Botox para hiperidrose plantar e craniofacial
Na planta do pé e na região craniofacial (testa e couro cabeludo), a toxina botulínica trata a hiperidrose da mesma forma que na axila: injeção intradérmica em grade de pontos sobre a área que o teste de Minor marca. Nenhuma das duas está em bula, e cada dose citada aqui pertence a um estudo e ao produto dele. Na planta, o problema é a dor numa pele espessa; na testa, é o músculo frontal logo abaixo da derme, cuja fraqueza aparece no rosto. O mecanismo, o teste de Minor e a dose de bula da axila estão em Botox na axila (hiperidrose); aqui entra só o que muda.
Por que as duas regiões são fora de bula
A bula americana do Botox aprova a hiperidrose axilar primária grave e declara que segurança e eficácia em outras áreas do corpo não foram estabelecidas. Ela cita, nominalmente, a blefaroptose como efeito que pode ocorrer no tratamento da hiperidrose facial. A bula americana do Dysport afirma que a segurança do produto para hiperidrose não foi estabelecida, e a do Xeomin não lista a hiperidrose entre as indicações. Fora da axila, portanto, o número de unidades é sempre o do estudo e do produto do estudo.
Nas três bulas, as unidades são declaradas não intercambiáveis entre marcas. A formação do Dr. Thiago ensina a ponte prática: para o Dysport, multiplicar a dose de Botox por 2,5; para o Xeomin, manter a mesma dose; começar no equivalente ou um pouco abaixo e acertar pela resposta. Quando a dose de partida já é de estudo, como na planta e na testa, essa conversão é o primeiro palpite, e o retorno é quem confirma.

Hiperidrose plantar
Quem tratar
Como na palma, a toxina plantar entra depois das medidas tópicas. Na escada terapêutica proposta por Schreiner e colaboradores (2026, Dtsch Arztebl Int), a toxina vem depois do cloreto de alumínio e dos anticolinérgicos. Antes de tratar o pé, vale examinar a pele: infecção no local da injeção — micose incluída — é contraindicação nas três bulas.
O que os estudos fizeram
- Tsiogka e colaboradores (2024, Australas J Dermatol) revisaram 129 pacientes tratados num hospital terciário entre 2003 e 2022, 89,1% deles com onabotulinumtoxinA. A duração média da resposta foi de 6,16 meses. Pelo teste de Minor, a taxa de resposta foi de 71,67% no 1º mês, 63,44% no 3º, 47,78% no 6º e 34,13% no 9º. Ficaram satisfeitos 21,7% e muito satisfeitos 58,9%, e nenhum efeito colateral grave foi relatado.
- Campanati e colaboradores (2007, Eur J Dermatol) aplicaram 100 U de toxina tipo A por via intradérmica em cada planta de 10 pacientes, com melhora do Minor e da qualidade de vida por 12 semanas e sem efeitos colaterais significativos.
- Vadoud-Seyedi (2004, Int J Dermatol) tratou 10 pacientes com 50 U diluídas em 5 mL de soro por pé, em 15 a 20 pontos, aplicadas com injetor sem agulha (Dermojet) e sem analgesia. Sete ficaram sem sintomas por até 5 meses; o único evento adverso foi um hematoma local transitório.
- Sevim e colaboradores (2002, Acta Neurol Belg) usaram 100 U por planta, com queda significativa do suor no 1º mês.
A curva de Tsiogka é útil para a conversa com o paciente: o efeito na planta vai caindo mês a mês, e, com duração média de 6,16 meses, reaplicações ao longo do ano fazem parte do plano.
Dor e anestesia na planta
A pele plantar é mais espessa que a palmar, e a injeção intradérmica dói. Nasser e colaboradores (2021, Dermatol Surg) revisaram as opções de analgesia para mãos e pés juntos e chegaram a uma divisão útil: os recursos sem agulha (creme anestésico, frio, vibração) são os mais simples e seguros; os bloqueios — de nervo periférico ou de Bier — e os injetores sem agulha dão anestesia mais completa, à custa de treino e aparelhagem.
