Pico laser: manchas e tatuagem
O laser de picossegundos entrega pulsos na escala dos trilionésimos de segundo, contra os bilionésimos do laser Q-switched de nanossegundos, e isso concentra a energia na partícula de pigmento antes que o calor se espalhe. Na tatuagem preta e azul, o ensaio comparativo maior mostrou mais clareamento com o picossegundo; outro, sem diferença de clareamento, mostrou menos dor. Em mancha de origem endógena, a meta-análise não encontrou diferença de eficácia entre picossegundo e nanossegundo, e no melasma o creme de combinação tripla superou o picossegundo. Com a lente fracionada, o mesmo laser trata cicatriz de acne e textura por microcavidades na epiderme, cuja profundidade depende da melanina da pele. Abaixo, cada indicação com o que os estudos mediram.
Picossegundo e nanossegundo: o que muda no pigmento
Partícula de tinta é pequena demais para os pulsos clássicos. Reiter e colaboradores (2016, Lasers Med Sci) partem desse dado: as partículas de tatuagem têm tempo de relaxamento térmico abaixo de 10 nanossegundos, e um pulso mais curto que isso concentra a energia na partícula antes que o calor se espalhe. Geisler e colaboradores (2023, Lasers Med Sci) resumem as vantagens atribuídas ao picossegundo: seletividade maior, fluência menor e menos dano térmico ao redor. A revisão de Torbeck e colaboradores (2019, Dermatol Surg), com 27 artigos, descreve a evolução das indicações: começou na tatuagem e se estendeu a lesões pigmentadas benignas, cicatriz de acne e fotoenvelhecimento.
Os aparelhos estudados emitem em comprimentos de onda diferentes — os ensaios da revisão de Reiter usaram 532, 755, 758, 795 e 1.064 nm — e há duas formas de entregar o feixe: o disparo cheio, que mira pigmento e tinta, e a lente fracionada, que divide o feixe em microfeixes de alta intensidade. São tratamentos diferentes, e é por isso que esta página separa tatuagem, mancha e textura.

Tatuagem: o que os ensaios comparativos mostram
No estudo prospectivo e randomizado de Lorgeou e colaboradores (2018, J Eur Acad Dermatol Venereol), 49 pacientes tiveram cada tatuagem dividida ao meio: uma metade tratada com laser de picossegundos, a outra com nanossegundos, avaliadas às cegas 2 meses depois da última sessão. A redução de 75% ou mais da cor foi alcançada em 33% das metades tratadas com picossegundos e em 14% das tratadas com nanossegundos; nas tatuagens pretas ou azuis, em 34% contra 9%. Nas tatuagens coloridas, só 1 de 5 passou de 75% de melhora, com os dois lasers, e a diferença de efeitos adversos foi mínima.
O ensaio de Pinto e colaboradores (2017, Br J Dermatol) chegou a outro resultado em desenho mais curto: 30 tatuagens pretas de 21 pacientes, divididas entre Nd:YAG de 1.064 nm em picossegundos e em nanossegundos, 2 sessões com 6 semanas de intervalo. O clareamento não diferiu entre os dois. A dor sim: 3,8 com o picossegundo contra 7,9 com o nanossegundo, numa escala de 0 a 10. A meta-análise de Wu e colaboradores (2025, Lasers Med Sci), com 20 ensaios randomizados e 1 estudo retrospectivo, 971 pacientes, reúne os dois lados: na pigmentação exógena, como a tatuagem, o picossegundo tendeu a ser superior (risco relativo de 1,39, P = 0,05), doeu menos e teve menos hiperpigmentação pós-inflamatória; esse ganho de segurança apareceu sobretudo em pacientes asiáticos, nos quais as alterações de pigmento foram mais frequentes.
A cor da tinta escolhe o comprimento de onda
Kono e colaboradores (2020, Laser Ther) trataram 37 tatuagens profissionais de 11 pacientes asiáticos com 532 e 1.064 nm, em picossegundos e em nanossegundos, em 4 sessões a cada 4 semanas.
| Cor da tinta | Comprimento de onda que rendeu mais no estudo de Kono (2020) | Observação |
|---|---|---|
| Preta | 1.064 nm em picossegundos | Superou os outros três modos testados |
| Vermelha | 532 nm em picossegundos | Superou os outros três modos testados |
| Verde | 532 nm em picossegundos | Melhor que o 532 nm em nanossegundos e que o 1.064 nm em picossegundos |
Hiperpigmentação pós-inflamatória leve a moderada apareceu em 35,1% das tatuagens tratadas com 532 nm em nanossegundos, 24,3% com 532 nm em picossegundos, 27,0% com 1.064 nm em nanossegundos e 21,6% com 1.064 nm em picossegundos. O escurecimento paradoxal ocorreu em 5,4%, igual com todos os lasers, e não houve cicatriz. Na maquiagem definitiva de sobrancelha, a revisão de Geisler encontrou o Nd:YAG de picossegundos mais rápido e mais eficaz que o Q-switched, e o escurecimento paradoxal menos comum com ele. Os estudos de Nd:YAG Q-switched em tatuagem, com número de sessões e intervalos, estão na página sobre laser Nd:YAG.
