Thermage: como funciona a radiofrequência monopolar
O Thermage é a radiofrequência monopolar capacitiva da Solta Medical: uma corrente de 6,78 MHz sai de um eletrodo coberto por uma membrana, atravessa a pele e volta por uma placa de retorno, aquecendo a derme profunda e as camadas logo abaixo dela enquanto a superfície é resfriada por criogênio. A família Thermage está no FDA desde 2000, e o Thermage FLX, de 2017, traz no próprio 510(k) indicação para rugas, inclusive periorbitais e palpebrais. É o aparelho com que se fez a maior parte dos estudos clássicos da categoria — por isso serve aqui de referência para explicar como funciona qualquer radiofrequência monopolar sem agulha. Esta página trata do mecanismo: o circuito, o papel da membrana capacitiva, o resfriamento, o que acontece no colágeno e como os estudos com o Thermage mudaram a forma de aplicar a energia.
Monopolar: o paciente faz parte do circuito
Num aparelho monopolar, há um só eletrodo ativo, o da ponteira. A corrente sai dele, percorre o corpo e é recolhida por uma placa de retorno de área grande, colada no corpo, fora da área tratada. Na placa, a corrente se espalha por uma superfície ampla e não produz aquecimento útil; sob a ponteira, ela está concentrada, e é ali que o tecido esquenta. O calor não vem da ponteira: nasce dentro do próprio tecido, pela oposição que cada camada oferece à passagem da corrente alternada.
Essa é a diferença de base em relação aos aparelhos bipolares, em que os dois eletrodos estão na mesma ponteira e a corrente corre entre eles, mais perto da superfície. No monopolar, o caminho até a placa de retorno passa pela derme e pelo subcutâneo. Bogle e colaboradores (2007, Lasers Surg Med) descrevem a tecnologia como capaz de levar calor à derme profunda e às camadas abaixo dela.

Capacitiva: a membrana entre o eletrodo e a pele
No Thermage, o eletrodo não toca a pele diretamente. Ele fica atrás de uma membrana fina, e o conjunto eletrodo–membrana–pele funciona como um capacitor: a energia atravessa a membrana e se distribui por toda a face da ponteira, em vez de sair por um ponto. Wang SH e colaboradores (2026, J Cosmet Dermatol) resumem o princípio: os aparelhos monopolares usam uma ponteira de membrana capacitiva para entregar calor uniforme ao tecido.
A mesma membrana é o ponto frágil do sistema. O grupo revisou 13 rupturas de membrana ocorridas durante procedimentos numa clínica de Taiwan entre 2012 e 2024. Entre 2012 e 2016, as 8 rupturas foram percebidas a olho nu, e todos os 8 pacientes tiveram queimadura termoelétrica. A partir de 2017, a ponteira passou a ser examinada com dermatoscopia polarizada, sem contato, e as 5 rupturas detectadas assim não resultaram em queimadura (p = 0,0008). Medidas preventivas — conferência do criogênio, barba feita e orientação do paciente — se associaram a menos rupturas. O resumo não nomeia o aparelho usado na clínica; o primeiro autor declara ter sido consultor da Solta Medical, fabricante do Thermage, em função que o artigo descreve como sem relação com o estudo, e sem apoio financeiro ou material para ele.
Aquecer embaixo, resfriar em cima
Se a corrente esquentasse todas as camadas por igual, a epiderme queimaria antes de a derme profunda chegar à temperatura útil. O resfriamento resolve isso: o criogênio aplicado na ponteira tira calor da superfície antes, durante e depois do disparo, enquanto o aquecimento continua nas camadas de baixo. Weiss e colaboradores (2006, J Drugs Dermatol) descrevem o método exatamente assim — aquecimento da pele por radiofrequência monopolar acoplado ao resfriamento por criogênio — numa revisão de mais de 600 tratamentos consecutivos com o Thermage feitos entre 2002 e 2006.
O resultado é um gradiente invertido: a superfície fica mais fria que a profundidade. É isso que permite tratar sem ferida aberta, e é por isso que a falha do resfriamento ou da membrana aparece como queimadura de superfície.
