Botox na glabela: pontos, profundidade e erros
Toxina botulínica

Como aplicar botox na glabela: pontos, profundidade e erros comuns

A glabela é a primeira área que quase todo médico aprende a tratar com toxina — e a que mais parece fácil. Cinco pontos, a mesma figura em todas as bulas. O problema é que o corrugador não está onde o desenho do livro sugere em todas as pessoas, fica mais fundo do que o frontal e corre por baixo da sobrancelha, logo acima de uma órbita que aceita toxina por caminhos anatômicos bem descritos. Quem conhece esses caminhos raramente vê uma pálpebra cair.

Na glabela, a toxina tem dois alvos principais — os dois corrugadores do supercílio e o prócero — e a técnica de bula usa 5 pontos: dois em cada corrugador e um no prócero. O que separa uma glabela bem tratada de uma pálpebra caída não é o número de pontos, que é o mesmo em todas as bulas: é saber onde o corrugador realmente está, em que profundidade, quanto volume cabe em cada ponto e para onde a ponta da agulha aponta perto da órbita.

Os músculos da glabela

A ruga vertical entre as sobrancelhas é feita por um grupo de depressores que puxam a sobrancelha para baixo e para o centro:

A dissecção de Ismailoglu e colaboradores (2024, Aesthetic Plastic Surgery), em 16 hemifaces com artérias injetadas com látex, mostrou que esses músculos se comunicam: há conexões musculares variáveis entre o levantador do lábio superior e da asa do nariz, o depressor do supercílio e o prócero. O mesmo estudo descreveu a artéria angular se anastomosando com a supratroclear por baixo da origem do depressor do supercílio, e não encontrou artérias na base da cabeça da sobrancelha, onde depressor do supercílio, prócero e frontal se inserem. Para a toxina, o risco da região não é vascular como no preenchimento — é a difusão para o lugar errado. (O risco vascular da glabela com preenchedor tem página própria: glabela e risco de cegueira no preenchimento.)

Onde o corrugador está: o mapa e a profundidade

Dois estudos anatômicos respondem às duas perguntas que mais importam na hora de marcar.

Onde ele está em relação à sobrancelha. Shin e colaboradores (2025, Toxins) dissecaram 36 hemifaces e sobrepuseram o músculo dissecado a marcos da sobrancelha. O corrugador quase coincide com a sobrancelha na cabeça dela; o centro da sua largura fica logo acima do ponto superior da sobrancelha, alinhado com a linha médio-pupilar; e além dessa linha, para fora, o músculo fica escasso ou pouco distinto. Os autores recomendam injetar no centro da cabeça da sobrancelha, e o esquema deles traça a linha de injeção até logo acima da sobrancelha na linha médio-pupilar — não além dela.

Esquema da topografia do corrugador do supercílio sobreposto à sobrancelha com linha de injeção — Dr. Thiago Perfeito
Corrugador do supercílio (vermelho) sobreposto à sobrancelha (azul) em 36 hemifaces dissecadas. A linha pontilhada verde marca a linha recomendada pelos autores para injetar toxina no corrugador, da cabeça da sobrancelha até a linha médio-pupilar; a linha pontilhada azul é a linha média. Recorte do painel A da Figure 2 de Shin HJ et al., Toxins (Basel) 2025 (PMID 39998102), reproduzida sob licença CC BY.

Em que profundidade. Lee e colaboradores (2020, Clinical Anatomy) mapearam o território e a profundidade do corrugador com escâner 3D em 32 hemifaces de cadáveres e conferiram os achados por ultrassom em 35 voluntários jovens. O músculo estava presente em todos no ponto em que a linha vertical que passa pelo canto medial do olho cruza a linha horizontal da glabela, e ficava medial ao limbo lateral na maioria dos casos. As profundidades medidas foram:

A recomendação dos autores é injetar a cerca de 4 mm de profundidade no corrugador, e eles apontam o cruzamento descrito acima como um alvo eficaz que também ajuda a prevenir a ptose palpebral. Note a diferença em relação ao frontal: o corrugador é um alvo mais profundo, e quem leva para a glabela a profundidade rasa da testa deixa a toxina acima do músculo.

