Laser CO2 fracionado: parâmetros e cuidados
O laser de CO2 fracionado (10.600 nm) é absorvido pela água de todas as células e vaporiza colunas microscópicas de pele, cercadas por uma faixa de coagulação, deixando pele intacta entre elas. Quatro parâmetros decidem a sessão: a energia por microfeixe, que define a profundidade da coluna; a densidade, que define quanto da área é atingido; o número de passadas; e o modo de pulso, que define quanto calor escapa para os lados. Os cuidados que mais pesam são os de antes (herpes, acne ativa, pele bronzeada, injetável recente) e os da primeira semana (curativo, fotoproteção e vigilância de infecção). Esta página explica cada parâmetro com os números que os estudos publicaram e o que cada número significa no aparelho que o médico tem na mão.
O que o fracionamento muda
O CO2 clássico removia a epiderme inteira e uma camada da derme: resultado forte, recuperação longa. A ideia que mudou isso foi publicada por Manstein e colaboradores (2004, Lasers Surg Med), ainda com um protótipo não ablativo de 1,5 µm: em vez de tratar a superfície toda, o feixe é dividido em zonas microscópicas de tratamento. No estudo, cada zona tinha cerca de 100 µm de diâmetro e chegava a 300 µm de profundidade, o espaçamento de 250 µm ou mais foi bem tolerado e a reepitelização se completou em 1 dia. A pele poupada entre as colunas é o reservatório que repara a lesão.
No CO2 fracionado, cada coluna é uma zona de ablação microscópica — tecido vaporizado — envolvida por uma zona de coagulação. Carniol e colaboradores (2015, JAMA Facial Plast Surg) resumem o que o médico controla: densidade dos microfeixes, duração do pulso, número de passadas e fluência. Mudar qualquer um deles muda o efeito, e é por isso que a pergunta "qual é o parâmetro do CO2?" só tem resposta para um aparelho, uma indicação e uma pele.

Os parâmetros, um por um
| Parâmetro | O que controla | Erro mais comum |
|---|---|---|
| Energia por microfeixe (mJ) | Profundidade da coluna ablativa | Subir energia para "fazer efeito" em pele fina, como a periocular |
| Densidade ou cobertura (%) | Fração da superfície atingida em cada passada | Densidade alta em pele morena ou bronzeada |
| Passadas | Soma de cobertura e de calor na mesma área | Empilhar passadas sem esperar a pele esfriar |
| Modo e duração do pulso | Quanto calor se espalha além da coluna | Trocar de modo mantendo a mesma energia |
| Intervalo entre sessões | Tempo para a remodelação e para o pigmento assentar | Repetir antes de o eritema da sessão anterior resolver |
Energia e profundidade. Wenande e colaboradores (2024, Lasers Surg Med) mediram a coluna com tomografia de coerência óptica no antebraço de um voluntário: na pele sem preparo, a zona de ablação teve mediana de 210 µm com 10 mJ por microfeixe e de 335 µm com 30 mJ. Triplicar a energia não triplicou a profundidade. O mesmo trabalho mostrou que a pele hiper-hidratada por oclusão ablou 10% a 14% menos, e em pele suína ex vivo a desidratada perdeu 14% a 16% de profundidade — diferenças que os autores consideram modestas, mas que lembram que creme oclusivo e anestésico sob filme mudam a pele que o laser encontra.
Modo de pulso. Aparelhos mais novos têm modos que entregam a energia em tempo de permanência mais curto por microfeixe, com o objetivo de limitar a difusão de calor para fora da coluna. É o caso do modo HighPulse estudado por Oloruntoba e Rodrigues (2026, J Cosmet Dermatol), descrito adiante; o resumo não nomeia o aparelho, e a autora sênior declara ser líder de opinião da DEKA.
O que os estudos usaram
Os números abaixo pertencem aos aparelhos e às peles de cada estudo. Servem para entender a lógica de cada indicação, não para copiar no painel de outro aparelho.
