Reologia do ácido hialurônico: G', tan δ e coesividade
Preenchimento com ácido hialurônico

Reologia do ácido hialurônico: G', coesividade e escolha do produto

Dois géis de ácido hialurônico na mesma concentração podem se comportar de forma oposta no rosto: um sustenta o mento, o outro some num sulco fino. O que separa um do outro é reologia. Esta página traduz G', G'', tan δ e coesividade para a decisão do consultório e mostra onde os números ajudam e onde eles enganam.

Reologia é o estudo de como um material se deforma e flui sob força, e é ela que explica por que dois géis de ácido hialurônico com a mesma concentração se comportam de forma diferente no rosto. Quatro grandezas organizam a escolha: G' (módulo elástico, quanto o gel resiste à deformação e devolve a forma), G'' (módulo viscoso, quanto ele escoa), tan δ (a razão G''/G', que diz se o gel é mais sólido ou mais fluido) e coesividade (quanto ele se mantém unido). G' alto com tan δ baixo serve à projeção em plano profundo; G' mais baixo, tan δ maior e boa coesividade servem a planos superficiais e áreas que se movem.

A regra cabe numa frase, mas a aplicação tem armadilhas: o número muda conforme o aparelho que mede, a coesividade se confunde com outras propriedades e a classificação mais popular do mercado não se sustenta. Esta página explica cada grandeza, mostra o que os estudos medem e termina numa forma prática de usar a reologia sem depender de tabela de fabricante.

As quatro grandezas, em linguagem de consultório

O gel de ácido hialurônico reticulado é viscoelástico: tem um pouco de sólido e um pouco de líquido. Pierre, Liew e Bernardin (2015, Dermatol Surg) descrevem o rosto como um ambiente de duas forças, o cisalhamento lateral da mímica e a compressão ou o estiramento vertical, e concluem que a correção de volume depende principalmente de duas propriedades: viscoelasticidade e coesividade. Juntas, elas definem quanto o gel resiste às deformações laterais e verticais e quanto ele se espalha no tecido.

Gráfico de barras com o módulo elástico G' de amostras anônimas de preenchedores de ácido hialurônico — figura de estudo — Dr. Thiago Perfeito
Módulo elástico (G', em pascal) medido a 1 Hz em amostras de preenchedores de ácido hialurônico identificadas apenas por letras, ordenadas do mais macio ao mais firme. O gráfico mostra a amplitude da faixa: o que o mercado chama de "preenchedor de ácido hialurônico" vai de géis quase fluidos a géis firmes. Figure 5 de Hong GW et al., Polymers (Basel) 2024 (PMID 39204605), reproduzida sob licença CC BY.

Soares, Mueller e Rivkin (2025, Plast Reconstr Surg) acrescentam uma quinta ideia, a viscoplasticidade. Acima de um ponto de escoamento, o gel deixa de resistir e passa a fluir; é isso que permite a extrusão por agulha fina, a moldagem com os dedos e a integração ao tecido. Abaixo dele, o gel se deforma de modo elástico e dissipa a tensão sem se romper.

O mesmo gel, números diferentes: cuidado ao comparar tabelas

O primeiro erro de quem descobre a reologia é montar uma planilha com o G' de vários produtos tirado de fontes diferentes. Lorenc, Öhrlund e Edsman (2017, J Drugs Dermatol) mostraram por que isso engana: somando os próprios dados aos já publicados, o G' de um mesmo produto variou de 1,6 a 7,4 vezes, e grande parte da diferença vinha das configurações do reômetro (como a frequência e a deformação aplicadas). Os autores propõem padronizar a medida e usar o G' como a grandeza principal para diferenciar produtos.

A consequência prática: um número de G' só vale ao lado de outro número medido no mesmo estudo, com o mesmo método. Comparação entre folhetos de fabricantes diferentes, cada um com o seu protocolo, não sustenta escolha clínica. Fundarò e colaboradores (2022, Int J Mol Sci) registram ainda que essas propriedades raramente são descritas por completo pelos fabricantes, o que deixa o médico dependente de estudos comparativos independentes.

De onde vem a firmeza do gel

A reticulação liga as cadeias de ácido hialurônico entre si e transforma uma solução em gel. Edsman e colaboradores (2012, Dermatol Surg) analisaram 13 preenchedores comerciais e encontraram ampla variação de força de gel, com grau de modificação química entre 1% e 8%. Duas medidas de força, o módulo complexo obtido por reologia e a capacidade de inchaço do gel, mostraram boa correlação entre si. Com uma exceção, um processo de estabilização que resultou em géis de força alta com baixo grau de modificação, o método de fabricação não separou os produtos.

Esquema de rede de ácido hialurônico com muitos pontos de reticulação sendo estirada — figura de estudo — Dr. Thiago Perfeito
Rede de cadeias de ácido hialurônico com muitos pontos de reticulação (em azul): para estirá-la, é preciso mais força (setas). É a representação didática da relação entre reticulação e firmeza do gel; o rótulo original usa o termo "monofásico", classificação discutida logo abaixo. FIGURE 2 de Hong GW et al., J Cosmet Dermatol 2025 (PMID 40062708), reproduzida sob licença CC BY.