Dois tempos no colágeno: contração e remodelação
O efeito no colágeno acontece em dois tempos. O primeiro é físico. Zelickson e colaboradores (2004, Arch Dermatol) trataram tendão bovino e pele abdominal humana com o ThermaCool TC, sistema da Thermage. Na microscopia eletrônica do tendão, as fibrilas de colágeno aumentaram de diâmetro e perderam o contorno nítido em até 6 mm de profundidade. Na pele humana, a microscopia comum não mostrou alteração na epiderme nem na substância fundamental; a ultraestrutura mostrou áreas isoladas de fibrilas espessadas, e a expressão do RNA mensageiro do colágeno tipo I aumentou. A leitura dos autores: as fibrilas se contraem logo após o disparo, e o dano térmico controlado induz colágeno novo.
O segundo tempo é biológico e se vê na clínica. No estudo multicêntrico de Fitzpatrick e colaboradores (2003, Lasers Surg Med), 86 pacientes receberam uma única sessão na região periorbital e foram seguidos por 6 meses. Na avaliação cega de fotografias, 83,2% das regiões tratadas melhoraram pelo menos 1 ponto na escala de rugas; a análise fotográfica mostrou elevação de pelo menos 0,5 mm em 61,5% das sobrancelhas. A queimadura de segundo grau ocorreu em 0,36% das aplicações (21 em 5.858), e 3 pacientes ficaram com pequenas cicatrizes residuais aos 6 meses. Os autores descrevem o padrão como um tensionamento térmico precoce seguido de tensionamento adicional ao longo do tempo, compatível com a cicatrização de uma ferida térmica.

Do disparo único às várias passadas
O Thermage começou com passada única, energia alta e ponteira pequena — e com muita dor. A mudança de algoritmo é o capítulo mais útil da história do aparelho para quem opera qualquer monopolar hoje. Dover e Zelickson (2007, Dermatol Surg) reuniram 14 médicos de quatro especialidades num levantamento de 5.700 tratamentos e compararam o algoritmo original com o novo: ponteiras maiores, energia menor, várias passadas, energia guiada pelo relato de calor do paciente e ponto final no tensionamento visível.
| Desfecho no levantamento | Algoritmo original (passada única, energia alta, ponteira pequena) | Algoritmo novo (várias passadas, energia menor, ponteira maior) |
|---|---|---|
| Tensionamento imediato | 26% | 87% |
| Tensionamento aos 6 meses | 54% | 92% |
| Achou dolorido demais | 45% | 5% |
| Resultado dentro da expectativa | 68% | 94% |
Os autores concluem que o relato de calor do paciente é um método válido e preferível para escolher a energia. Bogle e colaboradores (2007) testaram o algoritmo de baixa fluência em 66 pacientes com flacidez moderada, com até 5 passadas no terço inferior e no pescoço e média de 556 pulsos por tratamento: aos 6 meses, 92% tinham melhora mensurável e a análise fotográfica independente viu melhora em 84%; as medidas objetivas de rigidez da pele melhoraram, mas o ganho diminuiu com o tempo. O resumo de Bogle não nomeia o aparelho. Na série de Weiss, feita em consultório sem anestesia injetável nem sedação venosa, 2,7% dos tratamentos tiveram efeito colateral temporário e nenhum teve efeito permanente, à medida que as ponteiras cresceram de 1 cm² para 3 cm² e as várias passadas em energia menor viraram regra.
Gerações, ponteiras e conforto
As gerações seguintes — o Thermage CPT e depois o FLX — mantiveram o princípio e mudaram ponteira, resfriamento e controle. Polder e Bruce (2011, Facial Plast Surg Clin North Am), escrevendo sobre o CPT, registravam que a radiofrequência monopolar capacitiva era a modalidade de radiofrequência com mais ensaios clínicos publicados. Angra e colaboradores (2021, Dermatol Surg) testaram a geração mais recente, descrita no resumo como de ponteiras maiores, com vibração, resfriamento e ajuste de impedância — o resumo não nomeia o aparelho. Foram 40 pacientes de 30 a 60 anos com flacidez leve a moderada de face e pescoço alto; todos receberam analgesia intramuscular antes da sessão, no protocolo do estudo, e 73% tinham melhora aos 6 meses pela avaliação do investigador, mais evidente no jowl, a flacidez sobre a borda da mandíbula, e no sulco nasogeniano.
