Botox na axila: técnica, teste de Minor e dose da bula
Toxina botulínica

Botox na axila (hiperidrose): técnica, mapa de Minor e unidades da bula

A axila é a aplicação de toxina em que o injetor acostumado à face mais erra por hábito: muda o tecido-alvo, muda o plano, muda a diluição e muda a bula. Quem leva para a axila a rotina do terço superior injeta fundo, dilui errado e distribui os pontos sem mapa. O que funciona é o contrário: mapear o suor, ficar na derme e seguir a dose declarada para o produto que está no frasco.

Na hiperidrose axilar primária, a toxina botulínica é injetada na derme — não no músculo — sobre a área de suor demarcada pelo teste de Minor (iodo e amido). A bula americana do Botox declara 50 U por axila, em 10 a 15 pontos intradérmicos distribuídos a cerca de 1 a 2 cm um do outro. Esse número vale para o Botox e para essa indicação. As outras marcas têm doses próprias, estudadas com o próprio produto, e nenhuma se obtém por conversão.

O que muda em relação à toxina da face

Na face, a toxina bloqueia a placa motora de um músculo. Na axila, o alvo é a glândula écrina. Como resume o ensaio de Heckmann e colaboradores (2001, N Engl J Med), a toxina interrompe o suor excessivo porque bloqueia a liberação de acetilcolina, o neurotransmissor da inervação simpática das glândulas sudoríparas. O mecanismo é o mesmo; o tecido, o plano e a dose são outros.

Essa diferença de tecido pesa na dose. Brin e colaboradores (2024, Toxins) lembram que os tecidos tratados são inervados por tipos diferentes de fibra — motora, sensitiva, autonômica — e exigem doses e pontos próprios. Por isso a axila tem bula, diluição e técnica próprias, e não herda nada da rotina do terço superior. (Quatro dos cinco autores são funcionários da AbbVie, fabricante do Botox, e o quinto é consultor da empresa.)

Quem tratar e o que investigar antes

A hiperidrose primária é comum: a revisão de Schreiner e colaboradores (2026, Dtsch Arztebl Int) estima prevalência de 2% a 5%. A mesma revisão coloca o teste de Minor na avaliação diagnóstica e descreve a escada de tratamento: cloreto de alumínio e anticolinérgicos primeiro; toxina botulínica (ou curetagem subcutânea, na axila) em seguida, conforme a gravidade e o peso dos sintomas.

A bula americana do Botox delimita a indicação com precisão:

Para graduar a queixa, os estudos de registro usaram a Escala de Gravidade da Doença Hiperidrótica (HDSS), de 4 pontos: 1 é o suor que nunca é notado nem atrapalha, 4 é o suor intolerável que sempre interfere nas atividades. No primeiro estudo de registro descrito na bula, os pacientes tinham escore 3 ou 4.

O teste de Minor, passo a passo

A área a tratar não é a axila inteira: é a área que sua. A bula do Botox manda defini-la com uma técnica de coloração padrão, como o teste de iodo e amido de Minor, e descreve o preparo:

  1. O paciente raspa as axilas e fica 24 horas sem desodorante nem antitranspirante.
  2. Repousa por cerca de 30 minutos, sem exercício e sem bebida quente.
  3. Seque a axila e pinte imediatamente com solução de iodo.
  4. Deixe secar e polvilhe amido em pó, de leve; sopre o excesso.
  5. Em cerca de 10 minutos, a área hiperidrótica fica azul-escura, quase preta.

Contorne essa área com caneta e distribua os pontos dentro dela. Um cuidado da própria bula: não injete através da marca de tinta, para não deixar um efeito de tatuagem permanente — marque ao lado do ponto, não em cima dele.

Teste de Minor com iodo e amido na axila mostrando a área hiperidrótica escura — Dr. Thiago Perfeito
Teste de Minor positivo: depois do iodo e do amido, a área que sua escurece (centro) e se destaca do iodo amarelado ao redor. É dentro desse contorno que os pontos são distribuídos. Figure 3 de Scamoni S et al., ISRN Dermatol 2012 (PMID 23119179), reproduzida sob licença CC BY.

Unidades e diluição: o que cada bula declara

Os números a seguir são das bulas americanas (Prescribing Information). No consultório, vale a bula brasileira do frasco em uso. Atenção a um detalhe que confunde o iniciante: a dose de hiperidrose está na bula do Botox terapêutico, não na do Botox Cosmetic.

