Botox na covinha do queixo (queixo em casca de laranja)
O queixo em casca de laranja — as covinhas e os pontinhos que aparecem quando o paciente fecha a boca com força — é a pele sendo puxada por fibras do músculo mentual que se inserem nela em pontos. A toxina relaxa essas fibras com pontos baixos e centrais sobre a proeminência óssea do queixo, no plano do músculo, que é mais fundo do que parece. Os dois riscos são a toxina subir para o orbicular da boca, prejudicando a vedação dos lábios, e o bloqueio irregular, que deixa um abaulamento paradoxal onde o músculo continua ativo.
Por que a pele do queixo fica “furadinha”
O mentual é um músculo par, que nasce no osso alveolar da mandíbula, abaixo dos incisivos inferiores, e desce até a pele do queixo. Quando contrai, eleva o tecido mole do mento e projeta o lábio inferior — é o músculo do “beicinho” e o que trabalha quando a boca precisa vedar com esforço.
A explicação da textura em casca de laranja veio de um estudo de anatomia com espécimes transparentes. Sakamoto e colaboradores (2026, Journal of Craniofacial Surgery) dissecaram 6 cadáveres, tornaram transparentes blocos do terço inferior e analisaram a orientação das fibras sob luz polarizada. Encontraram três grupos de fibras no mentual:
- Horizontais, em feixes grossos, que se inserem na pele do queixo e sustentam o lábio inferior, sem causar irregularidade na superfície;
- Transversas, que cruzam em direção inferomedial e se prendem à pele em pontos — são estas as responsáveis pelo aspecto em casca de laranja;
- Verticais, que descem até a borda da mandíbula e agem como antagonistas.
É por isso que o queixo não enruga em linhas, como a testa, e sim em pontos: cada inserção pontual das fibras transversas puxa uma pequena área da pele quando o músculo contrai. Com o tempo e a perda de suporte do mento, a marca começa a aparecer mesmo em repouso.

Onde o mentual está e em que profundidade
O estudo que orienta a marcação é o de Choi e colaboradores (2021, Toxins), que dissecaram 44 hemifaces e examinaram 66 hemifaces de voluntários jovens por ultrassom. Os achados que importam para a agulha:
- Forma. Em 86,4% dos casos o mentual tinha forma de cúpula (tipo A); em 13,6% era achatado, com poucas fibras (tipo B).
- Posição. O músculo estava, na maioria dos casos, na faixa de 5 a 10 mm de cada lado da linha média e de 20 a 30 mm abaixo da linha horizontal que liga as comissuras.
- Profundidade. Medida a 5 mm de cada lado do ponto mais proeminente do queixo, o mentual ficava entre 6,7 e 10,7 mm abaixo da pele.

Duas consequências práticas saem desses números. A primeira: o alvo fica na metade de baixo do queixo, sobre a proeminência óssea, e não logo abaixo do vermelhão — quanto mais alto o ponto, mais perto do orbicular da boca. A segunda: o músculo é profundo; a pele grossa e o subcutâneo do queixo enganam quem traz para cá a profundidade rasa da testa.
A técnica no mentual
O mentual está fora das indicações de bula das toxinas, e o que orienta técnica e dose são consensos e estudos clínicos. O painel italiano de 14 injetores experientes reunido por Fundarò e colaboradores (2026, Toxins) classificou como indicações de consenso forte o aspecto em casca de laranja (“bola de golfe”) e a hiperatividade do músculo. O painel recomendou dose média total de 8 U, distribuída entre os dois lados, acima da média de 6,5 U dos consensos internacionais revisados, e preferiu combinar injeção intramuscular com injeção intradérmica.
- Peça a contração. O paciente fecha a boca com força ou faz “beicinho”: as covinhas aparecem e o ventre do mentual fica palpável sobre a proeminência do queixo.
- Marque baixo. Pontos sobre a proeminência óssea, perto da linha média ou em par paramediano, dentro da faixa em que o músculo foi encontrado — longe da borda do lábio inferior.
- Chegue ao músculo. O componente intramuscular leva a agulha até o ventre do mentual, que é profundo; os depósitos intradérmicos, menores, completam a dose no plano da pele, onde as fibras transversas fazem as inserções pontuais.
- Cubra o músculo inteiro que contrai. Bloqueio de só uma parte do mentual hiperativo é a origem do abaulamento paradoxal (ver abaixo).
- Agulha fina, depósito pequeno. O Dr. Thiago faz toxina com agulha 30 a 32 G e microbolus; não usa microcânula e não aspira antes de injetar toxina, porque com essa agulha, no ponto e no plano certos, a aspiração não é necessária.

