Botox nos pés de galinha: técnica e zona de segurança
Toxina botulínica

Como aplicar botox nos pés de galinha: técnica e zona de segurança

Os pés de galinha parecem a área mais simples do terço superior: três pontos de cada lado e pronto. É essa sensação de facilidade que produz os erros — ponto baixo demais que alcança o sorriso, ponto medial demais que alcança a pálpebra, ponto fundo demais num músculo que mal tem um milímetro. A técnica segura começa por saber que músculo está sendo tratado e onde ele encosta nos vizinhos.

Para tratar os pés de galinha com toxina botulínica, o alvo é a porção orbital lateral do músculo orbicular do olho: pontos superficiais, fora do rebordo orbitário, com bisel para cima e agulha apontada para longe do olho. As bulas americanas do Botox Cosmetic e do Xeomin declaram a mesma arquitetura — três pontos de cada lado — e cada uma vale apenas para o próprio produto. A zona de segurança é desenhada por três vizinhos: o olho, a pálpebra inferior e o zigomático maior, que sustenta o sorriso.

O músculo que forma a ruga

Os pés de galinha são rugas dinâmicas produzidas pela contração da porção orbital do orbicular do olho, o esfíncter que fecha as pálpebras. As fibras laterais correm em arco ao redor do canto do olho; quando o músculo contrai no sorriso, a pele lateral se pregueia em leque. Três características dessa anatomia mudam a técnica.

Quem tratar e o que avaliar antes de marcar

A toxina trata o componente dinâmico: a ruga que aparece no sorriso e some, ou quase some, em repouso. A linha que continua marcada com o rosto parado tem um componente de pele — fotoenvelhecimento, perda de elasticidade — que a toxina sozinha não apaga. Isso precisa ser combinado com o paciente antes da aplicação, não explicado depois.

Antes de marcar, examine três vizinhos:

  1. Pálpebra inferior. Flacidez palpebral e bolsas evidentes pedem cautela com pontos baixos e mediais. Na revisão de Borba e colaboradores (2022, Aesthetic Plast Surg), ectrópio, lagoftalmo e proeminência das bolsas palpebrais aparecem entre as complicações da toxina no terço superior.
  2. Superfície ocular. Matarasso (2002, Dermatol Surg) relatou olho seco unilateral, com teste de Schirmer alterado, depois de injeção nas fibras pré-tarsais do orbicular durante tratamento de pés de galinha. Paciente com queixa ocular prévia merece pergunta direta e pontos bem laterais.
  3. Sorriso. Em quem eleva muito a bochecha ao sorrir, a parte inferior do leque está próxima dos zigomáticos. Nesses pacientes, seja mais conservador nos pontos de baixo.

Pontos e unidades: o que cada bula declara

Os números abaixo são das bulas americanas (Prescribing Information) e valem para o produto citado. No consultório, vale a bula brasileira do frasco que está na sua mão.

Botox Cosmetic e Xeomin chegam ao mesmo número no papel, mas a bula de cada um afirma que suas unidades não podem ser comparadas nem convertidas em unidades de outra toxina. Coincidência numérica não é equivalência. Por que isso vale para as três marcas está em Botox ou Dysport: diferenças que importam para o injetor.

Aplicação de toxina botulínica no terço superior com seringa de agulha fina — Dr. Thiago Perfeito
Toxina botulínica aplicada no terço superior com seringa de agulha fina, ponto a ponto. Nos pés de galinha, a mesma lógica — microbolus, ponto e plano certos — vale num músculo ainda mais fino.

Técnica passo a passo

  1. Avalie em repouso e no sorriso máximo. Marque onde o leque começa e até onde ele desce. Linhas acima e abaixo do canto lateral pedem uma distribuição; linhas concentradas abaixo do canto, outra.
  2. Palpe o rebordo orbitário lateral. Todos os pontos ficam fora dele. O ponto na altura do canto lateral é a referência para os demais.
  3. Agulha fina, bisel para cima, ponta para fora. Na conduta do Dr. Thiago, toxina se aplica com agulha 30 a 32 G, em microbolus, sem aspirar — e nunca com microcânula. As bulas do Botox Cosmetic e do Xeomin pedem bisel para cima e agulha orientada para longe do olho.
  4. Raso. Na altura do canto lateral, o orbicular é fino e superficial. Mais abaixo, a camada de pele e gordura sobre ele engrossa e os zigomáticos passam logo por baixo — na metade inferior do leque, ir fundo aproxima a toxina deles.
  5. Ponto inferior alto e lateral. O ponto de baixo fica longe da bochecha e do zigomático maior — é a advertência explícita da bula do Xeomin.
  6. Nada na pálpebra. Mantenha os pontos fora das fibras pré-tarsais e longe da borda da pálpebra inferior.
  7. Registre. Marca, lote, diluição, pontos e unidades por ponto. Sem isso, a revisão em 15 a 30 dias — o retorno que o Dr. Thiago faz depois de toda aplicação de toxina — não tem com o que comparar.