- Gelo e vibração. Smith e colaboradores (2007, Dermatol Surg) aplicaram gelo no ponto a injetar e gelo ou vibração na pele ao lado durante a punção. Na experiência dos autores, os pacientes as escolheram no lugar do bloqueio, e os dois pés couberam numa única sessão.
- Bloqueio no tornozelo. Gutiérrez-Meré e colaboradores (2025, Actas Dermosifiliogr) descreveram a toxina plantar sob bloqueio dos nervos periféricos no nível do tornozelo. Como na mão, o bloqueio é técnica própria, aprendida com supervisão, e o paciente sai com o pé anestesiado.
- Injetor sem agulha. A série de Vadoud-Seyedi foi feita sem analgesia, com Dermojet — uma alternativa às dezenas de punções.
Hiperidrose craniofacial: testa e couro cabeludo
Diagnóstico antes da técnica
Suor excessivo na cabeça tem diagnósticos diferenciais que a axila não tem. A forma primária existe — Kinkelin e colaboradores a descrevem como predominante em homens —, mas há também a hiperidrose craniofacial da pós-menopausa, descrita em mulheres a partir dessa fase, e a sudorese gustativa (síndrome de Frey), que surge após cirurgia na região da parótida e já foi descrita na testa e no couro cabeludo depois de cirurgia da articulação temporomandibular (Caliò e colaboradores, 2023, Clin Auton Res). Excluir causa secundária, como pede a bula para toda hiperidrose, é o primeiro passo.
A revisão sistemática de Nicholas e colaboradores (2015, Am J Clin Dermatol), com 27 estudos sobre hiperidrose craniofacial primária, recomendou como primeira linha o glicopirrolato tópico, a oxibutinina oral e a toxina botulínica intradérmica. A simpatectomia torácica ficou para os casos refratários; nos estudos de simpatectomia, a sudorese compensatória incomodou de 8% a 95,4% dos operados.
O que os estudos mostram na testa
Kinkelin e colaboradores (2000, Br J Dermatol) trataram 10 homens com hiperidrose frontal usando Botox em múltiplos pontos distribuídos por igual na testa, com dose média de 86 U. O suor caiu de 173,8 para 53,7 mg por minuto em 4 semanas, e o efeito durou pelo menos 5 meses em 9 dos 10 pacientes. Os efeitos colaterais foram dor na injeção e fraqueza transitória do músculo frontal, sem ptose.
Na revisão de Nicholas, os dois estudos com toxina na região craniofacial — um ensaio randomizado e um observacional — mostraram eficácia de 100%, com duração mediana de 5 a 6 meses. A inibição do músculo frontal foi o principal efeito adverso, em 50% a 100% dos pacientes. Duas revisões mais recentes vão na mesma direção. Perez e colaboradores (2025, Toxins), sobre toxina em doenças do couro cabeludo, descrevem eficácia consistente na hiperidrose craniofacial, com efeitos colaterais mínimos. Farah e colaboradores (2026, Clin Dermatol), sobre hiperidrose fora da axila, relatam melhora significativa dos sintomas e perfil de segurança aceitável na testa, na face e no couro cabeludo, com grande variação de doses e técnicas entre os estudos.

A técnica na testa: ficar na derme
Na estética, a toxina da testa é intramuscular e mira o frontal. Na hiperidrose, o alvo é a glândula, e o frontal é o tecido a poupar. Três cuidados decorrem disso:
- Injeção intradérmica rasa, em pápula. Quanto mais superficial, menos toxina chega ao músculo.
- Mapa de Minor na testa e na linha do cabelo. A área que sua define a grade; a borda inferior merece distância da sobrancelha, porque a fraqueza do frontal baixo derruba o supercílio — e a bula do Botox registra blefaroptose no tratamento facial.
