Botox na pálpebra inferior: quando é seguro
A toxina botulínica na pálpebra inferior é segura num paciente específico: pálpebra com bom tônus (teste do estalo normal), sem olho seco, sem bolsas evidentes e sem blefaroplastia inferior prévia — e com dose pequena, num ponto superficial abaixo dos cílios. O estudo que deu origem à técnica usou 2 U de Botox logo abaixo da pele, na linha médio-pupilar, 3 mm abaixo da margem ciliar; na mesma linha de trabalho, 8 U por pálpebra trouxeram efeito colateral incômodo em todas as pacientes. Nenhuma das três bulas americanas (Botox Cosmetic, Dysport e Xeomin) inclui a pálpebra inferior entre as áreas aprovadas: é uso fora da bula, e por isso a seleção do paciente pesa mais que a técnica.
O músculo que se trata — e o que ele faz pelo olho
O orbicular do olho é um esfíncter com três porções concêntricas. A orbital, mais externa, sobre o osso, é a dos pés de galinha. A pré-septal cobre o septo orbital e, atrás dele, a gordura das bolsas. A pré-tarsal, a mais próxima da margem, fica sobre o tarso e é a que faz o piscar involuntário.
A porção pré-tarsal da pálpebra inferior tem três funções que não aparecem no espelho e aparecem na complicação: mantém a pálpebra encostada no globo, fecha o olho no piscar e ajuda a empurrar a lágrima para o canto medial. A ruga fina infrapalpebral e o "rolete" que se forma abaixo dos cílios no sorriso vêm dessa faixa do músculo. Enfraquecê-la apaga a ruga e abre um pouco o olho — e é o mesmo enfraquecimento que, em excesso ou no paciente errado, afasta a pálpebra do globo e deixa a córnea exposta.
Borba e colaboradores (2022, Aesthetic Plast Surg), num guia de prevenção para o terço superior, listam entre as complicações da toxina o ectrópio palpebral, o lagoftalmo e a proeminência das bolsas palpebrais — exatamente as três funções da pálpebra inferior quando falham.
O que a literatura mostra de dose e resultado
A técnica tem origem nos dois estudos de Flynn e colaboradores, ambos com onabotulinumtoxinA (Botox) e publicados na Dermatol Surg — os números abaixo valem para esse produto.
- 2001 — a técnica. Em 15 mulheres, uma pálpebra inferior recebeu 2 U logo abaixo da pele, na linha médio-pupilar, 3 mm abaixo da margem ciliar; do outro lado, as mesmas 2 U somadas a 12 U nos pés de galinha. Só a pálpebra: ganho médio de 0,5 mm na abertura do olho em repouso e 1,3 mm no sorriso. Pálpebra mais pés de galinha: 1,8 mm em repouso e 2,9 mm no sorriso. A melhora das rugas infraorbitais foi maior com as duas áreas tratadas juntas, e o efeito foi mais visível no olho asiático.
- 2003 — a curva de dose. Em 19 mulheres, 4 U ou 8 U por pálpebra inferior, no mesmo ponto 3 mm abaixo da margem ciliar, com 12 U nos pés de galinha de um lado. A resposta cresceu com a dose, mas os efeitos colaterais também: as 8 pacientes do grupo de 8 U relataram efeito incômodo — edema da pálpebra inferior e função incompleta do esfíncter. Com as duas áreas tratadas, a dose baixa já produziu resposta somada, e a dose alta sugeriu um platô. A recomendação dos autores é usar 2 ou 4 U na pálpebra inferior.
Duas leituras práticas. A pálpebra inferior responde melhor como complemento dos pés de galinha do que sozinha, porque as duas porções do mesmo músculo trabalham juntas. E a margem entre o efeito que se quer e o efeito que incomoda é estreita: dobrar a dose não dobrou o benefício, mas trouxe pálpebra inchada e fechamento incompleto em todas as pacientes.

Quem é candidato e quem não é
O exame decide antes da seringa. Cinco perguntas separam o paciente que vai gostar do que vai voltar com o olho irritado.