A zona de segurança em milímetros

O estudo que melhor desenha o limite inferior é de Piao e colaboradores (2026, Clin Anat), que mapearam por ultrassom a relação entre o orbicular e os zigomáticos maior e menor em quatro linhas verticais: canto lateral, rebordo orbitário, ponto médio do processo frontal do zigomático e ponto jugal. A margem superior dos zigomáticos ficava, em média, de 17,9 a 22,8 mm abaixo do plano horizontal do canto lateral, conforme a linha. Nessa altura, o orbicular estava a 4,7 a 5,5 mm da pele, e os zigomáticos ficavam 3,0 a 4,5 mm abaixo do orbicular.

Duas leituras práticas saem desses números. Abaixo do canto, há perto de dois centímetros até o território do sorriso; e, lá embaixo, só uma lâmina de poucos milímetros separa os dois músculos. O ponto inferior raso e alto respeita as duas medidas ao mesmo tempo.

Gráfico de profundidade do orbicular do olho e distância até os zigomáticos medidas por ultrassom — Dr. Thiago Perfeito
Em cinza, a distância da pele até o orbicular do olho; em quadriculado, a distância do orbicular até os zigomáticos maior e menor, medidas por ultrassom no plano horizontal da margem superior dos zigomáticos, em quatro linhas verticais: canto lateral (LC), rebordo orbitário (OR), ponto médio do processo frontal do zigomático (M) e ponto jugal (J). Figura 6 de Piao JZ et al., Clin Anat 2026 (PMID 40341629), reproduzida sob licença CC BY.

O que pode dar errado — e de onde vem

Borba e colaboradores resumem a prevenção em duas frentes: conhecer a anatomia da região e planejar de forma individualizada, a partir do padrão de cada paciente.

O que esperar do resultado

Os ensaios de fase 3 do Botox Cosmetic dão a régua. Carruthers e colaboradores (2014, Dermatol Surg) randomizaram 445 pacientes com pés de galinha moderados a graves para 24 U ou placebo. No 30º dia, no sorriso máximo, 66,7% contra 6,7% chegaram a grau nenhum ou leve pela avaliação do investigador, e 58,1% contra 5,4% pela avaliação do próprio paciente. No segundo estudo do programa, Moers-Carpi e colaboradores (2015, Dermatol Surg) randomizaram 917 pacientes: os respondedores pelo investigador foram 54,9% com pés de galinha tratados isoladamente, 59,0% com pés de galinha e glabela tratados juntos e 3,3% no placebo. Nos dois estudos, a maioria dos eventos adversos foi leve ou moderada.

Para o Xeomin, o estudo ULTRA II (Joseph e colaboradores, 2025, Aesthet Surg J) randomizou para toxina ou placebo participantes com linhas cantais laterais moderadas a graves — 368 foram tratados — e a incobotulinumtoxinA foi superior ao placebo nos desfechos primários.

Na rotina do Dr. Thiago, a paciente volta para revisão de 15 a 30 dias depois da aplicação, e o efeito periorbital, como no resto do rosto, se mantém por 3 a 4 meses. Para reaplicar, o piso é o das bulas: a do Xeomin manda não retratar com frequência maior que a cada três meses, e a do Botox Cosmetic registra que doses mais frequentes que isso não foram avaliadas.

Antes e depois de toxina botulínica nos pés de galinha em Brasília — Dr. Thiago Perfeito
Cada caso é individual e os resultados variam de pessoa para pessoa.

Erros comuns

  1. Ponto medial ao rebordo orbitário. Aproxima a toxina da pálpebra e do olho sem ganho na ruga.
  2. Ponto baixo para alcançar a linha da bochecha. É ali que começa o território dos zigomáticos.
  3. Injeção profunda. Num músculo com cerca de um milímetro de espessura, profundidade não aumenta efeito — só aumenta o alcance indesejado.
  4. Mapa único para todo paciente. O padrão do leque muda de pessoa para pessoa, e a bula já prevê dois desenhos.
  5. Copiar unidades de uma marca para outra. Cada número vale para o produto da bula que o declara.
  6. Prometer apagar a linha de repouso. O componente de pele não responde à toxina sozinha.

Uma nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica. As marcas aparecem aqui porque as bulas declaram números diferentes, não por preferência.

