Padrões de contração da glabela e como adaptar os pontos
A classificação mais usada divide o franzir da glabela em cinco padrões — U, V, setas convergentes, ômega e ômega invertido —, conforme predomine aproximar, abaixar ou elevar as sobrancelhas. A adaptação que os autores propõem é de distribuição, não de receita: os músculos mais recrutados naquele rosto recebem dose maior ou mais pontos, e os pouco recrutados são poupados ou recebem menos. O total continua ancorado na dose de bula do produto em uso. Os estudos de desfecho mais recentes mostram que, com a técnica padrão, todos os padrões melhoram — o padrão serve mais para decidir onde pôr cada unidade e que músculo vizinho conferir do que para mudar o número total.
De onde vem a classificação
A proposta é brasileira. De Almeida e colaboradores (2012, Dermatol Surg) analisaram pares de fotografias — em repouso e em contração — de 334 adultos e confirmaram os cinco padrões que um estudo anterior do mesmo grupo havia descrito, definidos pelo movimento dominante da sobrancelha: aproximação, depressão ou elevação. Em 36 pacientes já tratados, fotografados quando voltavam para reaplicar, o padrão inicial de cada um reapareceu assim que o efeito da toxina passou.
Duas conclusões do estudo continuam úteis no consultório:
- O padrão é da pessoa, não da aplicação. O bloqueio faz músculos vizinhos serem recrutados enquanto a toxina age, mas quando o efeito some o franzir volta ao desenho original. Registrar o padrão na primeira consulta, portanto, serve para todas as seguintes.
- A regra de adaptação é proporcional. Músculo muito recrutado ganha dose maior ou mais pontos; músculo pouco recrutado é poupado ou recebe dose menor — para um resultado mais eficaz e mais natural, nas palavras dos autores.
Os cinco padrões e os músculos de cada um
A descrição mais operacional dos cinco padrões, músculo por músculo, está no estudo de Khan e colaboradores (2026, Annals of Plastic Surgery), que classificou 142 mulheres antes de tratá-las:
| Padrão | Músculos recrutados (Khan et al., 2026) | O que conferir antes de marcar (raciocínio clínico) |
|---|---|---|
| U | prócero e corrugadores | é o padrão em que os 5 pontos clássicos cobrem os músculos que trabalham |
| V | prócero e corrugadores, mais o orbicular medial | quanto a porção medial do orbicular participa do franzir |
| Setas convergentes | prócero e frontal em equilíbrio | se o frontal medial está elevando a cabeça da sobrancelha enquanto o paciente franze |
| Ômega | orbicular e frontal | a faixa do frontal logo acima da glabela e o orbicular que fecha a sobrancelha |
| Ômega invertido | prócero, corrugadores, orbicular interno e nasal | as linhas no dorso do nariz e o orbicular medial |
A coluna da direita não vem do estudo nem é protocolo publicado: é raciocínio clínico derivado da lista de músculos — a pergunta que o padrão manda fazer. O mapa de músculos é o que importa, porque é ele que diz onde a dose pode estar sobrando e onde pode estar faltando.

A mesma glabela em outras populações
A classificação foi testada em grupos diferentes, e duas coisas aparecem: os cinco padrões existem em todo lugar, mas a frequência de cada um muda, e alguns grupos preferiram outro vocabulário.
- Coreanos. Kim e colaboradores (2014, J Eur Acad Dermatol Venereol) acharam a classificação original confusa e propuseram outra, baseada nas linhas que aparecem: U, “11”, X, π e I, em 139 pacientes tratados pela primeira vez. A recomendação de consenso dos autores é a mesma lógica: músculos mais usados com dose maior e mais pontos, músculos menos solicitados sem tratamento ou com dose menor.
- Indianos. Kamat e Quadros (2019, Indian J Dermatol Venereol Leprol) descreveram seis padrões em 200 pacientes — 11, U, Pi, X, W e I — e ressalvaram que as doses que usaram não são universais e precisam ser individualizadas pelo volume muscular de cada paciente.