A própria literatura da axila mostra por que esses números não conversam entre si. No ensaio de Heckmann, com 145 pacientes, o resumo faz questão de avisar que as unidades da preparação usada não são idênticas às de outras preparações. A unidade de um estudo só vale para o produto daquele estudo, e a dose de uma marca não se transfere para outra. A explicação completa está em Botox ou Dysport: diferenças que importam para o injetor.

A técnica de aplicação

A bula do Botox detalha a mecânica do ponto, e cada detalhe tem uma razão:

Camadas da pele em corte com a derme destacada, plano da injeção de toxina na hiperidrose — Dr. Thiago Perfeito
Corte da pele com a derme em destaque, sobre a gordura e o músculo. Na hiperidrose axilar, o depósito de toxina fica na derme, que abriga as glândulas sudoríparas écrinas — não no músculo, como na face.

Existe mais de um jeito de cobrir a área. No ensaio de Trindade de Almeida, cada paciente recebeu Xeomin de um lado por múltiplas punções intradérmicas e do outro por via subcutânea em leque (técnica radial). As duas técnicas reduziram o suor de forma significativa, com 95% de respondedores (redução de pelo menos 50% no suor) no 30º dia. A técnica radial foi mais rápida, mas mais dolorosa, e as múltiplas punções tiveram redução maior do suor medido em alguns momentos do seguimento (30º e 180º dias).

Axila marcada com grade de pontos separados para injeção intradérmica de toxina botulínica — Dr. Thiago Perfeito
Grade de pontos marcada na axila, com cerca de 2 cm entre eles, e seringa posicionada para a injeção intradérmica. Pela bula do Botox, a agulha entra ao lado da marca de tinta, não através dela. Figure 5 de Scamoni S et al., ISRN Dermatol 2012 (PMID 23119179), reproduzida sob licença CC BY.

O que esperar: resposta e duração

A axila é uma das indicações mais bem estudadas da toxina botulínica.

A reaplicação, segundo a bula, é feita quando o efeito da aplicação anterior diminui — o critério é a volta do sintoma. No acompanhamento de Scamoni, o pedido de reaplicação feito pelo paciente coincidiu com teste de Minor positivo e HDSS alterada em 86% das vezes.

Efeitos adversos

Nos estudos duplo-cegos da bula do Botox, as reações mais relatadas na axila (em 3% a 10% dos adultos) foram dor e sangramento no local da injeção, suor fora da axila, infecção, faringite, síndrome gripal, cefaleia, febre, dor cervical ou lombar, prurido e ansiedade. No ensaio de Naumann e Lowe, eventos adversos foram relatados por 11% do grupo tratado e 5% do placebo, sem diferença estatística. O aumento de suor em outras áreas merece ser mencionado ao paciente antes da aplicação.

Erros comuns

  1. Pular o teste de Minor. Sem o mapa, a dose vai para a axila "média", não para a área que sua.
  2. Usar a diluição da face. A bula do Botox declara 100 U em 4 mL para a axila; a rotina de 4 U por 0,1 mL é do Botox Cosmetic, para músculo.
  3. Injetar fundo. O alvo é a derme; abaixo dela, a toxina se afasta das glândulas.
  4. Pontos irregulares. Com halo de até cerca de 2 cm por ponto, espaço demais entre eles deixa ilhas de suor.
  5. Furar a marca de caneta. A bula avisa do risco de tatuagem permanente.
  6. Converter a dose de uma marca para outra. Cada número só vale para o produto que o declara.
  7. Não investigar causa secundária. Tratar o sintoma sem procurar a doença de base é o erro que a bula manda evitar.

Uma nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica.

Onde isso se treina

O raciocínio que a axila exige — mudar de alvo, de plano e de bula sem levar os hábitos de um território para o outro — é o mesmo que organiza a formação do Dr. Thiago Perfeito, médico (CRM-DF 23199). Na Pós Prática, a farmacologia e as tabelas de dose são estudadas antes, em pré-work gravado e obrigatório; o sábado presencial em Brasília é de prática supervisionada em paciente modelo, para turmas de até 8 médicos. A toxina é o eixo do módulo de Toxina e Preenchimento, e os outros módulos estão em /cursos/.

Perguntas frequentes

Quantas unidades de Botox se aplicam em cada axila?

A bula americana do Botox declara 50 U por axila para a hiperidrose axilar primária grave, diluídas na proporção de 100 U para 4 mL de soro fisiológico sem conservante e aplicadas por via intradérmica em 10 a 15 pontos. Esse número vale para o Botox; outras marcas não se convertem.

Como se faz o teste de Minor?

