Radiesse no corpo: hiperdiluição e técnica
No corpo, a bula do Radiesse cobre só duas áreas: o dorso das mãos, com o produto puro, e o colo, com a diluição 1:2 em soro. Braços, antebraços, abdome, coxas e glúteo entram por consenso e por estudo, com o produto diluído ou hiperdiluído, no plano subdérmico, distribuído em fios finos a partir de poucas entradas. O que decide o resultado no corpo é o planejamento por área marcada, a homogeneidade da mistura e a disciplina de não acumular produto. O nódulo costuma nascer de produto concentrado ou superficial demais, em pele fina que se mexe. E a hidroxiapatita aparece no raio X — isso também precisa entrar na conversa com a paciente.
Este texto trata do Radiesse como ferramenta de corpo: onde a bula para, como os estudos organizaram cada região, como se planeja uma área grande e como se previne e se conduz o nódulo. A tabela de diluições e a explicação física da hiperdiluição estão em Radiesse hiperdiluído: diluição e técnica; aqui o foco é levar esse raciocínio para fora da face.
Onde a bula termina no corpo
Quando a revisão sistemática de Galadari e Guida (2024, Int J Dermatol) foi publicada, a única indicação corporal aprovada pela FDA para a hidroxiapatita de cálcio era o dorso das mãos, e a Europa tinha acabado de aprovar o colo; hoje a bula americana também traz o colo, com estudo pivotal próprio. Os mesmos autores reuniram os estudos de pescoço, pés, braços, coxas e abdome com produto hiperdiluído e encontraram efeito de firmeza da pele, com bom perfil de segurança na prática clínica.
As bulas atuais da Merz mostram esse desenho. Nas mãos, o produto vai puro, no máximo 3 mL por mão por sessão, em bolus de 0,2 a 0,5 mL; o detalhe dessa região está em bioestimulador nas mãos. No colo, a diluição é a única que o fabricante declara: 1,5 mL de Radiesse com 3,0 mL de soro fisiológico, 4,5 mL de mistura para uma área de cerca de 100 cm², sem injeção sobre o tecido mamário. O pescoço não é indicação em nenhuma das bulas. Na página profissional do fabricante, a única menção a abdome é o desenho de um estudo citado — 10 pacientes que receberam hidroxiapatita a 1:1 e a 1:2, ácido poli-L-láctico e soro na parede abdominal antes de uma abdominoplastia —, sem volume de produto declarado.
O consenso global de Goldie e colaboradores (2018, Dermatol Surg) já tratava por escrito a bioestimulação com hidroxiapatita diluída na face e no corpo como uso fora de bula, orientado pelas recomendações do painel. No Brasil, a referência é a bula vigente do produto registrado na Anvisa.
Planejar por área, não por seringa
A única referência de densidade que o fabricante oferece para o corpo é a do colo: 4,5 mL de mistura a 1:2 para cerca de 100 cm², em 18 a 45 fios lineares de 0,1 a 0,25 mL cada, no plano subdérmico (bula global). Esse número não vira regra para outras regiões, mas ensina o método: medir a área, dividir em campos e distribuir a mistura em fios curtos e regulares dentro de cada campo.
- Área marcada: desenhe na pele, com a paciente em pé, o limite da flacidez; deite-a só depois de marcar.
- Campos: divida a área em retângulos ou leques que uma entrada alcança com o comprimento da cânula.
- Densidade: no colo, a bula põe uma seringa de 1,5 mL de Radiesse, já diluída, em cerca de 100 cm². Áreas corporais maiores pedem mais campos, não mais produto por fio.
- Fio: pouco produto por passagem, depositado enquanto a cânula recua (0,1 a 0,25 mL por fio no colo, pela bula global).
- Teto conhecido: no colo, a bula americana registra que mais de 18 mL de mistura numa série de quatro aplicações (6 mL de Radiesse e 12 mL de soro) não foi estudado; a global recomenda no máximo 13,5 mL de mistura por ano. Para braços, abdome, coxas e glúteo, as bulas não trazem posologia.
