Botox no sorriso gengival: pontos e dose
Toxina botulínica

Botox no sorriso gengival: pontos no levantador do lábio

Sorriso gengival parece a indicação mais simples do terço médio: um ponto de cada lado, dose baixa, resultado em duas semanas. Mas a gengiva que aparece pode vir do lábio, do dente ou do osso — e a toxina só resolve a primeira. Quando a causa é o lábio, o ponto que funciona numa face coreana pode cair fora do músculo numa face de ângulos diferentes.

No sorriso gengival por hiperatividade dos elevadores, a toxina vai no complexo levantador do lábio superior — levantador do lábio superior, levantador do lábio superior e da asa do nariz e zigomático menor —, em geral num ponto de cada lado, lateral à asa do nariz, onde os três músculos convergem (o chamado ponto de Yonsei). A dose é pequena e varia com a exposição gengival; o que decide o resultado é o diagnóstico da causa antes da agulha, porque gengiva aparecendo no sorriso nem sempre é lábio que sobe demais.

Primeiro a causa: quando a toxina é a ferramenta certa

A exposição gengival excessiva tem origens diferentes, e a toxina só age sobre uma delas. Tatakis e Silva (2023, Journal of Dentistry), numa revisão sobre as causas de tecido mole, apontam a erupção passiva alterada e o lábio superior hipermóvel como as duas principais; para a primeira, a correção estabelecida é o aumento de coroa estético, e para a segunda, o reposicionamento labial cirúrgico. A meta-análise de Rojo-Sanchis e colaboradores (2023, Journal of Clinical Medicine) lembra que, quando a gengiva aparece por excesso vertical da maxila, a solução ideal é a cirurgia ortognática; a toxina entra nos casos limítrofes e quando a causa é a hiperatividade do complexo levantador.

Na prática, a avaliação separa quatro perguntas:

Esse roteiro não substitui a avaliação odontológica quando há dúvida sobre dente ou maxila; ele evita tratar com toxina um sorriso que precisa de outro profissional. Nos casos mistos, o encaminhamento e a toxina podem andar juntos.

Algoritmo de tratamento do sorriso gengival conforme a exposição gengival anterior — figura de estudo — Dr. Thiago Perfeito
Algoritmo proposto na meta-análise pela exposição gengival anterior. De 2 a 4 mm, a decisão segue o comprimento do lábio e a espessura do vermelhão: toxina (BTX-A), ácido hialurônico (H.A) ou os dois. Acima de 4 mm, a primeira pergunta é se há excesso maxilar — com excesso, cirurgia ortognática, e toxina ± ácido hialurônico só quando o paciente não aceita ou não pode operar; sem excesso, toxina associada a ácido hialurônico ou queiloplastia no lábio curto. Figure 9 de Rojo-Sanchis C et al., J Clin Med 2023 (PMID 36835971), reproduzida sob licença CC BY.

Os músculos que levantam o lábio

Três elevadores fazem a maior parte do trabalho no sorriso gengival:

Hwang e colaboradores (2009, Angle Orthodontist) dissecaram 50 hemifaces de 25 cadáveres e mediram o ângulo de cada vetor em relação à linha média: em média 25,8° para o levantador do lábio superior, 55,7° para o zigomático menor e −20,2° para o levantador do lábio superior e da asa do nariz, sem diferença entre sexos nem entre lados. A inserção do levantador do lábio superior era coberta, em parte ou toda, pelos outros dois, e os três convergiam na área lateral à asa do nariz. Os três vetores passavam perto de uma região triangular formada por três marcos de superfície, e o centro desse triângulo foi batizado de ponto de Yonsei.

Músculos ao redor da boca em vista frontal, elevadores e depressores do lábio — diagrama — Dr. Thiago Perfeito
Músculos periorais em vista frontal. Acima da boca, os elevadores: o levantador do lábio superior e da asa do nariz junto ao nariz, o levantador do lábio superior e, mais lateral, o zigomático menor — o alvo do sorriso gengival. Em volta da boca, o orbicular; abaixo, o depressor do ângulo da boca e o mentual, que ficam fora deste tratamento.

Classificar o sorriso para escolher os pontos

Mazzuco e Hexsel (2010, Journal of the American Academy of Dermatology) avaliaram 16 pacientes antes da toxina e descreveram quatro tipos de sorriso gengival pela área de gengiva exposta: anterior, posterior, misto e assimétrico. Usaram abobotulinumtoxinA com uma técnica para cada tipo, guiada pelos músculos mais envolvidos, e a exposição gengival diminuiu em todos os pacientes, com melhora média de 75,09%. Dois tiveram efeitos adversos leves, corrigidos com doses adicionais.

A lógica anatômica que a classificação organiza é direta:

O ponto de Yonsei: o que os estudos mostram

A pergunta prática é se um ponto só, no centro do triângulo, rende o mesmo que injetar direto no levantador do lábio superior e da asa do nariz. Gong e colaboradores (2024, Plastic and Reconstructive Surgery) responderam com um ensaio clínico randomizado e duplo-cego em 49 participantes com exposição gengival anterior de pelo menos 3,0 mm. Um grupo recebeu 6 U de toxina botulínica tipo A no ponto de Yonsei (3 U de cada lado); o outro, a mesma dose no levantador do lábio superior e da asa do nariz. A exposição anterior e a posterior caíram em 4, 12 e 24 semanas e voltaram ao valor inicial em 48 semanas nos dois grupos, sem diferença entre eles. Conclusão dos autores: os dois locais servem.

