Botox no músculo temporal: pontos, camadas e cuidados
Toxina botulínica

Botox no músculo temporal

O temporal costuma entrar na conversa por último: a paciente tratou o masseter, o rosto afinou, e a dor do aperto subiu para a têmpora. É um músculo largo, coberto por duas fáscias, com uma veia calibrosa no meio do caminho e o frontal encostando na borda de cima. Tratá-lo bem é escolher o compartimento certo, chegar ao músculo e pensar no contorno da têmpora antes de reduzir o que dá volume a ela.

O temporal recebe toxina em três situações: quando participa do bruxismo ou do apertamento, quando é ele — e não o masseter — o músculo aumentado, e quando a dor e o cansaço do aperto ficam na têmpora depois de o masseter já ter sido tratado. Os pontos ficam no corpo do músculo, intramusculares, em compartimentos que fogem da artéria temporal superficial, da veia temporal média e do tendão. Dois cuidados são próprios da região: não deixar toxina alcançar a porção lateral do frontal, que cobre a linha temporal na maioria das pessoas, e lembrar que um temporal menos ativo pode deixar a têmpora mais funda. É uso fora da bula nas três marcas.

Anatomia que importa para a agulha

O temporal ocupa a fossa temporal em leque: nasce da linha temporal inferior e do assoalho da fossa, desce por baixo do arco zigomático e se insere no processo coronoide e na borda anterior do ramo da mandíbula. Fecha a boca junto com o masseter e, com as fibras posteriores, retrai a mandíbula.

Lee e colaboradores (2017, Surg Radiol Anat) estudaram 19 temporais acima do arco zigomático e propuseram um método reprodutível de marcação: o músculo tem forma de quadrilátero oblíquo, com cantos superiores arredondados, e proporção média largura : altura de 5 : 4. Dividido em nove compartimentos iguais, ele tem regiões onde passam vasos grandes e o tendão, e regiões livres. Os autores recomendam três compartimentos para a injeção — o anterior médio, o médio superior e o posterior médio — por evitarem os vasos grandes e o tendão.

Músculo temporal e masseter em vista lateral do crânio — Dr. Thiago Perfeito
Temporal e masseter em vista lateral. O temporal ocupa a fossa temporal em leque e desce por baixo do arco zigomático até o coronoide; a toxina vai no corpo do músculo, acima do arco, longe da porção mais anterior e da linha temporal.

As camadas acima do músculo

Da pele ao osso, a agulha atravessa pele e subcutâneo, a fáscia temporal superficial, a fáscia temporal profunda — que na parte baixa da têmpora se divide em duas lâminas com um coxim de gordura entre elas — e só então o músculo. A revisão de Kim e colaboradores (2024, Surg Radiol Anat) organiza a têmpora por esses planos para o preenchimento — cânula entre a fáscia temporal superficial e a lâmina superficial da fáscia profunda, agulha no periósteo; para a toxina, o que interessa é atravessá-los até o músculo sem depositar no caminho.

O motivo está no coxim entre as lâminas da fáscia profunda. A revisão sistemática de Kapoor e colaboradores (2020, Aesthetic Plast Surg) mostra que a veia temporal média corre, na maior parte do trajeto, dentro dessa gordura, recebe tributárias da superfície do músculo e tem calibre muito variável, de 0,5 a 9,1 mm entre os estudos. A revisão foi feita pensando em preenchedor, em que a injeção intravenosa tem consequência grave; em toxina, o volume é pequeno, mas a regra de chegar ao músculo vale pelo mesmo mapa.

Camadas de pele, gordura, fáscia e músculo em bloco anatômico — Dr. Thiago Perfeito
Bloco de camadas em esquema: pele e gordura subcutânea em cima, uma lâmina fibrosa em destaque, outra camada de gordura e o plano profundo embaixo. Na parte baixa da têmpora a sequência é parecida — pele, subcutâneo, fáscias e o coxim de gordura onde corre a veia temporal média — e a toxina vai abaixo de tudo isso, no músculo.

