Financeiro e unit economics

Custo por paciente atendido: quanto a clínica gasta antes de o paciente sentar

A agenda da tarde estava cheia de consultas marcadas. No fim do dia, havia horários vazios — pacientes que cancelaram, faltaram ou remarcaram para a semana seguinte. A sala continuou aberta, a secretária continuou trabalhando, o sistema de prontuário continuou rodando, e o aluguel não devolveu a fração das horas vagas. Quando alguém pergunta quanto custa cada paciente que a clínica atende, a resposta que sai de cabeça costuma somar só o material usado — gaze, anestésico, insumo do procedimento — e ignora que a estrutura inteira correu igual, independente de quem sentou.

A resposta direta: custo por paciente atendido é o custo total do mês — soma do custo fixo (estrutura, pessoas, sistemas, contabilidade e obrigações, marketing recorrente) com o custo variável (material, insumo, comissão, taxa de cartão) — dividido pelo número de pacientes que de fato sentaram na consulta naquele mês, não pelos que foram marcados na agenda. O denominador é o que decide o resultado: dividir pelos marcados esconde o custo das vagas que ficaram abertas, porque esse custo não desaparece — ele só deixa de aparecer na conta de quem calculou errado. Comparar esse número com o ticket médio do mesmo período mostra, em média, se sobra margem ou se a consulta está pagando para acontecer.

O sistema invisível: o custo que corre com a sala vazia

O erro mais comum de quem tenta medir quanto custa atender um paciente é olhar só para o que aquele atendimento específico consumiu de material. Faz sentido à primeira vista: se a consulta não usa insumo nenhum, parece não ter custo. Só que o consultório não para de custar entre um paciente e outro. Cinco categorias de custo correm o mês inteiro, agenda cheia ou não:

Some essas cinco categorias e você tem o custo fixo do mês — o que existe mesmo com a agenda vazia. Depois entra o custo variável, que só aparece quando há atendimento de verdade: material, insumo, comissão sobre procedimento, taxa de cartão sobre a venda daquele paciente específico. O custo total do mês é a soma dos dois. Quem conta só o segundo — o variável, o que o paciente "consumiu" — está medindo uma fração pequena da conta real, e a fração que fica de fora continua sendo paga por alguém, mesmo sem aparecer em lugar nenhum.

O mecanismo: por que o denominador decide o resultado

Duas clínicas podem ter exatamente o mesmo custo total no mês e chegar a números de custo por paciente completamente diferentes — porque a diferença não está no numerador, está em quem entra no denominador. Dividir pelos atendimentos marcados na agenda é dividir por uma agenda que existe só no papel. Dividir pelos atendimentos realizados — pacientes que efetivamente sentaram — é dividir pela operação real. A primeira conta sempre dá um número menor, porque distribui o mesmo custo fixo por mais gente do que de fato passou pela porta. E é esse número menor, otimista e errado, que faz um médico achar que está com margem quando está no zero a zero ou no vermelho.

O motivo é mecânico, não filosófico: o custo fixo do mês não se importa se o paciente compareceu. Ele já foi gasto antes de a agenda abrir. Quando um horário marcado fica vazio, o custo daquele horário não some — ele se redistribui automaticamente sobre quem sentou. É por isso que uma agenda com faltas frequentes custa, por paciente atendido, mais do que uma agenda igualmente cheia de marcações mas com comparecimento maior: o mesmo custo fixo está sendo dividido por menos gente.

Modelo: CPPA — Custo Por Paciente Atendido, em 6 passos
  1. Some o custo fixo do mês. Estrutura, pessoas, sistemas, contabilidade e obrigações, marketing recorrente — as cinco categorias que correm independentemente da agenda.
  2. Some o custo variável do mês. Material, insumo, comissão por procedimento e taxa de cartão sobre a venda — tudo o que só existe porque houve atendimento.
  3. Feche o Custo Total do mês. Custo fixo mais custo variável, os dois do mesmo período de apuração (o mesmo mês, do primeiro ao último dia).
  4. Conte os Atendimentos do mês. Pacientes que sentaram na consulta naquele mês — não os marcados na agenda, não os agendados para o mês seguinte, não os que remarcaram e ainda não voltaram.
  5. Divida. Custo por Paciente Atendido = Custo Total do mês ÷ Atendimentos do mês. É o valor médio que cada paciente que sentou custou para a operação existir naquele mês.
  6. Compare com o ticket médio do mesmo mês. Ticket médio menos custo por paciente atendido é a margem por paciente — o número que diz se a consulta sustenta o consultório ou só o mantém funcionando.