A diluição em si se decide pela pele e pelo que está embaixo dela. Pele fina sobre área móvel tolera mal produto pouco diluído posto superficial demais, e o consenso de Goldie aponta mais eventos adversos com hidroxiapatita pouco diluída injetada superficialmente em pele fina e em pele mais escura. Teodoro e colaboradores (2023, Clin Cosmet Investig Dermatol) mostraram o outro lado da escolha no glúteo: em sete casos, a diluição, o volume, a profundidade e a técnica foram definidos caso a caso, conforme o paciente tivesse queixa de contorno, de flacidez ou de celulite — três autores são palestrantes da Merz e um é consultor da empresa.
O que os estudos mediram no corpo
Cada região do corpo tem uma literatura própria, quase toda de séries pequenas, e o desenho se repete: produto diluído, fios de retroinjeção no plano subdérmico e, onde se mediu, derme mais espessa ao ultrassom.
- Braço e abdome. Lapatina e Pavlenko (2017, J Drugs Dermatol) trataram o braço com hidroxiapatita diluída a 1:2 em soro e lidocaína, injetada no plano subdérmico em fios lineares curtos, e o abdome com diluição maior, também subdérmica. A derme do abdome ficou mais espessa ao ultrassom — 0,7 mm junto ao umbigo e 0,4 mm nos flancos. A técnica de cada região está em bioestimulador nos braços e bioestimulador no abdome.
- Antebraço. De Almeida e colaboradores (2026, J Cosmet Dermatol) trataram seis pacientes com dermatoporose dos antebraços — fragilidade crônica da pele, com derme afinada, perda de colágeno e púrpuras de repetição — com uma única sessão de Radiesse a 1:2, aplicado com cânula 25G em leque e retroinjeção linear no plano subdérmico. O antebraço mais afetado foi tratado primeiro, e o outro esperou 45 dias como controle. A área de lesões caiu de 5,60% para 1,92% do antebraço tratado em 45 dias, sem mudança significativa no lado ainda não tratado; perto de 1 ano depois, a redução era de 73,4%. A biópsia mostrou 69,7% mais colágeno aos 45 dias, e o ultrassom, derme 36,05% mais espessa. Houve um nódulo transitório, que cedeu com massagem. Um dos autores é funcionário da Merz, e a primeira autora é palestrante e consultora da empresa.
- Coxas, joelhos e glúteo. Os ensaios dessas regiões, inclusive os que combinam a hidroxiapatita com ultrassom microfocado, estão em bioestimulador nas coxas e em bioestimulador no glúteo.

A paciente que mais pede corpo depois de tratar o rosto costuma ter entre 45 e 60 anos: a face já está cuidada, e a pele do braço, do colo e da parte interna da coxa passa a destoar. Para ela, o que o Radiesse hiperdiluído entrega nos estudos é pele mais firme e mais espessa ao longo de meses, não troca de contorno — volume e gordura localizada pedem outras ferramentas.
Técnica no corpo, do preparo à última passada
- Mistura homogênea. Conecte as seringas e misture até a suspensão sair uniforme, sem gel separado do soro. Grumos de microesferas na seringa viram grumos na pele.
- Entradas fora da área de pele mais fina. Escolha pontos de onde o leque alcance o campo inteiro, de preferência em pele mais espessa e longe de dobras de flexão.
- Plano subdérmico, com a cânula em movimento. É o plano da bula global para o colo e o dos estudos corporais citados aqui. Superficial demais, o produto aparece em relevo; profundo demais, perde o alvo, que é a derme.
- Retroinjeção em leque, fio a fio. Deposite só enquanto a cânula recua, com pressão leve e constante no êmbolo; nunca injete com a ponta parada. As formas de deposição estão comparadas em bolus, retroinjeção, leque e linear.
- Aspiração e instrumento. Na rotina do Dr. Thiago Perfeito, cerca de 80% das aplicações de bioestimulador são feitas com cânula 22G, e no corpo ele trabalha com cânula 18G; antes de injetar, aspira sempre, inclusive com cânula. Calibre e comprimento por região estão em como escolher a cânula.
- Modelagem e palpação. Ao terminar cada campo, alise a área com os dedos e procure cordão ou ponto endurecido antes de passar ao seguinte.

O guia prático de Lorenc e colaboradores (2022, Aesthet Surg J), escrito por doze injetores norte-americanos, lista entre as áreas tratadas com hidroxiapatita hiperdiluída a face, o pescoço, o colo, as mãos, a parte superior dos braços, o abdome, o glúteo e as coxas, além de celulite e estrias, e insiste no contraste que organiza toda a técnica: produto puro dá volume; hiperdiluído se espalha por uma superfície muito maior, em plano mais superficial, para estimular colágeno e elastina ao longo do tempo.
