Anatomia vascular da face para injetáveis
A face é irrigada por dois sistemas que se encontram: o da carótida externa (artérias facial, temporal superficial e ramos da maxilar, como a infraorbital) e o da carótida interna, que chega pela artéria oftálmica (supratroclear, supraorbital e dorsal do nariz). Onde os dois se comunicam — glabela, nariz, canto medial do olho — o preenchedor que entra num vaso pode viajar até a retina. Em cada região, a pergunta útil é a mesma: em que plano a artéria corre aqui, e qual plano fica mais longe dela? Esta página responde região por região, com o que dissecção, tomografia e Doppler mediram.
Dois sistemas, uma rede só
Zhu e colaboradores (2018, Plast Reconstr Surg) injetaram contraste de óxido de chumbo nas carótidas de 22 cabeças de cadáver (e, em sequência, nas artérias facial e temporal superficial de outras 12) e reconstruíram as artérias em tomografia tridimensional. Em 63 hemifaces válidas, a reconstrução mostrou curso, profundidade relativa e anastomoses de todas as artérias principais. Três achados organizam o resto desta página:
- o território da artéria oftálmica manda para a fronte duas camadas distintas de ramos — não uma;
- as pregas da face, de modo geral, correspondem a artérias profundas abaixo delas;
- a variação entre hemifaces é a regra: as artérias facial e angular foram reclassificadas em tipos de relevância clínica justamente porque não seguem um desenho único.
Para quem injeta, a consequência é direta: nenhuma região é uma ilha. Um vaso da carótida externa pode estar ligado, a poucos centímetros, a um ramo da oftálmica. A leitura por território — e não por ponto decorado — é o tema do mapa de zonas de risco vascular da face. Aqui o foco é outro: a profundidade e o plano medidos em cada região.

Testa e glabela
Phumyoo e colaboradores (2020, Clin Anat) combinaram dissecção de 19 cadáveres com ultrassom de 14 voluntários para localizar as artérias da glabela e da fronte central. No nível do ponto glabelar, mediram:
- artéria central: 4,7 mm da linha média, a 3,1 mm da pele;
- artéria paracentral: 7,8 mm da linha média, a 4,8 mm de profundidade;
- supratroclear: ramo superficial a 14,7 mm e ramo profundo a 19,2 mm da linha média, a 4,2 mm e 5,9 mm da pele.
O mesmo trabalho encontrou uma artéria periosteal em 71,1% dos casos, ramo da orbitoglabelar superior ou da supratroclear, que corre um trecho curto no plano supraperiosteal e entra no periósteo acima do rebordo superciliar ou da sobrancelha medial, colada ao osso. Duas lições práticas saem daí: a linha média da glabela tem artéria própria, e o plano junto ao osso também tem vaso nessa região.
Com Doppler em 74 hemifaces de voluntários jovens, Shen e colaboradores (2023, Aesthetic Plast Surg) mostraram que todas as artérias periorbitais detectadas passavam pela fáscia subcutânea superficial. A supratroclear correu entre 1,0 e 2,0 cm da linha média na grande maioria (96,8% à esquerda e 93,8% à direita), e a supraorbital ficou concentrada entre 2,0 e 4,0 cm. A supratroclear foi mais superficial e mais calibrosa que a supraorbital, e a profundidade das duas se correlacionou com o IMC. Os autores sugerem, na fronte inferior, plano supraperiosteal na área da supratroclear e supramuscular na da supraorbital, evitando a faixa de 1,0 a 2,0 cm da linha média. Por que a glabela é a região clássica de cegueira por preenchedor está em glabela e risco de cegueira no preenchimento.
Têmpora: o risco que também é venoso
A têmpora tem camadas bem definidas, e a técnica muda conforme a camada escolhida. A revisão de Kim e colaboradores (2024, Surg Radiol Anat) descreve as duas abordagens mais usadas: cânula entre a fáscia temporal superficial e a lâmina superficial da fáscia temporal profunda, ou agulha até o osso, com depósito no plano periosteal.
