Precificação e ticket

Avaliação gratuita na clínica vale a pena? A conta de quem enche a agenda de curioso

A agenda de avaliações está cheia, a recepção comemora, e o fechamento do mês não acompanha. A tarde foi gasta explicando o mesmo protocolo para quem saiu com o orçamento na mão e foi comparar em outras clínicas. Ninguém anotou quantas avaliações viraram tratamento — então ninguém sabe se a gratuidade trouxe paciente ou só trouxe movimento.

A resposta direta: depende de uma conta que se faz com os números da própria clínica. Na gratuita, a receita é horários de avaliação ocupados × taxa de conversão × ticket; na paga, quem não fecha deixa o valor da avaliação, e quem fecha tem esse valor abatido do tratamento. A gratuita vence quando a paga não alcança o número de fechamentos de empate: (receita da gratuita − horários ocupados na paga × valor da avaliação) ÷ (ticket − valor da avaliação). O modelo Avaliação Abatida cobra a avaliação e abate o valor do tratamento indicado nela, se contratado dentro de um prazo publicado. E anunciar serviço médico gratuito em consultório privado aparece na Res. CFM 2.336/2023 entre as formas de concorrência desleal.

Em que estágio da clínica este tema pesa

  1. 0Improvisar
  2. 1Monetizar
  3. 2Atrair
  4. 3Estabilizar
  5. 4Priorizar
  6. 5Produtizar
  7. 6Otimizar
  8. 7Organizar
  9. 8Especializar
  10. 9Capitalizar

Estágio 4 · Priorizar

A clínica diz sim para tudo, e isso custa margem. Aqui se escolhe o paciente ideal, o preço e o que deixar de fazer.

Seu papel
Gestor
Equipe
5 a 9 pessoas
O gargalo
Você faz de tudo, para todo tipo de paciente
Você sai quando
A agenda está cheia do paciente ideal e dos procedimentos de maior margem
Veja os 10 estágios e em qual está a sua clínica →

O que a avaliação gratuita esconde: o horário tem custo mesmo quando o paciente não paga

A gratuidade parece custo zero porque não sai dinheiro do caixa. O que sai é o horário. Cada avaliação ocupa um intervalo de agenda do médico que carrega a mesma fração de aluguel, equipe e sistemas de qualquer outro atendimento — e esse intervalo deixa de estar disponível para quem já decidiu tratar e só precisava de uma data.

O problema não é a avaliação sem cobrança em si. É a política sem medição. Quando a gratuita entra para encher a agenda, o número que aparece na tela é o de horários preenchidos. Os dois números que decidem a política — quantas avaliações viraram tratamento e quanto cada horário de avaliação gerou de receita — ficam fora do painel. Com a agenda cheia, a sensação é de demanda; com a conversão sem registro, não há como distinguir demanda de curiosidade.

A gratuidade também pode mudar quem agenda. Sem custo de entrada, marcar uma avaliação é o mesmo gesto de pedir um orçamento por mensagem, e o paciente que está comparando preço entre clínicas tem o mesmo incentivo para ocupar o horário que o paciente decidido. Por isso a taxa de conversão de uma política não serve para a outra: a comparação exige medir as duas.

O mecanismo: ocupação × conversão, e o ponto em que uma política empata com a outra

A base da receita é a mesma nas duas políticas: horários ocupados, multiplicados pela fração que vira tratamento (a taxa de conversão), multiplicados pelo ticket do tratamento. A gratuita aposta em ocupação alta; a paga aceita ocupação menor em troca de dois efeitos que a conta enxerga — o valor retido de quem avaliou e não fechou, e o filtro que o preço de entrada exerce sobre quem agenda.

Na política abatida, quem fecha dentro do prazo paga o ticket cheio no total: parte na avaliação, o restante no tratamento. Quem não fecha paga só a avaliação. Então a receita da paga é: fechamentos × ticket + (horários ocupados − fechamentos) × valor da avaliação. Igualando essa receita à da gratuita, sai o número de fechamentos que a paga precisa alcançar para empatar:

fechamentos de empate na paga = (receita da gratuita − horários ocupados na paga × valor da avaliação) ÷ (ticket − valor da avaliação)

Fechamentos de empate na avaliação paga

(receita da gratuita − horários ocupados na paga × valor da avaliação)÷(ticket − valor da avaliação)=fechamentos de empate na paga

A fórmula não decide sozinha quem vence. Ela diz qual taxa de conversão a política paga precisa sustentar com a ocupação que ela de fato terá. Se o seu histórico mostra que a paga não chega lá, a gratuita é a escolha certa para a sua clínica — e a conta deixa isso tão visível quanto o contrário.

