Financeiro e unit economics

Controle de estoque de insumo na clínica: a ficha e o ponto de pedido

Quarta-feira, meio da tarde: a secretária abre a gaveta para preparar a sala e o item acabou. O fornecedor entrega só na sexta. Duas consultas são remanejadas, uma paciente sai sem o procedimento marcado. No mês seguinte, o inventário aparece do outro lado do mesmo problema: uma caixa fechada há meses, comprada "para não faltar de novo", ocupando dinheiro que já saiu do caixa e ainda não voltou.

A resposta direta: pede-se quando o estoque atingir o ponto de pedido (PP), calculado como PP = CMD × LT + ES — consumo médio diário das últimas 12 semanas, vezes o prazo de entrega do fornecedor em dias, mais a margem de segurança (ES = CMD × maior atraso já observado com aquele fornecedor). A contagem é semanal para os itens de maior valor imobilizado (classe A) e mensal para o resto, com CMD, LT e ES revistos a cada trimestre. A quantidade de cada pedido cobre o consumo até essa próxima revisão — nunca "comprar por impulso quando falta". Item que se aproxima do vencimento é sinalizado na ficha, e o que vence primeiro sai primeiro (PVPS).

Em que estágio da clínica este tema pesa

  1. 0Improvisar
  2. 1Monetizar
  3. 2Atrair
  4. 3Estabilizar
  5. 4Priorizar
  6. 5Produtizar
  7. 6Otimizar
  8. 7Organizar
  9. 8Especializar
  10. 9Capitalizar

Estágio 4 · Priorizar

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O sistema invisível: por que "comprar quando falta" custa duas vezes

A gestão de estoque por sensação funciona em dois modos, e os dois custam dinheiro. No primeiro, alguém só nota a falta quando vai usar o item — e nesse ponto já é tarde: o fornecedor tem um prazo de entrega que não é zero, e a agenda da semana não espera. No segundo, para não repetir o susto, a clínica compra além do necessário na próxima vez, e o excesso vira caixa parado numa prateleira, com o risco adicional de vencer antes de ser usado.

Os dois modos parecem opostos — faltar versus sobrar —, mas nascem do mesmo defeito de desenho: ninguém decidiu, com uma regra escrita, quando pedir e quanto pedir. Sem essa regra, a decisão de compra fica presa à memória de quem está de plantão naquele dia, e a memória não enxerga o prazo do fornecedor nem o consumo real do item. "Pedir quando lembrar" e "pedir bastante para garantir" são a mesma ausência de sistema, só que em direções opostas.

O que falta não é vontade de controlar — é um número que diga, para cada item, exatamente onde fica a linha entre "ainda dá tempo de pedir" e "já devia ter pedido". Esse número existe, e é o ponto de pedido.

O mecanismo: por que consumo, prazo e atraso somados funcionam

O ponto de pedido responde a uma pergunta simples: quanto do item ainda preciso ter em mãos no momento em que decido pedir mais, para não ficar sem nada até a entrega chegar? A resposta tem duas partes. A primeira é o consumo esperado durante o prazo de entrega: se o item sai numa certa velocidade por dia (o CMD) e o fornecedor demora um certo número de dias para entregar (o LT), o estoque vai cair CMD × LT unidades só esperando a entrega chegar — mesmo que tudo corra dentro do previsto.

A segunda parte cobre o que não corre dentro do previsto: o fornecedor que atrasa. Se ele já atrasou antes, esse atraso tem um tamanho conhecido, e a margem de segurança (ES) existe para cobrir exatamente essa diferença — CMD multiplicado pelo maior atraso já observado com aquele fornecedor. A soma das duas partes, CMD × LT + ES, é o estoque mínimo que precisa existir no exato instante em que o pedido é feito. Pedir só quando o item já acabou ignora as duas partes; pedir "uma quantidade grande, para garantir" tenta compensar essa ausência com volume, sem nunca saber se o volume é o certo.

Modelo: PPS — Ponto de Pedido com Segurança
  1. Defina a unidade de compra do item. Caixa, frasco, seringa ou o que o fornecedor efetivamente vende — nunca convertida para outra unidade (mililitro, grama). O CMD, o LT, o ES e o PP do item são sempre medidos nessa mesma unidade de compra.
  2. Meça o CMD — consumo médio diário das últimas 12 semanas. Some quantas unidades saíram do estoque nas últimas 12 semanas e divida pelo número de dias do período. É o consumo médio, não o consumo do dia mais movimentado.
  3. Levante o LT — prazo de entrega do fornecedor, em dias. Da confirmação do pedido até o item estar disponível na clínica, com o fornecedor real que a clínica usa, não um prazo "de tabela".
  4. Calcule a ES — margem de segurança. ES = CMD × maior atraso, em dias, já observado com esse fornecedor. Fornecedor sem histórico de atraso registrado entra com ES = 0 até que a primeira revisão trimestral traga um número real.
  5. Some PP = CMD × LT + ES. O resultado é o nível de estoque que dispara o pedido. Quando a contagem mostrar o estoque naquele número ou abaixo dele, o pedido é feito no mesmo dia.
  6. Defina a quantidade do pedido pela cobertura até a próxima revisão trimestral. Peça o suficiente para cobrir o CMD do item até a data da próxima revisão de CMD/LT/ES — nunca uma quantidade decidida por impulso no momento em que o item falta.
Exemplo ilustrativo