Onde isso se treina

A bula e o mapa anatômico dizem onde ficam os três pontos; a altura certa do ponto de baixo, em cada sorriso, só se aprende vendo o leque se formar num rosto real. É esse o desenho da Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, médico (CRM-DF 23199): a teoria chega antes, em pré-work gravado e obrigatório, e o sábado presencial em Brasília é de marcação e aplicação em paciente modelo, com no máximo 8 médicos por turma. Os pés de galinha entram na toxina full face do módulo de Toxina e Preenchimento; os outros módulos estão em /cursos/.

Perguntas frequentes

Quantas unidades de Botox vão nos pés de galinha?

A bula americana do Botox Cosmetic declara 24 U no total: 4 U em cada um de 3 pontos por lado, 12 U por lado. A bula americana do Xeomin declara a mesma distribuição para o Xeomin. O Dysport não tem indicação para pés de galinha no rótulo americano. As unidades de cada marca valem só para ela e não se convertem entre produtos.

Onde fica o primeiro ponto dos pés de galinha?

Segundo a bula do Botox Cosmetic, a aproximadamente 1,5 a 2,0 cm temporal ao canto lateral, logo além do rebordo orbitário. A bula do Xeomin coloca o ponto no prolongamento horizontal do canto lateral, a cerca de 1 cm do rebordo orbitário ósseo, com os outros dois cerca de 1 cm acima e abaixo. Em todos os casos, fora do rebordo e com a agulha apontada para longe do olho.

Por que a toxina nos pés de galinha pode alterar o sorriso?

Porque, abaixo do canto lateral, o orbicular fica sobre os músculos zigomáticos, que elevam o canto da boca. No estudo de ultrassom de Piao e colaboradores (2026), os zigomáticos ficavam 3,0 a 4,5 mm abaixo do orbicular. Ponto inferior baixo ou profundo pode alcançá-los — a bula do Xeomin adverte para evitar injeção perto do zigomático maior.

Precisa aspirar antes de injetar toxina nos pés de galinha?

Na conduta do Dr. Thiago, não. Toxina se aplica com agulha 30 a 32 G, em microbolus, no ponto e no plano certos, e nunca com microcânula. A aspiração é conduta dele para preenchedor e bioestimulador, não para toxina.

Dá para tratar pés de galinha e glabela na mesma sessão?

Sim. A bula americana do Botox Cosmetic declara 24 U para os pés de galinha e 20 U para a glabela, 44 U no total. No ensaio de Moers-Carpi e colaboradores (2015), 59,0% dos pacientes tratados nas duas áreas responderam nos pés de galinha pela avaliação do investigador, contra 3,3% no placebo.

Quanto tempo dura e quando revisar?

Na prática do Dr. Thiago, o retorno de revisão acontece de 15 a 30 dias após a aplicação, e o efeito periorbital se mantém por 3 a 4 meses. Reaplicar com intervalo menor que 3 meses vai contra o que as bulas declaram.

A toxina apaga as linhas que ficam marcadas em repouso?

Só em parte. A toxina age no componente dinâmico, a ruga que aparece no sorriso. A linha que continua marcada com o rosto parado tem um componente de pele que a toxina sozinha não apaga — isso deve ser combinado com o paciente antes da aplicação.

Referências

  1. BOTOX® Cosmetic (onabotulinumtoxinA) — Prescribing Information. AbbVie/Allergan, revisão 10/2024 (seção 2, Lateral Canthal Lines).
  2. XEOMIN® (incobotulinumtoxinA) — Prescribing Information. Merz, revisão 06/2026 (seção 2, Lateral Canthal Lines).
  3. Carruthers A, Bruce S, de Coninck A, et al. Efficacy and safety of onabotulinumtoxinA for the treatment of crows feet lines: a multicenter, randomized, controlled trial. Dermatol Surg. 2014;40(11):1181-1190. · PMID 25347451 · DOI 10.1097/DSS.0000000000000128
  4. Moers-Carpi M, Carruthers J, Fagien S, et al. Efficacy and safety of onabotulinumtoxinA for treating crow's feet lines alone or in combination with glabellar lines: a multicenter, randomized, controlled trial. Dermatol Surg. 2015;41(1):102-112. · PMID 25485803 · DOI 10.1097/DSS.0000000000000220
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  13. Borba A, Matayoshi S, Rodrigues M. Avoiding Complications on the Upper Face Treatment With Botulinum Toxin: A Practical Guide. Aesthetic Plast Surg. 2022;46(1):385-394. · PMID 34341857 · DOI 10.1007/s00266-021-02483-1
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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