Como aplicar botox na glabela: pontos, profundidade e erros comuns
Na glabela, a toxina tem dois alvos principais — os dois corrugadores do supercílio e o prócero — e a técnica de bula usa 5 pontos: dois em cada corrugador e um no prócero. O que separa uma glabela bem tratada de uma pálpebra caída não é o número de pontos, que é o mesmo em todas as bulas: é saber onde o corrugador realmente está, em que profundidade, quanto volume cabe em cada ponto e para onde a ponta da agulha aponta perto da órbita.
Os músculos da glabela
A ruga vertical entre as sobrancelhas é feita por um grupo de depressores que puxam a sobrancelha para baixo e para o centro:
- Corrugador do supercílio — o principal autor das linhas verticais. Nasce no osso, junto à porção medial da borda orbital, e corre para cima e para fora, por baixo da sobrancelha.
- Prócero — fino, sobre a raiz do nariz; faz a ruga horizontal no dorso nasal e puxa a cabeça da sobrancelha para baixo. Jaguś e colaboradores (2025, Toxins), medindo os músculos do terço superior por ultrassom em 127 adultos, encontraram prócero mais espesso nos homens.
- Depressor do supercílio — pequeno, na cabeça da sobrancelha, abaixa a porção medial dela.
- Orbicular do olho — as fibras mediais da porção orbital participam do franzir.
A dissecção de Ismailoglu e colaboradores (2024, Aesthetic Plastic Surgery), em 16 hemifaces com artérias injetadas com látex, mostrou que esses músculos se comunicam: há conexões musculares variáveis entre o levantador do lábio superior e da asa do nariz, o depressor do supercílio e o prócero. O mesmo estudo descreveu a artéria angular se anastomosando com a supratroclear por baixo da origem do depressor do supercílio, e não encontrou artérias na base da cabeça da sobrancelha, onde depressor do supercílio, prócero e frontal se inserem. Para a toxina, o risco da região não é vascular como no preenchimento — é a difusão para o lugar errado. (O risco vascular da glabela com preenchedor tem página própria: glabela e risco de cegueira no preenchimento.)
Onde o corrugador está: o mapa e a profundidade
Dois estudos anatômicos respondem às duas perguntas que mais importam na hora de marcar.
Onde ele está em relação à sobrancelha. Shin e colaboradores (2025, Toxins) dissecaram 36 hemifaces e sobrepuseram o músculo dissecado a marcos da sobrancelha. O corrugador quase coincide com a sobrancelha na cabeça dela; o centro da sua largura fica logo acima do ponto superior da sobrancelha, alinhado com a linha médio-pupilar; e além dessa linha, para fora, o músculo fica escasso ou pouco distinto. Os autores recomendam injetar no centro da cabeça da sobrancelha, e o esquema deles traça a linha de injeção até logo acima da sobrancelha na linha médio-pupilar — não além dela.

Em que profundidade. Lee e colaboradores (2020, Clinical Anatomy) mapearam o território e a profundidade do corrugador com escâner 3D em 32 hemifaces de cadáveres e conferiram os achados por ultrassom em 35 voluntários jovens. O músculo estava presente em todos no ponto em que a linha vertical que passa pelo canto medial do olho cruza a linha horizontal da glabela, e ficava medial ao limbo lateral na maioria dos casos. As profundidades medidas foram:
- origem mais medial: 5,7 ± 1,4 mm; origem mais lateral: 6,6 ± 1,4 mm;
- inserção: 5,4 ± 1,4 mm e 5,6 ± 2,1 mm.
A recomendação dos autores é injetar a cerca de 4 mm de profundidade no corrugador, e eles apontam o cruzamento descrito acima como um alvo eficaz que também ajuda a prevenir a ptose palpebral. Note a diferença em relação ao frontal: o corrugador é um alvo mais profundo, e quem leva para a glabela a profundidade rasa da testa deixa a toxina acima do músculo.

Os 5 pontos e as doses que as bulas declaram
As três bulas americanas (Prescribing Information) usam o mesmo desenho — dois pontos em cada corrugador e um no prócero —, mas cada uma com a dose do próprio produto. Os números não se convertem entre marcas, e no consultório vale a bula brasileira do frasco em uso.