- A pálpebra tem tônus? É o teste do estalo (snap test): puxe a pálpebra inferior para baixo e para longe do globo e solte, pedindo que o paciente não pisque. A pálpebra boa volta imediatamente ao lugar; a frouxa demora ou só volta depois de uma piscada. O teste de distração complementa: puxe a pálpebra para a frente, afastando-a do globo, e observe quanto ela se descola. Ozgur e colaboradores (2012, Hawaii J Med Public Health) propuseram graduar esses dois testes para documentar o paciente ao longo do tempo e decidir quando adiar ou suspender a toxina na região. Pálpebra que volta devagar não recebe toxina pré-tarsal.
- O olho é seco? Pergunte por ardência, sensação de areia, lacrimejamento reflexo e uso de colírio lubrificante. Ozgur e colaboradores descrevem o olho seco como complicação possível da toxina na região cantal, com manifestações iniciais sutis e raramente relatadas ao médico; reconhecido cedo, o quadro é pequeno e reversível, e o atraso no diagnóstico é o que leva a sintomas persistentes, sobretudo com aplicações repetidas.
- Já operou a pálpebra inferior? Goldman (2003, Dermatol Surg) relatou um homem de 56 anos que desenvolveu festões infraorbitais depois de toxina na região e atribuiu o quadro à blefaroplastia inferior prévia, que já havia enfraquecido o orbicular. A cautela proposta por ele vale como regra de seleção: cirurgia prévia da pálpebra inferior pede muito cuidado ou nenhuma toxina pré-tarsal.
- Há bolsas ou festões? A porção pré-septal segura a gordura atrás do septo. Enfraquecida, a bolsa aparece mais.
- A ruga é dinâmica? A toxina trata a prega que se forma no sorriso. A pele fina e fotoenvelhecida, com rugas em repouso, responde mais a tecnologia e a tratamento de pele do que à toxina.
Na paciente entre 45 e 60 anos, a resposta à primeira pergunta muda com frequência: a frouxidão horizontal da pálpebra inferior aumenta com o envelhecimento, e é justamente nessa faixa que a queixa de ruga sob os olhos aparece com mais força. O teste do estalo leva segundos e decide se a toxina entra.
Técnica
- Foto antes. Repouso e sorriso máximo, de frente, com o mesmo enquadramento que será usado na revisão.
- Ponto. Na técnica de Flynn, um ponto na linha médio-pupilar, 3 mm abaixo da margem ciliar. Nada medial a ele, perto do ponto lacrimal.
- Plano. Logo abaixo da pele, uma pápula superficial. O orbicular pré-tarsal é muito fino e superficial; profundidade não aumenta efeito, só aproxima a toxina do septo e do que fica atrás dele.
- Dose. Comece pela menor. Os números de estudo são de Botox (2 a 4 U por pálpebra, nos trabalhos de Flynn). Com outra marca, há duas coisas a saber: a bula de cada produto declara que suas unidades não são intercambiáveis com as de outra toxina, e a formação do Dr. Thiago trabalha com uma conversão de referência (Botox : Dysport de 1 : 2,5; Botox : Xeomin de 1 : 1) que começa na dose equivalente ou abaixo dela e se acerta pela resposta — numa área de margem estreita como esta, o lado de baixo da faixa.
- Pés de galinha junto. A resposta somada das duas áreas permite dose menor na pálpebra. A técnica lateral está em botox nos pés de galinha.
- Agulha fina, sem aspirar. A regra geral de toxina que a formação do Dr. Thiago ensina — agulha de 30 a 32 G, microbolus, sem aspiração, com o controle no ponto e no plano — vale aqui como em qualquer ponto do rosto.
- Registre. Produto, diluição, ponto, unidades e o resultado do teste do estalo no dia.
Há uma variação mais recente que trabalha com microdoses intradérmicas em vários pontos. Zhou e colaboradores (2025, J Cosmet Dermatol) trataram 42 pacientes com sulco lacrimal leve (graus 1 e 2 na escala de Barton) com injeções intradérmicas de toxina: contagem de rugas, escores faciais e escalas do sulco melhoraram, houve um caso de pseudobolsa palpebral e nenhum caso de visão dupla ou frouxidão da pele da pálpebra inferior.

