Toxinas botulínicas novas: Daxxify, Letybo e coreanas
Toxina botulínica

Toxinas botulínicas novas (Daxxify, Letybo, coreanas): o que se sabe

Todo mês aparece um nome novo de toxina em congresso, rede social ou visita de representante. Antes de perguntar se é melhor, vale perguntar o que ela é: qual a formulação, qual a unidade, quantos pacientes foram estudados, contra o quê — e se o produto está registrado no país onde você atende. Esta página reúne o que os estudos publicados dizem sobre as toxinas que mais aparecem nas buscas.

Por muitos anos, a toxina botulínica teve poucos fabricantes; hoje, o médico que pesquisa encontra daxibotulinumtoxinA, letibotulinumtoxinA, prabotulinumtoxinA, relabotulinumtoxinA, nivobotulinumtoxinA e uma lista longa de produtos coreanos. Todas são toxina tipo A e agem no mesmo terminal nervoso. O que as separa é a formulação — com ou sem proteínas complexantes, com albumina ou com outro estabilizante, em pó ou já líquida — e o conjunto de estudos que cada uma acumulou. Esta página organiza o que foi publicado sobre cada uma, sem afirmar registro, preço ou disponibilidade no Brasil: isso se confere na Anvisa, produto por produto.

Por que o mercado se multiplicou

Uma revisão de 2026 sobre as toxinas da Coreia do Sul (Dressler e colaboradores, J Neural Transm) dá a dimensão: são 15 fabricantes coreanos com 19 produtos registrados naquele país, a maior parte para uso estético. Dois deles, de dois fabricantes, também estão registrados nos Estados Unidos e na Europa — prabotulinumtoxinA (Daewoong/Evolus) e letibotulinumtoxinA (Hugel/Croma). Outros 12 são registrados na Coreia para uso doméstico e exportação; entre eles estão o Neuronox, primeiro produto coreano, registrado em 2006, o Innotox (nivobotulinumtoxinA), descrito pelos autores como a primeira toxina tipo A líquida do mundo, e o Coretox, a segunda toxina sem proteínas complexantes. Há ainda 5 produtos registrados apenas para exportação. Com isso, a Coreia passou a ser o país com o maior número de fabricantes de toxina botulínica.

No Brasil, um exemplo de produto coreano no mercado regulado é o Botulift, fabricado pela Medytox e registrado pela Bergamo (registro MS 1.0646.0180), com unidade própria e vedação literal de conversão para qualquer outra toxina. É um produto que o Dr. Thiago conhece e não usa; as toxinas do consultório dele são Botox, Dysport e Xeomin.

Outra revisão de 2026 (Bigalke, Frevert e Dressler, J Neural Transm, com coautor ligado à Merz) resume as mudanças de formulação: a albumina humana foi substituída por gelatina e, nos produtos mais novos, por polissorbatos; além do pó liofilizado ou seco a vácuo, surgiram as preparações líquidas prontas para uso; e duas toxinas recentes, daxibotulinumtoxinA e relabotulinumtoxinA, também são isentas de complexos proteicos, como a incobotulinumtoxinA.

Junção neuromuscular — alvo comum das toxinas botulínicas tipo A novas e estabelecidas — Dr. Thiago Perfeito
Terminal nervoso sobre a placa motora, com a vesícula de acetilcolina em destaque. Daxibotulinumtoxina, letibotulinumtoxina, prabotulinumtoxina e as líquidas agem aqui do mesmo modo; o que muda entre elas é o frasco — excipiente, apresentação e unidade.

DaxibotulinumtoxinA (Daxxify)

A daxibotulinumtoxinA é uma neurotoxina purificada de 150 kDa formulada com um peptídeo excipiente de carga positiva, o RTP004. A revisão de Gupta e colaboradores (2024, Skinmed) descreve a aprovação para linhas glabelares moderadas a graves em adultos, com dose recomendada de 40 U distribuídas em cinco pontos: corrugador medial e lateral dos dois lados e um ponto no prócero. A guarda do frasco fechado, segundo Bigalke, admite temperatura ambiente.

Dois pontos de leitura. A duração foi medida com 40 U de daxibotulinumtoxinA, que é uma unidade própria do produto: comparar “meses de efeito” entre marcas sem fixar a dose em cada unidade é comparar coisas diferentes. E a revisão de Bigalke registra que a alegação de que o peptídeo prolonga a ação não pôde ser comprovada: a duração é dado medido nos ensaios, não efeito demonstrado do excipiente.

