Financeiro e unit economics

DRE do consultório: o relatório mensal de uma página que responde se sobrou dinheiro

Fim do mês, o médico abre o aplicativo do banco, vê o saldo maior do que estava no início e relaxa: deu para pagar tudo e ainda sobrou. Três semanas depois, a guia do imposto do mês fechado chega e o saldo que parecia sobra vira aperto. O extrato nunca mentiu — ele só nunca respondeu à pergunta que importa, que não é "quanto tem na conta hoje" e sim "quanto o consultório realmente ganhou no mês".

A resposta direta: a DRE do consultório é um relatório de seis linhas — Receita, Custo variável, Margem, Custo fixo, Resultado e Retirada — que separa o valor dos atendimentos do mês, pago ou não, do que sobrou de fato depois de descontar o que só existe por causa do atendimento e o que existe mesmo com a agenda vazia. Ela responde se o consultório deu lucro; o extrato bancário responde quanto tem na conta hoje, que soma recebíveis de meses diferentes e imposto ainda não separado. O imposto sobre a receita entra no Custo variável, porque varia com a receita — não no Custo fixo. Retirada até o Resultado, a diferença fica no consultório; acima dele, abate no mês seguinte.

Em que estágio da clínica este tema pesa

  1. 0Improvisar
  2. 1Monetizar
  3. 2Atrair
  4. 3Estabilizar
  5. 4Priorizar
  6. 5Produtizar
  7. 6Otimizar
  8. 7Organizar
  9. 8Especializar
  10. 9Capitalizar

Estágio 4 · Priorizar

A clínica diz sim para tudo, e isso custa margem. Aqui se escolhe o paciente ideal, o preço e o que deixar de fazer.

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O sistema invisível: por que o saldo do banco não é o resultado do mês

O extrato bancário é uma lista de movimentações por data. A receita de um convênio que atendeu em março pode cair em maio; o cartão parcelado de uma paciente pinga em três meses; a guia do imposto de um atendimento pago no PIX só vence no mês seguinte, mas o dinheiro dele já estava misturado no saldo desde o dia do pagamento. Nenhuma dessas três coisas aparece separada no extrato — todas entram no mesmo número, o saldo. Quando esse número está positivo no dia em que o médico olha, a leitura automática é "deu lucro". Às vezes deu; às vezes o saldo só está inflado por um recebível antigo ou por um imposto que ainda não venceu.

A demonstração de resultado — a DRE — existe para responder a essa pergunta sem depender de quando o dinheiro efetivamente circulou. Ela organiza o mês em categorias fixas, numa ordem fixa: primeiro o valor dos atendimentos, depois o que só existe por causa de quem foi atendido, depois o que existe independente da agenda, e só então o que sobrou de verdade — o número que autoriza (ou não) tirar dinheiro para a pessoa física. Um consultório pode ter o extrato positivo e a DRE negativa no mesmo mês, e é exatamente essa divergência que o relatório existe para expor antes que ela vire um boleto sem dinheiro guardado para pagar.

O mecanismo: por que Custo variável e Custo fixo não podem ser a mesma linha

A DRE só funciona se as duas categorias de custo forem mantidas separadas, porque elas respondem perguntas diferentes. Custo fixo é o que o consultório paga mesmo com a agenda vazia — aluguel, salário da equipe permanente, sistema de prontuário, contabilidade. Ele não muda se o médico atende dois pacientes no mês ou vinte. Custo variável é o oposto: só existe porque houve atendimento — material consumido, taxa de cartão dos atendimentos do mês, comissão quando houver, e o imposto que incide sobre a receita do mês.

Um erro que aparece na primeira vez que se monta a conta: tratar o imposto como custo fixo, porque ele "sempre vem" todo mês. Mas um imposto que incide sobre a receita varia com ela, exatamente como o material de consumo; confirme com a contabilidade a alíquota efetiva do seu regime. Separar as duas categorias é o que permite calcular a Margem — Receita menos Custo variável — antes de perguntar se a estrutura fixa do consultório está sendo paga por essa margem.

