Financeiro e unit economics

Curva ABC de pacientes: a planilha que mostra quem sustenta a receita da clínica

O paciente que faz o tratamento completo, volta para a manutenção e ainda indica a família ouve, ao fim da consulta, a mesma frase que o paciente que veio uma vez: "qualquer coisa, é só marcar". A recepção não sabe quem é quem: o financeiro enxerga a receita do mês, a agenda enxerga o horário, e ninguém enxerga a receita por paciente. Quando esse paciente some, a clínica só percebe meses depois.

A resposta direta: a curva ABC de pacientes é uma planilha montada a partir de só três dados — identificador do paciente, data do atendimento e valor cobrado. Saem da lista quem não tem valor cobrado nos 12 meses (lista "sem receita na janela") e quem teve a primeira consulta há menos de 90 dias (marca "novo", revisto na rodada seguinte). Para os demais, soma-se a receita dos 12 meses, põe-se em ordem decrescente e calcula-se o percentual acumulado. A faixa A vai até o primeiro cujo acumulado alcança ou passa de 80%, ele incluído; a B, idem até 95%; a C, o restante. A faixa A sai com retorno já agendado e contato de relacionamento do médico; a B, com plano escrito; a C, na régua automática de retorno. A curva é refeita a cada trimestre; 80/95 é ponto de partida ajustável.

Em que estágio da clínica este tema pesa

  1. 0Improvisar
  2. 1Monetizar
  3. 2Atrair
  4. 3Estabilizar
  5. 4Priorizar
  6. 5Produtizar
  7. 6Otimizar
  8. 7Organizar
  9. 8Especializar
  10. 9Capitalizar

Estágio 4 · Priorizar

A clínica diz sim para tudo, e isso custa margem. Aqui se escolhe o paciente ideal, o preço e o que deixar de fazer.

Seu papel
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O sistema invisível: o custo de tratar todo paciente igual

Tratar todo paciente igual parece justo, e no cuidado clínico é: a conduta sai da indicação, não do faturamento. O problema está em outro lugar — no retorno. Sem processo definido, o retorno depende de o paciente lembrar de ligar. A régua é a mesma para todos, e ela é passiva.

Essa régua passiva não custa o mesmo em todos. Quem fez uma consulta avulsa e não voltou leva embora uma consulta; quem vinha fazendo o tratamento inteiro leva embora uma fatia da receita anual — pelo mesmo caminho silencioso, porque ninguém tinha marcado o próximo encontro nem sabia que ele era diferente. Dois pontos cegos sustentam o problema:

O mecanismo: ordenar e acumular mostra o que a média esconde

O valor do paciente ao longo do tempo — o LTV — responde quanto um paciente rende em média. A curva ABC responde outra pergunta: como a receita se distribui entre os pacientes. É a distribuição que diz onde o retorno marcado faz diferença.

Ordenar do maior para o menor e ir somando faz a curva subir rápido no começo, onde estão os pacientes que mais investiram, e achatar no fim. Os cortes em 80% e 95% do acumulado transformam essa curva em três grupos com ação diferente. A regra do cruzamento resolve a fronteira: o paciente cuja receita leva o acumulado a 80% ou mais está em A, porque sem ele a faixa A não chega aos 80%.

Os números 80 e 95 não são lei — são ponto de partida. Se a faixa A fica grande demais para o médico contatar todos, baixe o primeiro corte; se quer mais gente com plano escrito, suba o segundo. O método não muda: os dois filtros de entrada descritos a seguir, janela de 12 meses, ordem decrescente, percentual acumulado, corte por cruzamento.

A curva também tem dois filtros de entrada. Paciente sem valor cobrado na janela não é o fim da fila C: não sustenta receita nenhuma nos 12 meses e pertence a outra lista, a "sem receita na janela" — nome que diz o que ela mede. O caso típico de paciente ativo nessa lista é quem está em acompanhamento com pacote cobrado antes da janela. E paciente que chegou há menos de 90 dias ainda não teve tempo de mostrar quanto vai investir; classificá-lo cedo o poria numa faixa baixa por falta de histórico.