Quando tratar o temporal

Bruxismo e apertamento com componente temporal

É a indicação mais frequente. O estudo de Lee e colaboradores (2010, Am J Phys Med Rehabil) dá a razão em uma frase: com toxina só nos masseteres, os eventos de bruxismo registrados no masseter caíram, e os registrados no temporal não mudaram. Paciente que acorda com dor na têmpora, ou cujo temporal salta visivelmente no apertamento, pode precisar dos dois músculos.

Dose de temporal com número declarado aparece em Ondo e colaboradores (2018, Neurology): no braço ativo, cada temporal recebeu 40 U de onabotulinumtoxinA, dentro de um esquema que também tratava os masseteres, e o grupo tratado se saiu melhor que o placebo na avaliação global. É a referência daquele produto, naquele protocolo. Na troca de marca, as bulas lembram que unidade de uma toxina não se transfere para outra; o que a formação do Dr. Thiago ensina como ponto de partida é Botox : Dysport de 1 : 2,5 e Botox : Xeomin de 1 : 1, abrindo na dose equivalente ou um pouco abaixo e acertando pela resposta.

O temporal que compensa o masseter tratado

O masseter e o temporal dividem a carga do fechamento da boca. Quando um perde força, o outro trabalha mais — e isso já foi medido:

Gráfico da espessura do músculo temporal após toxina no masseter em uma e duas sessões — Dr. Thiago Perfeito
Espessura do temporal direito (A) e esquerdo (B), em milímetros, no apertamento máximo: início, 1 mês, 3 meses (segunda sessão) e 6 meses. Em rosa, o grupo com duas sessões de toxina no masseter; em azul, o grupo que recebeu soro na segunda. Fig. 2 de de Souza Nobre BB et al., Aesthetic Plast Surg 2024 (PMID 38740627), reproduzida sob licença CC BY.

Na prática, isso muda a consulta de retorno do masseter: perguntar por dor na têmpora e palpar o temporal em apertamento passa a ser rotina, sobretudo em quem já fez várias sessões.

Hipertrofia isolada do temporal

É rara. Aktaş e colaboradores (2025, J Korean Assoc Oral Maxillofac Surg) relataram um homem de 47 anos com aumento bilateral progressivo das têmporas e desconforto ao mastigar, com ressonância mostrando aumento homogêneo dos dois temporais sem outra doença. Duas sessões de toxina, guiadas por marcos anatômicos, normalizaram o contorno, com redução de volume confirmada por ressonância. A lição é diagnóstica: aumento de volume na têmpora precisa de exame de imagem antes de ser tratado como músculo.

Marcação e técnica

  1. Peça o apertamento. Com a paciente apertando os dentes, o temporal endurece sob os dedos; marque a borda anterior palpável e a altura até onde a contração se estende.
  2. Desenhe o quadrilátero. Acima do arco zigomático, da borda anterior à posterior do músculo e até a margem superior palpada — a referência de Lee (2017) para dividir em nove compartimentos.
  3. Escolha os compartimentos livres. Anterior médio, médio superior e posterior médio, segundo os autores. Palpe o pulso da artéria temporal superficial e mantenha os pontos longe dele.
  4. Fique atrás da linha temporal e longe da sobrancelha. Lee e colaboradores (2019, Plast Reconstr Surg) dissecaram 44 hemifaces e encontraram a porção lateral do frontal cobrindo a linha temporal superior em 84% delas. Ponto alto e anterior demais no temporal pode alcançar o frontal lateral e mudar a cauda da sobrancelha.
  5. Intramuscular. A agulha atravessa as fáscias e deposita no músculo, sem deixar toxina no coxim de gordura entre as lâminas da fáscia profunda.
  6. Agulha fina, microbolus, sem aspirar. É a conduta do Dr. Thiago para toxina: agulha de 30 a 32 G, sem aspiração e nunca com microcânula.