- Conversa prévia sobre a expressão. O paciente que espera só "parar de suar" precisa saber que a testa pode ficar menos móvel por meses, porque é o efeito mais relatado nas séries.
Para quem já injeta a testa por indicação estética, o raciocínio inverso está em Como aplicar botox na testa sem baixar a sobrancelha — a mesma anatomia, com outro alvo.
Couro cabeludo
Patrick e colaboradores (2024, Cureus) relataram uma paciente de 68 anos com hiperidrose craniofacial pós-menopausa que não respondeu aos tópicos e não tolerou o anticolinérgico oral. Ela recebeu 100 U de onabotulinumtoxinA ao longo da testa, da linha do cabelo frontal e do couro cabeludo ao redor da orelha, com melhora importante dos sintomas e da qualidade de vida.

No couro cabeludo, o cabelo atrapalha a leitura do Minor e a marcação; separar em faixas e marcar ponto a ponto, como na linha do cabelo, mantém a grade regular.
Erros comuns fora da axila
- Levar a dose da axila para outra região. A dose de 50 U por axila da bula do Botox vale só para a axila; a planta e a testa têm doses de estudo.
- Tratar a planta sem plano de dor. É a região mais dolorosa do mapa.
- Injetar fundo na testa. Na hiperidrose, o frontal é tecido a proteger.
- Descer a grade até a sobrancelha. A blefaroptose e a queda do supercílio estão descritas no tratamento facial.
- Pular o diagnóstico diferencial na cabeça. Suor gustativo e suor da pós-menopausa mudam a conversa.
Uma nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica.
Como isso se aprende na prática
A formação do Dr. Thiago Perfeito, médico (CRM-DF 23199), trata a hiperidrose — axilar, palmar e plantar — dentro do módulo de Toxina e Preenchimento da Pós Prática, com a anestesia ensinada junto de cada técnica. O conteúdo teórico vem em pré-work gravado, que o aluno conclui antes do sábado; no dia presencial, em Brasília, há demonstração comentada na parte teórica e execução supervisionada em paciente modelo na prática, para turmas de até 8 médicos. A grade dos outros módulos está em /cursos/.
Perguntas frequentes
Botox nos pés e na testa para suor é indicação de bula?
Não. Na bula americana do Botox, a única hiperidrose aprovada é a axilar; o texto diz que o uso em outras partes do corpo não teve segurança e eficácia estabelecidas e menciona blefaroptose quando a face é tratada. Planta, testa e couro cabeludo seguem doses publicadas em estudos.
Quantas unidades se usam na planta do pé?
Depende do estudo e do produto. Campanati e colaboradores (2007) e Sevim e colaboradores (2002) usaram 100 U de toxina tipo A por planta; Vadoud-Seyedi (2004), 50 U por pé com injetor sem agulha. Cada bula afirma que suas unidades não valem para outra marca; na troca, a formação do Dr. Thiago parte de Dysport em 2,5 vezes a dose de Botox e Xeomin na mesma dose, e corrige pelo resultado.
Quanto tempo dura a toxina na planta?
Na série de 129 pacientes de Tsiogka e colaboradores (2024), a duração média da resposta foi de 6,16 meses, com taxa de resposta pelo Minor de 71,67% no 1º mês e 34,13% no 9º.
Como reduzir a dor da injeção na planta?
Gelo no ponto e gelo ou vibração ao lado durante a punção (Smith, 2007) permitem tratar os dois pés na mesma sessão. O bloqueio dos nervos no tornozelo anestesia mais, mas exige treino e deixa o pé anestesiado depois da sessão.
A toxina na testa para suor muda a expressão?
Pode. Na série de Kinkelin e colaboradores (2000), houve fraqueza transitória do frontal, sem ptose, e na revisão de Nicholas e colaboradores (2015) a inibição do frontal foi o principal efeito adverso. Injeção intradérmica rasa e distância da sobrancelha reduzem o efeito.
Qual a dose na hiperidrose da testa?