Uma ressalva sobre esses números: são unidades da toxina que o painel usa, e cada bula — Botox, Dysport, Xeomin — afirma que suas unidades não se trocam pelas de outro produto. O Dr. Thiago, na formação que conduz, ensina mesmo assim uma equivalência de partida, de 1 U de Botox para 2,5 U de Dysport e de 1 U de Botox para 1 U de Xeomin, com a orientação de iniciar a troca na dose equivalente ou ligeiramente menor e corrigir conforme a resposta do paciente. Quanto volume vai em cada ponto depende da reconstituição — o cálculo está na página sobre diluição do Botox.
Abaulamento paradoxal do queixo
É a complicação própria do mentual. Yu e colaboradores (2020, J Cosmet Dermatol) descreveram uma paciente de 26 anos tratada de rotina para queixo em casca de laranja que, no dia seguinte, apresentou um abaulamento inesperado no queixo. A explicação proposta foi o relaxamento desequilibrado do mentual, por injeção imprópria e difusão desigual da toxina: a parte bloqueada cede e a parte que ainda contrai salta. Uma injeção complementar nas fibras ainda hiperativas, localizadas por ultrassom, resolveu o abaulamento e melhorou o contorno. A conclusão dos autores é que a injeção precisa cobrir toda a espessura do músculo, sobretudo nos casos de hiperatividade intensa.
O tipo anatômico também conta: o mentual em cúpula concentra mais músculo no centro do queixo, e o achatado tem poucas fibras. A palpação em contração e, quando disponível, o ultrassom mostram quanto músculo há para cobrir. A revisão de Yi e colaboradores (2023, Anatomy & Cell Biology) lista os outros efeitos indesejados do tratamento — insuficiência de fechamento da boca e sorriso assimétrico pela queda do lábio inferior — e propõe pontos de injeção baseados em marcos ósseos da mandíbula para evitá-los.
Quando combinar com preenchedor
A casca de laranja em repouso, num queixo pequeno ou retraído, tem dois componentes: o músculo que puxa e a falta de suporte que deixa a pele sem base. A toxina trata o primeiro; o segundo é território do preenchedor no mento.
Betti e colaboradores (2026, Journal of Craniofacial Surgery) compararam, num estudo retrospectivo com 46 pacientes com retrusão do mento, ácido hialurônico isolado com toxina no mentual seguida de ácido hialurônico 10 a 15 dias depois:
- a projeção do queixo melhorou de forma semelhante nos dois grupos;
- o grupo combinado precisou de menos retoques no primeiro mês — 7 contra 14 pacientes;
- aos 6 meses, nenhum paciente do grupo combinado precisou de nova aplicação de preenchedor, contra 7 do grupo de ácido hialurônico isolado;
- a dor relatada foi menor no grupo combinado.
A lógica clínica é a mesma do estudo: relaxar o mentual antes reduz a força que o músculo faz sobre o gel e o tecido que acabou de receber volume. Para o preenchedor, os volumes do mento seguem a bula de cada produto — a do Restylane Defyne, por exemplo, limita o mento a 4 mL por tratamento — 2 mL no mento e 2 mL na área abaixo do lábio inferior. A escolha do plano, do produto e da quantidade fica para o planejamento do contorno, depois que a toxina já mostrou quanto da casca de laranja era músculo.
Retorno, duração e o que dizer ao paciente
- Revisar o queixo de 15 a 30 dias depois da aplicação mostra se sobrou alguma covinha ativa ou algum abaulamento; o retoque, quando houver, é pontual, de dose pequena e só onde ficou atividade.
- Na face, o efeito da toxina costuma durar de 3 a 4 meses no consultório do Dr. Thiago; reaplicar antes de 3 meses contraria o intervalo mínimo que as bulas estabelecem.
- O paciente precisa saber que pode notar o queixo mais relaxado ao fechar a boca com força, e que dificuldade para beber no copo ou para pronunciar alguma consoante deve ser comunicada no retorno.
Declaração de independência: o Dr. Thiago não mantém relação comercial com fabricantes de toxina botulínica nem de preenchedores.
Do mapa à mão
Palpar um mentual em cúpula ou achatado, chegar ao ventre do músculo sem subir para o lábio e distribuir os depósitos intradérmicos sobre as covinhas exige prática supervisionada. Na Pós Prática conduzida pelo Dr. Thiago Perfeito — médico, CRM-DF 23199, de Medicina Estética e Regenerativa —, o módulo de Toxina e Preenchimento reúne a toxina dos três terços e o preenchimento de contorno, inclusive o mento, no mesmo sábado presencial: demonstração comentada na parte teórica e, na prática, o próprio aluno executando sob supervisão em paciente modelo, com turma de até oito médicos e pré-work gravado antes. Para comparar formações, veja melhor curso de toxina botulínica avançada; os demais módulos estão em /cursos/.