LetibotulinumtoxinA

A letibotulinumtoxinA é da Hugel, coreana, uma das duas toxinas daquele país registradas também nos Estados Unidos e na Europa, segundo Dressler. O nome comercial varia de um mercado para outro — Letybo é o que costuma aparecer na busca —, e por isso o que se confere é o princípio ativo na caixa. Letybo é o nome usado no estudo de vida real de Frank e colaboradores (2025, Aesthet Surg J Open Forum).

A metanálise de Masood e colaboradores (2026, Aesthetic Plast Surg) reuniu três ensaios randomizados com 1.272 pacientes com linhas glabelares moderadas a graves, comparando a letibotulinumtoxinA com placebo. O produto foi superior no desfecho composto da semana 4, com eficácia mantida e estatisticamente significativa nas semanas 12 e 16, melhora em desfechos psicológicos e sem aumento de eventos adversos graves ou não graves.

Fora da glabela isolada, o estudo observacional de Frank e colaboradores acompanhou 20 participantes tratados no terço superior inteiro com 64 U de letibotulinumtoxinA, 4 U por ponto em 16 pontos (glabela, fronte e pés de galinha). Na semana 2, a melhora de pelo menos 2 pontos apareceu em 95% das glabelas e em 90% das frontes e dos pés de galinha; 5 participantes (25%) receberam retoque nessa revisão, e não houve reação adversa ao produto. É um registro de vida real do uso no terço superior, sem comparação com outra marca.

PrabotulinumtoxinA

A prabotulinumtoxinA, da Daewoong, comercializada nos Estados Unidos pela Evolus, é uma toxina tipo A de 900 kDa, ou seja, com proteínas complexantes. É das novas a que tem o desenho de estudo mais fácil de ler para quem já usa Botox, porque foi comparada diretamente com ele na mesma dose. No ensaio de fase 3 de Rzany e colaboradores (2020, Aesthet Surg J), 540 adultos receberam 20 U de prabotulinumtoxinA, 20 U de onabotulinumtoxinA ou placebo, em cinco pontos de 0,1 mL na glabela. No dia 30, as taxas de resposta foram de 87,2%, 82,8% e 4,2%, e a não inferioridade em relação à onabotulinumtoxinA foi confirmada.

As líquidas: relabotulinumtoxinA e nivobotulinumtoxinA

A novidade que mais muda a bancada não é a molécula, é a apresentação. Toxina líquida pronta para uso elimina a reconstituição — e, com ela, uma fonte conhecida de erro de concentração.

Reconstituição do frasco de toxina botulínica em pó com diluente — Dr. Thiago Perfeito
O passo que as formulações líquidas eliminam: o diluente entrando no frasco de pó liofilizado. Nas toxinas prontas para uso, a concentração vem definida de fábrica.
Gráfico de taxa de resposta no primeiro mês com relabotulinumtoxinA líquida versus placebo na glabela — Dr. Thiago Perfeito
Desfechos primários do READY-1 no primeiro mês: (A) resposta composta de pelo menos 2 graus, por investigador e participante — 82,9% com relabotulinumtoxinA contra 0% com placebo; (B) linhas ausentes ou leves pelo investigador — 96,3% contra 4,5%. Figure 1 de Shridharani SM et al., Aesthet Surg J 2024 (PMID 38913088), reproduzida sob licença CC BY.

Os números de resposta das duas líquidas não se comparam entre si: os desfechos, as escalas e as populações dos ensaios são diferentes. Cada ensaio mediu o produto contra placebo, com a sua própria régua.

