Ultrassom microfocado: profundidade dos cartuchos
Tecnologias

Ultrassom microfocado: profundidades dos cartuchos e onde aplicar

No ultrassom microfocado, a profundidade não se ajusta com a mão: escolhe-se o cartucho. Cada um tem o foco fixo, e trocar de cartucho é trocar de camada. Saber o que existe em cada milímetro da região tratada — pele, gordura, SMAS e, abaixo dele, os ramos do nervo facial — é o que separa a sessão planejada da sessão que repete o mesmo mapa em todo rosto.

No ultrassom microfocado, quem escolhe a camada é o cartucho: cada um tem o foco fixo numa profundidade, a energia decide o tamanho do ponto de coagulação e a espessura medida de cada região decide qual cartucho entra onde. No Ultraformer MPT, um dos dois ultrassons focalizados da clínica INTI, o fabricante declara 10 cartuchos, de 1,5 a 13 mm. Os rasos trabalham a pele, os mais profundos da linha facial se aproximam do SMAS e os da linha de corpo foram desenhados para tecido mais espesso. Abaixo, a física que explica cada escolha, o que os estudos mediram em cada profundidade, o mapa por região e os lugares onde o disparo não entra.

O que acontece no foco

O transdutor emite ultrassom que atravessa a superfície sem aquecê-la de forma relevante e converge num ponto abaixo dela. É nesse ponto, e só nele, que a temperatura sobe o bastante para coagular o tecido. A pele de cima fica intacta porque a energia está espalhada quando passa por ela; o dano nasce onde ela se concentra.

Os trabalhos que descreveram a técnica mostram isso com clareza. Laubach e colaboradores (2008, Dermatol Surg) dispararam um protótipo de 7,5 MHz, com distância focal nominal de 4,2 mm, em pele humana post mortem: conseguiram lesões isoladas e bem delimitadas na derme, até 4 mm de profundidade, em forma de cone invertido, e a profundidade e a extensão do dano dependeram de três variáveis — potência, tempo de exposição e profundidade focal. No ano anterior, White e colaboradores (2007, Arch Facial Plast Surg) já tinham mirado o SMAS em 6 peças de cadáver, guiados pela imagem do próprio aparelho: as zonas de lesão térmica apareceram de forma reprodutível no SMAS, em profundidades de até 7,8 mm, com a epiderme preservada, e as configurações de energia mais alta e de linhas mais densas produziram mais retração do tecido.

Daí sai a primeira regra do injetor que passa a usar aparelho: energia não troca de camada, aumenta o ponto. Park e colaboradores (2017, Skin Res Technol) mostraram, em tecido suíno ex vivo, que o ponto de coagulação cresce em tamanho e largura conforme a energia aplicada e o cartucho usado. Ponto maior é margem menor até a camada vizinha. O mesmo estudo trouxe um achado que pesa na seleção do paciente: sem a epiderme, o ponto de coagulação ficou 130% mais profundo do que na pele íntegra. A condição da superfície muda o destino da energia, e pele com ferida ou erosão não recebe disparo.

Ultrassom microfocado — pontos de coagulação térmica em três profundidades da pele — Dr. Thiago Perfeito
Transdutor apoiado na pele e três fileiras de pontos de coagulação, uma por profundidade: na derme, na gordura subcutânea e na lâmina do SMAS, logo acima do músculo. Cada fileira corresponde a um cartucho; a superfície por onde o feixe passa continua íntegra.

Os cartuchos do Ultraformer MPT

A Classys, fabricante do Ultraformer MPT, organiza os 10 cartuchos em três linhas e declara energia de 0,1 a 2,0 J por disparo, em passos de 0,1 J. Entre os modos que o fabricante descreve estão o Normal, em padrão de pontos, e o MP, que ele apresenta como aquecimento mais amplo da zona de coagulação.

LinhaProfundidades declaradas pelo fabricanteComo aparece nos estudos citados aqui
Face1,5 · 2,0 · 3,0 · 4,5 mm1,5 mm isolado para linhas finas (Lowe); 2,0 mm na região periocular (Hwang, 2026); 3,0 e 4,5 mm combinados no braço (Vachiramon)
Body6,0 · 9,0 · 13 mm6,0 mm entre as profundidades testadas na histologia suína (Hwang, 2025)
Booster1,5 · 3,0 · 4,5 mm, em padrão circularMesmas profundidades da linha facial, com outra geometria de disparo

Um detalhe que confunde quem lê artigo: a frequência impressa no cartucho não diz sozinha a profundidade. No estudo periocular com o Ultraformer MPT, o cartucho de 2,0 mm era de 4 MHz; no ensaio do braço com outro aparelho, 4 MHz correspondia a 4,5 mm e 7 MHz a 3,0 mm. Cada fabricante faz o próprio par. Leia o cartucho pela profundidade focal, que é o que decide a camada.