O cuidado próprio da região: a têmpora funda

O volume do temporal faz parte do contorno da têmpora. Nikolis e colaboradores (2020, J Cosmet Dermatol) mostraram o lado de quem trata o masseter: em 9 pacientes, a redução da hipertrofia do masseter com incobotulinumtoxinA veio acompanhada de melhora na escala de volume temporal e de aumento do volume da fossa temporal medido em imagem tridimensional, atribuídos ao temporal trabalhando mais.

O lado inverso também foi descrito. Guyuron e colaboradores (2004, Headache) examinaram 92 pacientes que haviam recebido toxina no temporal dentro de um estudo de enxaqueca: todos apresentaram depressão transitória da têmpora, de mínima a importante — a deformidade em "ampulheta" —, e 26 a relataram por conta própria. Ela foi menos aparente em quem tinha mais tecido mole sobre o músculo. Por isso o cuidado pesa mais em quem já tem têmpora côncava, face magra ou perda de gordura facial. Por isso a avaliação inclui a têmpora em repouso, de frente e de perfil, fotografada antes. Em paciente com têmpora já escavada, a conversa sobre o que vai acontecer com o contorno vem antes da agulha, e o preenchimento temporal, se indicado, é outro procedimento, com outro mapa de risco.

Acompanhamento

Erros comuns

  1. Injetar raso. A toxina fica nas fáscias ou no coxim de gordura e não chega ao músculo.
  2. Ponto alto e anterior. É onde o frontal lateral cobre a linha temporal.
  3. Ignorar a têmpora já escavada. A depressão transitória descrita por Guyuron aparece mais em quem tem pouco tecido sobre o músculo.
  4. Tratar volume na têmpora sem diagnóstico. Hipertrofia isolada é rara; imagem antes.
  5. Somar unidades de marcas diferentes como se fossem uma só. Cada estudo vale para o produto que usou.

Nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica.

Onde se aprende a ler a região

A região temporal é estudada em camadas: fáscias, coxim de gordura, vasos e músculo. A Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa) organiza a toxina no módulo de Toxina e Preenchimento, que trabalha anatomia funcional dos três terços e farmacologia no pré-work gravado e reserva o sábado presencial, em turma de até 8 médicos, para demonstração comentada e execução supervisionada pelo aluno em paciente modelo. Como comparar cursos de toxina além do básico está em critérios para escolher um curso de toxina avançada; a reconstituição do frasco, em diluição do Botox.

Perguntas frequentes

Quando aplicar botox no músculo temporal?

Quando o temporal participa do bruxismo ou do apertamento (dor ou cansaço na têmpora, músculo que salta ao apertar os dentes), quando a queixa persiste na têmpora depois de tratar o masseter e na hipertrofia isolada do temporal, que é rara e pede exame de imagem antes. É uso fora da bula.

Onde ficam os pontos de toxina no temporal?

No corpo do músculo, acima do arco zigomático. Lee e colaboradores (2017) dividiram o temporal em nove compartimentos e recomendam o anterior médio, o médio superior e o posterior médio, por evitarem a artéria temporal superficial, a veia temporal média e o tendão.

Qual a profundidade da toxina no temporal?

Intramuscular. A agulha atravessa a pele, a fáscia temporal superficial e a fáscia temporal profunda até o músculo. Na parte baixa da têmpora, entre as lâminas da fáscia profunda, há um coxim de gordura por onde corre a veia temporal média; a toxina não deve ficar nessa camada.

Quantas unidades de botox se aplicam no temporal?

O temporal não está em nenhuma bula estética, então a referência vem de ensaio. No estudo de Ondo e colaboradores (2018), sobre bruxismo do sono, cada temporal recebeu 40 U de onabotulinumtoxinA, junto com 60 U em cada masseter. As unidades valem para o produto do estudo; as bulas não permitem transferir unidades de uma marca para outra.

Botox no temporal pode afundar a têmpora?

Pode, de forma transitória. Guyuron e colaboradores (2004) examinaram 92 pacientes com toxina no temporal e encontraram depressão da têmpora em todos, de mínima a importante, menos aparente em quem tinha mais tecido mole sobre o músculo. O sentido oposto também foi medido: quando o temporal trabalha mais, como depois de tratar o masseter, o volume da fossa temporal aumenta (Nikolis e colaboradores, 2020). Fotografe a têmpora e converse antes, sobretudo com quem já a tem côncava.