O ponto que diferencia a têmpora é a veia temporal média. Kapoor e colaboradores (2020, Aesthetic Plast Surg), em revisão sistemática, descrevem um vaso de trajeto e profundidade constantes, mas de calibre muito variável — de 0,5 a 9,1 mm entre os estudos —, que corre na maior parte do caminho dentro do coxim de gordura entre as lâminas superficial e profunda da fáscia temporal profunda, recebendo tributárias da superfície do músculo temporal. Injeção inadvertida nessa veia pode causar embolia pulmonar não trombótica. Os autores propõem uma “zona de perigo venosa” nesses planos interfasciais — mais fundos que o plano da cânula descrito acima, que fica por cima da fáscia temporal profunda. Na têmpora, portanto, o mapa precisa de duas cores: a da artéria e a da veia.

Região periorbital e olheira
Jitaree e colaboradores (2018, Plast Reconstr Surg) dissecaram 30 hemifaces para saber qual artéria fica mais perto de cada ponto de injeção da goteira lacrimal. Na margem inferior da goteira e no nível da pupila, a mais próxima foi o ramo palpebral da artéria infraorbital, abaixo do zigomático maior e do orbicular do olho — a 2,79 mm lateral e 2,88 mm inferior ao primeiro ponto, e a 4,65 mm e 7,13 mm do segundo. No ponto mais medial, junto ao canto do olho, a artéria encontrada foi a angular, como ramo da oftálmica. A conclusão dos autores é que a goteira lacrimal tem muitas artérias por perto, e por isso risco alto.
O estudo com Doppler de Shen (2023) acrescenta que o curso da artéria angular é muito variável. Na prática, a extremidade medial da olheira é exatamente o lugar onde o sistema facial e o oftálmico se tocam — e onde a variação de um paciente para outro mais pesa.
Nariz
Alfertshofer e colaboradores (2022, Aesthet Surg J) examinaram com ultrassom a linha média do nariz de 60 participantes (28 homens e 32 mulheres). No dorso médio, um arranjo em cinco camadas apareceu em 100% dos casos, ocupando de 26,7% a 67,5% do comprimento nasal; na raiz e na ponta, esse arranjo não existia. As artérias nasais correram no plano superficial em 91,7% dos casos na raiz, 80% no dorso médio e 98,3% na ponta. Os autores lembram que, de todas as regiões da face, o nariz é a de maior risco de perda visual irreversível com preenchedor.
A leitura para o plano: na linha média, junto ao osso e à cartilagem, ficam poucos dos vasos — poucos, não nenhum. No dorso médio, trecho que inclui o rínion, em um de cada cinco casos a artéria não estava no plano superficial; sobre o rínion, o depósito profundo se evita (ver como fazer rinomodelação). A ponta, onde quase todas as artérias são superficiais e o tecido é terminal, é o segmento com menor margem de erro.

Malar e terço médio
No terço médio, a artéria infraorbital não está sozinha. Na tomografia de Zhu (2018), 74,6% das hemifaces tinham um tronco nasolabial acompanhando a prega nasolabial e 50,8% tinham um tronco infraorbital atravessando a região infraorbital. Em metade das faces, portanto, um ramo da própria artéria facial cruza a bochecha a caminho da região infraorbital — e o depósito na malar medial pode encontrar a facial, não só a infraorbital.
Vasconcelos-Berg e colaboradores (2024, Diagnostics (Basel)) descrevem a anatomia ultrassonográfica do terço médio — nariz, goteira lacrimal, sulco nasolabial, região zigomática e pré-auricular — e recomendam escanear antes e durante a injeção. Entre os riscos que a imagem ajuda a evitar, além da oclusão vascular, os autores citam a injeção intraparotídea na região pré-auricular.
Sulco nasogeniano
É a região da artéria facial, e a variação dela aqui é grande o bastante para merecer estudo à parte. Dois números situam o problema. Na meta-análise de Pourani e colaboradores (2025, J Cosmet Dermatol), que reuniu 10 estudos com Doppler, a artéria ficou mais profunda à medida que subia, chegando a 8,04 mm no nível da asa nasal, com calibre de 1,46 mm. Já na meta-análise de Trzeciak e colaboradores (2025, Aesthetic Plast Surg), o trecho entre a comissura e a asa teve média de 10,34 mm, com intervalo de confiança de 5,24 a 15,44 mm — largo a ponto de os autores sugerirem ultrassom antes de tratar a parte superior do sulco. Acima da asa, a média cai para menos de 5 mm: a artéria sobe em direção à superfície no caminho para o canto do olho.
