Preenchimento glúteo: complicações e como evitar
Corpo e glúteo

Preenchimento glúteo: complicações e como evitar

O glúteo aceita volumes que nenhuma região da face aceita e esconde, embaixo do músculo, vasos de calibre que nenhuma região da face tem. Por isso as complicações do preenchimento glúteo têm duas escalas: a do consultório, que se resolve em dias, e a da terapia intensiva. Saber de que lado cada material, plano e volume coloca a paciente é a primeira prevenção.

As complicações do preenchimento glúteo vão da equimose, que some em dias, à embolia e à hipercalcemia, que podem matar, e o que separa uma ponta da outra são três escolhas: o material, o plano e o volume. Material absorvível de linha corporal, colocado no subcutâneo com cânula romba e em volume planejado, tem perfil de eventos leves nos estudos publicados. Os desfechos graves concentram-se em três situações: gordura injetada no músculo, produto permanente em grande volume e aplicação feita fora do ambiente médico. Prevenir começa antes da seringa, na pergunta sobre o que já existe naquele glúteo.

Cada material tem o seu perfil de risco

“Preenchimento glúteo” é um nome só para procedimentos muito diferentes. A tabela resume o que a literatura descreve para cada família:

MaterialComplicações mais descritasOnde a página detalha
Ácido hialurônico (absorvível)Equimose, edema, inflamação local, deslocamento do gel, contorno irregular; raros eventos graves, inclusive hemorragia alveolar difusaRevisão de Mortada e relatos de caso
Bioestimulador (absorvível)Dor durante a aplicação e equimose; nódulo ligado a acúmulo de produtoEnsaio de Nikolis (dor e equimose)
Gordura própriaEmbolia gordurosa pulmonar, coleção com necrose centralForça-tarefa da ASERF e pesquisa seguinte
Produtos permanentes (silicone líquido, PMMA em grande volume, géis como o Aquafilling)Embolia de silicone, granuloma, paniculite, infecção, migração, hipercalcemia e lesão renalSéries de casos e revisões, de minutos a anos após a aplicação

No bioestimulador, o ensaio multicêntrico de Nikolis e colaboradores (2022, J Drugs Dermatol), com 30 mulheres tratadas no glúteo, registrou dor durante a aplicação e equimose como os eventos mais relatados, sem evento adverso grave. O nódulo, quando aparece, costuma vir de produto acumulado num ponto, e por isso se previne com técnica.

Atiyeh e colaboradores (2023, Aesthetic Plast Surg) revisaram os preenchedores usados no glúteo, e a conclusão deles vale como aviso de abertura: aumentar o glúteo com preenchedor não é tão simples nem tão inócuo quanto se anuncia, e as complicações graves se tornam praticamente certas quando a aplicação é feita de forma ilegal, por quem não é habilitado, fora de estabelecimento regularizado.

Ácido hialurônico: frequente e leve, raro e grave

Com ácido hialurônico, a maior parte do que acontece é local e passageiro. A revisão sistemática de Mortada e colaboradores (2023, Aesthetic Plast Surg) contou, nos dez estudos que reuniu, cinco pacientes com equimose e eritema, cinco com derrame e inflamação no local da injeção, três com deslocamento do gel e uma com contorno irregular. Dois estudos relataram complicação maior, e os autores registram que o procedimento pode envolver hemorragia alveolar difusa e morte.

Dois achados ajudam na prática. O primeiro é a migração: Saad e colaboradores (2023, Indian J Radiol Imaging) descreveram ácido hialurônico aplicado no glúteo que apareceu como um nódulo mole na face medial da coxa, um quadro que confunde quem examina se ninguém pergunta pela aplicação. O segundo é o histórico: no estudo retrospectivo de Crabai e colaboradores (2024, Plast Reconstr Surg Glob Open), com 91 pacientes acompanhadas por até 4 anos e 7 meses, não houve evento adverso grave, e os eventos foram mais frequentes em quem já tinha recebido outras substâncias na mesma área. Glúteo com produto prévio é glúteo de risco maior.

No extremo grave estão os relatos de caso. Uz e colaboradores (2020, Ulus Travma Acil Cerrahi Derg) atenderam uma mulher de 46 anos que chegou agitada, sonolenta e com hipóxia poucas horas depois de receber ácido hialurônico no glúteo num centro de beleza; a tomografia mostrou opacidades em vidro fosco nos dois pulmões e a ressonância, múltiplas lesões na substância branca cerebral. Os autores interpretaram o quadro como síndrome de embolia gordurosa. O relato ensina o sinal: alteração do nível de consciência e falta de ar depois de uma aplicação no glúteo não são reação local.