Modelo: DRE em 6 Linhas
  1. Registrar a Receita. Somar o valor de todo atendimento do mês — particular e convênio, registrando as duas fontes em separado dentro da mesma linha. A linha fecha quando cada atendimento do mês está contado uma vez, pago ou não — o que caiu na conta por atendimento de meses anteriores fica de fora.
  2. Apurar o Custo variável. Somar o que só existe porque houve atendimento naquele mês: imposto sobre a receita, material e insumo consumidos, taxa de cartão dos atendimentos contados na linha 1 (não do total que a maquininha liquidou no mês) e comissão quando houver. A linha fecha quando cada item tem lastro — percentual efetivo de imposto do seu regime, definido com a contabilidade, aplicado à linha 1; material consumido nesses atendimentos, pelo preço da nota de compra; taxa registrada na maquininha para esses atendimentos; relatório de comissão desses atendimentos —, nenhum chutado de memória.
  3. Calcular a Margem. Margem = Receita − Custo variável, uma única subtração. A linha fecha quando o valor sai direto da fórmula, sem passar por um número já arredondado antes.
  4. Levantar o Custo fixo. Somar o que existe mesmo com a agenda vazia — estrutura, equipe permanente, sistemas e contabilidade. A linha fecha quando cobre o mês inteiro do contrato correspondente (aluguel do mês, folha do mês), não uma média de outro período.
  5. Apurar o Resultado. Resultado = Margem − Custo fixo. A linha fecha quando esse número — não o saldo do banco — é o que orienta a decisão da linha seguinte.
  6. Definir a Retirada. Transferir para a pessoa física um valor decidido antes de olhar o saldo da conta. A linha fecha quando esse valor é comparado ao Resultado da linha anterior: até o Resultado, a diferença fica no consultório; acima dele, abate no mês seguinte — o excesso é registrado e descontado da Retirada do mês seguinte, ou o Custo fixo é cortado no mesmo valor.

DRE em 6 Linhas — a conta em três subtrações

Receita − Custo variável = MargemMargem − Custo fixo = ResultadoResultado − Retirada = Saldo que fica no consultório=Saldo que fica no consultório
Exemplo ilustrativo

Cenário fictício, com números inventados apenas para demonstrar a mecânica de um mês fechado. Um consultório realiza R$ 48.000 em atendimentos no mês, apurados pela competência do atendimento. O imposto sobre a receita, com percentual efetivo hipotético de 6% neste exemplo, soma R$ 2.880; material e insumo consumidos somam R$ 3.200; a taxa de cartão dos atendimentos do mês soma R$ 1.520.

Linha da DREConta do mês
Receitaparticular R$ 32.000 + convênio R$ 16.000 = R$ 48.000
Custo variável (imposto + material/insumo + taxa de cartão)2.880 + 3.200 + 1.520 = R$ 7.600
Margem (Receita − Custo variável)48.000 − 7.600 = R$ 40.400
Custo fixo (estrutura + equipe + sistemas + contabilidade)R$ 24.500
Resultado (Margem − Custo fixo)40.400 − 24.500 = R$ 15.900
Retirada (transferida para a pessoa física no mês)R$ 14.000

A Retirada (R$ 14.000) fica dentro do Resultado (R$ 15.900): 15.900 − 14.000 = R$ 1.900 ficam no consultório, pela regra da linha 6 do modelo. Agora a variante em que a Retirada passa do Resultado: se em vez de R$ 14.000 o consultório tivesse retirado R$ 18.000, o excesso seria 18.000 − 15.900 = R$ 2.100 — esse valor é registrado e abatido da Retirada do mês seguinte, ou o Custo fixo do mês seguinte é cortado no mesmo valor; a Retirada do mês seguinte, no primeiro caminho, fica limitada ao Resultado daquele mês menos os R$ 2.100. O que esta tabela não mostra sozinha é o efeito do erro de classificação descrito acima: tratar o imposto como Custo fixo. Refaça a conta com esse erro: se os R$ 2.880 de imposto fossem somados à linha de Custo fixo em vez de à de Custo variável, o Custo variável cairia para 3.200 + 1.520 = R$ 4.720, e a Margem subiria para 48.000 − 4.720 = R$ 43.280 — R$ 2.880 mais alta que a Margem correta, exatamente o valor do imposto deslocado. O Resultado, porém, não muda: 43.280 − (24.500 + 2.880) = R$ 15.900, o mesmo número de antes, porque os dois custos entram na mesma soma de qualquer forma. O erro de classificação distorce a Margem — a linha que mede quanto sobra da Receita depois do Custo variável, antes da estrutura fixa — mas o Resultado sozinho não denuncia o erro; quem acompanha a Margem mês a mês para saber se a Receita está rendendo carrega o erro adiante sem perceber. Os números são fictícios; a estrutura da conta — receita menos custo variável, menos custo fixo, comparada à retirada — é o que se refaz com os valores da sua própria clínica.