O tamanho da ponteira muda o alcance. Suh e colaboradores (2026, Lasers Med Sci) biopsiaram dois grupos de 14 pacientes antes e 2 meses depois de uma sessão facial, um com ponteira descrita no resumo como 3 × 3 cm² e outro com 4 × 4 cm²; segundo o texto completo, o grupo da ponteira menor foi tratado com o Thermage CPT e o da maior com o FLX — o tamanho da ponteira e a geração do aparelho mudaram juntos. Os autores associam a ponteira larga a tensionamento mais profundo e veem na menor uma opção para quem tem mais de 60 anos, faixa em que ela produziu colágeno mais denso na derme papilar — lembrando que o grupo da ponteira larga já partia de colágeno mais denso.
A dor continua sendo a principal barreira. Num estudo de Pequim com 46 pacientes tratados com o Thermage FLX nos dois lados do rosto, sempre pelo mesmo médico destro e com ordem sorteada, Wang Y e colaboradores (2026, Clin Cosmet Investig Dermatol) registraram dor maior na hemiface esquerda (média de 7,12 contra 6,62 numa escala de 0 a 10) e maior sensibilidade em quem tinha até 42 anos.
O Thermage como régua
Por ter a literatura mais longa, o Thermage virou o comparador da categoria. Num ensaio randomizado de Wang Z e colaboradores (2025, Lasers Surg Med), 40 participantes receberam uma sessão de um aparelho monopolar novo (YOUMAGIC) ou do Thermage CPT; o volume de depressão do sulco nasogeniano, medido em imagem tridimensional, melhorou em relação ao início aos 1, 3 e 6 meses, sem diferença significativa entre os grupos, e os autores concluíram pela não inferioridade do aparelho novo. No campo regulatório, o Thermage FLX serviu de aparelho de referência (predicado) para a liberação 510(k) de radiofrequências monopolares coreanas, como o XERF e o Oligio X — liberadas para eletrocoagulação e hemostasia, e não com indicação específica para rugas ou flacidez.
Na INTI, as plataformas de radiofrequência monopolar em uso são o XERF e o Oligio X. A física da dupla frequência está em XERF: radiofrequência monopolar de dupla frequência; o mecanismo da radiofrequência que entra por agulhas, com a profundidade definida pelo comprimento delas, em radiofrequência microagulhada.
Onde isso entra na formação
Circuito, impedância, resfriamento e curva de remodelação do colágeno fazem parte da física das tecnologias, conteúdo do pré-work gravado que o médico assiste antes do sábado presencial no Módulo B2 da Pós Prática, formação conduzida pelo Dr. Thiago Perfeito. O módulo tem um bloco dedicado às sete tecnologias da clínica — o que cada uma faz, em que camada age e quando entra no plano. No sábado, com turma de até 8 médicos, a demonstração comentada é a parte teórica, e a prática é execução supervisionada pelo aluno em paciente modelo. Cada um dos quatro módulos se faz de forma independente. Os critérios para comparar formações em aparelhos estão no guia de cursos de tecnologias, e o conjunto dos módulos, em /cursos/.
Transparência: nenhum fabricante de aparelho mencionado aqui tem relação comercial com o Dr. Thiago Perfeito.
Perguntas frequentes
O que é o Thermage?
É a radiofrequência monopolar capacitiva da Solta Medical: uma corrente de 6,78 MHz sai de um eletrodo coberto por membrana, atravessa a pele e volta por uma placa de retorno, aquecendo a derme profunda enquanto a superfície é resfriada por criogênio. A família Thermage está no FDA desde 2000 e é o aparelho com que se fez a maior parte dos estudos clássicos da categoria.
Por que a radiofrequência do Thermage é chamada de capacitiva?
Porque o eletrodo fica atrás de uma membrana e não toca a pele diretamente: eletrodo, membrana e pele funcionam como um capacitor, e a energia se distribui por toda a face da ponteira. A integridade dessa membrana é uma questão de segurança — ruptura durante o procedimento pode causar queimadura termoelétrica.
Como a radiofrequência monopolar aquece sem queimar a pele?
O calor nasce dentro do tecido, pela resistência à passagem da corrente, e o criogênio resfria a superfície antes, durante e depois de cada disparo. Forma-se um gradiente invertido: a epiderme fica mais fria que a derme profunda, onde está o alvo.
O que a radiofrequência monopolar faz no colágeno?
Age em dois tempos: contração imediata das fibrilas de colágeno pelo calor e, depois, remodelação, com produção de colágeno novo induzida pela lesão térmica controlada. Por isso há algum efeito logo após a sessão e um ganho adicional nos meses seguintes.