No mercado, essa diferença costuma ser apresentada como "monofásico" contra "bifásico". Öhrlund e Edsman (2015, Dermatol Surg) analisaram duas grandes famílias de preenchedores, uma vendida como monofásica e outra como bifásica, e mostraram que ambas continham partículas de gel visíveis, ácido hialurônico extraível e capacidade de absorver água. A conclusão deles é que a classificação é cientificamente incorreta e não ajuda a escolher o produto. Revisões posteriores ainda usam os termos, mas a leitura útil para o injetor é outra: olhar para G', coesividade, capacidade de inchaço e concentração, e não para o rótulo de fase.

Coesividade: o gel que se mantém unido

Coesividade é a propriedade mais citada e a mais difícil de medir. Sundaram e colaboradores (2015, Plast Reconstr Surg) criaram um ensaio visual padronizado: o gel corado é extrudado em água agitada a velocidade constante, e a proporção de gel íntegro contra gel disperso é graduada numa escala de cinco pontos. A escala teve boa repetibilidade e concordância entre avaliadores, e os seis produtos testados tiveram coesividades significativamente diferentes. Para os autores, a coesividade mantém a integridade do gel, contribui para sustentação com contorno natural e reduz irregularidades de superfície.

Painéis com quatro métodos de medir coesividade de preenchedores de ácido hialurônico — figura de estudo — Dr. Thiago Perfeito
Quatro formas de avaliar coesividade: coesão percebida em escala (A), dispersão do gel ao longo do tempo (B), peso da gota que se desprende da agulha (C) e força de compressão (D). Os produtos aparecem identificados só por letras; no painel D, os rótulos "monophasic" e "biphasic" são os da figura original. Figure 7 de Hong GW et al., Polymers (Basel) 2024 (PMID 39204605), reproduzida sob licença CC BY.

Edsman e Öhrlund (2018, Dermatol Surg) compararam o método do peso da gota com a avaliação sensorial em preenchedores de 12 a 24 mg/mL. O peso da gota refletiu muito bem a coesão percebida; a correlação com a reologia dependeu da concentração de ácido hialurônico; e a coesão se correlacionou de forma notável com o fator de inchaço do gel. Os autores chegam a questionar se é preciso um método separado para coesão, já que reologia e inchaço descrevem as propriedades que a produzem. Vale ler o resultado com o vínculo declarado no artigo: os dois autores eram funcionários de um fabricante.

Do frasco ao tecido: o que a reologia prevê

A pergunta clínica é se esses números dizem algo sobre o que acontece dentro da pele. Sundaram e Cassuto (2013, Plast Reconstr Surg) mediram G', G'', viscosidade complexa e tan δ de sete géis e cruzaram os dados com estudos de integração ao tecido. O gel com menor elasticidade e viscosidade, e o maior tan δ, se integrou de forma homogênea após implante intradérmico; os géis de maior elasticidade e viscosidade, com tan δ baixo, formaram depósitos em bolo; os intermediários tiveram padrão intermediário. Para os autores, a reologia prevê de forma confiável o padrão de integração e permite desenhar o preenchimento em camadas, de acordo com a necessidade de cada paciente.

Soares e colaboradores (2025) organizam a regra em duas pontas. Gel de G' alto e tan δ baixo permite mais projeção para aumento estrutural. Gel de menor força elástica e tan δ mais alto se adapta melhor ao cisalhamento dinâmico dos tecidos superficiais. A mesma revisão lembra que essas propriedades influenciam também as complicações: deslocamento, formação de nódulo, inflamação e oclusão vascular isquêmica. Escolher um gel firme demais para um plano superficial, ou macio demais para sustentar um ponto ósseo, é erro de reologia antes de ser erro de técnica.

Reologia e duração

É tentador concluir que o gel mais firme dura mais. Falcone e Berg (2008) não acharam correlação entre os dados clínicos disponíveis e as medidas reológicas oscilatórias ou de fluxo. A persistência clínica acompanhou com força a concentração total de ácido hialurônico reticulado no produto e, em menor grau, a porcentagem de elasticidade. A proposta dos autores é que a duração seja dominada pela massa e pela elasticidade do material implantado. Na prática, a duração depende também da região e da mímica; a reologia ajuda a escolher onde o gel funciona, não a prometer um prazo.

Reologia muda até a aspiração

Um efeito menos lembrado: a meta-análise de Kapoor e colaboradores (2021, Dermatol Ther), com quatro estudos sobre o tempo para o sangue aparecer na seringa, encontrou associação robusta desse tempo com o G' do gel, com a coesividade medida pelo peso da gota e com a área da luz da agulha. O tempo de refluxo, portanto, muda com o gel e com a agulha. Na conduta do Dr. Thiago Perfeito, aspira-se sempre com preenchedor, e por mais tempo nos calibres de 29 a 30G.

