram a mesma análise de deslocamento em 30 pessoas e detalharam o padrão de movimento de cada testa:
- Direção: o vetor foi vertical em 63,4%, oblíquo para fora em 33,3% e oblíquo para dentro em 3,3%.
- Um ou dois sentidos: em 53,3%, só a parte inferior da testa subia; em 40,0%, o movimento era bidirecional, com uma linha de transição a uma distância média de 59,4 mm acima da pupila.
- Assimetria: 86,7% tiveram deslocamento assimétrico.
- Vizinhança: em 83,3%, a contração do frontal moveu também a pele da glabela e da sobrancelha, e em boa parte dos casos a pele da têmpora — nos dois terços mediais dela (50,0%) ou inteira (33,3%).
As orientações dos autores organizam a distribuição: vetor vertical ou medial pede pontos mais centrais; vetor lateral pede pontos mais laterais; a presença e a altura da linha de transição importam para não baixar a sobrancelha; e o movimento da glabela durante a contração da testa sugere tratar a glabela junto, para que as linhas dela não fiquem acentuadas. O conceito da linha em que a pele muda de sentido, e como usá-lo para escolher a altura dos pontos, está detalhado na página de técnica da testa.
Onde o nervo entra no músculo
Além da forma das rugas, existe a anatomia da inervação. Han e colaboradores (2025, Scientific Reports) usaram a coloração de Sihler em 19 hemifaces para mapear as terminações nervosas distais do ramo temporal do nervo facial dentro do frontal, dividido em 16 áreas.

As terminações foram mais frequentes na área B2 (17 de 19 peças, 89,5%) e na B3 (15 de 19, 78,9%), e não houve nenhuma na A1. Os autores descreveram dois tipos de arborização do nervo e propuseram quatro pontos de injeção no frontal com base nesse mapa. O estudo foi pensado também para o uso terapêutico da toxina, mas a leitura serve à estética: a toxina age na junção neuromuscular, e a proposta dos autores é justamente posicionar a injeção de acordo com onde os ramos terminam.

A lateral da testa: espessura e extensão
O padrão lateral merece cuidado próprio, porque é ali que o músculo fica mais fino e mais variável. No estudo de Lee e colaboradores, a espessura do frontal numa linha horizontal de referência foi de 1,80 ± 0,44 mm na vertical da pupila, 1,61 ± 0,37 mm na vertical do canto lateral do olho e 0,11 ± 0,04 mm na vertical da borda orbital lateral. Na maioria das pessoas o músculo segue além da linha temporal superior (tipo I), e numa parte delas ele termina praticamente sobre essa linha (tipo II).
Na prática, isso significa três coisas: o injetor precisa ver, com o paciente em contração, até onde a testa se mexe para fora; o ponto lateral precisa estar onde ainda há músculo ativo; e, na faixa mais lateral, pouca toxina já é muito para um músculo tão fino. Deixar a lateral ativa enquanto o centro está bloqueado é a origem da sobrancelha arqueada em ponta.
Quanto vai e como se distribui
Os números de partida vêm das bulas americanas. Botox Cosmetic: 5 pontos de 4 U no frontal, 20 U na testa, sempre com as 20 U da glabela. Xeomin: dose máxima de 20 U em 5 pontos de 4 U, alinhados na horizontal, a pelo menos 2 cm da borda orbital, também com a glabela. O rótulo americano do Dysport não tem indicação para a testa. Unidade de um produto não vale unidade de outro: as bulas dizem isso com todas as letras. Quando o paciente troca de marca, a referência ensinada na formação do Dr. Thiago é Botox : Dysport de 1 para 2,5 e Botox : Xeomin de 1 para 1, partindo da dose equivalente ou ligeiramente menor e acertando pela resposta.
Dentro desse teto, a dose da testa admite variação. No ensaio de Solish e colaboradores (2016, Dermatol Surg), 20 U e 10 U no frontal, ambas com 20 U na glabela, superaram o placebo (taxas de resposta de 91,2% e 89,5% com 20 U na testa; 86,4% e 81,4% com 10 U); a dose maior mostrou tendência a benefício mais sustentado e duração maior, com eventos adversos semelhantes.