- Chineses. Em 456 voluntários, Jiang e colaboradores (2017, Dermatol Surg) encontraram setas convergentes como o padrão mais comum e V como o menos comum, com frequências bem diferentes das descritas em ocidentais; doses mais baixas melhoraram as linhas, e os autores sugerem ficar abaixo de 20 U nessa população. Hsieh e colaboradores (2019, Dermatol Surg), com 489 pacientes chineses, aplicaram as duas classificações e preferiram a de De Almeida, por se apoiar nos músculos e distribuir os pacientes de forma mais equilibrada entre os padrões.
- Pacientes negros. Montagner e colaboradores (2025, J Drugs Dermatol) analisaram 103 pacientes e identificaram os mesmos cinco padrões.
Para o médico brasileiro, que atende uma população miscigenada, a consequência é prática: não presuma o padrão pela aparência do paciente. Peça o franzir e olhe.
O que acontece além do desenho: assimetria e vizinhança
Dois estudos de movimento mostram por que a classificação, sozinha, não descreve tudo o que a mão precisa saber.
- A glabela raramente é simétrica. Moon e colaboradores (2025, Annals of Dermatology) mediram o deslocamento da pele em 3D em 29 pessoas franzindo: 62,07% tinham deslocamento assimétrico. Em 89,66% o deslocamento principal estava na sobrancelha (padrão lateral) e em 10,34% entre as sobrancelhas (padrão central). Em 20,69%, a pele do frontal medial subia durante o franzir, e em 48% as porções lateral e inferior do orbicular contraíam junto com a porção medial superior.
- O corrugador tem mais de uma forma. Na dissecção de 20 cadáveres frescos de Abramo e colaboradores (2016, Aesthetic Plast Surg), o corrugador apresentou três formatos, que produziram seis padrões de linhas verticais — três simétricos e três assimétricos —, e os mesmos padrões apareceram na contração voluntária de 20 pacientes.
Resultado: o padrão define a lista de músculos a conferir, e a assimetria define a dose de cada lado. Um corrugador mais forte à direita pode pedir mais unidade naquele lado sem que o total mude.
Quanto o padrão muda o resultado
A pergunta que interessa ao injetor é se adaptar pelo padrão melhora o desfecho. Os estudos que trataram todos os padrões com a mesma técnica dão uma resposta em duas partes.
Na resposta média, o padrão pesa pouco. Germani e colaboradores (2025, J Cosmet Dermatol) analisaram 42 pacientes tratados com a mesma técnica de 3 pontos no prócero e nos corrugadores. Todos melhoraram de forma significativa, e não houve diferença entre os cinco padrões nem aos 20 dias (p = 0,373) nem aos 90 dias (p = 0,311). Idade, índice de massa corporal, fototipo e padrão de contração não influenciaram o resultado de 90 dias. A página de técnica da glabela resume outros dois estudos que chegaram a conclusão parecida, um com ressonância e outro multicêntrico: como aplicar botox na glabela.

Na intensidade e na duração, o padrão pode pesar. No estudo de Khan e colaboradores, as 142 mulheres receberam a mesma técnica de 5 pontos e foram medidas por análise de deformação da pele em 3D. A atividade de base diferiu entre os padrões (maior no U, 16,54%; menor no ômega invertido, 12,01%). Todos os padrões melhoraram até o 90º dia, com pico de efeito no 30º, mas só o U e as setas convergentes continuavam com melhora significativa aos 180 dias; o ômega invertido teve a menor redução (8,37%). A conclusão dos autores: nos padrões ômega e ômega invertido, a melhora durou menos, e protocolos que incluam os músculos adicionais — frontal, orbicular, nasal — podem melhorar o resultado.
Juntando as duas partes: a técnica clássica de 5 pontos funciona em todos os padrões. O que o padrão acrescenta é a lista de músculos que podem estar fora desses 5 pontos e que, quando participam, encurtam o efeito ou deixam linhas residuais.
Como adaptar os pontos, passo a passo
- Fotografe em repouso e em franzir máximo. Foi com pares de fotos assim que a classificação nasceu, e é com eles que você compara o retorno.
- Diga qual movimento domina. As sobrancelhas se aproximam (corrugadores), descem (prócero, depressor do supercílio, orbicular medial) ou a cabeça delas sobe (frontal medial)?