Nódulo: por que aparece no corpo e como se desfaz
O nódulo não inflamatório de hidroxiapatita tem três origens descritas: injeção superficial, bolus acidental e concentração errada de microesferas. É o que listam McCarthy e colaboradores (2024, Aesthet Surg J Open Forum), num relato de caso em que o primeiro autor é funcionário da Merz e outro recebe honorários e verbas de pesquisa da empresa. Para desfazer o nódulo, eles injetaram soro no centro dele — uma hiperdiluição no próprio tecido — e em seguida aplicaram microagulhamento para gerar vibração e dispersar as partículas; o nódulo diminuiu de tamanho e ficou menos visível.
No corpo, as áreas que mais exigem cuidado são as de pele fina sobre estrutura que se move: a face interna do braço, a região acima do joelho, o dorso do antebraço. Três hábitos reduzem o risco:
- Não parar a cânula no fim do trajeto nem no ponto de entrada, onde o produto tende a se acumular.
- Misturar de novo a seringa que ficou parada na bandeja antes de retomar, para que a suspensão continue homogênea.
- Palpar a cada campo e espalhar na hora qualquer acúmulo, enquanto ele ainda se move.

O nódulo de ácido poli-L-láctico tem fisiopatologia e conduta próprias, descritas em nódulos de Sculptra; o caso de nódulo cervical de Radiesse resolvido com soro e ruptura mecânica está em Radiesse hiperdiluído.
Visibilidade: na pele e no exame de imagem
A hidroxiapatita é radiopaca, e isso vale também quando ela está no corpo. Moradi e colaboradores (2023, Aesthet Surg J) acompanharam por 2 anos 20 pacientes tratados no dorso das mãos, com até três retratamentos. Radiologistas cegos viram o produto na radiografia de 100% das mãos no 1º mês e de 83,3% no 24º mês, mas em nenhum exame o produto encobriu os ossos. Dois dos três autores são da Merz.
Para o corpo, a consequência prática é a orientação da paciente: ela deve contar ao radiologista que fez bioestimulador com hidroxiapatita, sobretudo antes de radiografia, tomografia ou mamografia da região tratada. No colo, a área da bula exclui o tecido mamário, e o ensaio que revisou a imagem da mama depois do tratamento do colo está resumido no texto sobre Radiesse hiperdiluído; o pescoço e o colo como região têm página própria, bioestimulador no pescoço e colo. Na pele, o que fica visível é o relevo — produto superficial ou acumulado. A prevenção é a mesma do nódulo: plano subdérmico, fio fino, cânula em movimento.
Quem não tratar agora
- Queixa de volume ou gordura localizada esperando resposta de flacidez: o hiperdiluído não muda contorno.
- Infecção, ferida ou dermatite ativa na área, e as demais situações de quando não aplicar injetável.
- Área irradiada ou com cirurgia recente, em que o plano subdérmico pode estar alterado por fibrose: avaliar com cuidado redobrado antes de entrar com cânula.
- Peso ainda em queda: a pele muda de novo a cada quilo perdido, e a avaliação da flacidez deixa de valer.
O Dr. Thiago Perfeito declara não ter relação comercial com nenhum fabricante de bioestimulador.
Corpo inteiro, uma cânula de cada vez
No corpo, o difícil não é a conta da diluição: é cobrir uma área de palmos com fios iguais, sem um ponto mais carregado que o outro. Esse trabalho de mão é o conteúdo do Módulo A2 da Pós Prática, que trata do bioestimulador corporal por hiperdiluição ao lado do glúteo e da celulite; o colo e as mãos ficam no Módulo B2. O Dr. Thiago Perfeito, médico (CRM-DF 23199) que atua em Medicina Estética e Regenerativa, conduz cada módulo num sábado presencial na INTI, em Brasília: o aluno chega com o pré-work gravado cumprido, assiste à demonstração comentada na parte teórica e executa, supervisionado, em paciente modelo na parte prática, numa turma de até oito médicos. Os módulos estão em /cursos/, e a Biblioteca, em /cursos/blog/.
Perguntas frequentes
O Radiesse tem indicação de bula para o corpo?