O que muda no tecido conforme a profundidade foi estudado com o próprio aparelho. Hwang e colaboradores (2025, J Cosmet Dermatol) dispararam o Ultraformer MPT em pele suína a 2,0, 3,0, 4,5 e 6,0 mm e acharam, na histologia, aumento de colágeno tipo I e III e de fibras elásticas, além de redução significativa de gordura. Na parte clínica, com 50 mulheres asiáticas de 30 a 60 anos, 85,3% relataram satisfação global e 70,6% perceberam melhora no contorno facial.

Imuno-histoquímica de colágeno 30 dias após ultrassom microfocado em quatro profundidades e dois modos — estudo de Hwang — Dr. Thiago Perfeito
Imuno-histoquímica de pele suína antes do tratamento (à esquerda) e 30 dias depois do Ultraformer MPT nas profundidades de 2,0, 3,0, 4,5 e 6,0 mm, cada uma no modo Normal e no modo MP. As setas vermelhas apontam colágeno novo, tipos I e III. FIGURE 2 de Hwang Y et al., J Cosmet Dermatol 2025 (PMID 39973106), reproduzida sob licença CC BY.

Antes do cartucho, a espessura

O cartucho tem profundidade fixa; o paciente, não. Kwon e colaboradores (2022, Dermatol Surg) revisaram o ultrassom de 200 pacientes tratados no terço inferior e mapearam pele, gordura superficial e SMAS por região. No jowl, a pele era mais fina, a gordura superficial mais espessa e as margens do SMAS mais profundas do que na região pré-auricular ou na bochecha inferior. A gordura superficial diminuiu com a idade, e as margens do SMAS ficavam mais superficiais em pacientes mais velhos, do sexo masculino e de rosto magro do que em pacientes jovens, do sexo feminino e de rosto cheio. Os autores lembram o motivo de tudo isso importar: lesão térmica no SMAS ou abaixo dele pode atingir o nervo facial e seus ramos.

Traduzindo para a cadeira: o mesmo cartucho de 4,5 mm cai em camadas diferentes num homem magro de 65 anos e numa mulher de 35 anos com bochecha cheia. Quem tem ultrassom diagnóstico mede; quem não tem precisa ao menos ajustar o plano à idade, ao sexo e ao biotipo — e reservar o foco mais profundo para onde há espessura que o comporte.

Mais profundidades também não somam resultado automaticamente. Vachiramon e colaboradores (2021, Lasers Surg Med) randomizaram 30 pacientes com flacidez de braço: um lado recebeu só o cartucho de 4,5 mm, o outro recebeu 4,5 e 3,0 mm, com 200 linhas por braço em ambos. Os dois lados tiveram firmeza discreta por pelo menos 3 meses, e o plano único foi superior na avaliação médica. A recomendação dos autores é a que vale aqui: avaliar a espessura da pele de cada paciente na tela de visualização antes de escolher o transdutor.

Onde aplicar: o mapa por região

Modelo · Escolha do cartucho em 4 perguntas

  1. Qual é a queixa? Linha fina e textura pedem foco na pele; flacidez de contorno pede foco mais fundo.
  2. Quanta espessura há ali? Medida ao ultrassom ou estimada por idade, sexo e biotipo.
  3. O que corre embaixo? Ramo do nervo facial, globo ocular, borda óssea.
  4. O que já foi feito ali? Preenchedor ou bioestimulador recentes mudam o calendário.

Pele fina e linhas finas. Lowe (2021, Plast Reconstr Surg Glob Open) testou um protocolo de profundidade única, só com o cartucho superficial de 1,5 mm (10 MHz), em até 340 linhas por sessão, em 9 mulheres de 38 a 64 anos. Aos 180 dias, os avaliadores viram melhora das linhas periorbitais em 6 de 6 casos, das linhas em sanfona em 5 de 6 e das periorais em 3 de 6; o efeito colateral foi eritema leve e passageiro, e uma paciente teve urticas por 24 horas. O estudo usou outro aparelho de ultrassom microfocado e teve apoio do fabricante dele.