Com o padrão lido, a distribuição fica assim:
| O que você vê em contração | Como distribuir | Base |
|---|---|---|
| Linhas retas, pele subindo na vertical | pontos concentrados no centro da testa | Frank et al., 2019; Kwon et al., 2023 |
| Linhas onduladas, pele puxada em diagonal para fora | pontos deslocados para a lateral, onde o músculo está ativo | Frank et al., 2019; Kwon et al., 2023 |
| Pele que sobe só na parte de baixo | respeitar o limite inferior dos pontos: a faixa baixa é a que eleva a sobrancelha | padrão descrito por Kwon et al., 2023; limite da bula do Xeomin (≥ 2 cm da borda orbital); a conduta é raciocínio clínico |
| Movimento bidirecional, com linha de transição | localizar a linha antes de definir a altura dos pontos — a posição deles em relação a ela pesa no risco de baixar a sobrancelha | Kwon et al., 2023 |
| Um lado se move mais que o outro | dose por ponto ajustada a cada lado | Kwon et al., 2023 (86,7% assimétricos) |
| Glabela se move quando a testa sobe | glabela tratada na mesma sessão | Kwon et al., 2023; bulas do Botox Cosmetic e do Xeomin |
Renga (2020, J Cosmet Laser Ther), numa série de quatro casos, levou a ideia ao extremo: tratou quatro pacientes, um de cada tipo anatômico do frontal, dividiu a testa em 21 áreas e variou dose, diluição e plano (intramuscular ou intradérmico) ponto a ponto. O autor descreveu os quatro padrões de rugas nesses casos, mas registrou que alguns pacientes com padrões atípicos ainda precisam de um plano feito sob medida. Classificação ajuda; não substitui olhar o paciente se mexer.
Passo a passo da leitura à marcação
- Fotografe em repouso e em elevação máxima, de frente, com a mesma luz e distância.
- Classifique a forma das linhas: retas ou onduladas.
- Observe o vetor: a pele sobe na vertical ou é puxada para fora? Só a parte de baixo sobe, ou existe uma linha em que a pele muda de sentido?
- Marque os limites do músculo ativo, inclusive o lateral — até onde a testa se mexe para os lados.
- Marque o limite inferior antes de qualquer ponto: nenhum ponto abaixo da faixa que sustenta a sobrancelha.
- Distribua o total de bula conforme o padrão: mais central nas linhas retas, mais lateral nas onduladas, com dose por lado ajustada à assimetria.
- Trate a glabela junto.
- Aplique e registre. Na conduta do Dr. Thiago, toxina vai com agulha fina (30 a 32 G), em microbolus, sem aspirar. Anote produto, lote, diluição, pontos e unidades por ponto, e reveja entre 15 e 30 dias.
Erros comuns
- Usar a mesma grade em toda testa. Linhas retas e onduladas não respondem ao mesmo desenho.
- Esquecer a lateral nas linhas onduladas. O centro fica liso e a cauda da sobrancelha sobe em ponta.
- Exagerar a lateral num músculo fino. Perto da vertical da borda orbital lateral, o frontal pode ter fração de milímetro de espessura.
- Ignorar a testa que só sobe embaixo. Nesse padrão, ponto baixo tira sustentação da sobrancelha.
- Tratar a testa sem a glabela. As bulas que tratam a testa não preveem isso, e a glabela que se move com a testa fica mais marcada.
- Distribuir sem anotar. Sem mapa de pontos e unidades, o retorno não tem com o que ser comparado.
Nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica.
Onde a leitura da testa se pratica
Ver o vetor da pele numa foto de estudo é uma coisa; enxergá-lo na testa de quem está sentado à sua frente, contraindo de verdade, é outra. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, os módulos acontecem em um sábado presencial cada, depois de um pré-work gravado obrigatório, com no máximo 8 médicos por turma. No módulo de Toxina e Preenchimento, a leitura dos três terços e o mapa de pontos são mostrados em demonstração comentada, e a parte prática é a execução pelo próprio aluno, em paciente modelo, sob supervisão. Os outros módulos estão em /cursos/.
Perguntas frequentes
Quais são os padrões de rugas da testa?