Modelo: Curva ABC da Base — a receita dos 12 meses ordenada em três faixas
  1. Exporte três colunas. Do sistema de agenda ou do financeiro, tire uma linha por atendimento com identificador do paciente, data do atendimento e valor cobrado — nada além disso, nenhum dado clínico —, e salve o arquivo com acesso restrito a quem opera a agenda e o financeiro. O valor cobrado entra na data do atendimento em que foi cobrado: pacote cobrado de uma vez conta inteiro nessa data, e parcelamento não muda a data. A exportação traz os atendimentos desde o cadastro; os anteriores à janela servem só para saber a data da primeira consulta. Pronto quando o arquivo tem as três colunas e ninguém fora dessas funções o abre.
  2. Separe quem fica fora da curva. Paciente sem valor cobrado na janela vai para a lista "sem receita na janela": recebe a régua automática de retorno, o mesmo piso da faixa C, e volta a passar por este passo na rodada seguinte. Paciente com primeira consulta há menos de 90 dias da data do corte recebe a marca "novo", não é classificado nesta rodada, segue a régua automática de retorno e volta a passar por este passo na rodada seguinte. Se as duas situações coincidem — primeira consulta recente e nenhum valor cobrado —, vale a marca "novo". Pronto quando nenhum dos dois está na lista a ordenar e a receita deles fica fora do total.
  3. Some a receita da janela e ordene. Para cada paciente restante, some o valor cobrado nos atendimentos com data nos 12 meses fechados até o corte — essa é a receita da janela. Ordene do maior para o menor; em empate de valor, a ordem entre eles segue o identificador. Some a coluna inteira: esse é o total da curva. Pronto quando a lista está ordenada e o total, calculado.
  4. Calcule o percentual acumulado. Em cada linha, acumulado em reais é a soma daquela linha com todas as de cima; percentual acumulado é o acumulado dividido pelo total da curva, vezes 100. Pronto quando a última linha dá exatamente 100%.
  5. Corte as faixas. A: do primeiro paciente até o primeiro cujo percentual acumulado alcança ou passa de 80%, ele incluído. B: do seguinte até o primeiro que alcança ou passa de 95%, ele incluído. C: todos os demais. Registre a faixa ao lado do identificador e marque-a no cadastro do paciente no sistema de agenda, onde a recepção a vê no atendimento. Pronto quando cada linha tem A, B ou C.
  6. Aja por faixa e refaça a cada trimestre. A: o paciente sai do atendimento com o próximo retorno já agendado, no intervalo que o médico indicou, e antes desse retorno recebe um contato de relacionamento: o próprio médico liga ou escreve para saber como o paciente está e confirmar a data. B: recebe plano escrito com as próximas etapas e a época de cada uma, e a recepção agenda seguindo o plano. C: entra na régua automática de retorno — a mensagem automática que lembra o paciente do retorno no intervalo que o médico indicou. Conduta clínica, resultado de exame, urgência e intervalo de retorno seguem o mesmo padrão em todas as faixas; queixa clínica relatada no contato da faixa A segue o fluxo clínico de qualquer paciente. A cada trimestre a curva é recalculada e a ação segue a faixa atual; retorno que já estava agendado é mantido quando o paciente desce de faixa — ninguém é desmarcado. Pronto quando cada faixa tem a sua ação registrada.

A escolha das três colunas do passo 1 segue o princípio da necessidade da Lei Geral de Proteção de Dados, que limita o tratamento de dados pessoais ao mínimo necessário para a finalidade — aqui, medir a distribuição da receita, para a qual dado clínico não é pertinente; e restringir quem abre o arquivo é medida administrativa contra acesso não autorizado, tema da mesma lei.

Curva ABC da Base — quem entra em cada faixa e o que recebe

  1. AAté o primeiro cujo acumulado alcança ou passa de 80%, ele incluído: retorno já agendado e contato de relacionamento do próprio médico
  2. BDo seguinte até o primeiro que alcança ou passa de 95%, ele incluído: plano escrito com as próximas etapas
  3. COs demais com receita na janela: régua automática de retorno
  4. ForaSem valor cobrado na janela: lista sem receita na janela, na régua automática de retorno. Primeira consulta há menos de 90 dias: marca novo, revisto na rodada seguinte
A curva é recalculada a cada trimestre; a ação segue a faixa atual e nenhum retorno agendado é desmarcado.
Exemplo ilustrativo

Uma clínica fictícia, no corte do trimestre, exporta os atendimentos de 14 pacientes, identificados só por código. Dois saem antes de ordenar: o Paciente 13 teve a primeira consulta 40 dias antes do corte, com R$ 600 cobrados — marca "novo", fora do total —, e o Paciente 14, cliente antigo, não tem nenhum valor cobrado nos 12 meses — lista "sem receita na janela". Sobram 12 pacientes, todos com primeira consulta há 90 dias ou mais, cuja soma é o total da curva: R$ 40.000. Todos os valores são fictícios; troque cada linha pelo número da sua planilha e refaça a coluna do acumulado.