- Classifique e liste os músculos. Use a tabela acima e acrescente o que a classificação não captura: linhas no dorso do nariz, rugas horizontais que aparecem no franzir, orbicular que fecha junto.
- Parta do desenho de bula. Dois pontos em cada corrugador e um no prócero é a base — 20 U de Botox Cosmetic ou de Xeomin, 50 U de Dysport, segundo as bulas americanas. Cada bula avisa que a unidade dela não se compara nem se converte na de outro produto. Para o paciente que chega de outra marca, a formação do Dr. Thiago usa como ponto de partida 1 U de Botox para 2,5 U de Dysport e 1 U de Botox para 1 U de Xeomin — na dose equivalente ou um pouco abaixo, corrigida na revisão conforme a resposta.
- Redistribua antes de somar. Corrugador dominante recebe mais por ponto; prócero discreto recebe menos. A adaptação de De Almeida é feita mudando dose e número de pontos entre os músculos, não inflando o total.
- Acrescente músculo só se ele participa. Frontal medial que sobe no franzir, orbicular medial que fecha, nasal que enruga o dorso: entram no plano quando você os viu trabalhar. Quando o frontal faz linha horizontal no franzir, a página da glabela descreve o tipo de franzir com frontal hiperativo e o que ele pede.
- Ajuste cada lado. Com mais da metade das glabelas assimétricas no estudo de Moon, a dose segue a força de cada lado.
- Anote o padrão no prontuário. Como ele volta quando o efeito passa, o retorno é comparado com o mesmo mapa.
- Reveja entre 15 e 30 dias. É a janela de revisão da rotina do Dr. Thiago; se ficou atividade, o retoque é pontual, de dose pequena, só no músculo onde ela ficou.
Em toxina, o Dr. Thiago aplica com agulha fina (30 a 32 G), em microbolus e sem aspirar — em toxina não é necessário.

Erros comuns
- Usar o padrão como receita fechada. Os estudos de desfecho mostram que o padrão não muda a resposta média da técnica clássica; ele orienta distribuição e vizinhança.
- Classificar com o rosto parado. Padrão é movimento; sem o franzir máximo, não há classificação.
- Somar pontos sem tirar de onde sobra. Mais pontos para o músculo dominante com o mesmo total é adaptação; mais pontos com mais unidades em todos é só dose maior.
- Esquecer o frontal que franze. Nos padrões em que o frontal participa, linha horizontal residual no franzir é previsível.
- Tratar os dois lados como espelho. A assimetria é a regra, não a exceção.
- Trocar de classificação a cada consulta. Escolha um sistema (o de De Almeida é o que a maioria dos estudos citados aqui adota) e use-o sempre, para comparar retornos.
Nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica.
Onde se aprende a ler o franzir
Classificar uma glabela em foto é rápido; reconhecer, com o paciente na cadeira, o orbicular que fecha junto ou o frontal medial que sobe exige repetição guiada. A Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito é organizada em módulos presenciais de um sábado, com pré-work gravado obrigatório e turmas de até 8 médicos. No módulo de Toxina e Preenchimento, a anatomia funcional dos três terços e o mapa de pontos são apresentados em demonstração comentada; depois, cada médico avalia, marca e aplica em paciente modelo, com supervisão. Os demais módulos estão em /cursos/.
Perguntas frequentes
Quais são os padrões de contração da glabela?
Na classificação de De Almeida e colaboradores (2012), são cinco: U, V, setas convergentes, ômega e ômega invertido, definidos pelo movimento dominante da sobrancelha — aproximação, depressão ou elevação. Grupos coreanos e indianos propuseram outras nomenclaturas, baseadas nas linhas que aparecem (11, X, π, I, W).
Como o padrão muda os pontos de botox na glabela?
Pela distribuição: o músculo mais recrutado naquele padrão recebe dose maior ou mais pontos, e o pouco recrutado é poupado ou recebe menos. Músculos fora dos 5 pontos clássicos — frontal medial, orbicular, nasal — entram quando participam do franzir.
Adaptar pelo padrão melhora o resultado?
Na resposta média, a diferença é pequena: com a mesma técnica, Germani e colaboradores (2025) não acharam diferença entre os padrões aos 20 e aos 90 dias. Já Khan e colaboradores (2026) viram duração menor nos padrões ômega e ômega invertido e sugerem incluir os músculos adicionais nesses casos.