Região periocular. Hwang e colaboradores (2026, JPRAS Open) trataram 34 mulheres coreanas de 31 a 67 anos com flacidez palpebral leve a moderada, numa única sessão de Ultraformer MPT com o cartucho de 2,0 mm e 120 disparos na região periocular. Na 12ª semana, o comprimento da pálpebra caiu em média 0,94 mm; 76% das pacientes relataram melhora e os avaliadores cegos a reconheceram em 59% dos casos. Dor e eritema leves, resolvidos em 3 a 4 dias, foram os únicos efeitos. Um dos autores é da Classys. O que o estudo mostra é o cartucho raso perto do olho; o feixe não pode alcançar o globo, e a lesão ocular publicada que discutimos no guia de cursos de tecnologias é o lembrete de que proteção ocular faz parte do procedimento.

Têmpora e arco zigomático. Aqui o ramo temporal do nervo facial corre junto à fáscia temporoparietal, a continuação do SMAS. Foco profundo nessa faixa é foco perto do nervo.

Terço inferior e contorno. No jowl, segundo Kwon, o SMAS está mais fundo e a gordura superficial mais espessa do que na região pré-auricular e na bochecha inferior. A redução de gordura vista na histologia de Hwang soma ao contorno de quem tem o terço inferior pesado; no rosto magro, é o efeito que se quer evitar, e a decisão de profundidade muda.

Corpo. A linha Body existe porque o tecido do corpo é mais espesso. No rosto e no pescoço, foco a partir de 6,0 mm só se considera onde a espessura medida o comporte, e nunca na têmpora, na região periocular ou sobre o trajeto de um ramo do nervo facial.

Antes e depois de Ultraformer MPT no contorno da mandíbula e no pescoço em Brasília — Dr. Thiago Perfeito
Cada caso é individual e os resultados variam de pessoa para pessoa.

Onde não disparar e o que dá errado

As complicações graves são raras, mas existem. Friedmann e colaboradores (2018, Lasers Surg Med) reuniram 5 pacientes que, depois de uma única sessão, evoluíram com bolhas, erosão ou ulceração, edema da pele ou do subcutâneo com atrofia posterior e necrose cutânea; os autores suspeitam de subnotificação. A conduta inicial que eles descrevem é cuidado local da ferida, orientação ao paciente e corticoide tópico, com ou sem laser de corante pulsado para conter a inflamação; o tratamento cirúrgico ou cosmético fica para quando o conservador falha. O injetor que passa a usar aparelho precisa sair do treino sabendo reconhecer cada uma dessas lesões no retorno.

Sessões, intervalo e combinação na INTI

No protocolo da clínica, o Ultraformer MPT é feito em 1 a 2 sessões no rosto e em 2 a 3 no corpo, com duração de resultado de 12 a 18 meses — número da prática da INTI, não de estudo. Entre bioestimulador ou preenchedor e uma sessão de aparelho de energia, a conduta do Dr. Thiago Perfeito é esperar de 2 a 4 semanas, prazo diferente do intervalo entre duas sessões do mesmo aparelho.

A clínica tem também o Linear Z, ultrassom focalizado da Jeisys Medical; segundo o fabricante, ele tem modo em pontos (Dot) e modo em linha contínua (Linear), 4 cartuchos de 1,5 a 13 mm e energia de 0,1 a 3,0 J por disparo. A lógica de cartucho e camada é a mesma; a escolha entre os dois aparelhos é clínica, caso a caso.

Onde isso entra na formação

Escolher cartucho é um raciocínio de anatomia antes de ser um gesto de máquina, e é assim que ele aparece na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, organizada em módulos presenciais de um sábado, com pré-work gravado obrigatório e turmas de no máximo 8 médicos. A física das camadas vem no material gravado; no Módulo B2, o Ultraformer MPT é discutido junto com as demais tecnologias da clínica — camada, indicação, combinação com injetável e o que oferecer a quem ainda não tem o aparelho —, sem pretensão de substituir o treino operacional do fabricante. No Módulo A1, ele volta em bloco breve, como alternativa ou complemento ao lifting. Para o panorama dos critérios que um curso de tecnologia deve cumprir, veja o guia sobre cursos de Morpheus8, Fotona e ultrassom microfocado; os outros módulos ficam em /cursos/.