Ultrassom do músculo corrugador do supercílio dos lados direito e esquerdo — Dr. Thiago Perfeito
Ultrassom de alta frequência do corrugador do supercílio (setas): imagens A, C, E e G do lado direito e B, D, F e H do esquerdo. Forma e profundidade mudam de uma imagem para outra e entre os lados, com assimetria que chegou a 40% no estudo. Figure 3 de Jaguś D et al., Toxins (Basel) 2025 (PMID 41441630), reproduzida sob licença CC BY.

Os 5 pontos e as doses que as bulas declaram

As três bulas americanas (Prescribing Information) usam o mesmo desenho — dois pontos em cada corrugador e um no prócero —, mas cada uma com a dose do próprio produto. Os números não se convertem entre marcas, e no consultório vale a bula brasileira do frasco em uso.

Por que essas unidades não se comparam entre si está em Botox ou Dysport: diferenças que importam para o injetor.

Passo a passo da aplicação

  1. Examine em repouso e em franzir máximo. Veja a altura e o formato da cabeça das sobrancelhas, a profundidade do sulco em repouso e o que se move quando o paciente franze — inclusive a testa.
  2. Palpe o corrugador. Com o paciente franzindo, o ventre do músculo fica palpável acima da cabeça da sobrancelha. O mapa de Shin e a referência de Lee (linha vertical do canto medial cruzando a horizontal da glabela) orientam; a palpação confirma.
  3. Marque os 5 pontos. Um no prócero, na linha média; dois em cada corrugador — o primeiro no corpo do músculo, perto da cabeça da sobrancelha, o segundo mais lateral e acima da sobrancelha, sem passar da linha médio-pupilar.
  4. Proteja a órbita. A pressão do dedo na borda orbital superior medial, prevista na bula do Dysport durante a injeção, ajuda a evitar que a toxina desça para a órbita.
  5. Ajuste a profundidade ao alvo. No corpo do corrugador, a agulha precisa chegar ao músculo, que é profundo — a referência de Lee é cerca de 4 mm. No ponto lateral, perto do feixe supraorbital, Paternostro e colaboradores recomendam injeção superficial (ver abaixo). No prócero, intramuscular na linha média.
  6. Volume pequeno, agulha apontada para longe do forame. Na conduta do Dr. Thiago, toxina se aplica com agulha fina (30 a 32 G), em microbolus, sem aspirar — em toxina não é necessário — e nunca com microcânula.
  7. Registre e reveja. Produto, lote, diluição, pontos, unidades por ponto e foto em franzir máximo. Revisão entre 15 e 30 dias.

Ptose palpebral: como ela acontece e como evitar

A complicação que mais pesa na glabela é a queda da pálpebra superior, quando a toxina chega ao levantador da pálpebra. Paternostro e colaboradores (2024, J Cosmet Dermatol) relatam que a taxa descrita na literatura vai de 0,51% a 5,4% e foram procurar o caminho. Em 9 doadores de corpo não embalsamados, injetaram produto corado nas regiões supratroclear e supraorbital e dissecaram:

As conclusões práticas dos autores: volume baixo por ponto, injeção superficial no ponto supraorbital e, ao tratar o corrugador, a ponta da agulha angulada para longe do forame supratroclear, em direção à têmpora do lado oposto. A revisão de Nestor e colaboradores (2021, J Cosmet Dermatol) acrescenta que um forame supraorbital, presente em parte dos pacientes, funciona como atalho da região da sobrancelha direto para o teto da órbita.

Se a ptose acontecer, a mesma revisão descreve início médio entre 3 e 14 dias após a aplicação e resolução espontânea quando o efeito da toxina passa. Colírios de oximetazolina ou de apraclonidina, agentes anticolinesterásicos ou toxina aplicada no orbicular pré-tarsal podem revertê-la ao menos em parte. O que o paciente precisa ouvir é que a queda é temporária — e o que o injetor precisa fazer é registrar e rever a técnica daquele ponto.

Antes e depois de toxina botulínica na glabela em Brasília — Dr. Thiago Perfeito
Cada caso é individual e os resultados variam de pessoa para pessoa.