Gordura: o procedimento que mais ensinou sobre o plano

A enxertia de gordura no glúteo é onde a relação entre profundidade e morte foi medida. A força-tarefa da ASERF (Mofid e colaboradores, 2017, Aesthet Surg J) ouviu 692 cirurgiões, que somavam 198.857 enxertias glúteas: 3% deles tinham tido uma paciente morta por embolia gordurosa pulmonar ao longo da carreira e 7% tinham visto ao menos uma embolia. Quem injetava no músculo profundo teve incidência significativamente maior de embolia fatal e não fatal. Vieram daí três recomendações: não injetar no músculo profundo, não usar cânula com menos de 4 mm e não apontar a cânula para baixo.

O que aconteceu depois mostra que a técnica muda o desfecho. Na pesquisa seguinte, de Rios e Gupta (2020, Aesthet Surg J), a proporção de cirurgiões que injetavam no músculo profundo caiu de 13,1% para 0,8%, a incidência de embolia gordurosa pulmonar passou de 1 em 1.030 para 1 em 2.492 casos, e a mortalidade tendeu a cair de 1 em 3.448 para 1 em 14.952. Na série forense de Rapkiewicz e colaboradores (2018, J Forensic Sci), com 10 mortes após procedimentos estéticos glúteos, 8 vieram de enxertia de gordura depois de lipoaspiração, e os autores lembram que as complicações sistêmicas, responsáveis pela maior parte das mortes, incluem sepse, tromboembolismo, embolia gordurosa e problemas ligados à anestesia e ao volume de sangue.

No glúteo, o protocolo do Dr. Thiago Perfeito com a plataforma Lipocube segue a mesma linha: a gordura vai só no plano subcutâneo, nunca no músculo, com cânula de 4 mm ou mais. A regra de calibre é da gordura; o raciocínio de plano vale para qualquer material.

Ultrassom de coleção com necrose central após enxerto de gordura no glúteo — Dr. Thiago Perfeito
Ultrassom de uma coleção após enxertia de gordura: parede espessa e centro escuro (anecoico), aspecto típico da complicação conhecida como necrose central. Segundo os autores, o ultrassom ajuda a diagnosticar esse tipo de complicação cedo. FIGURE 3 de Ducati EPJ et al., J Cosmet Dermatol 2025 (PMID 41097881), reproduzida sob licença CC BY.

Produtos permanentes: a complicação que chega anos depois

Quem aplica ácido hialurônico ou bioestimulador vai, cedo ou tarde, examinar uma paciente que já tem produto permanente no glúteo. Reconhecer esse quadro faz parte da segurança de quem injeta material absorvível.

Ultrassom de PMMA no subcutâneo do glúteo com sombra acústica — Dr. Thiago Perfeito
PMMA no subcutâneo do glúteo ao ultrassom: depósitos irregulares e brilhantes (hiperecoicos), agrupados, que projetam uma sombra escura para o fundo da imagem. Reconhecer esse padrão antes de injetar evita colocar ácido hialurônico ou bioestimulador sobre um material permanente. FIGURE 8 de Ducati EPJ et al., J Cosmet Dermatol 2025 (PMID 41097881), reproduzida sob licença CC BY.

Ducati e colaboradores (2025, J Cosmet Dermatol) mapearam por ultrassom o glúteo de 110 pacientes tratadas com um ou mais preenchedores e mostraram que o exame distingue os materiais e ajuda no diagnóstico precoce de complicação. Para quem vai injetar num glúteo de história incerta, é o exame que responde à pergunta que a paciente nem sempre sabe responder.

Sinais de alarme que mudam a conduta

Sintoma respiratório, neurológico ou de choque depois de uma aplicação no glúteo é emergência até prova em contrário. No relato de Shaheen e colaboradores (2023, Egypt Heart J), uma mulher de 26 anos chegou com falta de ar de início súbito, que começou pouco depois de uma injeção de preenchedor no glúteo num centro do Cairo; estava em choque, com saturação de 60% em ar ambiente e o lado direito do coração dilatado, e morreu horas depois. Os quadros publicados têm o mesmo desenho:

Diante de qualquer um deles: interromper a aplicação, acionar o serviço de emergência e transferir para hospital com terapia intensiva. Não é quadro de consultório, e o tempo conta.