Leve isso para a planilha. A tabela abaixo é a DRE em 6 Linhas em formato copiável — o que entra, o que fica de fora (é aqui que mora a confusão mais cara) e de onde tirar cada número.

LinhaO que entraO que NÃO entraDe onde sai o número
ReceitaO valor de todo atendimento do mês — particular e convênioAporte de sócio, empréstimo, venda de bem, reembolso de despesa adiantada, recebimento de atendimento de meses anterioresRelatório de atendimentos realizados no mês (particular + convênio), pago ou não
Custo variávelImposto sobre a receita do mês, material e insumo consumidos, taxa de cartão dos atendimentos do mês, comissão quando houverAluguel, salário fixo da equipe, sistemas por assinatura, contabilidade, taxa de cartão de recebimento referente a atendimento de meses anterioresPercentual efetivo de imposto do seu regime, definido com a contabilidade, aplicado à linha 1 + material consumido nos atendimentos da linha 1, pelo preço da nota de compra + taxas registradas na maquininha para esses atendimentos + relatório de comissão desses atendimentos
MargemReceita menos Custo variável — uma subtração, sem rateio de mais nadaQualquer parcela do custo fixoFórmula: linha 1 − linha 2
Custo fixoEstrutura, equipe permanente, sistemas, contabilidade — o que existe com a agenda vaziaMaterial e insumo consumidos por atendimento, imposto sobre a receitaContrato de aluguel e contas da estrutura + folha de pagamento + boletos de assinatura de sistema + honorário da contabilidade
ResultadoMargem menos Custo fixo — o que sobrou de fato no mêsO saldo disponível na conta bancáriaFórmula: linha 3 − linha 4
RetiradaValor transferido para a pessoa física no mês, decidido antes de olhar o saldoReinvestimento na estrutura da clínica, reserva de caixaExtrato da conta pessoa física, comparado à linha 5: até o Resultado, a diferença fica no consultório; acima dele, abate no mês seguinte — o excesso é registrado e descontado da Retirada do mês seguinte, ou o Custo fixo é cortado no mesmo valor

Aplicação prática: a mesma estrutura, vozes diferentes

A DRE em 6 Linhas não muda de especialidade para especialidade — muda o hábito que ela substitui. A tabela abaixo contrapõe esse hábito ao raciocínio pela DRE, em vozes de rotinas diferentes.

EspecialidadeHábito que a DRE substituiRaciocínio pela DRE
Cardiologia"O saldo está positivo esse mês, então deu lucro.""Separo Receita, Custo variável e Custo fixo antes de olhar o saldo — parte dele pode ser recebível de convênio de dois meses atrás."
Pediatria"Fechei o mês com caixa cheio porque atendi muito.""Meço o Resultado — Margem menos Custo fixo —, não o quanto entrou: atender muito com Custo variável alto pode devolver pouca Margem."
Ortopedia"Lancei o imposto como despesa fixa, junto com o aluguel, porque vem todo mês.""Lanço o imposto no Custo variável, calculado sobre a Receita do mês, e não junto com o aluguel."
Ginecologia"A retirada foi o que sobrou na conta no fim do mês.""Defino a Retirada antes de olhar o saldo e comparo com o Resultado: até ele, a diferença fica no consultório; acima dele, abate no mês seguinte."
Psiquiatria"Não separei consulta particular de convênio no relatório do mês.""Registro a Receita por fonte, porque particular e convênio têm prazo de recebimento diferente e isso muda a leitura do caixa — não do Resultado."

Uma nuance vale para qualquer especialidade com convênio na mistura: a Receita da DRE é apurada pela competência do atendimento, não pela data em que o dinheiro efetivamente caiu — por isso o consultório pode fechar a DRE de um mês com Resultado positivo e ainda sentir falta de caixa naquele mesmo mês, se o convênio daquela Receita só compensar depois. A DRE não resolve isso: ela só mostra, com clareza, que o problema não é de lucro.

Duas contas vizinhas ajudam a fechar o quadro. Para separar lucro do mês de dinheiro no dia, veja fluxo de caixa do consultório: a DRE responde se sobrou, o fluxo de caixa responde quando o dinheiro entra e sai — são relatórios complementares, não o mesmo relatório com nome diferente. E para decidir o que fazer com o Resultado depois de apurado, veja pró-labore ou distribuição médico.