Segundo a bula do Botox: o paciente raspa as axilas e fica 24 horas sem desodorante ou antitranspirante, repousa cerca de 30 minutos sem exercício nem bebida quente; a axila é seca, pintada com iodo, deixada secar e polvilhada com amido. Em cerca de 10 minutos, a área que sua fica azul-escura.

A toxina na axila é intramuscular?

Não. Na axila a injeção é intradérmica, a cerca de 2 mm de profundidade, com agulha a 45° e bisel para cima, segundo a bula do Botox. O alvo são as glândulas sudoríparas da derme, não o músculo.

Dysport e Xeomin têm indicação para hiperidrose?

Não nos rótulos americanos. A bula americana do Dysport diz que a segurança para hiperidrose não foi estabelecida e que o produto é aprovado apenas para injeção intramuscular; a do Xeomin não lista hiperidrose entre as indicações. Há estudos com o Xeomin na axila, como o de Trindade de Almeida e colaboradores (2020), com 50 U por axila. No Brasil, confira a bula brasileira do produto.

Quanto tempo dura o efeito da toxina na axila?

Nos estudos de registro do Botox, a duração mediana da resposta foi de 201 dias. No ensaio de 52 semanas de Lowe e colaboradores (2007), foi de 205 dias com 50 U por axila. A reaplicação é feita quando o efeito diminui.

Quais os efeitos adversos mais comuns?

Na bula do Botox, os mais relatados (3% a 10% dos adultos) foram dor e sangramento no local, suor fora da axila, infecção, faringite, síndrome gripal, cefaleia, febre, dor cervical ou lombar, prurido e ansiedade.

Por que não injetar sobre a marca de caneta?

Porque a bula do Botox avisa que injetar através da tinta pode deixar um efeito de tatuagem permanente. Marque ao lado do ponto.

Referências

  1. BOTOX® (onabotulinumtoxinA) — Prescribing Information. AbbVie/Allergan, revisão 11/2023 (seções 1, 2.9, 6 e 14 — Primary Axillary Hyperhidrosis).
  2. DYSPORT® (abobotulinumtoxinA) — Prescribing Information. Ipsen, revisão 9/2017 (seção 5.7).
  3. XEOMIN® (incobotulinumtoxinA) — Prescribing Information. Merz, revisão 06/2026 (seção 1).
  4. Naumann M, Lowe NJ. Botulinum toxin type A in treatment of bilateral primary axillary hyperhidrosis: randomised, parallel group, double blind, placebo controlled trial. BMJ. 2001;323(7313):596-599. · PMID 11557704 · DOI 10.1136/bmj.323.7313.596
  5. Lowe NJ, Glaser DA, Eadie N, et al. Botulinum toxin type A in the treatment of primary axillary hyperhidrosis: a 52-week multicenter double-blind, randomized, placebo-controlled study of efficacy and safety. J Am Acad Dermatol. 2007;56(4):604-611. · PMID 17306417 · DOI 10.1016/j.jaad.2007.01.009
  6. Heckmann M, Ceballos-Baumann AO, Plewig G; Hyperhidrosis Study Group. Botulinum toxin A for axillary hyperhidrosis (excessive sweating). N Engl J Med. 2001;344(7):488-493. · PMID 11172190 · DOI 10.1056/NEJM200102153440704
  7. Trindade de Almeida AR, Noriega LF, Bechelli L, Suárez MV. Randomized Controlled Trial Comparing the Efficacy and Safety of Two Injection Techniques of IncobotulinumtoxinA for Axillary Hyperhidrosis. J Drugs Dermatol. 2020;19(7):765-770. · PMID 32726556 · DOI 10.36849/JDD.2020.4989
  8. Scamoni S, Valdatta L, Frigo C, et al. Treatment of primary axillary hyperhidrosis with botulinum toxin type a: our experience in 50 patients from 2007 to 2010. ISRN Dermatol. 2012;2012:702714. · PMID 23119179 · DOI 10.5402/2012/702714
  9. Schreiner W, Rapprich S, Rzany B, Wiegering A. Hyperhidrosis: Prevalence, Diagnosis, and Stepwise Treatment. Dtsch Arztebl Int. 2026;123(9):253-260. · PMID 41572865 · DOI 10.3238/arztebl.m2025.0229
  10. Brin MF, Nelson M, Ashourian N, et al. Update on Non-Interchangeability of Botulinum Neurotoxin Products. Toxins (Basel). 2024;16(6):266. · PMID 38922160 · DOI 10.3390/toxins16060266
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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