PacienteReceita da janelaAcumulado% acumuladoFaixa
01R$ 9.000R$ 9.00022,5%A
02R$ 7.000R$ 16.00040%A
03R$ 6.000R$ 22.00055%A
04R$ 5.000R$ 27.00067,5%A
05R$ 4.000R$ 31.00077,5%A
06R$ 3.000R$ 34.00085%A (cruza 80%)
07R$ 2.000R$ 36.00090%B
08R$ 1.400R$ 37.40093,5%B
09R$ 1.000R$ 38.40096%B (cruza 95%)
10R$ 800R$ 39.20098%C
11R$ 500R$ 39.70099,25%C
12R$ 300R$ 40.000100%C

A conferência das faixas, com os mesmos números fictícios: A = 6 pacientes, R$ 9.000 + R$ 7.000 + R$ 6.000 + R$ 5.000 + R$ 4.000 + R$ 3.000 = R$ 34.000, que é 85% de R$ 40.000. B = 3 pacientes, R$ 2.000 + R$ 1.400 + R$ 1.000 = R$ 4.400, que é 11%. C = 3 pacientes, R$ 800 + R$ 500 + R$ 300 = R$ 1.600, que é 4%. R$ 34.000 + R$ 4.400 + R$ 1.600 = R$ 40.000, e 85% + 11% + 4% = 100%. O Paciente 06 fica em A mesmo com o acumulado em 85%, porque é ele quem cruza a linha dos 80%; pelo mesmo motivo, o Paciente 09, com 96%, fica em B.

Aplicação prática: a mesma curva, vozes diferentes

A coluna da esquerda é a frase única que a clínica diz a todos; a da direita, a que a faixa do paciente pede.

EspecialidadeVersão igual para todosVersão pela faixa
Cardiologia"Quando os exames ficarem prontos, a senhora liga para marcar o retorno."Faixa A: "O retorno já está marcado na data que o doutor indicou, e antes dele o próprio doutor liga para ver como a senhora está."
Ginecologia e obstetrícia"Qualquer dúvida sobre os próximos passos, é só mandar mensagem."Faixa B: "Este é o seu plano por escrito, com as próximas etapas e a época de cada uma. A recepção marca seguindo este plano."
Ortopedia"Se precisar voltar, é só ligar."Faixa C: "Você vai receber a mensagem automática de retorno no intervalo que o doutor indicou; é só responder para marcar."
Psiquiatria"A gente se fala na próxima consulta, quando você marcar."Faixa A: "A próxima consulta já sai marcada daqui. Antes dela, o próprio doutor liga para confirmar a data com você."
Estética e procedimentos eletivos"Quando quiser repetir, é só chamar."Faixa B: "Seu plano escrito traz a manutenção indicada e a época de cada sessão; a recepção agenda seguindo o plano."

Em qualquer especialidade, a curva não cria indicação clínica: intervalo do retorno e necessidade de cada etapa saem da avaliação do médico; a faixa muda quem marca, quando e quem faz o contato. A troca de faixa não pune: quem desce de A para B no recálculo mantém o retorno que já tinha, e quem sobe de C para A passa a receber a ação da faixa A a partir daquela rodada. E a curva mede receita, não importância: em acompanhamento longo com consulta de valor baixo, a faixa C pode conter pacientes de cuidado contínuo — para eles a régua automática de retorno é o piso de cuidado, não um descarte.

A faixa A pede duas coisas que dependem de desenho: o contato de relacionamento do médico só se sustenta quando cabe na semana, e o retorno agendado só vira receita quando tem propósito claro para o paciente. A primeira é desenho de jornada — ver experiência do paciente no consultório. A segunda é desenho do próprio retorno — ver consulta de retorno como receita.

Perguntas frequentes

Como fazer a curva ABC de clientes numa clínica médica?

Exporte do sistema uma linha por atendimento com três dados: identificador do paciente, data do atendimento e valor cobrado. Tire da lista quem não tem valor cobrado nos últimos 12 meses e quem teve a primeira consulta há menos de 90 dias. Para os demais, some o valor cobrado nos 12 meses fechados até o corte, ordene do maior para o menor e calcule o percentual acumulado sobre o total. A faixa A vai até o primeiro paciente cujo acumulado alcança ou passa de 80%, ele incluído; a B, até o primeiro que alcança ou passa de 95%, ele incluído; a C reúne os demais. Os cortes 80 e 95 são ponto de partida ajustável.

Como descobrir quais pacientes dão mais receita para a clínica?

O extrato mensal não responde, porque soma por mês e não por paciente. A resposta sai da soma do valor cobrado por paciente numa janela fixa de 12 meses, ordenada do maior para o menor, depois de separar quem não tem valor cobrado na janela e quem teve a primeira consulta há menos de 90 dias. Com o percentual acumulado ao lado, os pacientes que aparecem no topo até a linha dos 80% formam a faixa A: são os que, somados, sustentam essa parte da receita da janela. Quem cruza a linha dos 80% também fica em A. A lista é refeita a cada trimestre, e a ação de cada paciente segue a faixa em que ele está no recálculo mais recente.