Perguntas frequentes

Como fazer uma DRE simples para consultório médico?

Uma DRE simples de consultório tem seis linhas, nesta ordem: Receita (valor dos atendimentos do mês, particular e convênio), Custo variável (imposto sobre a receita, material e insumo consumidos, taxa de cartão desses atendimentos e comissão quando houver), Margem (Receita menos Custo variável), Custo fixo (estrutura, equipe permanente, sistemas e contabilidade), Resultado (Margem menos Custo fixo) e Retirada (o que foi transferido para a pessoa física no mês, comparado ao Resultado). Duas linhas saem de uma subtração — Margem e Resultado — e a Retirada se compara ao Resultado, sem precisar de sistema contábil complexo — uma planilha com essas seis linhas já responde se o mês deu lucro de verdade.

Qual a diferença entre DRE e fluxo de caixa no consultório?

A DRE responde se o consultório deu lucro no mês: ela apura a Receita pela competência do atendimento, não pela data em que o dinheiro efetivamente circulou, e compara o Resultado à Retirada. O fluxo de caixa responde outra pergunta — quando o dinheiro entra e sai da conta, dia a dia. É possível fechar a DRE do mês com Resultado positivo e ainda sentir falta de caixa num dia específico, porque um recebível de convênio daquela Receita ainda não compensou. São relatórios complementares: um mede o resultado, o outro mede o momento em que o dinheiro aparece.

O imposto sobre a receita é custo fixo ou custo variável do consultório?

É Custo variável quando o imposto do seu regime é calculado sobre a receita — quanto maior a receita, maior o imposto, e quanto menor a receita, menor o imposto; confirme a alíquota efetiva com a contabilidade. Como ele varia junto com a receita, entra na mesma linha do material consumido e da taxa de cartão: o Custo variável. Custo fixo é o oposto — o que o consultório paga igual, com a agenda cheia ou vazia, como aluguel e salário da equipe permanente. Classificá-lo como fixo por engano não muda o Resultado — os dois custos somam do mesmo jeito —, mas infla a Margem, a linha que mede quanto sobra da Receita depois do Custo variável, antes da estrutura fixa.

Saldo positivo no banco quer dizer que o consultório deu lucro?

Não necessariamente, porque o saldo do banco mistura datas diferentes: recebível de convênio de meses atrás, cartão parcelado ainda pingando e imposto que ainda não foi recolhido, mas cujo dinheiro já está na conta. Nenhuma dessas três coisas aparece separada no extrato — todas somam o mesmo número, que pode estar positivo mesmo num mês em que a DRE fecharia no zero ou no negativo. A DRE organiza Receita, Custo variável, Custo fixo e Resultado em categorias fixas, por competência, e por isso mostra se o mês deu lucro de fato — o extrato bancário sozinho não responde essa pergunta.

Quanto o médico pode retirar do consultório por mês?

A Retirada da DRE é o valor transferido para a pessoa física, decidido antes de olhar o saldo da conta — e comparado ao Resultado do mesmo mês (Margem menos Custo fixo). Até o Resultado, a diferença fica no consultório. Acima do Resultado, o excesso é registrado e abatido da Retirada do mês seguinte, ou o Custo fixo do mês seguinte é cortado no mesmo valor. Não existe um valor único correto para todo consultório: o que a DRE garante é que a decisão seja comparada ao Resultado, e não tirada direto do saldo do banco.

Preciso separar receita de convênio e de paciente particular na DRE do consultório?

Vale registrar as duas separadamente dentro da mesma linha de Receita, porque particular e convênio têm prazo de recebimento diferente — isso muda quando o dinheiro efetivamente cai no caixa, mesmo sem mudar o Resultado da DRE, que é apurado pela competência do atendimento. Separar por fonte ajuda a explicar, depois, por que a DRE de um mês fechou positiva e o caixa daquele mesmo mês ainda apertou: a diferença normalmente está num recebível de convênio que ainda não compensou, não num erro de cálculo do Resultado.

Os números do exemplo são fictícios e ilustrativos, não constituindo promessa de resultado. Cada consultório tem realidade própria. Este conteúdo não substitui orientação contábil, jurídica ou de proteção de dados (LGPD) específica para o seu caso.

Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Médico, dono de consultório particular em Brasília–DF. Escreve sobre gestão, precificação e operação de consultório a partir da própria prática — não de teoria de consultoria.

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