Item genérico, unidades abstratas — troque pelos números do seu item. CMD = 0,5 unidade/dia. LT = 10 dias. Maior atraso já observado com o fornecedor = 4 dias. ES = CMD × atraso = 0,5 × 4 = 2. PP = CMD × LT + ES = 0,5 × 10 + 2 = 5 + 2 = 7 unidades. Sempre que a contagem mostrar 7 unidades ou menos desse item no estoque, o pedido é feito naquele mesmo dia — refaça a conta com o CMD, o LT e o atraso reais do seu fornecedor.

A ficha de controle, pronta para copiar

Uma linha por SKU (item + unidade de compra). O campo "Estoque atual" alimenta a comparação com o PP; quando o estoque atual fica igual ou abaixo do PP, o campo "Qtd. de pedido" é preenchido e o pedido sai no mesmo dia. As colunas CMD, LT e ES só mudam na revisão trimestral — não a cada contagem.

ItemUnidade de compraLoteValidadeEstoque atualCMDLTESPPQtd. de pedidoFornecedorData da última contagem
[NOME DO ITEM][caixa/frasco/seringa][LOTE][DD/MM/AAAA][QTD.][CMD][LT em dias][ES][PP = CMD×LT+ES][QTD. ATÉ A PRÓXIMA REVISÃO][FORNECEDOR][DD/MM/AAAA]
[NOME DO ITEM][caixa/frasco/seringa][LOTE][DD/MM/AAAA][QTD.][CMD][LT em dias][ES][PP = CMD×LT+ES][QTD. ATÉ A PRÓXIMA REVISÃO][FORNECEDOR][DD/MM/AAAA]

Duas regras fecham a ficha. A rotina de contagem: semanal para os itens de maior valor imobilizado (classe A — estoque atual multiplicado pelo custo do item, ranqueado do maior para o menor, com o corte — quantos itens do topo entram na classe A — fixado na revisão trimestral e anotado na ficha) e mensal para o resto, com CMD, LT e ES revistos a cada trimestre, nunca a cada contagem. E a regra de validade: o que vence primeiro sai primeiro (PVPS) — o item mais próximo do vencimento fica na frente da prateleira e é o primeiro a ser usado —, e todo item que chega a 60 dias do vencimento é sinalizado na própria ficha, na coluna de validade, para entrar na conferência da semana em curso mesmo que a contagem regular dele seja mensal.

Aplicação prática: a mesma conta, insumos diferentes

A fórmula não muda entre especialidades — o que muda é qual item entra na ficha e com que unidade de compra. A tabela abaixo compara a decisão de pedido por sensação com a decisão pelo PP calculado.

EspecialidadeDecisão por sensaçãoDecisão pelo PPS
Cardiologia"Pede quando vê a caixa de eletrodos quase vazia.""Mede o CMD de eletrodos das últimas 12 semanas, soma ao LT do fornecedor e pede quando o estoque atinge o PP calculado — não quando alguém nota a caixa vazia."
Ginecologia"Os kits de coleta a gente repõe quando acaba.""O kit de coleta entra na ficha com sua própria unidade de compra; o pedido sai no dia em que a contagem mostra o estoque no PP, não no dia em que falta."
Ortopedia"O material de curativo compra-se de vez em quando, em quantidade grande.""A quantidade de cada pedido de material de curativo cobre o CMD até a próxima revisão trimestral — nem mais, nem menos."
Oftalmologia"Os frascos da sala a gente repõe direto do fornecedor de plantão.""O frasco entra na ficha com seu LT real e seu ES, calculados a partir do fornecedor que a clínica de fato usa."
Clínica de procedimentos estéticos"Seringas e agulhas a gente compra sempre; não precisa contar.""Seringas e agulhas entram na ficha por unidade de compra, com contagem semanal se estiverem na classe A pelo valor imobilizado."