| Estudo | Indicação e pele | Parâmetros | Sessões |
|---|---|---|---|
| Hedelund, 2012 | Cicatriz atrófica de acne, 13 pacientes | 48–56 mJ por pulso, 13% de densidade, 12–14 W | 3, mensais |
| Wu, 2025 | Rugas periorbitais estáticas, pele chinesa | Três braços: 15–20 mJ a 5%; 10–12,5 mJ a 15%; 12,5–15 mJ a 10% | 2, com 3 meses de intervalo |
| Wanitphakdeedecha, 2014 | Rosto inteiro, pacientes tailandeses | 10 mJ, 10% de densidade | 1 |
| Prignano, 2011 | Fotodano, fototipos II e III, rosto e antebraço | Passada única superficial; 2,07 e 2,77 J/cm² comparados a 4,15 J/cm² | 1 |
Cicatriz de acne: energia mais alta, densidade moderada. No ensaio randomizado de Hedelund e colaboradores (2012, Lasers Surg Med), cada paciente teve uma área tratada e outra, parecida, sem tratamento. A textura da cicatriz, avaliada às cegas numa escala de 10 pontos, caiu de 6,15 para 3,89 aos 6 meses no lado tratado, e a atrofia, de 5,72 para 3,56, com efeitos adversos menores. Os próprios autores comentam que energia mais alta talvez tivesse melhorado o resultado — e talvez trouxesse efeitos adversos importantes. A revisão sistemática de Xu e Deng (2018, Facial Plast Surg), com 30 estudos, chega à regra que vale para todo o resto da página: número de sessões, intervalo e parâmetros se ajustam a cada paciente, e, na cicatriz em picador de gelo, deve-se considerar tratamento combinado.
Pele fina e pele asiática: energia baixa, densidade maior. Wu e colaboradores (2025, Dermatol Ther (Heidelb)) randomizaram 30 pacientes com rugas periorbitais entre três combinações de energia e cobertura; 20 completaram o seguimento. A taxa de eficácia visual foi de 68,2%, sem diferença entre os grupos, mas só o grupo de energia baixa e densidade alta (10–12,5 mJ a 15%) reduziu de forma significativa o escore de rugas aos 3 e aos 6 meses. No mesmo ensaio, uma região periorbital de cada paciente, sorteada, recebeu hidroquinona tópica antes e depois das sessões, e esse lado teve significativamente menos hiperpigmentação pós-inflamatória. Na mesma linha, a revisão de Wat e colaboradores (2017, Lasers Surg Med) sobre resurfacing fracionado no paciente asiático conclui que mais sessões, com densidade mais baixa e intervalos mais longos, costumam dar o menor risco de mancha sem perder eficácia.
Mais energia não é mais resultado. Prignano e colaboradores (2011, J Cosmet Dermatol) compararam três fluências em 12 pacientes e concluíram que 2,07 e 2,77 J/cm², em vez de 4,15 J/cm², já produziam resposta biológica sem cicatriz.

Cuidados antes da sessão
Herpes. Na série de Cohen e colaboradores (2017, Aesthetic Plast Surg), com 730 pacientes tratados com lasers fracionados, houve 5 surtos de herpes simples entre as complicações. O relato de Zaouak e colaboradores (2019, J Cosmet Laser Ther) mostra que a profilaxia reduz, mas não elimina, o risco: uma mulher de 48 anos, sem história de herpes labial recorrente, tratou cicatriz de queimadura perioral com CO2 fracionado; o relato usou profilaxia antiviral oral em torno da sessão e, mesmo assim, no quinto dia depois da segunda sessão, ela apresentou dor e erupção vesicular, tratada com antiviral intravenoso. O consenso de Labadie e colaboradores (2022, JAMA Dermatol), escrito para a entrega de ativos assistida por laser ablativo fracionado, recomenda profilaxia antiviral quando se trata a face. Perguntar pela história, planejar a profilaxia e reconhecer cedo a dor desproporcional nos primeiros dias são partes do mesmo cuidado.
Acne ativa e pele reativa. Na mesma série de Cohen, as erupções acneiformes foram a complicação mais comum (13 casos), seguidas de dermatite (9). Pele com acne em atividade ou eczema na área entra no plano depois de controlada.
Pele morena ou bronzeada. Na revisão de Wat, a hiperpigmentação pós-inflamatória é a complicação predominante do resurfacing fracionado em pele asiática. A resposta está nos parâmetros (densidade menor, mais sessões, intervalo maior) e na data: pele recém-bronzeada espera.
Injetável recente. Na conduta do Dr. Thiago Perfeito, uma sessão de aparelho de energia fica a 2 a 4 semanas de distância de bioestimulador ou preenchedor, e com HArmonyCa ele pede pelo menos 4 semanas entre o produto e laser, ultrassom ou peeling.
Pele limpa. Maquiagem, protetor e anestésico tópico saem antes da primeira passada: o canal aberto pelo laser leva para dentro o que estiver na superfície — o assunto da página sobre drug delivery após laser.

Durante e depois
Dor e anestesia. No estudo de Oloruntoba e Rodrigues, com 38 pacientes de fototipos I a IV tratados para rejuvenescimento facial, a nota média de dor foi 4,8, sem diferença significativa entre quem recebeu anestésico tópico (LMX4) e quem não recebeu, nem entre fototipos.