Complicações: como reconhecer e o que fazer
- Olho seco e irritação. Matarasso (2002, Dermatol Surg) relatou olho seco unilateral, com teste de Schirmer alterado, depois de injeção direta nas fibras pré-tarsais durante tratamento de pés de galinha. A conduta foi lubrificação ocular até o efeito passar, e a aplicação seguinte não trouxe o problema de volta.
- Fechamento incompleto e exposição da córnea. É a "função incompleta do esfíncter" das pacientes de 8 U de Flynn. Pede lubrificação, orientação para a noite e avaliação oftalmológica se houver dor ou baixa de visão.
- Esclera aparente e ectrópio. A pálpebra se afasta do globo quando o tônus que restava era pouco — o paciente que o teste do estalo teria excluído.
- Edema, bolsa e festão. Edema da pálpebra inferior apareceu entre os efeitos da dose alta de Flynn; pseudobolsa apareceu no estudo de Zhou; festão, no caso de Goldman.
- Rugas mediais "novas". Yi e Wan (2024, J Cosmet Dermatol) descrevem pacientes que passam a marcar rugas no canto medial depois de tratar só os pés de galinha, e mostraram em três casos que pontos mediais no orbicular melhoram essas rugas e o aspecto do sulco lacrimal. É o vizinho que passa a trabalhar mais — e um motivo para revisar o resultado, não para aumentar a dose.
Todas essas complicações são temporárias e acompanham a duração da toxina. Nenhuma se corrige com mais toxina na mesma área; a conduta é proteger a superfície ocular, acompanhar e, na próxima sessão, mudar o plano. O panorama de quando não injetar em geral está em quando não aplicar injetável.

Revisão e próxima aplicação
A pálpebra inferior é a área em que a revisão mais ensina. O retorno de revisão de toxina que o Dr. Thiago adota fica entre 15 e 30 dias depois da aplicação; para quem trata a pálpebra inferior, é nessa consulta que se compara a foto, se repete o teste do estalo e se pergunta pelo olho seco. O que aconteceu naquela pálpebra define se ela entra na próxima sessão, com que dose, ou se sai do plano. O intervalo mínimo entre aplicações é o das bulas — não antes de 3 meses.
Onde isso se treina
O teste do estalo é simples de descrever e fácil de esquecer na pressa da consulta; ler o tônus de uma pálpebra e a anatomia do orbicular num rosto real se aprende ao lado de quem já fez muitas vezes. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, médico (CRM-DF 23199), a teoria vem antes, em pré-work gravado e obrigatório, e o sábado presencial em Brasília tem demonstração comentada na parte teórica e execução supervisionada pelo aluno em paciente modelo na parte prática, com até 8 médicos por turma. A anatomia funcional dos três terços e a toxina da face entram no módulo de Toxina e Preenchimento; a sequência completa de uma primeira sessão está em como aplicar botox no rosto: guia para o primeiro paciente.
Nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica. As marcas aparecem porque os estudos e as bulas citados são de produtos específicos.
Perguntas frequentes
Pode aplicar botox na pálpebra inferior?
Pode, em paciente selecionado: pálpebra com bom tônus no teste do estalo, sem olho seco, sem bolsas evidentes e sem blefaroplastia inferior prévia. É uso fora da bula — nenhuma das três bulas americanas (Botox Cosmetic, Dysport e Xeomin) inclui a pálpebra inferior entre as áreas aprovadas.
Quantas unidades de botox vão na pálpebra inferior?
Nos estudos de Flynn e colaboradores com Botox, 2 U num ponto logo abaixo da pele, na linha médio-pupilar, 3 mm abaixo da margem ciliar; no estudo de dose, os autores recomendaram 2 ou 4 U, porque com 8 U todas as pacientes tiveram efeito incômodo. Para outra marca, a bula declara que as unidades não são intercambiáveis; a formação do Dr. Thiago usa uma conversão de referência (Botox : Dysport de 1 : 2,5; Botox : Xeomin de 1 : 1), começando na dose equivalente ou abaixo e ajustando pela resposta.
Como fazer o teste do estalo (snap test)?