As nuances aparecem no fornecedor e na unidade de compra, não na fórmula. Consultório com fornecedor único e prazo de entrega curto tem LT pequeno. Como ES = CMD × atraso, cada dia de atraso medido acrescenta ao PP o mesmo que um dia de LT — por isso o atraso do fornecedor merece o mesmo cuidado de medição que o prazo. Consultório que compra de vários fornecedores para o mesmo item escolhe um deles como referência do LT e do atraso — o mais lento, se a meta é não faltar —, e a fórmula segue a mesma. Item de unidade de compra grande (uma caixa que rende semanas de uso) tende a ter CMD baixo nessa unidade, e isso é esperado: o PP acompanha a unidade escolhida, não o item físico individual.

A ficha de estoque só sustenta a operação se estiver amarrada ao resto do financeiro do consultório: insumo comprado e parado é dinheiro que já saiu do fluxo de caixa do consultório e ainda não voltou, e o item que vence sem uso entra na conta de quanto custa manter o consultório.

Ponto de Pedido com Segurança (PPS)

CMD — consumo médio diário, últimas 12 semanas×LT — prazo de entrega do fornecedor, em dias+ES — margem de segurança: CMD × maior atraso já observado com o fornecedor=PP — ponto de pedido: quando o estoque atinge esse número, o pedido é feito no mesmo dia

Perguntas frequentes

Como calcular o ponto de pedido de um insumo na clínica?

O ponto de pedido (PP) é PP = CMD × LT + ES. CMD é o consumo médio diário do item nas últimas 12 semanas; LT é o prazo de entrega do fornecedor, em dias; ES é a margem de segurança, calculada como CMD multiplicado pelo maior atraso, em dias, já observado com esse fornecedor. O resultado é o nível de estoque que dispara o pedido: quando a contagem mostra o item nesse número ou abaixo dele, o pedido é feito no mesmo dia. Fornecedor sem histórico de atraso entra com ES igual a zero até a primeira revisão trimestral trazer um número real.

Com que frequência contar o estoque da clínica?

Semanalmente para os itens de maior valor imobilizado — a classe A, definida pelo estoque atual multiplicado pelo custo do item, do maior para o menor, com o corte fixado na revisão trimestral — e mensalmente para o restante. Os parâmetros da fórmula (CMD, LT e ES) não mudam a cada contagem: eles são revistos a cada trimestre, com base no consumo, no prazo e no histórico de atraso mais recentes daquele item e daquele fornecedor.

O que é margem de segurança no controle de estoque?

É a parte do ponto de pedido que cobre o fornecedor atrasar. Calcula-se como ES = CMD × maior atraso, em dias, já observado com aquele fornecedor. Ela é somada ao consumo esperado durante o prazo normal de entrega (CMD × LT) para formar o ponto de pedido completo. Sem essa margem, o pedido calculado só funciona se o fornecedor nunca atrasar — e todo fornecedor com histórico de atraso, mesmo pequeno, expõe a clínica a ficar sem o item antes da entrega chegar.

Posso converter a unidade de compra para calcular o estoque?

Não. A ficha registra o item na mesma unidade em que ele é comprado — caixa, frasco, seringa — e o CMD, o LT, o ES e o PP daquele item são todos medidos nessa unidade de compra, nunca convertidos para outra (mililitro, grama). Converter unidades no meio da conta troca a base de comparação e faz o ponto de pedido calculado não corresponder ao que o fornecedor de fato entrega naquele pedido.

Como decidir a quantidade de cada pedido de insumo?

A quantidade do pedido cobre o consumo médio diário do item até a data da próxima revisão trimestral de CMD, LT e ES — não uma quantidade decidida por impulso no momento em que o item está acabando ou faltando. Pedir mais do que essa cobertura imobiliza caixa em estoque parado; pedir menos aproxima a próxima contagem do risco de faltar antes da entrega seguinte chegar.

O que é a regra PVPS no controle de validade de insumo?

PVPS significa que o item com validade mais próxima sai primeiro: ele fica na frente da prateleira e é o primeiro a ser usado, para não vencer parado atrás de um lote mais novo. Na ficha de controle, todo item que chega a 60 dias do vencimento é sinalizado na coluna de validade, para entrar na conferência da semana em curso mesmo que a contagem regular dele, pela classe, seja mensal.

Referências

    Os números deste artigo são fictícios e ilustrativos, não constituindo promessa de resultado. Cada consultório tem realidade própria de demanda, ticket e perfil de paciente. Este conteúdo não substitui orientação contábil, jurídica ou de proteção de dados (LGPD) específica para o seu caso.

    Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
    Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
    Médico, dono de consultório particular em Brasília–DF. Escreve sobre gestão, precificação e operação de consultório a partir da própria prática — não de teoria de consultoria.

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