O que esperar na primeira semana. No mesmo estudo, 50% tiveram eritema e 24% edema, todos passageiros, e não houve bolha, mancha nem cicatriz registradas — com a ressalva das autoras de que o registro de rotina pode subestimar eventos e de que os fototipos V e VI não estavam na amostra. Na série de Cohen, a taxa de complicações do CO2 fracionado foi de 6,4%, contra 4,0% do laser fracionado de 1.927 nm e 3,3% do de 1.550 nm, sem diferença estatística entre os três, e todas resolveram com tratamento.
Fotoproteção desde o primeiro dia. No ensaio em hemiface de Wanitphakdeedecha e colaboradores (2014, J Eur Acad Dermatol Venereol), 30 pacientes trataram o rosto inteiro com 10 mJ e 10% de densidade; os dois lados receberam vaselina quatro vezes ao dia na primeira semana, e um deles também protetor solar de amplo espectro com anti-inflamatórios a partir do primeiro dia. Entre os 26 que completaram o seguimento, o índice de melanina na primeira semana foi significativamente menor no lado com protetor, sem diferença na perda de água transepidérmica. A orientação que sai daí: barreira oclusiva para cicatrizar e fotoproteção desde o dia 1, com retorno marcado para ver a pele antes de qualquer nova sessão.

Como montar a sessão
Modelo · Sete decisões antes de disparar
- Indicação. Cicatriz atrófica, ruga estática, textura de fotodano — cada uma tem lógica de energia diferente.
- Pele. Fototipo, bronzeado recente, história de mancha depois de inflamação.
- Herpes e acne. Profilaxia antiviral planejada em área perioral; acne e dermatite controladas antes.
- Agenda de injetáveis. Intervalo em relação a bioestimulador, preenchedor e HArmonyCa.
- Energia pela profundidade, densidade pela pele. Profundidade pedida pelo alvo; densidade mais baixa onde o risco de mancha é maior.
- Proteção ocular e pele limpa. Para o paciente e para todos na sala.
- Registro. Aparelho, modo, energia, densidade, passadas e área — sem isso, a segunda sessão não tem com o que comparar.
O CO2 entre as outras tecnologias
O CO2 (10.600 nm) e o Er:YAG (2.940 nm) são os dois lasers ablativos de resurfacing. Os dois têm a água como alvo; o Er:YAG fica mais perto do pico de absorção dela, faz ablação mais superficial e deixa menos calor residual, e por isso divide parte das indicações do CO2 com outro perfil de recuperação. A combinação de Er:YAG com Nd:YAG numa mesma sessão está descrita na página sobre Fotona 4D.
Onde isso entra na formação
A Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, médico de Medicina Estética e Regenerativa, CRM-DF 23199, tem quatro módulos presenciais independentes de um sábado, cada um com pré-work gravado obrigatório e turma de no máximo 8 médicos. O raciocínio de laser por camada — que alvo absorve aquela energia, em que profundidade, quando entra no plano e o que oferecer sem o aparelho — está no bloco de tecnologias do Módulo B2; o laser fracionado volta no tratamento de estrias do Módulo A2. No sábado, a demonstração comentada é a parte teórica e a parte prática é execução supervisionada em paciente modelo. Para comparar cursos de tecnologia por critério objetivo, veja o guia de cursos de Morpheus8, Fotona e ultrassom microfocado; os módulos estão em /cursos/.
Declaração de ausência de relação comercial: o Dr. Thiago Perfeito não tem vínculo com nenhum fabricante de laser ou de equipamento citado nesta página.
Perguntas frequentes
Qual energia usar no laser CO2 fracionado?
Depende do alvo e da pele. Nos estudos, cicatriz de acne foi tratada com 48–56 mJ a 13% de densidade, e ruga periorbital em pele chinesa respondeu melhor a 10–12,5 mJ com 15% de cobertura. A energia define a profundidade da coluna: no antebraço de um voluntário, medido por tomografia de coerência óptica, 10 mJ ablaram cerca de 210 µm e 30 mJ, cerca de 335 µm.
Qual a diferença entre energia e densidade no CO2 fracionado?
A energia por microfeixe decide até onde cada coluna desce; a densidade decide quanto da superfície é atingido. Em pele com mais risco de mancha, os estudos preferem densidade mais baixa e mais sessões, com intervalos maiores.
Precisa de profilaxia para herpes antes do CO2 fracionado?
Herpes simples aparece entre as complicações das séries de laser fracionado, e há relato de reativação perioral mesmo com profilaxia antiviral. O consenso de entrega de ativos por laser ablativo recomenda profilaxia antiviral quando se trata a face; perguntar pela história e reconhecer cedo dor desproporcional e vesículas nos primeiros dias fazem parte da mesma rotina.
Quanto tempo de intervalo entre sessões de CO2 fracionado?
Os estudos usaram de 1 a 3 meses: sessões mensais em cicatriz de acne e 3 meses de intervalo em ruga periorbital. Para peles com mais risco de mancha, a revisão de Wat (2017) recomenda intervalos mais longos.