O que conferir antes de usar qualquer toxina nova

Modelo · Cinco checagens antes da primeira aplicação

  1. Registro na Anvisa — consultar o produto pelo nome comercial e pelo princípio ativo. Registro em outro país não vale aqui.
  2. Bula brasileira — dose por área, volume de reconstituição (ou concentração de fábrica, se for líquida), guarda antes e depois de abrir, intervalo mínimo entre aplicações.
  3. Unidade — cada produto tem a sua. As bulas de Botox, Dysport e Xeomin declaram que as unidades não são intercambiáveis; a formação do Dr. Thiago ensina, para essas três, a conversão de referência Botox : Dysport = 1 : 2,5 e Botox : Xeomin = 1 : 1, com ajuste pela resposta. Para duas das coreanas, a mesma tabela da formação usa Botox : Nabota ≈ 1 : 1 e Botox : Letybo ≈ 1 : 1, também com ajuste pela resposta. Para as demais toxinas novas, a dose de partida vem da bula de cada uma, conferida contra o desenho dos ensaios — a prabotulinumtoxinA, por exemplo, foi testada na mesma dose do Botox.
  4. Estudos — quantos, com quantos pacientes, contra placebo ou contra produto já conhecido, e quem financiou.
  5. Rastreabilidade — marca, lote, validade e dose em unidades do produto no prontuário, para que a revisão compare o que deve ser comparado.

Uma observação sobre duração. Os ensaios das novas medem tempo de efeito com a dose e a escala de cada estudo. No consultório do Dr. Thiago, com as toxinas que ele usa, o efeito na face dura de 3 a 4 meses e a revisão é feita entre 15 e 30 dias. Um produto novo entra na rotina quando a experiência com ele se acumula em prontuário, revisão a revisão.

Erros na hora de adotar uma toxina nova

  1. Transportar a dose de outra marca sem abrir a bula do produto novo.
  2. Ler “duração de 6 meses” sem olhar a dose que produziu aquela duração no ensaio.
  3. Tratar líquida e pó como intercambiáveis — a concentração da líquida vem de fábrica; diluir “por hábito” muda a dose por ponto.
  4. Assumir registro no Brasil porque o produto é aprovado nos Estados Unidos, na Europa ou na Coreia.
  5. Introduzir a novidade no paciente que estava estável — a troca sem motivo transforma uma rotina previsível num experimento.

Declaração: o Dr. Thiago Perfeito não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica, entre eles os citados nesta página.

Onde esse critério se aprende

Avaliar uma toxina nova é aplicar o mesmo raciocínio que se usa com as já estabelecidas: unidade, diluição, mapa de pontos, revisão. Na Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito, médico, CRM-DF 23199, de Medicina Estética e Regenerativa, farmacologia e marcas do mercado brasileiro fazem parte do módulo de Toxina e Preenchimento, com pré-work gravado antes do sábado presencial. No sábado, a parte teórica é demonstração comentada; a prática é a aplicação supervisionada em paciente modelo, com até 8 médicos na turma. Os outros módulos ficam em /cursos/. Para as diferenças entre as toxinas já estabelecidas, veja Botox ou Dysport; os demais textos estão em /cursos/blog/.

Perguntas frequentes

Quais são as toxinas botulínicas novas?

As mais estudadas na estética são daxibotulinumtoxinA (Daxxify), letibotulinumtoxinA (Hugel), prabotulinumtoxinA (Daewoong/Evolus), relabotulinumtoxinA (Galderma, líquida) e nivobotulinumtoxinA (Innotox, líquida). Todas são toxina tipo A; mudam a formulação e o conjunto de estudos de cada uma.

Daxxify dura mais que as outras toxinas?

Nos ensaios SAKURA 1 e 2, com 40 U de daxibotulinumtoxinA na glabela, as linhas ficaram ausentes ou leves por mediana de cerca de 24 semanas, contra placebo e numa unidade própria do produto. Uma revisão de 2026 (Bigalke e colaboradores) registra que a alegação de que o peptídeo da formulação prolonga a ação não pôde ser comprovada.

Essas toxinas estão registradas no Brasil?

Esta página não afirma registro nem disponibilidade no Brasil das toxinas novas que descreve. O registro se confere na consulta de produtos da Anvisa, pelo nome comercial e pelo princípio ativo. Aprovação nos Estados Unidos, na Europa ou na Coreia não vale como registro aqui.

Dá para converter a dose de Botox para uma toxina nova?

A formação do Dr. Thiago ensina a conversão de referência Botox : Dysport = 1 : 2,5 e Botox : Xeomin = 1 : 1 e, para duas coreanas, Botox : Nabota ≈ 1 : 1 e Botox : Letybo ≈ 1 : 1 — sempre com a ressalva das bulas de que as unidades não são intercambiáveis e com ajuste pela resposta. Para as demais toxinas novas, cada produto tem unidade própria: a dose de partida vem da bula dele e dos ensaios que o compararam ao Botox, quando existem.