Qual a diferença entre curva ABC de pacientes e LTV?

O LTV, valor do paciente ao longo do tempo, responde quanto um paciente rende em média. A curva ABC responde como a receita se distribui entre os pacientes: sem quem não tem valor cobrado nos 12 meses e sem quem teve a primeira consulta há menos de 90 dias, ordenada do maior para o menor, a faixa A vai até o primeiro cujo acumulado alcança ou passa de 80% dessa receita, ele incluído, a B até o primeiro que alcança ou passa de 95%, ele incluído, e a C reúne o restante. A média é útil para decidir quanto vale trazer um paciente novo; a distribuição é o que diz em quais pacientes o retorno já agendado e o contato de relacionamento do próprio médico fazem diferença.

Paciente sem receita no último ano entra na faixa C da curva ABC?

Não. Paciente sem valor cobrado na janela de 12 meses fica fora da curva e vai para outra lista, a "sem receita na janela": recebe a régua automática de retorno e volta aos filtros na rodada seguinte. O caso típico de paciente ativo nessa lista é quem está em acompanhamento com pacote cobrado antes da janela. A faixa C reúne só quem teve receita na janela e ficou depois do corte de 95%. Também fica fora da classificação o paciente com primeira consulta há menos de 90 dias da data do corte: recebe a marca novo, segue a régua automática de retorno e é revisto na rodada seguinte. Se as duas situações coincidem, vale a marca novo.

O que fazer com os pacientes de cada faixa da curva ABC?

Faixa A: o paciente sai do atendimento com o próximo retorno já agendado, no intervalo que o médico indicou, e antes desse retorno recebe um contato de relacionamento: o próprio médico liga ou escreve para saber como o paciente está e confirmar a data. Faixa B: recebe plano escrito com as próximas etapas e a época de cada uma, e a recepção agenda seguindo o plano. Faixa C: entra na régua automática de retorno, no intervalo que o médico indicou. A curva não cria indicação clínica: intervalo e necessidade de cada etapa saem da avaliação do médico; a faixa muda quem marca, quando e quem faz o contato. Conduta clínica, resultado de exame e urgência seguem o mesmo padrão em todas as faixas.

De quanto em quanto tempo refazer a curva ABC e o que acontece quando o paciente muda de faixa?

A curva é recalculada a cada trimestre, sempre com a janela dos 12 meses fechados até a data do corte. A ação segue a faixa atual do paciente. Quem desce de faixa, por exemplo de A para B, mantém o retorno que já estava agendado: ninguém é desmarcado por causa do recálculo. Quem sobe, por exemplo de C para A, passa a receber a ação da faixa A a partir daquela rodada. O paciente marcado como novo numa rodada passa, na seguinte, pelos mesmos filtros e cortes que valem para todos os outros: pode entrar numa faixa ou na lista sem receita na janela.

A planilha de curva ABC de pacientes pode ter dado clínico?

O desenho proposto usa só identificador do paciente, data do atendimento e valor cobrado, sem diagnóstico nem prontuário, porque a finalidade é medir como a receita se distribui e dado clínico não é pertinente a ela. A escolha segue o princípio da necessidade da Lei Geral de Proteção de Dados, art. 6º, III, que limita o tratamento ao mínimo necessário para a finalidade. O acesso ao arquivo fica restrito a quem opera a agenda e o financeiro, medida administrativa contra acesso não autorizado, tema do art. 46 da mesma lei. Valide o desenho com seu assessor de proteção de dados.

Referências

  1. Brasil. Lei Geral de Proteção de Dados (Lei 13.709/2018) — art. 6º, III, princípio da necessidade ("limitação do tratamento ao mínimo necessário para a realização de suas finalidades, com abrangência dos dados pertinentes, proporcionais e não excessivos"), que baliza a planilha usar só identificador, data do atendimento e valor cobrado; e art. 46 ("medidas de segurança, técnicas e administrativas aptas a proteger os dados pessoais de acessos não autorizados"), que baliza o acesso restrito ao arquivo.

Os números do exemplo são fictícios e ilustrativos, não constituindo promessa de resultado. Cada consultório tem realidade própria. Este conteúdo não substitui orientação contábil, jurídica ou de proteção de dados (LGPD) específica para o seu caso.

Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Médico, dono de consultório particular em Brasília–DF. Escreve sobre gestão, precificação e operação de consultório a partir da própria prática — não de teoria de consultoria.

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