- Botox Cosmetic (onabotulinumtoxinA): 4 U (0,1 mL) por ponto, intramuscular, em 5 pontos — total de 20 U em 0,5 mL. A bula descreve denervação química um a dois dias após a injeção, com intensidade crescente na primeira semana.
- Dysport (abobotulinumtoxinA): 10 U por ponto em 5 pontos — total de 50 U, com agulha 30 G. A bula orienta avançar a agulha pela pele até o músculo enquanto se faz pressão com o dedo sobre a borda orbital superior medial. A reconstituição licenciada está detalhada em diluição do Dysport conforme a bula.
- Xeomin (incobotulinumtoxinA): 4 U por ponto em 5 pontos — dose máxima recomendada de 20 U.
Por que essas unidades não se comparam entre si está em Botox ou Dysport: diferenças que importam para o injetor.
Passo a passo da aplicação
- Examine em repouso e em franzir máximo. Veja a altura e o formato da cabeça das sobrancelhas, a profundidade do sulco em repouso e o que se move quando o paciente franze — inclusive a testa.
- Palpe o corrugador. Com o paciente franzindo, o ventre do músculo fica palpável acima da cabeça da sobrancelha. O mapa de Shin e a referência de Lee (linha vertical do canto medial cruzando a horizontal da glabela) orientam; a palpação confirma.
- Marque os 5 pontos. Um no prócero, na linha média; dois em cada corrugador — o primeiro no corpo do músculo, perto da cabeça da sobrancelha, o segundo mais lateral e acima da sobrancelha, sem passar da linha médio-pupilar.
- Proteja a órbita. A pressão do dedo na borda orbital superior medial, prevista na bula do Dysport durante a injeção, ajuda a evitar que a toxina desça para a órbita.
- Ajuste a profundidade ao alvo. No corpo do corrugador, a agulha precisa chegar ao músculo, que é profundo — a referência de Lee é cerca de 4 mm. No ponto lateral, perto do feixe supraorbital, Paternostro e colaboradores recomendam injeção superficial (ver abaixo). No prócero, intramuscular na linha média.
- Volume pequeno, agulha apontada para longe do forame. Na conduta do Dr. Thiago, toxina se aplica com agulha fina (30 a 32 G), em microbolus, sem aspirar — em toxina não é necessário — e nunca com microcânula.
- Registre e reveja. Produto, lote, diluição, pontos, unidades por ponto e foto em franzir máximo. Revisão entre 15 e 30 dias.
Ptose palpebral: como ela acontece e como evitar
A complicação que mais pesa na glabela é a queda da pálpebra superior, quando a toxina chega ao levantador da pálpebra. Paternostro e colaboradores (2024, J Cosmet Dermatol) relatam que a taxa descrita na literatura vai de 0,51% a 5,4% e foram procurar o caminho. Em 9 doadores de corpo não embalsamados, injetaram produto corado nas regiões supratroclear e supraorbital e dissecaram:
- os feixes neurovasculares supratroclear e supraorbital funcionaram como vias de acesso do produto para dentro da órbita;
- das 36 passagens de injeção, 7 (19,44%) atingiram o levantador da pálpebra — todas com volume de 0,5 cc, nenhuma com 0,1 cc.
As conclusões práticas dos autores: volume baixo por ponto, injeção superficial no ponto supraorbital e, ao tratar o corrugador, a ponta da agulha angulada para longe do forame supratroclear, em direção à têmpora do lado oposto. A revisão de Nestor e colaboradores (2021, J Cosmet Dermatol) acrescenta que um forame supraorbital, presente em parte dos pacientes, funciona como atalho da região da sobrancelha direto para o teto da órbita.
Se a ptose acontecer, a mesma revisão descreve início médio entre 3 e 14 dias após a aplicação e resolução espontânea quando o efeito da toxina passa. Colírios de oximetazolina ou de apraclonidina, agentes anticolinesterásicos ou toxina aplicada no orbicular pré-tarsal podem revertê-la ao menos em parte. O que o paciente precisa ouvir é que a queda é temporária — e o que o injetor precisa fazer é registrar e rever a técnica daquele ponto.

Padrão de contração: quanto ele deve mudar a técnica
Classificar a glabela por padrão de franzir (em V, em U, setas convergentes, ômega, ômega invertido) virou rotina de curso. Dois estudos recentes mediram quanto isso pesa no resultado:
- Em ressonância magnética de 34 jovens, Rams e colaboradores (2024, Aesthetic Surgery Journal) não encontraram diferença nos parâmetros dos músculos da glabela entre os 5 padrões; o fator mais influente foi o sexo.