Modelo: Avaliação Abatida — a avaliação tem preço, e o valor volta para quem trata
  1. Medir a política atual por um período fechado. Defina o [PERÍODO DE MEDIÇÃO] e registre, por avaliação realizada, se virou tratamento contratado e o valor contratado. Pronto quando houver três números do período: horários ocupados, fechamentos e ticket médio dos fechamentos.
  2. Calcular o empate. Escolha o valor da avaliação e calcule o empate para os cenários de ocupação na paga: a mesma da gratuita, metade dela e, se houver, sua estimativa. Pronto quando os números de empate estiverem escritos ao lado dos fechamentos que a gratuita produziu.
  3. Publicar a política por escrito. Use o texto abaixo, com valor, prazo e tratamento abatível preenchidos. Pronto quando a recepção tiver a política impressa e a mesma versão estiver no sistema de mensagens.
  4. Emitir o orçamento na própria avaliação. O paciente sai com o orçamento escrito do tratamento indicado, com a data da avaliação, o prazo de abatimento, o valor do tratamento pela tabela e o valor com o abatimento, válido até a data-limite do prazo. Pronto quando nenhuma avaliação terminar sem orçamento entregue.
  5. Treinar a recepção nas mensagens. Use as falas abaixo, sem improviso sobre valor ou abatimento. Pronto quando a recepção responder as três situações sem consultar o médico.
  6. Revisar ao fim de um período igual. Depois do mesmo [PERÍODO DE MEDIÇÃO], refaça a conta com os números medidos da política paga. Pronto quando a decisão de manter ou voltar estiver registrada com os dois resultados lado a lado.
Exemplo ilustrativo

Números fictícios, só para mostrar a conta — troque cada um pelo seu. Uma clínica reserva 40 horários de avaliação por mês. Na política gratuita, os 40 foram ocupados e 6 viraram tratamento, com ticket de R$ 3.000: receita de 6 × R$ 3.000 = R$ 18.000, taxa de conversão de 6 ÷ 40 = 15% e receita de R$ 18.000 ÷ 40 = R$ 450 por horário de avaliação. Na política abatida, a avaliação custa R$ 300 e a clínica estima 24 horários ocupados. Empate: (R$ 18.000 − 24 × R$ 300) ÷ (R$ 3.000 − R$ 300) = (R$ 18.000 − R$ 7.200) ÷ R$ 2.700 = 4 fechamentos, taxa de 4 ÷ 24 ≈ 16,7%. Conferência: 4 × R$ 3.000 + 20 × R$ 300 = R$ 12.000 + R$ 6.000 = R$ 18.000, ou R$ 750 por horário ocupado e os mesmos R$ 450 por horário reservado. Com 3 fechamentos na paga: 3 × R$ 3.000 + 21 × R$ 300 = R$ 15.300 — a gratuita gera mais. Com 5: 5 × R$ 3.000 + 19 × R$ 300 = R$ 20.700 — a paga gera mais. Nos outros cenários do passo 2: com 40 ocupados, (R$ 18.000 − 40 × R$ 300) ÷ R$ 2.700 ≈ 2,2; com 20, (R$ 18.000 − 20 × R$ 300) ÷ R$ 2.700 ≈ 4,4 — como fechamento é inteiro, a paga gera mais a partir de 3 e de 5. A conta não credita os horários que a paga deixa livres (16 no cenário de 24); se você os vende, some esse valor ao lado da paga antes de comparar.

A política de avaliação abatida, pronta para preencher

O texto abaixo vai para a recepção, para o site da clínica e para a mensagem de confirmação. Os campos entre colchetes são os únicos que mudam de clínica para clínica. Como a política tem efeito sobre valor pago, valide a redação final com o seu contador ou assessor jurídico antes de publicar.

Política de avaliação — [NOME DA CLÍNICA]
1. A avaliação de [TIPO DE TRATAMENTO] custa [VALOR DA AVALIAÇÃO] e inclui a consulta com o médico, o exame da área e o orçamento escrito do tratamento indicado.
2. Se você contratar o tratamento indicado nesse orçamento em até [PRAZO EM DIAS] dias contados da data da avaliação, o valor da avaliação é abatido integralmente do valor do tratamento.
3. O abatimento vale uma vez, só para o tratamento do orçamento emitido nessa avaliação. Tratamento diferente, ou contratado depois do prazo, segue a tabela sem abatimento.
4. Se você decidir não fazer o tratamento, o valor da avaliação não é devolvido: ele remunera a consulta realizada.
5. Remarcação da avaliação com até [ANTECEDÊNCIA] de antecedência não tem custo. Falta sem aviso segue a [POLÍTICA DE FALTAS DA CLÍNICA].

