Botox no queixo (mentual) e no DAO: canto da boca caído
O canto da boca caído é obra do depressor do ângulo da boca (DAO), mas o planejamento com toxina trata o DAO e o mentual como uma unidade: os dois puxam o terço inferior para baixo, dividem o mesmo vizinho delicado — o depressor do lábio inferior — e, quando só um é bloqueado, o outro passa a aparecer. O ponto do DAO fica lateral à linha de marionete, no plano do músculo; o do mentual, baixo e central no queixo. O erro que mais custa caro é a toxina chegar ao depressor do lábio inferior e deixar o lábio torto ao falar.
Por que tratar DAO e mentual juntos
Os dois são depressores do terço inferior e trabalham em conjunto quando o paciente faz a expressão de desagrado: o DAO abaixa as comissuras e o mentual eleva e projeta o lábio inferior, enrugando a pele do queixo e aprofundando o sulco entre lábio e mento. Na face que envelhece, a soma dos dois vetores desenha a “boca triste” — comissura para baixo, sulco labiomandibular marcado e queixo contraído.
O consenso italiano de Fundarò e colaboradores (2026, Toxins), com um painel de 14 injetores experientes e revisão de 16 consensos internacionais publicados entre 2004 e 2024, analisou justamente o trio mentual, DAO e platisma. As indicações com consenso forte foram a comissura voltada para baixo, no DAO, e o queixo em “casca de laranja” e a hiperatividade, no mentual. O próprio painel aponta o papel funcional desses músculos como a razão de o terço inferior ter mais risco de complicação do que o superior.

Anatomia do DAO: triangular, superficial e sobreposto
O DAO é um músculo em forma de triângulo, de base na borda da mandíbula e ápice no modíolo. Nasce na linha oblíqua da mandíbula, logo lateral ao mento, sobe e converge para a comissura. A borda medial cobre parte do depressor do lábio inferior, sobretudo embaixo; a borda lateral encosta no risório, no zigomático maior e no platisma, cujas fibras continuam por baixo do DAO.
Três estudos de imagem e dissecção definem a posição real do músculo:
- A área segura em leque. Choi e colaboradores (2014, Plastic and Reconstructive Surgery), em 42 hemifaces, traçaram duas linhas a partir do modíolo — uma até o cruzamento da borda lateral do DAO com a mandíbula, a 44,7° da vertical, e outra até o ponto mais côncavo da borda medial, a 31,8°. O leque entre essas linhas e a borda mandibular foi apontado como o local mais seguro e eficaz para a injeção.
- A profundidade e a sobreposição medidas em vivo. Zhang e colaboradores (2024, Aesthetic Surgery Journal) examinaram o DAO por ultrassom em 41 pacientes, usando o sulco labiomandibular como referência. A profundidade média da pele ao músculo foi de 5,26, 5,61 e 8,42 mm nas três zonas avaliadas, e a sobreposição com o depressor do lábio inferior cresceu da zona 1 para a zona 3: 4,74, 9,68 e 14,54 mm. Em quase um terço dos pacientes não havia fibras do DAO na zona 1 ou na zona 2 do sulco. A recomendação dos autores é injetar nos terços médio e inferior do sulco labiomandibular, a 4 a 5 mm de profundidade.
- O músculo fora do lugar esperado. Urso e colaboradores (2026, Aesthetic Surgery Journal Open Forum) fizeram ultrassom em 290 pacientes caucasianos: só 20,2% tinham o DAO alinhado com a linha médio-pupilar clássica, e 79,8% o tinham deslocado 2 a 5 mm para fora. A profundidade média foi de 3,1 mm, maior nos pacientes com sobrepeso ou obesidade, e houve sobreposição com o depressor do lábio inferior em 12%.
A leitura conjunta é direta: a referência de superfície orienta, mas o DAO varia de posição e de profundidade de um paciente para outro, e a sobreposição com o depressor do lábio inferior é maior na metade de baixo do músculo.

Ponto alto ou ponto baixo no DAO?