Pode usar protetor solar logo depois do CO2 fracionado?
Em ensaio de hemiface com 10 mJ e 10% de densidade, o protetor de amplo espectro com anti-inflamatórios usado desde o primeiro dia, junto com vaselina, reduziu o índice de melanina na primeira semana, sem piorar a barreira da pele.
Como reduzir o risco de mancha depois do CO2 fracionado?
Pelos parâmetros, pela data e pelo cuidado depois. A revisão de Wat (2017) associa densidade mais baixa, mais sessões e intervalos mais longos ao menor risco de hiperpigmentação; no ensaio de Wu (2025), o lado que recebeu hidroquinona tópica antes e depois das sessões manchou menos; e no de Wanitphakdeedecha (2014), o protetor solar com anti-inflamatórios desde o primeiro dia reduziu o índice de melanina na primeira semana. Pele recém-bronzeada espera.
Referências
- Manstein D, Herron GS, Sink RK, Tanner H, Anderson RR. Fractional photothermolysis: a new concept for cutaneous remodeling using microscopic patterns of thermal injury. Lasers Surg Med. 2004;34(5):426-438. · PMID 15216537 · DOI 10.1002/lsm.20048
- Carniol PJ, Hamilton MM, Carniol ET. Current Status of Fractional Laser Resurfacing. JAMA Facial Plast Surg. 2015;17(5):360-366. · PMID 26133312 · DOI 10.1001/jamafacial.2015.0693
- Wenande E, Hastrup A, Fredman GL, et al. Impact of skin hydration on patterns of microthermal injury produced by fractional CO2 laser. Lasers Surg Med. 2024;56(1):81-89. · PMID 37987545 · DOI 10.1002/lsm.23741
- Hedelund L, Haak CS, Togsverd-Bo K, et al. Fractional CO2 laser resurfacing for atrophic acne scars: a randomized controlled trial with blinded response evaluation. Lasers Surg Med. 2012;44(6):447-452. · PMID 22766970 · DOI 10.1002/lsm.22048
- Xu Y, Deng Y. Ablative Fractional CO2 Laser for Facial Atrophic Acne Scars. Facial Plast Surg. 2018;34(2):205-219. · PMID 29304516 · DOI 10.1055/s-0037-1606096
- Wu X, Cen Q, Jin J, et al. An Effective and Safe Laser Treatment Strategy of Fractional Carbon Dioxide Laser for Chinese Populations with Periorbital Wrinkles: A Randomized Split-Face Trial. Dermatol Ther (Heidelb). 2025;15(6):1307-1317. · PMID 40220259 · DOI 10.1007/s13555-025-01404-3
- Wat H, Wu DC, Chan HH. Fractional resurfacing in the Asian patient: Current state of the art. Lasers Surg Med. 2017;49(1):45-59. · PMID 27605303 · DOI 10.1002/lsm.22579
- Prignano F, Bonciani D, Campolmi P, et al. A study of fractional CO2 laser resurfacing: the best fluences through a clinical, histological, and ultrastructural evaluation. J Cosmet Dermatol. 2011;10(3):210-216. · PMID 21896133 · DOI 10.1111/j.1473-2165.2011.00571.x
- Cohen SR, Goodacre A, Lim S, et al. Clinical Outcomes and Complications Associated with Fractional Lasers: A Review of 730 Patients. Aesthetic Plast Surg. 2017;41(1):171-178. · PMID 28032173 · DOI 10.1007/s00266-016-0767-x
- Zaouak A, Benmously R, Hammami H, Fenniche S. A case of herpes simplex virus reactivation after fractional ablative carbon dioxide laser to treat a burn scar. J Cosmet Laser Ther. 2019;21(3):145-146. · PMID 30019972 · DOI 10.1080/14764172.2018.1481513
- Labadie JG, Ibrahim SA, Worley B, et al. Evidence-Based Clinical Practice Guidelines for Laser-Assisted Drug Delivery. JAMA Dermatol. 2022;158(10):1193-1201. · PMID 35976634 · DOI 10.1001/jamadermatol.2022.3234
- Oloruntoba AI, Rodrigues M. Safety and Tolerability of Fractional CO2 Lasers for Facial Rejuvenation Across Fitzpatrick Skin Phototypes I-IV: Retrospective Cohort Study. J Cosmet Dermatol. 2026;25(5):e70917. · PMID 42121348 · DOI 10.1111/jocd.70917
- Wanitphakdeedecha R, Phuardchantuk R, Manuskiatti W. The use of sunscreen starting on the first day after ablative fractional skin resurfacing. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2014;28(11):1522-1528. · PMID 24320057 · DOI 10.1111/jdv.12332
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