Para duas áreas: o dorso das mãos, com produto puro, e o colo, com diluição 1:2 em soro. Braços, antebraços, abdome, coxas e glúteo são uso fora de bula, apoiado em consenso e em estudos.
Qual diluição de Radiesse usar no corpo?
A única diluição declarada pelo fabricante é a do colo: 1,5 mL de Radiesse com 3,0 mL de soro (1:2), para cerca de 100 cm². Nas outras áreas, a diluição se decide pela espessura da pele, e a tabela das proporções está no texto sobre Radiesse hiperdiluído.
Quantas seringas de Radiesse por área do corpo?
A bula só dá densidade para o colo: uma seringa de 1,5 mL diluída em 4,5 mL para cerca de 100 cm². Para as demais áreas, planeje medindo a área e dividindo-a em campos, sem aumentar o produto por fio.
Em que plano se aplica Radiesse hiperdiluído no corpo?
No plano subdérmico, em fios finos de retroinjeção em leque, com a cânula sempre em movimento. Superficial demais, o produto aparece em relevo e forma nódulo.
Por que aparece nódulo de Radiesse no corpo?
As causas descritas são injeção superficial, bolus acidental e concentração errada de microesferas, sobretudo em pele fina sobre área móvel. Um relato de McCarthy e colaboradores (2024) desfez o nódulo com soro injetado no centro dele seguido de microagulhamento.
O Radiesse aparece em radiografia?
Sim, a hidroxiapatita é radiopaca. No estudo de Moradi e colaboradores (2023), o produto foi visto na radiografia de 100% das mãos no 1º mês e de 83,3% no 24º mês, sem encobrir os ossos. A paciente deve avisar o radiologista.
Referências
- Galadari H, Guida S. A systematic review of Radiesse® (calcium hydroxylapatite): evidence and recommendations for the body. Int J Dermatol. 2024;63(7):881-889. · PMID 38390986 · DOI 10.1111/ijd.17085
- Goldie K, Peeters W, Alghoul M, et al. Global Consensus Guidelines for the Injection of Diluted and Hyperdiluted Calcium Hydroxylapatite for Skin Tightening. Dermatol Surg. 2018;44 Suppl 1:S32-S41. · PMID 30358631 · DOI 10.1097/DSS.0000000000001685
- Teodoro MDS, Di Sessa D, Barros JHDFA, de Vasconcelos RCF, Miot HA. Buttocks Beautification 3D with Calcium Hydroxylapatite (Radiesse): An Individualized Approach to Diagnosing and Treating Contour, Sagging, and Cellulite of the Buttocks in Seven Cases. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2023;16:3039-3051. · PMID 37901152 · DOI 10.2147/CCID.S431391
- Lapatina NG, Pavlenko T. Diluted Calcium Hydroxylapatite for Skin Tightening of the Upper Arms and Abdomen. J Drugs Dermatol. 2017;16(9):900-906. · PMID 28915285
- de Almeida ART, de Sousa Marins Barbosa MC, Michalany A, McCarthy AD. Calcium Hydroxylapatite-Carboxymethylcellulose as a Treatment for Forearm Dermatoporosis: A Prospective, Delayed-Start, Contralateral Case Series. J Cosmet Dermatol. 2026;25(4):e70859. · PMID 41968542 · DOI 10.1111/jocd.70859
- Lorenc ZP, Black JM, Cheung JS, et al. Skin Tightening With Hyperdilute CaHA: Dilution Practices and Practical Guidance for Clinical Practice. Aesthet Surg J. 2022;42(1):NP29-NP37. · PMID 34192299 · DOI 10.1093/asj/sjab269
- McCarthy AD, Berkowitz S, Chernoff WG. Successful Treatment of Noninflammatory CaHA Nodules Using Focused Mechanical Vibration. Aesthet Surg J Open Forum. 2024;6:ojae018. · PMID 38650973 · DOI 10.1093/asjof/ojae018
- Moradi A, Ðaković R, Odena G. Aesthetic Implantation of Calcium Hydroxylapatite Does Not Interfere With Radiological Assessment of Bones in the Dorsum of the Hands. Aesthet Surg J. 2023;43(6):696-703. · PMID 36573029 · DOI 10.1093/asj/sjac344
Pós Prática em Medicina Estética Avançada
Formação médico-exclusiva: anatomia, ultrassom, complicações e prática supervisionada — sem atalhos.
Conhecer a formação →