Perguntas frequentes
O que causa o queixo em casca de laranja?
A contração do músculo mentual. Sakamoto e colaboradores (2026) mostraram que fibras transversas do mentual se prendem à pele do queixo em pontos; quando o músculo contrai, cada inserção puxa uma pequena área da pele, formando as covinhas. Com a perda de suporte do mento, a marca pode aparecer também em repouso.
Onde aplicar botox no mentual?
Em pontos baixos sobre a proeminência óssea do queixo, perto da linha média ou em par paramediano. Choi e colaboradores (2021) encontraram o músculo, na maioria dos casos, de 5 a 10 mm da linha média e de 20 a 30 mm abaixo da linha que liga as comissuras. Pontos altos, perto do lábio, arriscam alcançar o orbicular da boca.
Qual a profundidade do músculo mentual?
No estudo de Choi e colaboradores (2021), medido a 5 mm de cada lado do ponto mais proeminente do queixo, o mentual ficava entre 6,7 e 10,7 mm abaixo da pele. É um alvo mais profundo do que os músculos da testa.
Quantas unidades de botox no queixo?
Nenhuma bula define essa dose. O painel italiano de 2026 (Fundarò e colaboradores) chegou a uma média total de 8 U para os dois lados somados; nos consensos internacionais que o painel revisou, a média foi de 6,5 U. Como as bulas não permitem trocar unidades entre marcas, quem usa outra toxina parte da equivalência de referência e ajusta pela resposta.
O queixo pode ficar estufado depois do botox?
Pode, no abaulamento paradoxal: parte do mentual fica bloqueada e a parte ainda ativa salta. Yu e colaboradores (2020) relataram um caso resolvido com injeção complementar nas fibras ativas, localizadas por ultrassom, e recomendam cobrir toda a espessura do músculo, sobretudo na hiperatividade intensa.
Dá para fazer botox e preenchimento no queixo juntos?
Sim, em etapas. No estudo de Betti e colaboradores (2026), a toxina no mentual 10 a 15 dias antes do ácido hialurônico resultou em menos retoques no primeiro mês e nenhuma reaplicação de preenchedor aos 6 meses, contra 7 pacientes no grupo de preenchedor isolado.
Botox no queixo atrapalha a fala?
Quando a toxina sobe para o orbicular da boca, o paciente pode ter dificuldade de vedar os lábios, de beber no copo e de pronunciar algumas consoantes. É temporário. Pontos baixos, sobre o osso do queixo, e volume pequeno por ponto previnem.
Referências
- Sakamoto Y, Imanishi N, Yamada M, Takatsume Y. Transparency of Mental Anatomy: Morphology of Cobblestone Chin. J Craniofac Surg. 2026;37(3-4):e230-e232. · PMID 41293943 · DOI 10.1097/SCS.0000000000012180
- Choi DY, Bae H, Bae JH, et al. Effective Locations for Injecting Botulinum Toxin into the Mentalis Muscle; Cadaveric and Ultrasonographic Study. Toxins (Basel). 2021;13(2):96. · PMID 33514053 · DOI 10.3390/toxins13020096
- Fundarò S, Molinari P, Brunelli G, et al. Italian Consensus and Review in Lower Face Mimetic Muscle Treatment with Botulinum Toxin-A. Toxins (Basel). 2026;18(8):332. · PMID 42646760 · DOI 10.3390/toxins18080332
- Yu N, Liu Y, Chen C, et al. Paradoxical bulging of mentalis after botulinum toxin type A injection. J Cosmet Dermatol. 2020;19(6):1290-1293. · PMID 32346978 · DOI 10.1111/jocd.13437
- Yi KH, Lee JH, Hu HW, et al. Novel anatomical guidelines for botulinum neurotoxin injection in the mentalis muscle: a review. Anat Cell Biol. 2023;56(3):293-298. · PMID 36796830 · DOI 10.5115/acb.22.266
- Betti E, Paglianiti M, Vaira LA, et al. Combined Botulinum Toxin Type A and Hyaluronic Acid Versus Exclusive Hyaluronic Acid Injections: A Potential Nonsurgical Alternative for Chin Augmentation. J Craniofac Surg. 2026 (online ahead of print). · PMID 42682023 · DOI 10.1097/SCS.0000000000013318
Pós Prática em Medicina Estética Avançada
Formação médico-exclusiva: anatomia, ultrassom, complicações e prática supervisionada — sem atalhos.
Conhecer a formação →