Sobre o intervalo entre sessões, Nguyen e colaboradores (2025, Skin Res Technol) acompanharam 11 tatuagens de 9 pessoas com tomografia multifotônica depois de uma única sessão de picossegundos: em 6 semanas, as partículas estavam espalhadas por todas as camadas da epiderme e pela derme superior; em 12 semanas, ainda estavam lá, em menor quantidade. Os autores concluem que a eliminação transepidérmica pode durar meses e que intervalos mais longos podem ser vantajosos, hipótese que pedem para testar em ensaio. Dois autores receberam honorários de palestra da Cynosure Lutronic.
Manchas: lentigo e melasma
Para pigmento endógeno, o argumento do pulso curto pesa menos. Na meta-análise de Wu, picossegundo e nanossegundo tiveram clareamento equivalente nas hiperpigmentações endógenas (risco relativo de 1,06). No lentigo solar dos membros superiores, Vachiramon e colaboradores (2018, Lasers Med Sci) trataram pares de lesões de 30 pacientes asiáticos (28 completaram) com uma sessão de laser de 532 nm, em nanossegundos numa lesão e em picossegundos na outra: as duas melhoraram, o clareamento não diferiu na avaliação cega do médico nem na dos pacientes, e a satisfação foi maior com o picossegundo. Pelo custo-efetividade, os autores mantêm o nanossegundo como tratamento principal e o picossegundo como opção.
O melasma é a indicação que pede mais cautela. Na meta-análise de Chua e colaboradores (2026, Australas J Dermatol), com 5 ensaios randomizados e 139 pacientes, o creme de combinação tripla reduziu mais o índice de gravidade do que o alexandrite de picossegundos, e a hiperpigmentação pós-inflamatória foi mais frequente com o laser do que com os cremes. No ensaio em hemiface de Zhou e colaboradores (2024, Lasers Surg Med), 3 sessões mensais de alexandrite de picossegundos num lado e de Nd:YAG Q-switched no outro não diferiram entre si; aos 6 meses, só o lado do Q-switched estava significativamente abaixo do início, e em 2 anos 10 dos 17 pacientes que completaram (58,82%) tiveram recidiva ou piora, sem diferença entre os lados. Somados, os dois resultados — o creme à frente do laser na meta-análise e a recidiva alta em 2 anos com os dois lasers no ensaio — põem o tratamento tópico na base do plano; Chua e colaboradores veem espaço para testar o alexandrite de picossegundos em casos refratários, pela baixa taxa de eventos irreversíveis.
Lente fracionada: cicatriz de acne e textura
Com a lente fracionada, o picossegundo não mira uma lesão, e sim a pele inteira, em microfeixes. Tanghetti (2016, Lasers Surg Med) biopsiou pele tratada com alexandrite de 755 nm e lente fracionada e encontrou cavidades dentro da epiderme, cujo número, densidade e tamanho dependiam do índice de melanina e da energia; elas se esfoliam em cerca de 3 semanas, e a pele tratada mostrou colágeno novo, tecido elástico e mucina. O mecanismo proposto é a ruptura óptica induzida por laser: um plasma localizado na epiderme, iniciado pela absorção da luz pela melanina. O estudo teve financiamento da Cynosure.
Jacobsen e colaboradores (2023, Lasers Med Sci) mostraram o quanto essa melanina manda. Em pele suína clara, média e escura tratada com o mesmo alexandrite fracionado, os vacúolos ficaram na epiderme superficial na pele escura, na junção dermoepidérmica ou abaixo dela na pele média, e não apareceram na pele clara. O laser usado no experimento foi custeado pela Cynosure, e um dos autores declarou ter recebido equipamento da empresa.

Na clínica, os estudos de cicatriz de acne mostram resultado também em fototipos altos. Tao e colaboradores (2025, Dermatol Surg) trataram 24 pacientes de fototipos V e VI com até 5 sessões mensais de alexandrite de 755 nm com lente fracionada; entre os 17 que completaram 3 meses de seguimento, todos melhoraram na escala global do médico, 94,1% ficaram satisfeitos e não houve evento adverso grave. No ensaio em hemiface de Qi e colaboradores (2026, Lasers Med Sci), com 27 pacientes e 3 sessões a cada 4 semanas, o picossegundo fracionado e um laser fracionado não ablativo de 1.565 nm melhoraram as cicatrizes atróficas na mesma medida; o picossegundo teve satisfação maior, eritema e edema mais curtos e nenhuma crosta.