Na avaliação, o médico entrega o orçamento escrito, e é a data dela que abre o prazo de abatimento. O Código de Ética Médica veda ao médico deixar de ajustar previamente com o paciente o custo estimado dos procedimentos (art. 61) — o orçamento escrito é onde esse ajuste fica registrado, com o abatimento da avaliação e o prazo dele à vista do paciente.

As mensagens da recepção que informam o valor sem perder o contato

São três situações, e cada uma tem uma fala. Nenhuma promete abatimento fora do que a política publica.

1. O paciente pergunta se a avaliação é gratuita.
"Oi, [NOME]! A avaliação de [TIPO DE TRATAMENTO] aqui é com o Dr(a). [NOME DO MÉDICO], custa [VALOR DA AVALIAÇÃO] e você já sai com o orçamento escrito do tratamento indicado. Se decidir contratar o tratamento em até [PRAZO EM DIAS] dias, o valor da avaliação é abatido inteiro. Tenho [DIA] às [HORÁRIO] ou [DIA] às [HORÁRIO] — algum deles serve?"

2. O paciente responde que em outra clínica a avaliação é de graça.
"Entendo, [NOME]. Aqui a avaliação é uma consulta com o médico, com exame e orçamento por escrito, e por isso ela tem valor. Para quem contrata o tratamento em até [PRAZO EM DIAS] dias, ela sai sem custo, porque o valor é abatido. Posso reservar [DIA] às [HORÁRIO] para você?"

3. O paciente não responde depois de saber o valor (enviar uma vez, em [DIAS SEM RESPOSTA] dias).
"Oi, [NOME], passando só para não deixar sua pergunta sem resposta. Os horários de avaliação desta semana são [DIA] às [HORÁRIO] e [DIA] às [HORÁRIO]. Se preferir, posso te mandar a política de avaliação por escrito, com o abatimento explicado."

Aplicação prática: a mesma resposta, especialidades diferentes

A pergunta "a avaliação é gratuita?" chega em qualquer clínica de procedimento eletivo. A diferença entre a resposta fraca e a resposta pelo modelo é se o paciente ouve valor, conteúdo da avaliação, abatimento e horário na mesma mensagem.

EspecialidadeResposta fracaResposta pelo modelo
Medicina estética"Não, a avaliação é paga, [VALOR DA AVALIAÇÃO].""Custa [VALOR DA AVALIAÇÃO], com exame e orçamento escrito; contratando o tratamento em até [PRAZO EM DIAS] dias, é abatida. Tenho [DIA] às [HORÁRIO]."
Tricologia"Cobramos a consulta, depois o doutor vê.""A avaliação capilar custa [VALOR DA AVALIAÇÃO] e já sai com o plano e o orçamento; o valor é abatido se você contratar em até [PRAZO EM DIAS] dias. [DIA] às [HORÁRIO] serve?"
Cirurgia plástica"A primeira consulta é paga, sim.""A consulta de avaliação custa [VALOR DA AVALIAÇÃO] e inclui o orçamento escrito; se a cirurgia for contratada em até [PRAZO EM DIAS] dias, o valor é abatido. Tenho [DIA] às [HORÁRIO]."
Oftalmologia"Só fazendo a consulta para saber o preço.""A avaliação para cirurgia refrativa custa [VALOR DA AVALIAÇÃO], com exames e orçamento escrito; é abatida se você contratar a cirurgia em até [PRAZO EM DIAS] dias. [DIA] às [HORÁRIO] fica bom?"
Nutrologia"É consulta normal, particular.""A avaliação do programa custa [VALOR DA AVALIAÇÃO] e termina com o plano e o orçamento por escrito; contratando o programa em até [PRAZO EM DIAS] dias, o valor é abatido. Posso reservar [DIA] às [HORÁRIO]?"

As nuances mudam o prazo, não a estrutura. Onde o tratamento depende de exame complementar antes da decisão o prazo precisa caber o tempo do exame, senão o abatimento vence antes de o paciente conseguir decidir. Em tratamentos de sessão única, um prazo curto mantém a decisão perto da avaliação. E há o limite de anúncio: a Res. CFM 2.336/2023, no art. 11, veda ao médico e, naquilo que couber, às pessoas jurídicas de natureza médica praticar concorrência desleal (inciso XVI), e o § 4º, c, inclui nessa definição anunciar a prestação de serviços médicos gratuitos em seu consultório privado. O dispositivo rege o anúncio: manter a avaliação sem cobrança é outra questão, anunciá-la é o que a alínea descreve; em caso de dúvida, consulte o CRM da sua jurisdição.