Puxe a pálpebra inferior para baixo e para longe do globo e solte, pedindo que o paciente não pisque. Pálpebra com bom tônus volta na hora; a frouxa demora ou só volta depois de piscar. Pálpebra que volta devagar não deve receber toxina na porção pré-tarsal.
Botox na pálpebra inferior causa olho seco?
Pode causar. Matarasso (2002) relatou olho seco com teste de Schirmer alterado após injeção nas fibras pré-tarsais, tratado com lubrificação até o efeito passar. Ozgur e colaboradores (2012) alertam que os sinais iniciais são sutis e raramente relatados — por isso a pergunta sobre olho seco vem antes e na revisão.
Quem fez blefaroplastia inferior pode aplicar toxina na pálpebra de baixo?
Com muita cautela, ou não aplicar. Goldman (2003) relatou festões infraorbitais após toxina num paciente com blefaroplastia inferior prévia, atribuídos ao orbicular já enfraquecido pela cirurgia.
Por que tratar a pálpebra inferior junto com os pés de galinha?
Porque as duas áreas são o mesmo músculo e a resposta soma. No estudo de Flynn de 2001, a pálpebra sozinha abriu o olho em média 0,5 mm em repouso; com os pés de galinha tratados juntos, 1,8 mm, com melhora maior das rugas infraorbitais.
Qual a diferença entre a técnica de Flynn e as microdoses intradérmicas?
A técnica de Flynn usa um ponto único subdérmico na linha médio-pupilar, 3 mm abaixo dos cílios. A variação intradérmica distribui microdoses em vários pontos abaixo do olho: no estudo de Zhou e colaboradores (2025), com 42 pacientes com sulco lacrimal leve, as rugas melhoraram e houve um caso de pseudobolsa palpebral.
Referências
- Flynn TC, Carruthers JA, Carruthers JA. Botulinum-A toxin treatment of the lower eyelid improves infraorbital rhytides and widens the eye. Dermatol Surg. 2001;27(8):703-708. · PMID 11493292 · DOI 10.1046/j.1524-4725.2001.01038.x
- Flynn TC, Carruthers JA, Carruthers JA, Clark RE 2nd. Botulinum A toxin (BOTOX) in the lower eyelid: dose-finding study. Dermatol Surg. 2003;29(9):943-950. · PMID 12930337 · DOI 10.1046/j.1524-4725.2003.29257.x
- Ozgur OK, Murariu D, Parsa AA, Parsa FD. Dry eye syndrome due to botulinum toxin type-A injection: guideline for prevention. Hawaii J Med Public Health. 2012;71(5):120-123. · PMID 22737648
- Matarasso SL. Decreased tear expression with an abnormal Schirmer's test following botulinum toxin type A for the treatment of lateral canthal rhytides. Dermatol Surg. 2002;28(2):149-152. · PMID 11860426 · DOI 10.1046/j.1524-4725.2002.01149.x
- Goldman MP. Festoon formation after infraorbital botulinum A toxin: a case report. Dermatol Surg. 2003;29(5):560-561. · PMID 12752529 · DOI 10.1046/j.1524-4725.2003.29130.x
- Zhou S, Liu H, Pan Z, et al. Observation of Safety and Efficacy of Botulinum Toxin Type A in the Treatment of Tear Troughs and Mild Yelid Bags. J Cosmet Dermatol. 2025;24(6):e70253. · PMID 40465370 · DOI 10.1111/jocd.70253
- Yi KH, Wan J. Anatomical considerations of medial eye wrinkles: Guidelines for botulinum neurotoxin injections. J Cosmet Dermatol. 2024;23(11):3503-3507. · PMID 39017034 · DOI 10.1111/jocd.16474
- Borba A, Matayoshi S, Rodrigues M. Avoiding Complications on the Upper Face Treatment With Botulinum Toxin: A Practical Guide. Aesthetic Plast Surg. 2022;46(1):385-394. · PMID 34341857 · DOI 10.1007/s00266-021-02483-1
- BOTOX® Cosmetic, DYSPORT® e XEOMIN® — Prescribing Information (EUA): áreas estéticas aprovadas e intervalo mínimo entre aplicações.
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