É a discussão técnica mais viva da região, e os estudos chegam a respostas diferentes:
- Moradi e colaboradores (2023, Dermatol Surg) testaram, contra placebo, três pontos na metade superior do DAO com 1,5 U de onabotulinumtoxinA por ponto. Todos os tratados melhoraram na escala global de melhora estética na 4ª semana, e 90% na 12ª. A lógica é ficar longe da porção inferior, onde o depressor do lábio inferior está mais exposto.
- Zhang e colaboradores (2026, Plastic and Reconstructive Surgery), num ensaio randomizado duplo-cego medido por fotogrametria 3D, encontraram efeito maior com a injeção no DAO inferior do que no superior; somar pontos no platisma melhorou ainda mais a posição da comissura e a satisfação, e a diferença de simetria labial ficou abaixo de 1 mm.
As duas escolhas são defensáveis e têm o mesmo preço: o ponto baixo bloqueia mais músculo, porém fica onde a sobreposição com o depressor do lábio inferior é maior; o ponto alto é mais seguro, porém pode render menos. O que decide é a anatomia daquele paciente, lida com a palpação do DAO em contração — e, quando disponível, com o ultrassom. No consenso de Fundarò, 92,8% dos membros do painel preferiram a injeção intramuscular, em geral num único ponto lateral à linha de marionete, para ficar dentro da zona segura e longe do depressor do lábio inferior.

Dose: o que os estudos usaram
Nenhuma bula de toxina traz indicação para o DAO ou para o mentual; a dose vem dos estudos.
- Consenso italiano (Fundarò, 2026): dose média total de 5,6 U no DAO, igual à média dos consensos internacionais revisados.
- Dose pela gravidade (He e colaboradores, 2026, Aesthetic Plastic Surgery): 51 pacientes receberam primeiro 3 U por lado num ponto único e, quatro meses depois, 3 a 15 U por lado em três pontos em triângulo, conforme a gravidade. As doses mais seguras e eficazes foram 3 U por lado nos casos leves, 6 U nos moderados e 12 U nos graves; os casos mais graves não tiveram resultado satisfatório nem com 15 U por lado. Nas duas técnicas, o efeito voltou à linha de base na 12ª semana.
- Expectativa calibrada (Munoz-Lora e colaboradores, 2025, Journal of Neural Transmission): 34 voluntários receberam 3 U de onabotulinumtoxinA por lado, a meia distância entre a comissura e a linha da mandíbula, seguindo o sulco labiomandibular. A altura da comissura subiu em média 5,22% e as escalas de gravidade melhoraram, mas a escala global de melhora estética não mudou de forma significativa — sinal de que, isolado, o DAO entrega um ganho que o paciente nem sempre percebe.
As unidades desses estudos são as da toxina que cada um usou. As bulas declaram que as unidades de Botox, Dysport e Xeomin não são intercambiáveis. Na formação do Dr. Thiago, ensina-se a conversão de referência — Botox para Dysport em 1 para 2,5, Botox para Xeomin em 1 para 1 — e, na troca de marca, começar na dose equivalente ou levemente abaixo, ajustando pela resposta.
Onde entra o mentual nesse plano
O mentual é o depressor central da unidade. Quando ele está hiperativo, o paciente com comissura caída costuma mostrar também o queixo enrugado e o lábio inferior projetado na expressão de desagrado. Tratar só o DAO nesse paciente melhora o canto da boca e deixa o queixo contraindo sozinho; tratar só o mentual relaxa o queixo e mantém a comissura puxada para baixo. Por isso a avaliação é conjunta:
- Peça a expressão de tristeza ou desagrado e observe as comissuras, o sulco labiomandibular e o queixo ao mesmo tempo.
- Palpe o DAO lateral à linha de marionete e o mentual no centro do queixo, com contração.
- Veja o lábio inferior ao falar e ao sorrir mostrando os dentes de baixo: assimetria já presente precisa estar registrada em foto antes da toxina.
- Decida a sequência: se o queixo é o que mais incomoda, a técnica do mentual tem regras próprias de altura e profundidade — o ponto fica baixo e central, longe do orbicular da boca.
Na prática da unidade, o mentual se trata com ponto baixo, sobre a proeminência óssea, e o DAO com ponto lateral; entre eles fica uma faixa que não recebe toxina, onde corre o depressor do lábio inferior.
