Precificação e ticket

Margem de contribuição por procedimento: qual dos seus procedimentos realmente paga a conta

A agenda fecha cheia, a tabela foi reajustada há pouco, e mesmo assim o mês termina com menos sobra do que a sensação de consultório lotado prometia. Perguntado qual é o carro-chefe, o reflexo é apontar o procedimento de maior preço — e organizar a agenda em volta dele. Preço, porém, mede receita: não mede o que sobra depois do material gasto e do tempo de sala consumido. Com essas duas variáveis na conta, a ordem pode virar de cabeça para baixo.

A resposta direta: a margem de contribuição de um procedimento é o preço praticado menos o custo variável direto daquele ato — material, descartável, insumo, comissão quando houver e taxa de cartão sobre aquele recebimento. É uma conta sem rateio de custo fixo, porque custo fixo não muda conforme o procedimento escolhido. Só que a margem isolada ainda não ranqueia nada: para comparar procedimentos de duração diferente, divida a margem pelo tempo de sala que o ato ocupa. O resultado é a margem por hora ocupada. Quem paga a conta do consultório é quem tem a maior margem por hora — não quem tem o maior preço de tabela, nem quem tem o maior percentual de margem.

Por que a tabela de preços é o pior critério de prioridade da agenda

O preço é o número do procedimento que circula na rotina: está no orçamento, na conversa com o paciente, no relatório de faturamento. O custo variável daquele ato, não — fica diluído numa nota de compra de insumos. E o tempo de sala não vira número nenhum, vira sensação ("esse é demorado"). Com um dado visível e dois invisíveis, o preço ganha por ausência de concorrência e vira critério de prioridade sem nunca ter sido testado como critério.

O efeito é que o consultório passa a defender o horário do procedimento errado. A recepção aprende a "guardar espaço" para o ato de maior valor, o encaixe é negado para proteger esse bloco, e a agenda se organiza em torno de um número que descreve quanto entra, não quanto fica. Enquanto houver horário sobrando, isso custa pouco. O problema aparece quando o consultório vai bem e há mais paciente do que agenda: aí cada escolha exclui outra, e um critério errado cobra caro em silêncio.

Há um segundo critério igualmente tentador e igualmente furado: o percentual de margem. Procedimento que deixa uma fatia maior do preço soa melhor que o que deixa uma fatia menor. Mas percentual é proporção, não valor por unidade de tempo — um ato de percentual altíssimo e preço baixo pode render menos por hora que um de percentual pior. Percentual avalia a saúde de um preço; não ordena agenda.

O mecanismo: o ranking mede retorno sobre o recurso escasso

Todo problema de priorização precisa de uma unidade de medida, e a unidade certa é o recurso que está no limite. Num consultório com demanda, esse recurso não é dinheiro nem paciente: é hora de sala. O dia tem um número fixo de horas clínicas, e cada procedimento agendado compra um pedaço desse estoque. A pergunta correta não é "quanto isso fatura", e sim "quanto devolve por hora do que está acabando". É o mesmo raciocínio de quem decide uma prateleira por rendimento por metro, e não pelo preço unitário do que está exposto. No consultório, a prateleira é a agenda.

Daí decorre a exclusão do custo fixo. Aluguel, folha da equipe permanente, sistemas e contabilidade seguem iguais esteja a sala das 14h ocupada pelo procedimento A ou pelo B — somá-los acrescentaria a mesma parcela a todas as linhas, o que não muda a ordem e ainda dá aparência de precisão a um rateio arbitrário. Custo fixo é decisivo em outra pergunta, a de saber se a operação se sustenta no mês; é irrelevante nesta, que compara alternativas dentro do mesmo dia. Separar as duas perguntas é o que torna o ranking utilizável.

Vale distinguir o que este ranking mede do que já existe pronto. A CBHPM, da Associação Médica Brasileira, é uma classificação hierarquizada de procedimentos médicos: ordena atos por porte e complexidade relativa. Só que complexidade não é margem por hora — um ato de porte maior pode ocupar tanto tempo que devolve menos por hora que um de porte modesto e execução rápida. A hierarquia responde "quanto vale este ato em relação àquele"; o ranking abaixo responde "qual dos dois eu protejo na agenda de terça".