A planilha que sustenta essa conta tem nove linhas, e você a monta hoje com os números do seu próprio mês:

LinhaO que entraPreencha com
EstruturaAluguel, condomínio, energia, internet, limpezavalor do mês
PessoasSecretária, recepção, apoio, com encargosvalor do mês
SistemasProntuário, agenda online, telefonia, softwarevalor do mês
Contabilidade e obrigaçõesContador, taxas do conselho, tributos do regimevalor do mês
Marketing recorrenteSite, redes, anúncio contínuovalor do mês
Custo variável do mêsMaterial, insumo, comissão, taxa de cartãovalor do mês
Custo Total do mêsSoma das seis linhas acimasome as seis linhas
Atendimentos do mêsPacientes que sentaram na consultaconte no seu sistema de agenda
Custo por Paciente AtendidoCusto Total do mês ÷ Atendimentos do mêsdivida o Custo Total do mês pelos Atendimentos do mês — as duas linhas logo acima desta
Exemplo ilustrativo

Um ortopedista fecha o mês com custo fixo de R$ 10.400 (estrutura, pessoas, sistemas, contabilidade e obrigações, marketing recorrente) e custo variável de R$ 1.800 (material de infiltração, taxa de cartão sobre os procedimentos do mês). Custo Total do mês: R$ 12.200. Noventa consultas foram marcadas na agenda naquele mês, mas 68 pacientes de fato sentaram na consulta dentro do mesmo mês. Custo por Paciente Atendido: R$ 12.200 ÷ 68 = R$ 179,41 (arredondado ao centavo). Se ele tivesse dividido pelos 90 marcados, o número teria saído R$ 135,56 — mais barato e mais falso, porque o custo fixo das vagas que ficaram abertas não some, só deixa de aparecer na conta de quem dividiu errado. O ticket médio dele no mesmo mês é de R$ 260 por atendimento. Margem por paciente: R$ 260 − R$ 179,41 = R$ 80,59. Os números são fictícios; a estrutura da conta — custo total dividido pelos que sentaram, comparado ao ticket médio — é o que se refaz com os números da sua própria clínica.

Aplicação prática: a mesma conta, vozes diferentes

O erro de olhar só o custo do material muda de roupa conforme a especialidade, mas é sempre o mesmo erro: confundir o que o paciente consumiu com o que o mês inteiro custou.

EspecialidadeVersão fracaVersão pelo modelo
Cardiologia"O exame ergométrico paga a consulta; o resto é lucro.""O custo por paciente atendido soma a sala e o aparelho parados nos horários vagos — não só o insumo do exame que rodou."
Ginecologia"A consulta de rotina não tem custo, é só conversa e exame físico.""O custo por paciente atendido divide secretária, sistema e sala pelos que sentaram — a consulta de rotina carrega a mesma fatia que qualquer outro atendimento."
Ortopedia"O procedimento no consultório paga o material; a consulta avulsa é de graça.""O custo por paciente atendido soma todo o custo do mês e divide pelos que sentaram — a consulta avulsa carrega parte do aluguel e da equipe mesmo sem gerar procedimento."
Psiquiatria"Não tenho insumo nem procedimento, então meu custo por atendimento é quase zero.""O custo por paciente atendido soma estrutura, pessoas e sistemas mesmo sem material físico — a sala e a secretária custam igual, com ou sem insumo."
Nutrologia"Cobro pelo exame laboratorial que peço; a consulta em si não pesa na conta.""O custo por paciente atendido inclui o mês inteiro de estrutura na consulta que não gera exame — o custo fixo não pergunta se saiu pedido."

A proporção entre custo fixo e custo variável muda de especialidade para especialidade — quem tem procedimento com insumo caro carrega mais custo variável por atendimento; quem só faz consulta carrega o custo no lado fixo, quase sem custo variável. A fórmula não muda entre especialidades: Custo Total do mês dividido pelos Atendimentos do mês que sentaram. Uma especialidade com custo variável alto tem mais motivo para separar as duas parcelas — o custo fixo continua rodando igual, e é ele quem determina o piso que a agenda vazia já custou antes do primeiro paciente do dia.

Esse número só faz sentido lido ao lado de dois outros: o mapa completo do custo fixo mensal está em quanto custa manter um consultório por mês, e o valor médio que cada atendimento traz de volta está em ticket médio do consultório. Custo por paciente atendido sozinho mostra só o que sai. Ao lado desses dois, a conta fica completa: o que já foi gasto antes da agenda abrir, o que cada paciente atendido custou, e o que cada atendimento trouxe de volta.