Como evitar: a lista que se faz antes de cada glúteo

  1. Anamnese do glúteo. O que foi injetado, quando, quanto e por quem. Se a resposta for vaga, ultrassom antes. A conversa inicial com a paciente tem roteiro próprio em anamnese da consulta estética.
  2. Material absorvível de linha corporal, com procedência e lote anotados no prontuário.
  3. Plano subcutâneo. Os vasos glúteos grandes correm logo abaixo do glúteo máximo; o que fica acima do músculo fica longe deles.
  4. Cânula romba, paralela à pele, com entrada lateral, ponta nunca apontada para o fundo e aspiração antes de injetar, como faz o Dr. Thiago com preenchedor e bioestimulador.
  5. Volume planejado e escalonado. Completar numa segunda sessão é melhor do que concentrar tudo de uma vez.
  6. Ambiente médico, com antissepsia, registro e caminho de transferência definido antes de começar.
  7. Orientação de alarme por escrito para a paciente levar: os sinais acima e o telefone de contato.
Aplicação na lateral do quadril com marcação em vermelho na pele — Dr. Thiago Perfeito
Aplicação na lateral do quadril, com marcações em vermelho desenhadas na pele antes de começar. A marcação, feita com a paciente em pé, é a primeira barreira contra a injeção no lugar errado.

Prevenção também se treina

Lista de checagem só funciona quando a mão já sabe onde está a cânula. No Módulo A2 da Pós Prática, as zonas de risco do glúteo e a regra absoluta do plano entram no pré-work gravado, e as intercorrências da enxertia com o Lipocube fazem parte do conteúdo do módulo; no sábado, na INTI, a turma de até oito médicos marca e pratica em paciente modelo. Quem conduz é o Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199, de Medicina Estética e Regenerativa, que soma mais de 500 casos de glúteo. Ele não tem relação comercial com nenhum fabricante de preenchedor, bioestimulador ou da plataforma Lipocube. As técnicas de cada material estão nas páginas sobre o curso de bioestimulador corporal e glúteo e sobre o curso de complicações em injetáveis; os demais módulos, em Cursos.

Perguntas frequentes

Quais são as complicações mais comuns do preenchimento glúteo com ácido hialurônico?

Equimose, edema e inflamação local, que passam em dias. Na revisão de Mortada e colaboradores (2023), também apareceram deslocamento do gel e contorno irregular. Dois dos dez estudos relataram complicação maior, e os autores registram hemorragia alveolar difusa e morte entre os eventos possíveis.

Por que não se injeta no músculo glúteo?

Porque os vasos glúteos grandes correm logo abaixo do glúteo máximo. Na enxertia de gordura, a força-tarefa da ASERF associou a injeção no músculo profundo a mais embolia fatal e não fatal. Depois das recomendações, a injeção no músculo profundo caiu de 13,1% para 0,8% entre os cirurgiões pesquisados e a embolia ficou menos frequente.

Produto permanente no glúteo pode causar problema anos depois?

Pode. Na revisão de Tachamo e colaboradores (2018), a hipercalcemia por granuloma de silicone ou PMMA apareceu, em média, 7,96 anos após a aplicação, com insuficiência renal em 82,35% dos casos. Na série brasileira de Ianhez e colaboradores (2025), com PMMA em grande volume no glúteo, 83,3% das pacientes tinham disfunção renal.

Quais sinais indicam embolia depois de preenchimento glúteo?

Falta de ar, queda da saturação, confusão, agitação ou sonolência e queda da pressão. Nos casos publicados, os sintomas começaram de minutos a horas depois da aplicação; na série de silicone de Restrepo, em até 2 dias. A conduta é interromper, acionar a emergência e transferir para terapia intensiva.

Posso aplicar ácido hialurônico num glúteo que já recebeu outro produto?

Só depois de saber o que está lá. No estudo de Crabai e colaboradores (2024), os eventos adversos foram mais frequentes em quem já tinha recebido outras substâncias na mesma área. Se a paciente não sabe o que recebeu, o ultrassom diferencia os materiais e mostra complicações em curso.

Como prevenir complicação no preenchimento glúteo?

Com sete hábitos: anamnese do glúteo, material absorvível de procedência conhecida, plano subcutâneo, cânula romba paralela à pele com aspiração, volume escalonado, ambiente médico com rota de transferência e orientação de alarme por escrito para a paciente.

Referências

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Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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