O ponto, porém, foi descrito em faces coreanas. Booysen e colaboradores (2023, Clinical and Experimental Dental Research) dissecaram 19 cadáveres sul-africanos brancos, mediram os ângulos dos elevadores e desenharam círculos de 2 cm de diâmetro (1 cm de raio) em volta de cada ponto para estimar até onde a toxina alcançaria. Os ângulos eram mais fechados que os da população coreana, e, nessa amostra, os autores concluíram que o ponto de Yonsei não alcançava os músculos de forma eficaz. Numa população miscigenada como a brasileira, o recado é palpar o músculo em sorriso forçado e ajustar o ponto à face que está na cadeira.

Esquema dos ângulos dos músculos elevadores do lábio em duas populações para o ponto de Yonsei — figura de estudo — Dr. Thiago Perfeito
Vetores do levantador do lábio superior e da asa do nariz (LLSAN), do levantador do lábio superior (LLS) e do zigomático menor (ZMi) desenhados sobre a face, comparando a população coreana (azul) com a sul-africana branca (vermelho), em homens (a) e mulheres (b). Os ângulos mais fechados mudam onde os três músculos se cruzam. Figure 5 de Booysen B et al., Clin Exp Dent Res 2023 (PMID 37073426), reproduzida sob licença CC BY.

Dose: de onde vêm os números

Este é um uso fora de bula: nenhuma das bulas de Botox, Dysport e Xeomin declara dose para sorriso gengival. Os números vêm de estudo, e cada um está preso à marca usada nele.

Quando o estudo usa uma marca e o consultório outra, as bulas são categóricas: as unidades não são intercambiáveis entre produtos. Na formação do Dr. Thiago, o aluno aprende também a conversão de referência — Botox para Dysport na proporção de 1 para 2,5 e Botox para Xeomin de 1 para 1 —, com a regra de começar na dose equivalente ou um pouco abaixo e corrigir pela resposta do paciente. No sorriso gengival essa prudência pesa mais do que em outras áreas, porque o excesso aparece no sorriso de todo dia. Diferenças práticas entre as marcas estão em Botox ou Dysport: diferenças que importam para o injetor.

Passo a passo da aplicação

  1. Fotografe e meça. Repouso e sorriso máximo, de frente e de três quartos, com a exposição gengival em milímetros sobre os incisivos e sobre os dentes posteriores. Sem a medida inicial, não há como julgar o retorno.
  2. Classifique o sorriso. Anterior, posterior, misto ou assimétrico; anote o lado que sobe mais.
  3. Palpe os elevadores. Peça um sorriso forçado e sinta, lateral à asa do nariz, o feixe que sobe. Em faces de ângulo mais fechado, o ponto pode ficar mais perto do nariz do que o desenho clássico sugere.
  4. Marque um ponto por lado no cruzamento dos vetores (ponto de Yonsei ou o próprio levantador do lábio superior e da asa do nariz); no sorriso posterior, acrescente o território lateral.
  5. Injete com agulha fina. Na conduta do Dr. Thiago, toxina vai com agulha de 30 a 32 G, em microbolus, sem aspirar — em toxina não é necessário — e nunca com microcânula.
  6. Comece baixo e simétrico, salvo no sorriso assimétrico, em que a dose segue o lado mais ativo.
  7. Registre e reveja. Produto, lote, diluição, unidades por ponto e foto. O consentimento é por escrito. A revisão fica entre 15 e 30 dias — perto do pico de efeito que Wang e colaboradores descrevem entre 2 e 4 semanas.

Quanto dura

Polo (2008, American Journal of Orthodontics and Dentofacial Orthopedics) tratou 30 pacientes com onabotulinumtoxinA e acompanhou por 24 semanas. A exposição gengival média caiu de 5,2 mm para 0,09 mm em 2 semanas, com descida média do lábio de 5,1 mm; depois foi subindo aos poucos, e em 24 semanas ainda não tinha voltado ao valor inicial — a projeção do autor era voltar entre 30 e 32 semanas. A revisão de Wang descreve efeito por até 12 a 24 semanas, e no ensaio de Gong a exposição só voltou ao ponto de partida em 48 semanas. A conversa com o paciente, portanto, é de efeito temporário, com reaplicação respeitando o intervalo mínimo de 3 meses das bulas.

O que pode dar errado — e como evitar

Quando o lábio é fino ou curto, a toxina pode ser combinada com preenchedor para dar altura ao vermelhão; a técnica de preenchimento está em como fazer preenchimento labial: técnica, volume e planos. O lugar do sorriso gengival na lista de habilidades avançadas aparece em o que um curso de toxina avançada precisa ensinar. Nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica.