- No estudo multicêntrico de Germani e colaboradores (2026, J Cosmet Dermatol), 119 pacientes tratados com a mesma técnica de 5 pontos melhoraram de forma significativa no 15º dia, com regressão parcial no 90º, sem diferença entre os padrões; idade e índice de massa corporal pesaram no resultado.
Há, porém, um padrão que muda o plano: o frontal que participa do franzir. Kim e colaboradores (2021, Toxins) avaliaram o franzir por ultrassom dinâmico em 16 pessoas. No tipo A (81%, n = 13), corrugador e prócero fazem a ruga vertical. No tipo B (19%, n = 3), o frontal hiperativo eleva as rugas verticais e forma linhas horizontais durante o franzir; nele, a técnica convencional melhorou a glabela mas não a linha horizontal, que só melhorou com pontos adicionais no frontal. A lição prática: olhe o que se move acima da glabela antes de decidir que o caso é só de corrugador e prócero.
Erros comuns
- Ponto lateral baixo ou além da linha médio-pupilar. Ali o corrugador já é escasso, e a toxina fica perto da órbita sem ter músculo para agir.
- Volume grande por ponto. No estudo de Paternostro, a difusão até o levantador só aconteceu com 0,5 cc. Concentração adequada e microbolus reduzem o volume.
- Agulha apontada para o forame. No corrugador, a ponta vai para a têmpora oposta, não para a órbita.
- Profundidade única para todos os pontos. Toxina rasa demais no corpo do corrugador fica acima do músculo e não bloqueia; profunda demais no ponto lateral, perto do feixe supraorbital, abre caminho para a órbita.
- Esquecer o depressor do supercílio quando a glabela fica achatada. Domínguez-Duarte (2022, J Cosmet Dermatol) descreveu 3 pacientes que, depois da técnica convencional, relataram glabela achatada e cabeças das sobrancelhas mais afastadas, um aspecto que pacientes descrevem como “felino”; o bloqueio complementar do depressor do supercílio elevou a porção medial da sobrancelha.
- Ignorar o frontal que franze. O tipo B de Kim e colaboradores precisa de pontos no frontal para a linha horizontal melhorar.
- Converter dose entre marcas. Cada bula declara a dose do próprio produto; pôr os números lado a lado não cria uma tabela de equivalência, e as três bulas dizem que as unidades não são intercambiáveis.
No consultório do Dr. Thiago, a glabela tratada costuma manter o efeito por 3 a 4 meses; reaplicar antes de 3 meses contraria o intervalo mínimo das bulas. Nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica.
Onde isso se treina
Palpar o corrugador em franzir, calibrar a profundidade de cada ponto e perceber o frontal que participa da glabela são habilidades de mão, e mão se calibra em paciente. A Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito é feita de módulos presenciais de um sábado, com pré-work gravado obrigatório, turmas de até 8 médicos e hands-on em paciente modelo. O módulo de Toxina e Preenchimento trabalha anatomia funcional, mapa de pontos e doses de referência e as intercorrências da toxina, incluindo a ptose palpebral, com aplicação full face em paciente modelo. Os demais módulos estão em /cursos/.
Perguntas frequentes
Quantos pontos de botox vão na glabela?
As bulas americanas do Botox Cosmetic, do Dysport e do Xeomin usam 5 pontos: dois em cada corrugador do supercílio e um no prócero. A dose por ponto é de cada produto — 4 U no Botox Cosmetic e no Xeomin, 10 U no Dysport — e não se converte de uma marca para outra.
Qual a profundidade da injeção no corrugador?
Lee e colaboradores (2020) mediram o corrugador entre 5,4 e 6,6 mm de profundidade em média e recomendam injetar a cerca de 4 mm. No ponto lateral, perto do feixe supraorbital, Paternostro e colaboradores (2024) recomendam injeção superficial para não abrir caminho até a órbita.
Como evitar ptose palpebral ao aplicar botox na glabela?
Com volume baixo por ponto, pressão do dedo na borda orbital superior medial, ponto lateral sem passar da linha médio-pupilar e a ponta da agulha apontada para a têmpora oposta, longe do forame supratroclear. No estudo de Paternostro e colaboradores (2024), a difusão até o levantador da pálpebra só ocorreu com 0,5 cc, não com 0,1 cc.