Não há dose de bula. Kinkelin e colaboradores (2000) usaram, em média, 86 U de Botox distribuídas por igual na testa, com efeito de pelo menos 5 meses em 9 de 10 pacientes.
Suor na cabeça é sempre hiperidrose primária?
Não. Há a hiperidrose craniofacial da pós-menopausa e a sudorese gustativa (síndrome de Frey) após cirurgia da parótida ou da articulação temporomandibular, entre outras causas secundárias. O diagnóstico vem antes da toxina.
Referências
- BOTOX® (onabotulinumtoxinA) — Prescribing Information. AbbVie/Allergan, revisão 11/2023 (seções 1 e 2.9 — Primary Axillary Hyperhidrosis).
- DYSPORT® (abobotulinumtoxinA) — Prescribing Information. Ipsen, revisão 9/2017 (seção 5.7).
- XEOMIN® (incobotulinumtoxinA) — Prescribing Information. Merz, revisão 06/2026 (seção 1).
- Tsiogka A, Agiasofitou E, Tsimpidakis A, et al. Management of primary plantar hyperhidrosis with botulinum toxin type A: A retrospective case series of 129 patients. Australas J Dermatol. 2024;65(1):49-54. · PMID 37964488 · DOI 10.1111/ajd.14188
- Campanati A, Bernardini ML, Gesuita R, Offidani A. Plantar focal idiopathic hyperhidrosis and botulinum toxin: a pilot study. Eur J Dermatol. 2007;17(1):52-54. · PMID 17324828 · DOI 10.1684/ejd.2007.0094
- Vadoud-Seyedi J. Treatment of plantar hyperhidrosis with botulinum toxin type A. Int J Dermatol. 2004;43(12):969-971. · PMID 15569036 · DOI 10.1111/j.1365-4632.2004.02304.x
- Sevim S, Dogu O, Kaleagasi H. Botulinum toxin-A therapy for palmar and plantar hyperhidrosis. Acta Neurol Belg. 2002;102(4):167-170. · PMID 12534243
- Smith KC, Comite SL, Storwick GS. Ice minimizes discomfort associated with injection of botulinum toxin type A for the treatment of palmar and plantar hyperhidrosis. Dermatol Surg. 2007;33(1 Spec No.):S88-S91. · PMID 17241420 · DOI 10.1111/j.1524-4725.2006.32337.x
- Nasser S, Farshchian M, Kimyai-Asadi A, Potts GA. Techniques to Relieve Pain Associated With Botulinum Injections for Palmar and Plantar Hyperhidrosis. Dermatol Surg. 2021;47(12):1566-1571. · PMID 34743126 · DOI 10.1097/DSS.0000000000003182
- Gutiérrez-Meré R, Trapote Cubillas AR, Sánchez Lázaro JA, Castiñeiras González J. Botulinum Toxin Treatment for Plantar Hyperhidrosis Via Peripheral Nerve Blockade at Ankle Level. Actas Dermosifiliogr. 2025;116(8):T915-T918. · PMID 40570948 · DOI 10.1016/j.ad.2025.06.016
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- Patrick B, Beck AT, Casterline BW, Martin KL. Botulinum Toxin for the Treatment of Postmenopausal Craniofacial Hyperhidrosis. Cureus. 2024;16(9):e68401. · PMID 39360116 · DOI 10.7759/cureus.68401
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- Schreiner W, Rapprich S, Rzany B, Wiegering A. Hyperhidrosis: Prevalence, Diagnosis, and Stepwise Treatment. Dtsch Arztebl Int. 2026;123(9):253-260. · PMID 41572865 · DOI 10.3238/arztebl.m2025.0229
- Caliò B, Wenning GK, Fanciulli A, Colosimo C. Forehead and scalp gustatory sweating after temporomandibular joint surgery: an atypical presentation of Frey's syndrome. Clin Auton Res. 2023;33(2):201-203. · PMID 36843185 · DOI 10.1007/s10286-023-00931-3
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