Lábios
Cotofana e colaboradores (2020, Aesthet Surg J) examinaram com ultrassom 41 voluntários, em seis pontos dos lábios. As artérias labiais estavam mais vezes no plano submucoso (58,5%), depois no intramuscular (36,2%) e raramente no subcutâneo (5,3%). A labial superior ficou a 5,6 mm de profundidade e a inferior a 5,2 mm, e as duas correram, na maioria, dentro do vermelhão — no lábio superior em 83% e no inferior em 86,2%; na linha média, em todos os voluntários. Os autores favorecem plano superficial e acesso perpendicular, a partir do lábio cutâneo.
A meta-análise de Trzeciak e colaboradores (2026, Aesthet Surg J) chegou a profundidades médias parecidas em três níveis do lábio superior e no inferior, entre 4,59 e 4,90 mm abaixo da superfície do vermelhão. Com isso, os autores sustentam injeção até 3,5 mm de profundidade na maior parte do lábio e até 4 mm no vermelhão superior, e sugerem ultrassom antes de volumizações extensas.
Mento
Tansatit e colaboradores (2020, Plast Reconstr Surg) dissecaram 31 faces de cadáver para localizar a artéria mentual ascendente, principal irrigação do topo do queixo. O lado dominante variou (19 à direita, 12 à esquerda). A artéria dominante entrou no mento de forma paracentral, a cerca de 6 mm da linha média (5,64 ± 4,34 mm), dentro do plano muscular, a 4,15 ± 1,95 mm da pele, e se anastomosou com a artéria sublingual no assoalho da boca. Significa que oclusão no queixo não fica, necessariamente, no queixo — e que o lado dominante só se descobre examinando o paciente.
Mandíbula e ângulo
A artéria facial cruza a borda inferior da mandíbula à frente do masseter. Nesse nível, a meta-análise de Pourani visualizou a artéria com Doppler em 100% dos exames, a 6,27 mm da pele, com calibre médio de 2,14 mm — maior que nos níveis acima. A terceira parte da série de Vasconcelos-Berg e colaboradores (2025, Diagnostics (Basel)), dedicada ao terço inferior, aponta a artéria facial, a parótida e o masseter como as estruturas que o ultrassom ajuda a evitar no contorno mandibular, na região da marionete e no mento, com o objetivo de reduzir oclusão, injeção intramuscular e necrose de pele.

Resumo por região
| Região | Vaso que mais pesa | O que os estudos mediram |
|---|---|---|
| Glabela | Central, paracentral, supratroclear, periosteal | Central a 4,7 mm da linha média e 3,1 mm da pele; periosteal colada ao osso em 71,1% |
| Fronte inferior | Supratroclear e supraorbital | Supratroclear entre 1 e 2 cm da linha média; ambas na fáscia subcutânea superficial |
| Têmpora | Veia temporal média | Calibre de 0,5 a 9,1 mm, entre as lâminas da fáscia temporal profunda |
| Olheira | Ramo palpebral da infraorbital; angular no canto medial | Artéria a poucos milímetros dos pontos de injeção da goteira |
| Nariz | Dorsal e laterais do nariz | Superficiais em 91,7% na raiz, 80% no dorso médio, 98,3% na ponta |
| Malar medial | Infraorbital e tronco infraorbital da facial | Tronco infraorbital da facial em 50,8% das hemifaces |
| Sulco nasogeniano | Facial | Entre comissura e asa: média de 10,34 mm (IC 95% de 5,24 a 15,44 mm) |
| Lábios | Labiais superior e inferior | Submucosas em 58,5%; profundidade média entre 4,59 e 4,90 mm |
| Mento | Mentual ascendente | Cerca de 6 mm da linha média, no músculo, a 4,15 mm da pele |
| Mandíbula | Facial na borda mandibular | 6,27 mm de profundidade e 2,14 mm de calibre |
Como transformar o mapa em decisão
Modelo · Quatro leituras antes de cada região
- Qual sistema? Se a região está ligada à oftálmica (glabela, nariz, canto medial), o erro tem consequência visual — e a margem de volume e pressão é outra.
- Qual plano o vaso ocupa aqui? Lábio: submucoso, na maioria. Nariz: superficial, na maioria. Mento: muscular. Glabela: há vaso inclusive junto ao osso.