A política abatida só funciona se o orçamento que sai da avaliação for acompanhado até a decisão — o prazo de abatimento vira a data natural do contato, e o roteiro está em follow-up de orçamento com o paciente. E o ticket que entra na fórmula de empate precisa ser um preço calculado, não copiado: o método está em como precificar procedimento médico.

Perguntas frequentes

Avaliação gratuita na clínica de estética vale a pena?

Depende da conta feita com os números da própria clínica. Na gratuita, a receita é horários de avaliação ocupados vezes a fração que vira tratamento vezes o ticket. Na política paga e abatida, quem não fecha deixa o valor da avaliação e quem fecha tem esse valor abatido do tratamento. A gratuita vence quando a paga não alcança o número de fechamentos de empate, calculado pela fórmula da página. Sem medir quantas avaliações viraram tratamento, não há como saber qual das duas gera mais receita.

Como calcular se a avaliação paga compensa mais que a gratuita?

Use a fórmula de fechamentos de empate: receita da gratuita menos horários ocupados na paga vezes o valor da avaliação, tudo dividido pelo ticket menos o valor da avaliação. O resultado é quantos fechamentos a política paga precisa alcançar para gerar a mesma receita. Acima disso, a paga gera mais; abaixo, a gratuita gera mais. No exemplo fictício da página, com receita de 18 mil na gratuita, 24 horários ocupados na paga, avaliação de 300 e ticket de 3 mil, o empate fica em 4 fechamentos.

O que é avaliação abatida no tratamento?

É a política em que a avaliação tem preço e o valor pago é abatido integralmente do tratamento indicado no orçamento daquela avaliação, desde que o paciente contrate dentro de um prazo contado da data da avaliação. O abatimento vale uma vez e só para o tratamento daquele orçamento; tratamento diferente ou contratado depois do prazo segue a tabela sem abatimento. Se o paciente decide não tratar, o valor não é devolvido, porque remunera a consulta realizada.

O médico pode anunciar avaliação gratuita no consultório?

A Resolução CFM 2.336/2023, no art. 11, veda ao médico e, naquilo que couber, às pessoas jurídicas de natureza médica praticar concorrência desleal, e o parágrafo 4º, alínea c, inclui nessa definição anunciar a prestação de serviços médicos gratuitos em seu consultório privado. O dispositivo rege o anúncio: manter a avaliação sem cobrança é outra questão, anunciá-la é o que a alínea descreve. Em caso de dúvida, consulte o CRM da sua jurisdição.

Como a recepção deve responder quando o paciente pergunta se a avaliação é de graça?

Na mesma mensagem, a recepção informa o valor, o que a avaliação inclui, a regra de abatimento e dois horários. A fala da página diz que a avaliação é com o médico, custa o valor definido, termina com orçamento escrito, e que o valor é abatido se o tratamento for contratado dentro do prazo. Quando o paciente compara com clínica que não cobra, a resposta explica que a avaliação é uma consulta com exame e orçamento, e oferece um horário.

Qual prazo de abatimento usar na avaliação paga?

A página não fixa um número: o prazo é um campo da política que cada clínica preenche. O critério é o tempo real até a decisão. Onde o tratamento depende de exame complementar antes, o prazo precisa caber esse exame, senão o abatimento vence antes de o paciente conseguir decidir. Em tratamentos de sessão única, um prazo curto mantém a decisão perto da avaliação.

Referências

  1. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.336/2023 — art. 11, caput ("É vedado ao médico e, naquilo que couber, às pessoas jurídicas, entes sindicais e associativos de natureza médica"), inciso XVI (praticar concorrência desleal) e § 4º, c ("anunciar a prestação de serviços médicos gratuitos em seu consultório privado"); sustenta o limite de anúncio da avaliação gratuita.
  2. Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica (CEM 2019) — art. 61, Capítulo VIII ("É vedado ao médico: Deixar de ajustar previamente com o paciente o custo estimado dos procedimentos"); sustenta o ajuste prévio do custo, que o orçamento escrito da avaliação registra.

Os números do exemplo são fictícios e ilustrativos, não constituindo promessa de resultado. Cada consultório tem realidade própria. Este conteúdo não substitui orientação contábil, jurídica ou de proteção de dados (LGPD) específica para o seu caso.

Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Médico, dono de consultório particular em Brasília–DF. Escreve sobre gestão, precificação e operação de consultório a partir da própria prática — não de teoria de consultoria.

Do preço certo para a clínica que sustenta o preço

A Mentoria Clínica Empresarial leva margem, mix e reajuste à prática no seu consultório, fase a fase — para dono de clínica de qualquer especialidade.

Conhecer a Mentoria →