Modelo: MPH — Margem por Hora Ocupada
  1. Preço praticado. Registre o valor efetivamente recebido, não o da tabela. Se você concede desconto com frequência ou absorve o custo do parcelamento, use a média real do último trimestre — a conta inteira herda o erro que entrar aqui.
  2. Custo variável direto. Some apenas o que só existe porque aquele ato aconteceu: material e insumo consumidos, descartáveis (agulha, luva, campo, gaze), comissão de equipe quando houver e a taxa de cartão sobre aquele recebimento. Não inclua aluguel, folha fixa nem sistemas. Tributos sobre a receita dependem do seu enquadramento e devem ser apurados com o seu contador; se optar por incluí-los, inclua em todas as linhas, para a comparação continuar justa.
  3. Margem de contribuição. Margem de contribuição = Preço praticado − Custo variável direto. É o que aquele ato entrega para cobrir a estrutura e gerar lucro, antes de qualquer rateio.
  4. Tempo de sala ocupado. Meça em minutos, do momento em que a sala fica indisponível até estar pronta para o próximo paciente: preparo, execução, orientação e higienização. Use o cronômetro, não o protocolo: o tempo previsto no protocolo descreve a execução, e o que a agenda paga é o bloco inteiro, com o antes e o depois dentro.
  5. Margem por hora ocupada. Margem por hora = Margem de contribuição × 60 ÷ Tempo de sala em minutos. Multiplicar por 60 antes de dividir evita o arredondamento que aparece ao converter minutos em fração de hora e depois dividir por ela.
  6. Ranking. Ranking = posição da linha quando a coluna Margem por hora é ordenada em ordem decrescente. Na planilha, é uma fórmula, não uma digitação: =ORDEM.EQ(F2;F$2:F$21;0) (no Google Planilhas, ORDEM), em que F é a coluna Margem por hora e o zero pede ordem decrescente. Empate resolve-se pela maior margem de contribuição absoluta. Sendo fórmula, o ranking se reordena sozinho quando um custo de insumo muda — que é o objetivo do entregável.
Exemplo ilustrativo

Cenário fictício, com números inventados apenas para demonstrar a mecânica: um consultório executa três procedimentos no mesmo dia. A taxa de cartão considerada, também fictícia, é de 3% sobre o preço. Cada linha traz a conta aberta, para você refazê-la com os seus valores. Os números foram escolhidos para fechar em valor exato: nenhuma linha depende de arredondamento, e todas as comparações usam o valor cheio da linha anterior.

Etapa da contaProcedimento AProcedimento BProcedimento C
Preço praticadoR$ 800R$ 1.200R$ 500
Material e insumoR$ 62R$ 300R$ 30
DescartáveisR$ 14R$ 24R$ 15
Taxa de cartão (3% do preço)R$ 24R$ 36R$ 15
Custo variável direto (soma dos três acima)62 + 14 + 24 = R$ 100300 + 24 + 36 = R$ 36030 + 15 + 15 = R$ 60
Margem de contribuição (preço − custo variável)800 − 100 = R$ 7001.200 − 360 = R$ 840500 − 60 = R$ 440
Margem sobre o preço (margem ÷ preço)700 ÷ 800 = 87,5%840 ÷ 1.200 = 70%440 ÷ 500 = 88%
Tempo de sala20 min90 min25 min
Margem por hora (margem × 60 ÷ minutos)700 × 60 ÷ 20 = R$ 2.100/h840 × 60 ÷ 90 = R$ 560/h440 × 60 ÷ 25 = R$ 1.056/h
Ranking (ordem decrescente da linha acima)

Os três critérios discordam entre si, e é isso que o exemplo fictício existe para mostrar. Pelo preço, a ordem seria B, A, C. Pelo percentual de margem, C, A, B. Pela margem por hora — o único critério que considera o recurso escasso — A, C, B. O procedimento B, o mais caro e candidato natural a carro-chefe, fica em último: ocupa 90 minutos e devolve R$ 560/h. Nos mesmos 90 minutos cabem quatro execuções do A, com 10 minutos de folga (4 × 20 = 80 min), somando 4 × R$ 700 = R$ 2.800 de margem contra os R$ 840 do B. Cada bloco de 90 minutos entregue ao B custa, portanto, R$ 1.960 de margem não realizada. Os valores são fictícios; o que se reaplica é a estrutura da conta.

Leve isso para a planilha. Monte uma linha por procedimento frequente e deixe as três últimas colunas como fórmulas, nenhuma digitada à mão.