Padrão de contração: quanto ele deve mudar a técnica

Classificar a glabela por padrão de franzir (em V, em U, setas convergentes, ômega, ômega invertido) virou rotina de curso. Dois estudos recentes mediram quanto isso pesa no resultado:

Há, porém, um padrão que muda o plano: o frontal que participa do franzir. Kim e colaboradores (2021, Toxins) avaliaram o franzir por ultrassom dinâmico em 16 pessoas. No tipo A (81%, n = 13), corrugador e prócero fazem a ruga vertical. No tipo B (19%, n = 3), o frontal hiperativo eleva as rugas verticais e forma linhas horizontais durante o franzir; nele, a técnica convencional melhorou a glabela mas não a linha horizontal, que só melhorou com pontos adicionais no frontal. A lição prática: olhe o que se move acima da glabela antes de decidir que o caso é só de corrugador e prócero.

Erros comuns

  1. Ponto lateral baixo ou além da linha médio-pupilar. Ali o corrugador já é escasso, e a toxina fica perto da órbita sem ter músculo para agir.
  2. Volume grande por ponto. No estudo de Paternostro, a difusão até o levantador só aconteceu com 0,5 cc. Concentração adequada e microbolus reduzem o volume.
  3. Agulha apontada para o forame. No corrugador, a ponta vai para a têmpora oposta, não para a órbita.
  4. Profundidade única para todos os pontos. Toxina rasa demais no corpo do corrugador fica acima do músculo e não bloqueia; profunda demais no ponto lateral, perto do feixe supraorbital, abre caminho para a órbita.
  5. Esquecer o depressor do supercílio quando a glabela fica achatada. Domínguez-Duarte (2022, J Cosmet Dermatol) descreveu 3 pacientes que, depois da técnica convencional, relataram glabela achatada e cabeças das sobrancelhas mais afastadas, um aspecto que pacientes descrevem como “felino”; o bloqueio complementar do depressor do supercílio elevou a porção medial da sobrancelha.
  6. Ignorar o frontal que franze. O tipo B de Kim e colaboradores precisa de pontos no frontal para a linha horizontal melhorar.
  7. Converter dose entre marcas. Cada bula declara a dose do próprio produto; pôr os números lado a lado não cria uma tabela de equivalência, e as três bulas dizem que as unidades não são intercambiáveis.

No consultório do Dr. Thiago, a glabela tratada costuma manter o efeito por 3 a 4 meses; reaplicar antes de 3 meses contraria o intervalo mínimo das bulas. Nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica.

Onde isso se treina

Palpar o corrugador em franzir, calibrar a profundidade de cada ponto e perceber o frontal que participa da glabela são habilidades de mão, e mão se calibra em paciente. A Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito é feita de módulos presenciais de um sábado, com pré-work gravado obrigatório, turmas de até 8 médicos e hands-on em paciente modelo. O módulo de Toxina e Preenchimento trabalha anatomia funcional, mapa de pontos e doses de referência e as intercorrências da toxina, incluindo a ptose palpebral, com aplicação full face em paciente modelo. Os demais módulos estão em /cursos/.

Perguntas frequentes

Quantos pontos de botox vão na glabela?

As bulas americanas do Botox Cosmetic, do Dysport e do Xeomin usam 5 pontos: dois em cada corrugador do supercílio e um no prócero. A dose por ponto é de cada produto — 4 U no Botox Cosmetic e no Xeomin, 10 U no Dysport — e não se converte de uma marca para outra.

Qual a profundidade da injeção no corrugador?

Lee e colaboradores (2020) mediram o corrugador entre 5,4 e 6,6 mm de profundidade em média e recomendam injetar a cerca de 4 mm. No ponto lateral, perto do feixe supraorbital, Paternostro e colaboradores (2024) recomendam injeção superficial para não abrir caminho até a órbita.

Como evitar ptose palpebral ao aplicar botox na glabela?

Com volume baixo por ponto, pressão do dedo na borda orbital superior medial, ponto lateral sem passar da linha médio-pupilar e a ponta da agulha apontada para a têmpora oposta, longe do forame supratroclear. No estudo de Paternostro e colaboradores (2024), a difusão até o levantador da pálpebra só ocorreu com 0,5 cc, não com 0,1 cc.