Onde se aprende a ler esse sorriso

Separar um lábio hipermóvel de uma coroa curta, palpar o elevador que sobe e acertar a dose do primeiro lado são decisões que se aprendem olhando sorrisos reais, com alguém ao lado. No módulo de Toxina e Preenchimento da Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, a parte teórica do sábado é a demonstração comentada do mapa de pontos e das doses de referência da toxina; a parte prática é a execução pelo próprio aluno em paciente modelo, sob supervisão, numa turma de até 8 médicos. Antes do sábado, o pré-work gravado é obrigatório. Os outros módulos estão em /cursos/.

Perguntas frequentes

Onde aplicar botox no sorriso gengival?

No complexo levantador do lábio superior: levantador do lábio superior, levantador do lábio superior e da asa do nariz e zigomático menor, que convergem lateralmente à asa do nariz. O ponto mais usado é o de Yonsei, um de cada lado; no sorriso gengival posterior, o território mais lateral também entra.

O ponto de Yonsei funciona melhor que injetar no levantador do lábio e da asa do nariz?

No ensaio randomizado de Gong e colaboradores (2024), com 49 participantes e 3 U por lado, os dois locais reduziram a exposição gengival da mesma forma. Booysen e colaboradores (2023) mostraram que os ângulos dos elevadores variam entre populações, então o ponto se confirma pela palpação em sorriso forçado.

Quantas unidades de toxina se usam no sorriso gengival?

É uso fora de bula, então a dose vem de estudo. Na meta-análise de Rojo-Sanchis e colaboradores (2023), os estudos usaram de 1,25 a 7,5 U por lado, conforme a gravidade. As bulas dizem que as unidades não são intercambiáveis entre marcas; a formação do Dr. Thiago ensina a conversão de referência (Botox:Dysport 1:2,5; Botox:Xeomin 1:1) com ajuste pela resposta.

Quanto tempo dura o botox no sorriso gengival?

Os estudos descrevem pico entre 2 e 4 semanas e efeito por 12 a 24 semanas, com retorno gradual. Polo (2008) projetou a volta ao valor inicial entre 30 e 32 semanas; no ensaio de Gong, ela ocorreu em 48 semanas. A reaplicação respeita o intervalo mínimo de 3 meses das bulas.

Todo sorriso gengival pode ser tratado com toxina?

Não. A toxina age no lábio hipermóvel. Erupção passiva alterada (coroas curtas, gengiva cobrindo o esmalte) é tratada com aumento de coroa estético, e excesso vertical da maxila, com cirurgia ortognática. Nos casos mistos, a toxina pode complementar o tratamento odontológico.

Qual o principal risco do botox no sorriso gengival?

Dose alta, que alonga o lábio no sorriso e deixa os incisivos cobertos, e assimetria entre os lados. Começar com dose baixa, medir a exposição gengival antes e rever entre 15 e 30 dias permite corrigir com dose pequena no retoque.

Referências

  1. Hwang WS, Hur MS, Hu KS, et al. Surface anatomy of the lip elevator muscles for the treatment of gummy smile using botulinum toxin. Angle Orthod. 2009;79(1):70-77. · PMID 19123705 · DOI 10.2319/091407-437.1
  2. Mazzuco R, Hexsel D. Gummy smile and botulinum toxin: a new approach based on the gingival exposure area. J Am Acad Dermatol. 2010;63(6):1042-1051. · PMID 21093661 · DOI 10.1016/j.jaad.2010.02.053
  3. Gong X, Tang HN, Zhang AR, et al. Application of Botulinum Toxin at the Yonsei Point for the Treatment of Gummy Smile: A Randomized Controlled Trial. Plast Reconstr Surg. 2024;153(4):711e-721e. · PMID 37166037 · DOI 10.1097/PRS.0000000000010623
  4. Booysen B, Baron RH, Uys A. Establishing standards for Yonsei point in a White South African population for the treatment of gummy smile. Clin Exp Dent Res. 2023;9(3):455-463. · PMID 37073426 · DOI 10.1002/cre2.735
  5. Wang X, Zou Y, Yuan M, et al. Dose and injection site of botulinum toxin type A for gummy smile management: A systematic review and bibliometric analysis. Toxicon. 2024;249:108058. · PMID 39134226 · DOI 10.1016/j.toxicon.2024.108058
  6. Polo M. Botulinum toxin type A (Botox) for the neuromuscular correction of excessive gingival display on smiling (gummy smile). Am J Orthod Dentofacial Orthop. 2008;133(2):195-203. · PMID 18249285 · DOI 10.1016/j.ajodo.2007.04.033
  7. Rojo-Sanchis C, Montiel-Company JM, Tarazona-Álvarez B, et al. Non-Surgical Management of the Gingival Smile with Botulinum Toxin A — A Systematic Review and Meta-Analysis. J Clin Med. 2023;12(4):1433. · PMID 36835971 · DOI 10.3390/jcm12041433
  8. Tatakis DN, Silva CO. Contemporary treatment techniques for excessive gingival display caused by altered passive eruption or lip hypermobility. J Dent. 2023;138:104711. · PMID 37730094 · DOI 10.1016/j.jdent.2023.104711
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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