Os estudos descrevem variações na forma do frontal (quatro formatos anatômicos em Abramo e colaboradores, 2016), na forma das linhas (retas ou onduladas) e na direção do movimento da pele (vertical, oblíqua para fora ou, raramente, para dentro). Há ainda testas em que só a parte de baixo sobe e testas com movimento em dois sentidos.
Como distribuir os pontos de botox conforme o padrão da testa?
Linhas retas, com a pele subindo na vertical, pedem pontos mais centrais; linhas onduladas, com a pele puxada para fora, pedem pontos mais laterais (Frank e colaboradores, 2019; Kwon e colaboradores, 2023). A dose de cada lado acompanha a assimetria, e a glabela é tratada junto.
Quantas unidades vão na testa?
Nas bulas americanas, 20 U de Botox Cosmetic ou de Xeomin em 5 pontos de 4 U, sempre com 20 U na glabela. O Dysport não tem indicação para a testa no rótulo americano. No ensaio de Solish e colaboradores (2016), 10 U na testa também superaram o placebo, com tendência a durar menos que 20 U.
Por que a testa ondulada pede pontos laterais?
Porque a ondulação acompanha um movimento da pele puxado em diagonal para fora, sinal de que a porção lateral do frontal está ativa. Se ela fica sem toxina enquanto o centro é bloqueado, a cauda da sobrancelha tende a subir em ponta.
O frontal é igual nos dois lados?
Raramente. No estudo de Kwon e colaboradores (2023), 86,7% das pessoas tiveram deslocamento assimétrico da pele da testa. Por isso a dose por ponto se ajusta à força de cada lado, mesmo com o total igual.
Até onde vai o frontal na lateral da testa?
Na dissecção de Lee e colaboradores (2019), a borda lateral do frontal cobria a linha temporal superior em 84% dos casos e praticamente coincidia com ela em 16%. Na vertical da borda orbital lateral, o músculo media em média 0,11 mm de espessura.
Referências
- Frank K, Freytag DL, Schenck TL, Green JB, et al. Relationship between forehead motion and the shape of forehead lines — A 3D skin displacement vector analysis. J Cosmet Dermatol. 2019;18(5):1224-1229. · PMID 31282119 · DOI 10.1111/jocd.13065
- Kwon IJ, Lee W, Moon HJ, Lee SE. Dynamic Evaluation of Skin Displacement by the Frontalis Muscle Contraction Using Three-Dimensional Skin Displacement Vector Analysis. Yonsei Med J. 2023;64(7):440-447. · PMID 37365738 · DOI 10.3349/ymj.2022.0605
- Han JE, Kim T, Lee SH, Shin KJ, et al. Anatomical consideration for botulinum toxin injection of the frontalis muscle based on analysis of intramuscular innervation. Sci Rep. 2025;15(1):8919. · PMID 40087484 · DOI 10.1038/s41598-025-93900-x
- Lee KL, Choi YJ, Gil YC, Hu KS, et al. Locational Relationship between the Lateral Border of the Frontalis Muscle and the Superior Temporal Line. Plast Reconstr Surg. 2019;143(2):293e-298e. · PMID 30489500 · DOI 10.1097/PRS.0000000000005202
- Abramo AC, Do Amaral TP, Lessio BP, De Lima GA. Anatomy of Forehead, Glabellar, Nasal and Orbital Muscles, and Their Correlation with Distinctive Patterns of Skin Lines on the Upper Third of the Face: Reviewing Concepts. Aesthetic Plast Surg. 2016;40(6):962-971. · PMID 27743084 · DOI 10.1007/s00266-016-0712-z
- Renga M. A personalized treatment approach of frontalis muscle with botulinum toxin A (Bont-A) related to functional anatomy: case studies. J Cosmet Laser Ther. 2020;22(2):100-106. · PMID 32223472 · DOI 10.1080/14764172.2020.1742924
- Solish N, Rivers JK, Humphrey S, Muhn C, et al. Efficacy and Safety of OnabotulinumtoxinA Treatment of Forehead Lines: A Multicenter, Randomized, Dose-Ranging Controlled Trial. Dermatol Surg. 2016;42(3):410-419. · PMID 26863598 · DOI 10.1097/DSS.0000000000000626
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