Uma nota de transparência: o Dr. Thiago Perfeito não tem relação comercial com qualquer fabricante — nem com a Classys, nem com a Jeisys, nem com os fabricantes dos aparelhos dos estudos citados.

Perguntas frequentes

Qual a profundidade de cada cartucho do Ultraformer MPT?

Segundo o fabricante, a linha Face tem cartuchos de 1,5, 2,0, 3,0 e 4,5 mm; a linha Body, de 6,0, 9,0 e 13 mm; e a linha Booster, de padrão circular, de 1,5, 3,0 e 4,5 mm. A energia vai de 0,1 a 2,0 J por disparo.

Aumentar a energia faz o ultrassom chegar mais fundo?

A profundidade do foco é do cartucho. A energia aumenta o tamanho do ponto de coagulação, em largura e em altura, e com isso encolhe a margem até a camada vizinha. Para trocar de camada, troca-se de cartucho.

O cartucho de 4,5 mm sempre atinge o SMAS?

Não necessariamente. Um estudo com o ultrassom de 200 pacientes mostrou que o SMAS fica mais superficial em pacientes mais velhos, do sexo masculino e de rosto magro, e mais profundo no jowl. O mesmo cartucho cai em camadas diferentes conforme o paciente, por isso a espessura se mede ou se estima antes.

Usar mais de uma profundidade dá resultado melhor?

Não automaticamente. Num ensaio randomizado em braços, o plano único de 4,5 mm foi superior, na avaliação médica, à combinação de 4,5 e 3,0 mm com o mesmo número de linhas. A escolha segue a espessura do tecido, não a lógica de somar camadas.

Pode aplicar ultrassom microfocado perto dos olhos?

Na região periocular, com cartucho raso e proteção ocular. Um estudo com o Ultraformer MPT usou o cartucho de 2,0 mm nessa região, com melhora relatada por 76% das pacientes em 12 semanas. O feixe não pode alcançar o globo ocular.

Quais são as complicações do ultrassom microfocado?

As comuns são eritema, edema e dor leves e passageiros. As graves são raras: há relatos de bolhas, ulceração, atrofia, necrose de pele e lesão do nervo facial. Foco profundo sobre o trajeto do nervo e disparo sobre pele sem a epiderme íntegra são as situações que os estudos ligam a dano fora do alvo.

Quanto tempo esperar entre preenchimento e ultrassom microfocado?

Na conduta do Dr. Thiago Perfeito, de 2 a 4 semanas entre bioestimulador ou preenchedor e a sessão de aparelho de energia. Esse prazo é diferente do intervalo entre duas sessões do mesmo aparelho.

Referências

  1. Laubach HJ, Makin IR, Barthe PG, et al. Intense focused ultrasound: evaluation of a new treatment modality for precise microcoagulation within the skin. Dermatol Surg. 2008;34(5):727-734. · PMID 18429926 · DOI 10.1111/j.1524-4725.2008.34196.x
  2. White WM, Makin IR, Barthe PG, et al. Selective creation of thermal injury zones in the superficial musculoaponeurotic system using intense ultrasound therapy: a new target for noninvasive facial rejuvenation. Arch Facial Plast Surg. 2007;9(1):22-29. · PMID 17224484 · DOI 10.1001/archfaci.9.1.22
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  6. Vachiramon V, Triyangkulsri K, Iamsumang W, et al. Single-Plane Versus Dual-Plane Microfocused Ultrasound With Visualization in the Treatment of Upper Arm Skin Laxity: A Randomized, Single-Blinded, Controlled Trial. Lasers Surg Med. 2021;53(4):476-481. · PMID 32770693 · DOI 10.1002/lsm.23307
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  8. Hwang Y, Kim JH, Lee HE, et al. Efficacy of high-intensity focused ultrasound for treating upper and lower eyelid sagging. JPRAS Open. 2026;48:147-154. · PMID 41438879 · DOI 10.1016/j.jpra.2025.10.036
  9. Sathaworawong A, Wanitphakdeedecha R. Nerve injury associated with high-intensity focused ultrasound: A case report. J Cosmet Dermatol. 2018;17(2):162-164. · PMID 29165881 · DOI 10.1111/jocd.12464
  10. Friedmann DP, Bourgeois GP, Chan HHL, et al. Complications from microfocused transcutaneous ultrasound: Case series and review of the literature. Lasers Surg Med. 2018;50(1):13-19. · PMID 29154457 · DOI 10.1002/lsm.22768
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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