Como transformar reologia em escolha

A reologia não substitui o diagnóstico; ela entra depois que o médico sabe o que falta, em qual camada e com que movimento a região convive. Um roteiro em três perguntas resolve a maior parte das escolhas:

PerguntaSe a resposta for…O perfil de gel que tende a servir
Qual o objetivo?Projetar sobre o osso, criar ponto de suporteG' alto, tan δ baixo, depósito em bolo bem delimitado
Repor volume com transição suaveG' intermediário, boa coesividade
Tratar linha fina ou textura na dermeG' baixo, tan δ mais alto, alta coesividade, integração homogênea
Em que plano?Supraperiosteal, sob músculo e gordura espessosGel firme, que resista à compressão
Subcutâneo superficial ou dermeGel macio e coeso, que se acomode sem formar relevo
Quanto a região se move?Pouco (pontos ósseos de contorno)Firmeza é vantagem
Muito (lábio, região perioral)Flexibilidade e coesividade pesam mais que firmeza

Duas observações completam a tabela. Primeiro, uma mesma família comercial de ácido hialurônico tem referências de reologia muito diferentes; a escolha é por referência, nunca pelo nome da família. Segundo, como os números variam com o método, a comparação útil é a de estudos que mediram vários géis com o mesmo protocolo, e não a soma de folhetos. O mapa de cada região da face, com o perfil de gel que costuma servir a ela, é o passo seguinte dessa leitura.

Onde a reologia vira escolha na mão

Entender G' no papel é uma coisa; sentir a diferença entre um gel firme e um gel macio na extrusão, ver como cada um se acomoda no plano e decidir qual seringa abrir para cada região é outra. Na Pós Prática, a formação do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), a reologia do ácido hialurônico (G' e coesividade) é um segmento próprio do pré-work gravado do módulo B1 · Toxina e Preenchimento Essencial, entre a anatomia do terço médio e o segmento sobre ácido hialurônico de alta sustentação e a lógica do G'. No sábado presencial, em Brasília, a escolha do produto é discutida na demonstração comentada e aplicada pelo próprio aluno, sob supervisão, em paciente modelo, numa turma de até oito médicos. O Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de preenchedor.

Síntese

G' diz quanto o gel resiste e sustenta; G'' diz quanto ele escoa; tan δ resume o equilíbrio entre os dois; coesividade diz se ele se mantém inteiro. Gel firme e pouco fluido serve à estrutura profunda; gel macio, coeso e mais fluido serve à superfície e ao movimento. Os números só se comparam dentro do mesmo estudo, a classificação por fase não ajuda a escolher e a duração depende mais de massa e concentração do que de rigidez. Outros textos de preenchimento e segurança estão na Biblioteca, como cânula ou agulha no preenchimento e síndrome da face sobrepreenchida.

Perguntas frequentes

O que é G' no ácido hialurônico?

É o módulo elástico, ou de armazenamento: mede quanto o gel resiste à deformação e devolve a forma. G' alto indica gel firme, que sustenta projeção em plano profundo; G' baixo indica gel macio, que se acomoda em planos superficiais.

O que significa tan δ num preenchedor?

É a razão entre o módulo viscoso e o elástico (G''/G'). Quanto menor, mais o gel se comporta como sólido; quanto mais perto de 1, mais fluido. Falcone e Berg (2008) encontraram tan δ de 0,11 a 0,70 entre preenchedores comerciais.

Coesividade e G' são a mesma coisa?

Não. G' mede a firmeza do gel; coesividade mede quanto ele se mantém unido em vez de se fragmentar. Edsman e Öhrlund (2018) mostraram que a coesão se correlaciona com o fator de inchaço do gel e que a correlação com a reologia depende da concentração.

Posso comparar o G' de produtos usando os folhetos dos fabricantes?

Não com segurança. Lorenc e colaboradores (2017) mostraram que o G' de um mesmo produto variou de 1,6 a 7,4 vezes entre medições, em grande parte por diferença de configuração do reômetro. Só se comparam números medidos no mesmo estudo, com o mesmo método.

Preenchedor monofásico ou bifásico: qual escolher?

A classificação não ajuda a escolher. Öhrlund e Edsman (2015) mostraram que produtos vendidos como monofásicos e bifásicos têm partículas de gel e ácido hialurônico extraível, e concluíram que a divisão é cientificamente incorreta. A escolha se faz por G', coesividade, inchaço e concentração.

O gel mais firme dura mais?

Não necessariamente. Em Falcone e Berg (2008), a persistência clínica acompanhou a concentração de ácido hialurônico reticulado e, em menor grau, a porcentagem de elasticidade, e não as medidas reológicas isoladas.

Qual perfil de gel usar em área de muito movimento, como o lábio?

Gel mais flexível e coeso, com G' menor e tan δ maior, que se adapte ao cisalhamento da mímica. Soares e colaboradores (2025) descrevem esse perfil como o que melhor acompanha o cisalhamento dinâmico dos tecidos superficiais, e reservam o gel de G' alto e tan δ baixo para a projeção estrutural.

Referências

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Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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