ColunaO que entraFórmula (linha 2 como exemplo)
A — ProcedimentoNome do ato, um por linhadigitado
B — Preço praticadoValor médio realmente recebidodigitado
C — Custo variável diretoMaterial, descartável, insumo, comissão, taxa de cartãodigitado (ou soma de uma aba de detalhe)
D — Margem de contribuiçãoO que o ato entrega antes de qualquer rateio=B2-C2
E — Tempo de sala (min)Sala indisponível, do preparo à higienizaçãodigitado (medido, não estimado)
F — Margem por horaRetorno sobre o recurso escasso=D2*60/E2
G — RankingPosição na ordem decrescente de F=ORDEM.EQ(F2;F$2:F$21;0)

Duas decisões de preenchimento evitam que a coluna C vire chute. Quando não há custo por procedimento apurado, abra a última nota de compra do insumo e divida o valor da unidade adquirida pelo número de aplicações que ela rende na sua técnica; frasco cuja sobra é descartada entra pelo valor cheio, porque foi isso que saiu do caixa. E quando o mesmo ato tem duas durações típicas — primeira sessão, com anamnese e demarcação, e manutenção, sem elas —, crie duas linhas em vez de uma média: são dois usos diferentes da agenda, e a média esconde justamente a linha que valeria a pena proteger.

Aplicação prática: a mesma estrutura, vozes diferentes

O modelo MPH não muda de especialidade para especialidade; muda o que entra em cada coluna e qual recurso está no limite. A tabela mostra a mesma virada — do preço para a margem por hora — em vozes diferentes.

EspecialidadeRaciocínio pelo preço de tabelaRaciocínio pelo modelo MPH
Cardiologia"O teste ergométrico é mais caro que o retorno, então tem prioridade.""O ergométrico ocupa sala e equipamento por muito mais tempo — comparo a margem por hora dos dois antes de reservar o bloco."
Ortopedia"A infiltração rende mais porque cobro bem mais que a consulta.""A infiltração ocupa poucos minutos e a pequena cirurgia passa de uma hora; ordeno pela margem por hora."
Gastroenterologia"Endoscopia é o que mais fatura, encaixo o máximo no turno.""Comparo a margem por hora da sala de exame com a do consultório, contando preparo e limpeza entre pacientes."
Ginecologia"Histeroscopia é o mais caro, então é o que protejo na agenda.""Comparo a margem por hora dela com o que o mesmo bloco renderia em consultas mais um ato ambulatorial."
Otorrinolaringologia"Cirurgia de septo rende mais, tem o maior preço de tabela.""A cirurgia toma a manhã inteira — calculo quanto sobra por hora antes de trocar as consultas do turno por ela."

A nuance que mais muda o resultado é identificar qual recurso está no limite. Em perfil clínico, o candidato natural é a hora de consultório. Em perfil cirúrgico, pode ser o turno de centro: troque "tempo de sala" por "tempo de centro" e inclua no custo variável qualquer taxa de uso que varie por procedimento. Equipamento segue a mesma lógica — ponteira ou insumo consumido a cada aplicação entra; aparelho que custa o mesmo ligado ou parado não entra. E há um limite honesto do modelo: procedimento de baixa margem por hora que traz paciente novo ou abre acompanhamento longo tem valor que esta conta não captura. O ranking informa a decisão de agenda; não a toma sozinho.

Duas contas vizinhas fecham o quadro. Antes de entrar no ranking, o procedimento precisa ter preço que se sustente por si — é o cálculo de como precificar um procedimento médico, que trata material, hora clínica e risco. E o denominador da operação vem de saber quanto custa manter o consultório aberto por mês, número que define quanta margem o mix precisa gerar no total. Se o ranking levar a reposicionar algum valor e você decidir comunicá-lo publicamente, o enquadramento é o da Resolução CFM nº 2.336/2023, que prevê que o médico pode informar valores, meios e formas de pagamento.

Perguntas frequentes

Margem de contribuição é a mesma coisa que lucro do procedimento?

Não. A margem de contribuição é o que sobra do preço praticado depois de retirar apenas o custo variável direto daquele ato: material, descartável, comissão quando houver e taxa de cartão. Ela não desconta aluguel, folha fixa, sistemas nem tributos apurados sobre o conjunto da receita, então não é lucro. É a contribuição daquele ato para cobrir a estrutura e, depois que a estrutura estiver coberta, gerar resultado. Lucro é uma pergunta do mês inteiro, respondida pela soma das margens contra o custo fixo total. Margem de contribuição é uma pergunta por linha da agenda. Confundir as duas leva a descartar procedimento saudável por parecer pouco lucrativo quando olhado isolado.

Devo incluir o meu próprio tempo ou o pró-labore no custo variável do procedimento?