No rejuvenescimento, Zhang e colaboradores (2026, Lasers Surg Med) compararam, em 38 mulheres asiáticas, o Nd:YAG de 1.064 nm em picossegundos com lente fracionada e a luz intensa pulsada: os dois melhoraram fotoenvelhecimento, manchas e luminosidade, e o picossegundo foi melhor nas linhas finas periorbitais e nos poros da zona T. No ensaio de Zhu e colaboradores (2025, Lasers Surg Med), o alexandrite fracionado melhorou mais as manchas e a combinação de luz pulsada com laser fracionado não ablativo melhorou mais os poros; o picossegundo doeu menos, teve recuperação mais curta e menos hiperpigmentação pós-inflamatória (23,5% contra 58,8%).

Quem tratar com cuidado
- Tatuagem colorida e maquiagem definitiva. A tinta colorida respondeu menos nos estudos de Lorgeou, e o escurecimento paradoxal apareceu em 5,4% das tatuagens de Kono, com os dois tipos de pulso. Teste em área pequena antes de tratar a maquiagem inteira.
- Fototipo alto. Na meta-análise de Wu, a alteração de pigmento foi mais frequente em asiáticos, e no estudo de Jacobsen a pele mais escura concentrou o dano perto da superfície: energia de partida menor e intervalos maiores.
- Melasma. Recidiva frequente em 2 anos e plano tópico como base.
- Lesão pigmentada sem diagnóstico. Avaliação, e biópsia na dúvida, antes de qualquer disparo, como discutido na página do Nd:YAG.
Onde isso entra na formação
O raciocínio desta página — que cor absorve a luz, a que profundidade ela está e quanto a melanina da pele muda a conta — também guia o Módulo B2 da formação Pós Prática, dirigida a médicos pelo Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199, que atua em Medicina Estética e Regenerativa. Ali, as tecnologias da clínica são estudadas uma a uma: o efeito, a camada, a hora certa no plano e o que fazer quando o consultório não tem o aparelho. O curso é dividido em quatro módulos de um sábado cada, independentes entre si, com conteúdo gravado a cumprir antes e grupos de até 8 alunos; na parte teórica há demonstração comentada, e na parte prática o médico executa sob supervisão em paciente modelo. Critérios para comparar cursos de aparelhos estão nesta página; os módulos, em /cursos/.
Transparência: nenhum fabricante de laser citado nesta página tem relação comercial com o Dr. Thiago Perfeito.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre laser de picossegundos e Q-switched?
A duração do pulso. O Q-switched clássico trabalha em nanossegundos; o picossegundo, em pulsos mais curtos que o tempo de relaxamento térmico das partículas de tinta, que fica abaixo de 10 nanossegundos. A energia se concentra na partícula, com menos dano térmico ao redor.
O pico laser clareia tatuagem mais que o Q-switched?
Depende do estudo. Num ensaio com 49 pacientes, 33% das metades de tatuagem tratadas com picossegundos chegaram a 75% ou mais de clareamento, contra 14% com nanossegundos. Noutro, com 2 sessões em tatuagens pretas, o clareamento foi igual e a dor, menor com o picossegundo. Na meta-análise de 2025, a vantagem na pigmentação exógena ficou no limite da significância.
Pico laser serve para tatuagem colorida?
Responde menos que a preta. O comprimento de onda segue a cor: num estudo, o 1.064 nm em picossegundos rendeu mais na tinta preta e o 532 nm, na vermelha e na verde. Escurecimento paradoxal pode acontecer com qualquer tipo de pulso.
Pico laser trata melasma?
Os estudos põem o tratamento tópico na base. Numa meta-análise de 5 ensaios, o creme de combinação tripla reduziu mais a gravidade do melasma que o alexandrite de picossegundos, e num ensaio com 2 anos de seguimento 58,82% dos pacientes tiveram recidiva ou piora, sem diferença entre os dois lasers testados. Os autores da meta-análise sugerem estudar o laser nos casos refratários.
Pico laser é melhor que Q-switched para manchas?
Na meta-análise de 2025, o clareamento de hiperpigmentações endógenas foi equivalente. O picossegundo doeu menos e teve menos hiperpigmentação pós-inflamatória, vantagem vista sobretudo em pacientes asiáticos.
O que é a lente fracionada do pico laser?
É uma ponteira que divide o feixe em microfeixes de alta intensidade. Eles criam microcavidades na epiderme por ruptura óptica, que se esfoliam em cerca de 3 semanas; a profundidade dessas cavidades depende da melanina da pele.
Qual o intervalo entre sessões de pico laser na tatuagem?
Nos ensaios citados, de 4 a 6 semanas. Um estudo de imagem mostrou partículas de tinta ainda sendo eliminadas 12 semanas depois de uma sessão, e os autores levantam a hipótese de que intervalos mais longos sejam vantajosos.
Referências
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