Por que a dor passa para a têmpora depois do botox no masseter?

Porque o temporal compensa. Liao e colaboradores (2025) viram o temporal engrossar por ultrassom enquanto o masseter afinava, e de Souza Nobre e colaboradores (2024) encontraram, com duas sessões no masseter, temporal mais espesso, mais ativo e com mais regiões dolorosas aos 6 meses. Palpar o temporal no retorno do masseter evita perder esse sinal.

Referências

  1. Lee WK, Bae JH, Hu KS, et al. Anatomical recommendations for safe botulinum toxin injection into temporalis muscle: a simplified reproducible approach. Surg Radiol Anat. 2017;39(3):263-269. · PMID 27631881 · DOI 10.1007/s00276-016-1739-1
  2. Kim SB, Hu H, Bae H, et al. Anatomy of the temporal region to guide filler injections. Surg Radiol Anat. 2024;46(5):615-624. · PMID 38480594 · DOI 10.1007/s00276-024-03340-x
  3. Kapoor KM, Bertossi D, Li CQ, et al. A Systematic Literature Review of the Middle Temporal Vein Anatomy: 'Venous Danger Zone' in Temporal Fossa for Filler Injections. Aesthetic Plast Surg. 2020;44(5):1803-1810. · PMID 32472312 · DOI 10.1007/s00266-020-01791-2
  4. Lee SJ, McCall WD Jr, Kim YK, et al. Effect of botulinum toxin injection on nocturnal bruxism: a randomized controlled trial. Am J Phys Med Rehabil. 2010;89(1):16-23. · PMID 19855255 · DOI 10.1097/PHM.0b013e3181bc0c78
  5. Ondo WG, Simmons JH, Shahid MH, et al. Onabotulinum toxin-A injections for sleep bruxism: A double-blind, placebo-controlled study. Neurology. 2018;90(7):e559-e564. · PMID 29343468 · DOI 10.1212/WNL.0000000000004951
  6. Liao X, Zhang S, Dong R, et al. Temporal Muscles Thicken Compensatorily After Injection of Botulinum Neurotoxin A Into Masseter Muscles. J Craniofac Surg. 2025;36(6):1921-1925. · PMID 40233307 · DOI 10.1097/SCS.0000000000011402
  7. de Souza Nobre BB, de Oliveira Resende Machado L, Poluha RL, et al. Temporalis Muscle Changes Following Botulinum Toxin A Injections in Masseter Hypertrophy Patients: A Randomized Triple-Blinded Trial. Aesthetic Plast Surg. 2024;48(19):3979-3987. · PMID 38740627 · DOI 10.1007/s00266-024-04064-4
  8. Aktaş S, Uranbey Ö, Gürsoytrak B. Isolated bilateral temporalis hypertrophy: a rare case report and technical insight into botulinum toxin type A injection. J Korean Assoc Oral Maxillofac Surg. 2025;51(4):254-260. · PMID 40878420 · DOI 10.5125/jkaoms.2025.51.4.254
  9. Lee KL, Choi YJ, Gil YC, et al. Locational Relationship between the Lateral Border of the Frontalis Muscle and the Superior Temporal Line. Plast Reconstr Surg. 2019;143(2):293e-298e. · PMID 30489500 · DOI 10.1097/PRS.0000000000005202
  10. Nikolis A, Enright KM, Rudolph C, et al. Temporal volume increase after reduction of masseteric hypertrophy utilizing incobotulinumtoxin type A. J Cosmet Dermatol. 2020;19(6):1294-1300. · PMID 32338450 · DOI 10.1111/jocd.13434
  11. Guyuron B, Rose K, Kriegler JS, Tucker T. Hourglass deformity after botulinum toxin type A injection. Headache. 2004;44(3):262-4. · PMID 15012666 · DOI 10.1111/j.1526-4610.2004.04058.x
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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