A ptose palpebral depois do botox tem tratamento?

Ela é temporária e regride quando o efeito da toxina passa. A revisão de Nestor e colaboradores (2021) descreve início entre 3 e 14 dias e cita colírios de oximetazolina ou apraclonidina, anticolinesterásicos ou toxina no orbicular pré-tarsal como opções que podem revertê-la ao menos em parte.

O padrão de contração da glabela muda a técnica?

Menos do que se ensina. Com a mesma técnica de 5 pontos, Germani e colaboradores (2026) não acharam diferença de resultado entre os padrões, e Rams e colaboradores (2024) não acharam diferença na anatomia muscular por ressonância. A exceção útil é o frontal que participa do franzir: nesse caso, a linha horizontal pede pontos no frontal.

Precisa aspirar antes de aplicar botox na glabela?

Na conduta do Dr. Thiago, não: em toxina botulínica ele não aspira. A segurança vem de agulha fina (30 a 32 G), microbolus, ponto e plano certos. A aspiração é conduta dele para preenchedor e bioestimulador, não para toxina.

Referências

  1. Lee HJ, Lee KW, Tansatit T, Kim HJ. Three-Dimensional Territory and Depth of the Corrugator Supercilii: Application to Botulinum Neurotoxin Injection. Clin Anat. 2020;33(5):795-803. · PMID 31637771 · DOI 10.1002/ca.23507
  2. Shin HJ, Choi YJ, Shin KJ, Song WC. Topography of the Corrugator Supercilii Muscle Relative to the Eyebrow and Its Clinical Application in Botulinum Toxin Injections. Toxins (Basel). 2025;17(2):85. · PMID 39998102 · DOI 10.3390/toxins17020085
  3. Paternostro F, Hong WJ, Zhu GS, et al. Simulating Upper Eyelid Ptosis During Neuromodulator Injections—An Exploratory Injection and Dissection Study. J Cosmet Dermatol. 2024;23(12):3936-3941. · PMID 39394833 · DOI 10.1111/jocd.16631
  4. Nestor MS, Han H, Gade A, et al. Botulinum toxin-induced blepharoptosis: Anatomy, etiology, prevention, and therapeutic options. J Cosmet Dermatol. 2021;20(10):3133-3146. · PMID 34378298 · DOI 10.1111/jocd.14361
  5. Kim SB, Kim HM, Ahn H, et al. Anatomical Injection Guidelines for Glabellar Frown Lines Based on Ultrasonographic Evaluation. Toxins (Basel). 2021;14(1):17. · PMID 35050994 · DOI 10.3390/toxins14010017
  6. Germani M, Munoz-Lora VRM, Geroldo AM, et al. Advancing the Evidence on Glabellar Contraction Patterns: A Prospective Multicenter Study on Its Clinical Relevance for Glabellar Neuromodulator Injections. J Cosmet Dermatol. 2026;25(5):e70911. · PMID 42130059 · DOI 10.1111/jocd.70911
  7. Rams DJ, Koziej M, Green JB, et al. The Relationship Between Glabellar Contraction Patterns and Glabellar Muscle Anatomy: A Magnetic Resonance Imaging-based Study. Aesthet Surg J. 2024;45(1):NP8-NP15. · PMID 39351911 · DOI 10.1093/asj/sjae202
  8. Jaguś D, Pawłowska A, Mlosek RK. Ultrasound Evaluation of Upper Facial Muscles to Guide Botulinum Toxin Application. Toxins (Basel). 2025;17(12):595. · PMID 41441630 · DOI 10.3390/toxins17120595
  9. Ismailoglu AV, Ismailoglu P, Aktekin M. Mapping the Vascular and Muscular Topography of the Glabellar Region: Implication for Improving Safety and Efficacy of the Glabellar Injections. Aesthetic Plast Surg. 2024;48(8):1628-1634. · PMID 37855934 · DOI 10.1007/s00266-023-03708-1
  10. Domínguez-Duarte A. Aesthetic implications of depressor supercilii muscle block with botulinum toxin type A. J Cosmet Dermatol. 2022;21(4):1374-1378. · PMID 35175677 · DOI 10.1111/jocd.14856
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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