A extensão do tratamento também pesa. No ensaio randomizado de Munoz-Lora e colaboradores (2026, Aesthetic Surgery Journal), com 80 pacientes em quatro grupos de cobertura crescente do platisma e do DAO, quanto maior a cobertura, maior e mais duradouro o deslocamento do tecido medido por estereofotogrametria — e mais efeitos adversos percebidos no 90º dia no grupo mais extenso. O índice de massa corporal se associou a menos resposta.
Complicações e como evitar
- Lábio inferior assimétrico. É a toxina no depressor do lábio inferior: o lábio não desce de um lado ao falar e ao mostrar os dentes de baixo. Previne-se com ponto lateral à linha de marionete, longe da porção baixa e medial do DAO, e volume pequeno por ponto. Moradi e Shirazi (2022, Plastic and Reconstructive Surgery), com dissecção e revisão de 275 pacientes, associam a técnica de três pontos na metade superior do DAO a bom resultado sem os efeitos da difusão para os músculos vizinhos.
- Sorriso alterado. Difusão lateral para o risório ou o zigomático maior muda o sorriso. Ponto profundo demais ou lateral demais aumenta esse risco.
- Dificuldade de vedar os lábios. Toxina do mentual subindo para o orbicular da boca prejudica beber no copo e algumas consoantes.
Se a assimetria aparecer, o retorno de revisão entre 15 e 30 dias é o momento de avaliar; retoque, quando houver, é pontual, de dose pequena e só onde ficou atividade. Há também o caminho do lado oposto: num relato de caso de uma única paciente, Bilal e colaboradores (2026, Aesthetic Surgery Journal Open Forum) corrigiram uma assimetria iatrogênica injetando o lado que ficou mais ativo — zigomático menor, DAO e mentual, 14 U no total da toxina usada por eles —, com equilíbrio restaurado em duas semanas. É uma descrição isolada, não um protocolo; a decisão depende do exame dinâmico de cada paciente. Novas aplicações respeitam o intervalo mínimo de 3 meses das bulas. Nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica.
Onde o terço inferior se pratica
DAO, mentual e depressor do lábio inferior cabem numa área de poucos centímetros, e a diferença entre um bom resultado e um lábio torto é a leitura da contração e a posição do ponto em relação à linha de marionete. A Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa) trata essas unidades no módulo de Toxina e Preenchimento: o pré-work gravado traz a anatomia funcional dos três terços, e o sábado presencial combina demonstração comentada com execução supervisionada pelo aluno em paciente modelo, em turma de até oito médicos. Como a reconstituição muda o volume de cada ponto, vale rever diluição do Botox; os critérios para escolher um curso avançado estão em melhor curso de toxina botulínica avançada.
Perguntas frequentes
Onde aplicar botox no DAO?
No corpo do depressor do ângulo da boca, lateral à linha de marionete e longe da porção baixa e medial do músculo, onde ele cobre o depressor do lábio inferior. No consenso italiano de Fundarò e colaboradores (2026), 92,8% dos membros do painel preferiram injeção intramuscular, em geral num único ponto lateral à linha de marionete.
Quantas unidades de botox no DAO?
Nenhuma bula traz indicação para o DAO; a dose vem dos estudos, e eles usam doses baixas. O consenso italiano relata média total de 5,6 U. No estudo de He e colaboradores (2026), as doses mais seguras e eficazes foram 3 U por lado nos casos leves, 6 U nos moderados e 12 U nos graves. As unidades são da toxina de cada estudo e não se transferem automaticamente para outra marca.
Qual a profundidade da injeção no DAO?
Zhang e colaboradores (2024), por ultrassom, recomendam 4 a 5 mm nos terços médio e inferior do sulco labiomandibular. Urso e colaboradores (2026) mediram profundidade média de 3,1 mm em 290 caucasianos, maior em quem tem sobrepeso ou obesidade. A profundidade varia, e o ultrassom ajuda quando a palpação deixa dúvida.
Por que o lábio fica torto depois do botox no canto da boca?
Porque a toxina alcançou o depressor do lábio inferior, que fica medial ao DAO e é coberto por ele na porção baixa. O lábio deixa de descer de um lado ao falar e ao mostrar os dentes inferiores. É temporário e regride com o fim do efeito; o ponto lateral à linha de marionete e o volume pequeno previnem.