Toxina líquida é melhor que toxina em pó?

Ela elimina a reconstituição e, com isso, uma fonte de erro de concentração. Os ensaios de fase 3 das líquidas mostraram superioridade sobre o placebo no primeiro mês. A vantagem que se vê na bancada é operacional: menos etapas e concentração definida de fábrica.

Toxina coreana é a mesma coisa que Botox?

É toxina botulínica tipo A, com o mesmo mecanismo. Formulação, processo de fabricação, unidade e estudos são próprios de cada produto. Por isso cada uma se avalia pela bula e pelos ensaios dela, e não por semelhança com outra marca.

Referências

  1. Dressler D, Kim N, Johnson EA, Adib Saberi F. Korean botulinum toxins. J Neural Transm (Vienna). 2026;133(6):971-975. · PMID 41619020 · DOI 10.1007/s00702-025-03076-x
  2. Bigalke H, Frevert J, Dressler D. Therapeutic botulinum toxin preparations: an update. J Neural Transm (Vienna). 2026;133(6):965-969. · PMID 42084637 · DOI 10.1007/s00702-026-03121-3
  3. Carruthers JD, Fagien S, Joseph JH, et al. DaxibotulinumtoxinA for Injection for the Treatment of Glabellar Lines: Results from Each of Two Multicenter, Randomized, Double-Blind, Placebo-Controlled, Phase 3 Studies (SAKURA 1 and SAKURA 2). Plast Reconstr Surg. 2020;145(1):45-58. · PMID 31609882 · DOI 10.1097/PRS.0000000000006327
  4. Gupta AK, Mann A, Vincent K, Abramovits W. DAXXIFY (DaxibotulinumtoxinA-Lanm) for Injection, for Intramuscular Use. Skinmed. 2024;22(4):290-294. · PMID 39285572
  5. Gallagher CJ, Bowsher RR, Clancy A, et al. Clinical Immunogenicity of DaxibotulinumtoxinA for Injection in Glabellar Lines: Pooled Data from the SAKURA Phase 3 Trials. Toxins (Basel). 2023;15(1):60. · PMID 36668880 · DOI 10.3390/toxins15010060
  6. Masood M, Khan RSS, Masood S, et al. Efficacy and Safety of LetibotulinumtoxinA for the Treatment of Moderate-to-Severe Glabellar Lines: A Systematic Review and Meta-Analysis of RCTs. Aesthetic Plast Surg. 2026;50(9):3427-3437. · PMID 41501424 · DOI 10.1007/s00266-025-05550-z
  7. Rzany BJ, Ascher B, Avelar RL, et al. A Multicenter, Randomized, Double-Blind, Placebo-Controlled, Single-Dose, Phase III, Non-Inferiority Study Comparing PrabotulinumtoxinA and OnabotulinumtoxinA for the Treatment of Moderate to Severe Glabellar Lines in Adult Patients. Aesthet Surg J. 2020;40(4):413-429. · PMID 30951166 · DOI 10.1093/asj/sjz110
  8. Shridharani SM, Moradi A, Donofrio L, et al. Efficacy and Safety of RelabotulinumtoxinA, a New Ready-to-Use Liquid Formulation Botulinum Toxin: Results From the READY-1 Double-Blind, Randomized, Placebo-Controlled Phase 3 Trial in Glabellar Lines. Aesthet Surg J. 2024;44(12):1330-1340. · PMID 38913088 · DOI 10.1093/asj/sjae131
  9. Coleman W, Bertucci V, Humphrey S, et al. NivobotulinumtoxinA in the Treatment of Glabellar Lines With or Without Concurrent Treatment of Lateral Canthal Lines in Two Phase 3 Clinical Trials. Aesthet Surg J. 2025;45(4):404-413. · PMID 39587780 · DOI 10.1093/asj/sjae233
  10. Frank K, Duschek N, Prinz V, Friedrich M, Cajkovsky M. Real-World Outcomes of a Novel Botulinum Toxin A for Upper Face Aesthetics: Insights From Routine Clinical Practice. Aesthet Surg J Open Forum. 2025;7:ojaf136. · PMID 41322039 · DOI 10.1093/asjof/ojaf136
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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