Perguntas frequentes

Quanto custa cada paciente atendido na clínica?

O custo por paciente atendido é o custo total do consultório em um mês — custo fixo (estrutura, pessoas, sistemas, contabilidade e obrigações, marketing recorrente) somado ao custo variável (material, insumo, comissão, taxa de cartão) — dividido pelo número de pacientes que de fato sentaram na consulta naquele mês. Não é o custo do material usado num atendimento específico: é o custo médio de manter a operação inteira funcionando, repartido entre quem passou pela porta. Comparado ao ticket médio do mesmo mês, esse número mostra se cada paciente atendido deixa margem ou se a consulta está apenas pagando a própria estrutura.

Como calcular o custo por paciente atendido no consultório?

Some o custo fixo do mês — estrutura, pessoas, sistemas, contabilidade e obrigações, marketing recorrente — ao custo variável do mesmo período — material, insumo, comissão, taxa de cartão. Esse total é o Custo Total do mês. Conte quantos pacientes sentaram na consulta naquele mês, não os que apenas foram marcados na agenda. Divida o Custo Total do mês pelos Atendimentos do mês: o resultado é o custo por paciente atendido. Compare com o ticket médio do mesmo mês para descobrir a margem que sobra, ou falta, por paciente atendido.

Por que contar os pacientes marcados na agenda dá um número errado?

Porque o custo fixo do consultório continua existindo mesmo quando um horário marcado não vira atendimento — a sala, a secretária e os sistemas já foram pagos antes de a agenda abrir. Dividir o custo total pelos marcados espalha esse custo por mais gente do que realmente sentou, o que produz um custo por paciente menor e artificialmente otimista. O custo das vagas que ficaram abertas não desaparece: ele apenas deixa de aparecer na conta de quem dividiu pelo número errado, e reaparece como margem menor do que o médico imaginava ter.

Ticket médio e custo por paciente atendido são a mesma coisa?

Os dois dividem pelo mesmo número — Atendimentos do mês —, mas contam coisas opostas: o ticket médio é a receita total dividida pelos atendimentos, o que entra por paciente. O custo por paciente atendido é o custo total dividido pelos mesmos atendimentos, o que sai por paciente. Subtrair o segundo do primeiro dá a margem por paciente: o que sobra depois de pagar a fatia de estrutura, equipe e material que cada atendimento carrega. Olhar só o ticket médio sem o custo por paciente atendido mostra o lado do faturamento, sem mostrar o lado da sobra real.

O custo por paciente atendido muda todo mês?

Sim, porque os dois números que compõem a conta mudam: o custo total varia com reajuste de aluguel, salário, sistemas e imposto, e o número de atendimentos varia com faltas, cancelamentos e sazonalidade da agenda. Um mês com mais faltas e o mesmo custo fixo produz um custo por paciente atendido mais alto, porque o mesmo total está sendo dividido por menos gente. Por isso o cálculo vale para um único mês por vez, com os números daquele período — comparar meses diferentes exige refazer a conta com os dados de cada um, não reaproveitar um valor antigo.

O que entra no custo variável do consultório, além do material?

Insumo do procedimento, comissão paga por procedimento realizado e taxa de cartão sobre a venda daquele atendimento específico — qualquer despesa, além do material, que só existe porque houve atendimento e sobe ou desce junto com o volume do mês. Diferente do custo fixo, que continua igual com a agenda cheia ou vazia, o custo variável some quando não há atendimento nenhum no mês. Especialidades com procedimento de insumo caro carregam mais custo variável por paciente; especialidades de consulta pura carregam o custo variável baixo — a taxa de cartão continua entrando a cada consulta paga, então ele não some de vez — com o peso do mês concentrado no lado fixo. A fórmula de dividir o Custo Total pelos Atendimentos do mês não muda em nenhuma delas.

Referências

  1. Receita Federal. Portal do Simples Nacional — fonte oficial das faixas de faturamento do regime, base da afirmação de que a carga tributária do consultório varia com o faturamento dentro dessas faixas.

Os números do exemplo são fictícios e ilustrativos, não constituindo promessa de resultado. Cada consultório tem realidade própria. Este conteúdo não substitui orientação contábil, jurídica ou de proteção de dados (LGPD) específica para o seu caso.

Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Médico, dono de consultório particular em Brasília–DF. Escreve sobre gestão, precificação e operação de consultório a partir da própria prática — não de teoria de consultoria.

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