Precisa tratar o mentual junto com o DAO?
Quando o mentual está hiperativo, sim. Os dois são depressores do terço inferior: o DAO puxa a comissura e o mentual enruga o queixo e projeta o lábio inferior. Tratar só um deixa o outro aparecendo. A avaliação na expressão de desagrado mostra se os dois participam.
Quanto tempo dura o botox no canto da boca?
No estudo de He e colaboradores (2026), os indicadores de comissura voltaram à linha de base na 12ª semana nas duas técnicas testadas. O retorno de revisão é feito entre 15 e 30 dias, com retoque pontual e de dose pequena só onde ficou atividade, e a reaplicação respeita o intervalo mínimo de 3 meses das bulas.
Referências
- Fundarò S, Molinari P, Brunelli G, et al. Italian Consensus and Review in Lower Face Mimetic Muscle Treatment with Botulinum Toxin-A. Toxins (Basel). 2026;18(8):332. · PMID 42646760 · DOI 10.3390/toxins18080332
- Choi YJ, Kim JS, Gil YC, et al. Anatomical considerations regarding the location and boundary of the depressor anguli oris muscle with reference to botulinum toxin injection. Plast Reconstr Surg. 2014;134(5):917-921. · PMID 25347627 · DOI 10.1097/PRS.0000000000000589
- Zhang M, Yang Y, Dong R, et al. Deciphering Depressor Anguli Oris for Lower Face Rejuvenation: A Prospective Ultrasound-based Investigation. Aesthet Surg J. 2024;44(8):880-888. · PMID 38377399 · DOI 10.1093/asj/sjae037
- Urso SU, Calabria E, Franceschelli A, et al. Determining the Position, Morphology, and Location of the Depressor Anguli Muscle Through Ultrasound in the Caucasian Population. Aesthet Surg J Open Forum. 2026;8:ojag091. · PMID 42388335 · DOI 10.1093/asjof/ojag091
- Moradi A, Khalifian S, Alghoul MS, Poehler J. A Novel 3-Point Injection Technique for OnabotulinumtoxinA in the Upper Depressor Anguli Oris. Dermatol Surg. 2023;49(3):259-265. · PMID 36763899 · DOI 10.1097/DSS.0000000000003695
- Zhang M, Yang Y, Zhao N, et al. Optimizing Injection Sites of Botulinum Toxin Type A for Improving Oral Commissure Position: A Two-Stage, Prospective, Double-Blind, Randomized Trial. Plast Reconstr Surg. 2026 (online ahead of print). · PMID 42554701 · DOI 10.1097/PRS.0000000000013362
- He Z, Xi W, Yang F. The Impact of Dosage and Injection Site on Type A Botulinum Toxin Treatment for Oral Commissure Ptosis: A Prospective Study. Aesthetic Plast Surg. 2026;50(11):4230-4239. · PMID 41644821 · DOI 10.1007/s00266-026-05672-y
- Munoz-Lora VRM, Thiesen V, Loureiro D, et al. Understanding clinical meaningfulness when targeting the depressor anguli oris muscle (DAO) with neuromodulators: a clinical prospective interventional study. J Neural Transm (Vienna). 2025;132(12):1833-1840. · PMID 39276240 · DOI 10.1007/s00702-024-02835-6
- Munoz-Lora VRM, Rogerio V, Roschel P, et al. Injection Mapping and Dose Escalation For Botulinum Toxin Treatment on the Lower Face: A Randomized, Double-blind Clinical Trial. Aesthet Surg J. 2026 (online ahead of print). · PMID 42610208 · DOI 10.1093/asj/sjag165
- Moradi A, Shirazi A. A Retrospective and Anatomical Study Describing the Injection of Botulinum Neurotoxins in the Depressor Anguli Oris. Plast Reconstr Surg. 2022;149(4):850-857. · PMID 35139057 · DOI 10.1097/PRS.0000000000008967
- Bilal MR, Javaid RH, Bilal A. Correction of Iatrogenic Facial Asymmetry Caused by Botulinum Toxin Using Contralateral Injection: A Case Report. Aesthet Surg J Open Forum. 2026;8:ojag051. · PMID 41978568 · DOI 10.1093/asjof/ojag051
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