O Thermage tem indicação do FDA?
O Thermage FLX tem liberação 510(k) de 2017 com indicação para rugas, inclusive periorbitais e palpebrais, e, com vibração, para melhora temporária da aparência da celulite. É a indicação mais específica da categoria nos Estados Unidos; liberação 510(k) não é aprovação, e não equivale a registro na Anvisa.
Quantas sessões de Thermage são feitas?
O fabricante descreve o tratamento como sessão única, e estudos como o multicêntrico de Fitzpatrick (2003) avaliaram uma sessão. O que mudou com o tempo foi a forma de aplicar: várias passadas em energia menor, com a energia guiada pelo calor relatado pelo paciente.
Qual a diferença entre Thermage e radiofrequência microagulhada?
O Thermage aquece sem romper a pele, com a energia distribuída pela membrana da ponteira e a superfície resfriada. Na radiofrequência microagulhada, a energia é liberada na ponta de agulhas que entram na pele, e a profundidade é dada pelo comprimento da agulha.
Referências
- Zelickson BD, Kist D, Bernstein E, et al. Histological and ultrastructural evaluation of the effects of a radiofrequency-based nonablative dermal remodeling device: a pilot study. Arch Dermatol. 2004;140(2):204-9. · PMID 14967794 · DOI 10.1001/archderm.140.2.204
- Fitzpatrick R, Geronemus R, Goldberg D, et al. Multicenter study of noninvasive radiofrequency for periorbital tissue tightening. Lasers Surg Med. 2003;33(4):232-42. · PMID 14571447 · DOI 10.1002/lsm.10225
- Weiss RA, Weiss MA, Munavalli G, Beasley KL. Monopolar radiofrequency facial tightening: a retrospective analysis of efficacy and safety in over 600 treatments. J Drugs Dermatol. 2006;5(8):707-12. · PMID 16989184
- Dover JS, Zelickson B; 14-Physician Multispecialty Consensus Panel. Results of a survey of 5,700 patient monopolar radiofrequency facial skin tightening treatments: assessment of a low-energy multiple-pass technique leading to a clinical end point algorithm. Dermatol Surg. 2007;33(8):900-7. · PMID 17661932 · DOI 10.1111/j.1524-4725.2007.33191.x
- Bogle MA, Ubelhoer N, Weiss RA, et al. Evaluation of the multiple pass, low fluence algorithm for radiofrequency tightening of the lower face. Lasers Surg Med. 2007;39(3):210-7. · PMID 17304562 · DOI 10.1002/lsm.20472
- Polder KD, Bruce S. Radiofrequency: Thermage. Facial Plast Surg Clin North Am. 2011;19(2):347-59. · PMID 21763995 · DOI 10.1016/j.fsc.2011.04.006
- Angra K, Alhaddad M, Boen M, et al. Prospective Clinical Trial of the Latest Generation of Noninvasive Monopolar Radiofrequency for the Treatment of Facial and Upper Neck Skin Laxity. Dermatol Surg. 2021;47(6):762-766. · PMID 33899795 · DOI 10.1097/DSS.0000000000003005
- Suh DH, Lee SD, Kim HJ, et al. Comparative study of histological differences according to monopolar radiofrequency tip width. Lasers Med Sci. 2026;41(1):150. Aparelhos (texto completo): Thermage CPT × Thermage FLX. · PMID 42439958 · DOI 10.1007/s10103-026-04951-z
- Wang Y, Bai H, Shi C, et al. Evaluation of the Effect of Laterality and Age on Pain Perception in Monopolar Radiofrequency Facial Therapy. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2026;19:577283. · PMID 41924292 · DOI 10.2147/CCID.S577283
- Wang SH, Peng PY, Peng HP. Early Detection of Monopolar Radiofrequency Tip Rupture Using Polarized Dermoscopy: A Preventive Approach Against Treatment-Related Burns. J Cosmet Dermatol. 2026;25(1):e70678. Primeiro autor: ex-consultor da Solta Medical (declarado no artigo). · PMID 41549638 · DOI 10.1111/jocd.70678
- Wang Z, Li L, Zhang X, et al. Long-Term Efficacy and Safety of a Novel Monopolar Radiofrequency Device for Skin Tightening: A Prospective Randomized Controlled Study. Lasers Surg Med. 2025;57(3):259-264. · PMID 39957006 · DOI 10.1002/lsm.70002
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