No custo variável, não. Se você é remunerado por pró-labore fixo, esse valor não muda conforme o ato escolhido: é custo fixo e pertence à pergunta do mês, não à comparação entre procedimentos do mesmo dia. Seu tempo já está representado no modelo, e num lugar melhor: aparece como denominador, no tempo de sala ocupado. É exatamente isso que a margem por hora mede. A exceção é quando existe repasse variável a você ou a outro executor por ato realizado. Nesse caso o repasse só existe porque aquele procedimento aconteceu, e entra no custo variável direto como qualquer comissão.

Como calcular a margem por hora de um pacote ou protocolo com várias sessões?

Trate o pacote como uma linha única e some as partes. No numerador, use o valor recebido pelo pacote inteiro menos o custo variável de todas as sessões previstas, inclusive as que ainda vão acontecer, porque o material delas já está comprometido. No denominador, some os minutos de sala de todas as sessões, com preparo e higienização de cada uma. Depois divida como em qualquer linha. Duas armadilhas: parcelamento com taxa por parcela precisa entrar pelo valor efetivamente recebido, e sessão de retoque incluída na oferta ocupa agenda sem gerar receita nova. Se ela foi prometida, pertence ao denominador.

Com que frequência preciso atualizar a planilha de margem por procedimento?

Essa conta não envelhece por calendário, envelhece por evento. Refaça a linha quando a nota do insumo chegar com valor diferente do que está na coluna de custo, quando você reajustar o preço praticado ou passar a conceder desconto habitual, quando mudar a técnica e o tempo de sala mudar junto, e quando trocar a máquina de cartão ou a condição de parcelamento. Com o ranking montado como fórmula, atualizar é digitar o novo custo numa célula e deixar a ordem se recalcular sozinha. Atrelar a revisão ao fechamento que você já faz com o contador evita que a planilha vire uma tarefa separada.

O procedimento que ficou em último no ranking deve sair da minha tabela?

Não automaticamente. O ranking ordena o uso da agenda; ele não decide portfólio. Antes de tirar qualquer ato, verifique se o preço praticado está defasado, porque margem baixa costuma ser problema de precificação e não do procedimento; se o tempo de sala pode encolher com mudança de fluxo, já que o denominador responde tão rápido quanto o numerador; e se aquele ato abre relacionamento, traz paciente novo ou sustenta acompanhamento que aparece em outras linhas. O uso mais comum do ranking não é excluir procedimento: é decidir qual horário defender quando dois pacientes disputam o mesmo bloco.

E se quem executa o procedimento não sou eu, o cálculo muda?

Muda o denominador. A conta continua medindo retorno sobre o recurso que está no limite; o que muda é qual recurso é esse. Quando o ato é executado por outro profissional habilitado, médico com CRM ativo no caso de ato médico, e ocorre em sala própria, o seu tempo deixa de ser o gargalo. Passam a ser a sala, o equipamento ou a agenda daquele profissional. Meça o tempo do recurso que efetivamente limita e use esse tempo como divisor. E lembre que a remuneração variável do executor entra no custo variável direto, reduzindo o numerador da mesma linha.

Essa conta serve para decidir se aceito o valor de um convênio ou repasse?

Serve, com um ajuste. Monte uma linha separada para o mesmo procedimento na condição do convênio: no preço praticado entra o valor líquido do repasse, já sem glosas recorrentes e sem a taxa administrativa que incide sobre aquele recebimento; o custo variável direto e o tempo de sala continuam iguais, porque o ato é o mesmo. Comparar essa linha com a linha particular mostra quanto de margem por hora a condição consome. O prazo de recebimento não aparece na margem, mas pesa no caixa, e vale registrá-lo numa coluna à parte antes de fechar a decisão.

Referências

  1. Associação Médica Brasileira. CBHPM — Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos — sustenta a distinção, no corpo do texto, entre hierarquia técnica de complexidade e ranking por margem por hora.
  2. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.336/2023 — norma de publicidade médica; base da frase sobre poder informar valores, meios e formas de pagamento.
  3. CFM. Publicidade médica — o que muda com a Resolução 2.336/2023 — página oficial que resume, em linguagem direta, a mesma permissão citada acima.

Os valores e cenários citados são fictícios e ilustrativos, usados apenas para demonstrar o raciocínio de cálculo. Este conteúdo não constitui consultoria contábil, tributária ou financeira individual; os números da sua clínica devem ser apurados com o seu contador.

Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Médico, dono de consultório particular em Brasília–DF. Escreve sobre gestão, precificação e operação de consultório a partir da própria prática — não de teoria de consultoria.

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