O padrão de contração muda depois de várias aplicações?
No estudo de De Almeida e colaboradores (2012), não: em 36 pacientes reavaliados na reaplicação, o padrão inicial reapareceu quando o efeito da toxina passou. Por isso vale anotá-lo no prontuário na primeira consulta.
A dose total muda conforme o padrão?
O ponto de partida continua a dose de bula do produto em uso — nas bulas americanas, 20 U de Botox Cosmetic ou de Xeomin, ou 50 U de Dysport, na glabela. A adaptação pelo padrão redistribui as unidades entre os músculos, sem inflar o total.
Qual padrão é o mais comum?
Depende da população. Em chineses, Jiang e colaboradores (2017) encontraram setas convergentes como o mais comum e V como o menos comum, com frequências diferentes das descritas em ocidentais. Em pacientes negros, Montagner e colaboradores (2025) identificaram os cinco padrões. Na prática, o padrão se confirma pedindo o franzir.
Referências
- de Almeida AR, da Costa Marques ER, Banegas R, Kadunc BV. Glabellar contraction patterns: a tool to optimize botulinum toxin treatment. Dermatol Surg. 2012;38(9):1506-1515. · PMID 22804914 · DOI 10.1111/j.1524-4725.2012.02505.x
- Khan S, Lemdani M, Voytik M, Hornick MM, et al. Glabellar Contraction Patterns and Neurotoxin Efficacy: A Quantitative Assessment. Ann Plast Surg. 2026 (online ahead of print). · PMID 41837737 · DOI 10.1097/SAP.0000000000004705
- Germani M, Munoz-Lora VRM, Green JB, Biesman BS, et al. Investigating the Clinical Merit of Contraction Patterns for Glabellar Neuromodulator Injections — A Clinical Retrospective Investigation Following the 3-Point Glabellar Injection Technique. J Cosmet Dermatol. 2025;24(4):e70147. · PMID 40219681 · DOI 10.1111/jocd.70147
- Kim HS, Kim C, Cho H, Hwang JY, Kim YS. A study on glabellar wrinkle patterns in Koreans. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2014;28(10):1332-1339. · PMID 24168325 · DOI 10.1111/jdv.12286
- Jiang H, Zhou J, Chen S. Different Glabellar Contraction Patterns in Chinese and Efficacy of Botulinum Toxin Type A for Treating Glabellar Lines: A Pilot Study. Dermatol Surg. 2017;43(5):692-697. · PMID 28244900 · DOI 10.1097/DSS.0000000000001045
- Hsieh DM, Zhong S, Tong X, Yuan C, et al. A Retrospective Study of Chinese-Specific Glabellar Contraction Patterns. Dermatol Surg. 2019;45(11):1406-1413. · PMID 30789513 · DOI 10.1097/DSS.0000000000001808
- Kamat A, Quadros T. An observational study on glabellar wrinkle patterns in Indians. Indian J Dermatol Venereol Leprol. 2019;85(2):182-189. · PMID 29620040 · DOI 10.4103/ijdvl.IJDVL_211_17
- Montagner S, Gomes Dos Santos N, de Almeida CT, de Sanctis Pecora C, et al. A Study of Glabellar Contraction Patterns in African Descendants. J Drugs Dermatol. 2025;24(1):57-63. · PMID 39761145 · DOI 10.36849/JDD.8503
- Moon HJ, Cho JM, Lee SE. Dynamic Evaluation of Glabellar Area Muscles Movement and Skin Displacement Using 3D Skin Displacement Vector Analysis. Ann Dermatol. 2025;37(6):344-349. · PMID 41331714 · DOI 10.5021/ad.24.018
- Abramo AC, Do Amaral TP, Lessio BP, De Lima GA. Anatomy of Forehead, Glabellar, Nasal and Orbital Muscles, and Their Correlation with Distinctive Patterns of Skin Lines on the Upper Third of the Face: Reviewing Concepts. Aesthetic Plast Surg. 2016;40(6):962-971. · PMID 27743084 · DOI 10.1007/s00266-016-0712-z
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