- Quanto o número varia? Média é ponto de partida. Intervalos largos, lado dominante e assimetria entre hemifaces dizem que o paciente precisa ser examinado, não presumido.
- Artéria ou veia? Na têmpora, a veia temporal média muda o desfecho possível do erro: em vez de isquemia de pele ou da retina, embolia pulmonar.
Na sequência vêm as medidas que valem em qualquer região. Injeção lenta, em pequeno volume por depósito, com o instrumento escolhido conforme o plano. Na rotina do Dr. Thiago, preenchedor e bioestimulador são injetados com aspiração prévia — o que não dispensa as outras camadas de proteção. O ultrassom, quando disponível, transforma o número médio do estudo no número daquele paciente; o que ele acrescenta e o que depende de quem o opera está em ultrassom em estética e prevenção de oclusão. E a hialuronidase fica pronta antes da primeira punção — dose por cenário em dose de hialuronidase por cenário, conduta da primeira hora em oclusão vascular por ácido hialurônico.
Onde esse mapa vira mão
Ler profundidade em milímetro é o começo; reconhecer a camada pela resistência da agulha, no paciente, é outra etapa. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, cada módulo é um sábado presencial em Brasília precedido de pré-work gravado obrigatório, com turma de no máximo 8 médicos e aplicação em paciente modelo. O módulo de Toxina e Preenchimento tem a segurança vascular como bloco central — mapa arterial, mecanismos de oclusão, protocolo e hialuronidase —, e o módulo de Face Avançada retoma a anatomia vascular de risco região a região, com lábio, olheira, têmpora e rinomodelação. Para comparar formações por critério, veja como escolher um curso de anatomia facial aplicada aos injetáveis.
Perguntas frequentes
Quais artérias da face se comunicam com a circulação do olho?
As que vêm da artéria oftálmica — supratroclear, supraorbital e dorsal do nariz — e, em parte dos pacientes, a angular. Na tomografia de Zhu e colaboradores (2018), 50% das artérias angulares eram canais diretos entre o território da facial e o da oftálmica. Por isso glabela, nariz e canto medial do olho concentram o risco visual.
O plano junto ao osso é sempre livre de artéria?
Não. Na glabela, Phumyoo e colaboradores (2020) encontraram uma artéria periosteal em 71,1% dos casos, correndo um trecho curto no plano supraperiosteal colada ao osso. No nariz, a maioria das artérias é superficial, mas no dorso médio 20% não corriam no plano superficial. O plano profundo reduz o encontro com vasos; não o elimina.
Em que plano correm as artérias labiais?
No ultrassom de Cotofana e colaboradores (2020), a maioria estava no plano submucoso (58,5%), seguida do intramuscular (36,2%) e do subcutâneo (5,3%), a cerca de 5 mm de profundidade e quase sempre dentro do vermelhão. A meta-análise de Trzeciak (2026) apoia injeção até 3,5 mm de profundidade na maior parte do lábio.
Por que a têmpora tem risco diferente das outras regiões?
Porque, além das artérias, ela tem a veia temporal média, que corre entre as lâminas da fáscia temporal profunda e tem calibre de 0,5 a 9,1 mm. Injeção dentro dela pode levar o produto ao pulmão, causando embolia pulmonar não trombótica. Kapoor e colaboradores (2020) chamam esses planos interfasciais de zona de perigo venosa.
Onde fica a artéria do queixo?
A artéria mentual ascendente entra no mento cerca de 6 mm ao lado da linha média, dentro do músculo, a pouco mais de 4 mm da pele, e se anastomosa com a artéria sublingual no assoalho da boca (Tansatit e colaboradores, 2020). O lado dominante varia de pessoa para pessoa.
A média de profundidade dos estudos vale para o meu paciente?
Ela orienta, mas não substitui o exame. No trecho entre a comissura e a asa nasal, a profundidade da artéria facial teve média de 10,34 mm com intervalo de confiança de 5,24 a 15,44 mm (Trzeciak, 2025). Quando a variação é dessa ordem, o ultrassom com Doppler mostra o número daquele paciente.
Referências
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- Phumyoo T, Jiirasutat N, Jitaree B, et al. Anatomical and Ultrasonography-Based Investigation to Localize the Arteries on the Central Forehead Region During the Glabellar Augmentation Procedure. Clin Anat. 2020;33(3):370-382. · PMID 31688989 · DOI 10.1002/ca.23516
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