A ptose palpebral depois do botox tem tratamento?
Ela é temporária e regride quando o efeito da toxina passa. A revisão de Nestor e colaboradores (2021) descreve início entre 3 e 14 dias e cita colírios de oximetazolina ou apraclonidina, anticolinesterásicos ou toxina no orbicular pré-tarsal como opções que podem revertê-la ao menos em parte.
O padrão de contração da glabela muda a técnica?
Menos do que se ensina. Com a mesma técnica de 5 pontos, Germani e colaboradores (2026) não acharam diferença de resultado entre os padrões, e Rams e colaboradores (2024) não acharam diferença na anatomia muscular por ressonância. A exceção útil é o frontal que participa do franzir: nesse caso, a linha horizontal pede pontos no frontal.
Precisa aspirar antes de aplicar botox na glabela?
Na conduta do Dr. Thiago, não: em toxina botulínica ele não aspira. A segurança vem de agulha fina (30 a 32 G), microbolus, ponto e plano certos. A aspiração é conduta dele para preenchedor e bioestimulador, não para toxina.
Referências
- Lee HJ, Lee KW, Tansatit T, Kim HJ. Three-Dimensional Territory and Depth of the Corrugator Supercilii: Application to Botulinum Neurotoxin Injection. Clin Anat. 2020;33(5):795-803. · PMID 31637771 · DOI 10.1002/ca.23507
- Shin HJ, Choi YJ, Shin KJ, Song WC. Topography of the Corrugator Supercilii Muscle Relative to the Eyebrow and Its Clinical Application in Botulinum Toxin Injections. Toxins (Basel). 2025;17(2):85. · PMID 39998102 · DOI 10.3390/toxins17020085
- Paternostro F, Hong WJ, Zhu GS, et al. Simulating Upper Eyelid Ptosis During Neuromodulator Injections—An Exploratory Injection and Dissection Study. J Cosmet Dermatol. 2024;23(12):3936-3941. · PMID 39394833 · DOI 10.1111/jocd.16631
- Nestor MS, Han H, Gade A, et al. Botulinum toxin-induced blepharoptosis: Anatomy, etiology, prevention, and therapeutic options. J Cosmet Dermatol. 2021;20(10):3133-3146. · PMID 34378298 · DOI 10.1111/jocd.14361
- Kim SB, Kim HM, Ahn H, et al. Anatomical Injection Guidelines for Glabellar Frown Lines Based on Ultrasonographic Evaluation. Toxins (Basel). 2021;14(1):17. · PMID 35050994 · DOI 10.3390/toxins14010017
- Germani M, Munoz-Lora VRM, Geroldo AM, et al. Advancing the Evidence on Glabellar Contraction Patterns: A Prospective Multicenter Study on Its Clinical Relevance for Glabellar Neuromodulator Injections. J Cosmet Dermatol. 2026;25(5):e70911. · PMID 42130059 · DOI 10.1111/jocd.70911
- Rams DJ, Koziej M, Green JB, et al. The Relationship Between Glabellar Contraction Patterns and Glabellar Muscle Anatomy: A Magnetic Resonance Imaging-based Study. Aesthet Surg J. 2024;45(1):NP8-NP15. · PMID 39351911 · DOI 10.1093/asj/sjae202
- Jaguś D, Pawłowska A, Mlosek RK. Ultrasound Evaluation of Upper Facial Muscles to Guide Botulinum Toxin Application. Toxins (Basel). 2025;17(12):595. · PMID 41441630 · DOI 10.3390/toxins17120595
- Ismailoglu AV, Ismailoglu P, Aktekin M. Mapping the Vascular and Muscular Topography of the Glabellar Region: Implication for Improving Safety and Efficacy of the Glabellar Injections. Aesthetic Plast Surg. 2024;48(8):1628-1634. · PMID 37855934 · DOI 10.1007/s00266-023-03708-1
- Domínguez-Duarte A. Aesthetic implications of depressor supercilii muscle block with botulinum toxin type A. J Cosmet Dermatol. 2022;21(4):1374-1378. · PMID 35175677 · DOI 10.1111/jocd.14856
Pós Prática em Medicina Estética Avançada
Formação médico-exclusiva: anatomia, ultrassom, complicações e prática supervisionada — sem atalhos.
Conhecer a formação →