Agenda e no-show

Paciente faltou à consulta: pode cobrar? O que dizem CFM e CDC

"Posso cobrar do paciente que falta?" é uma das perguntas mais buscadas da gestão de consultório — e a internet responde com mais otimismo do que a posição dos conselhos sustenta. A pergunta mais útil, porém, é outra: por que a sua agenda permite tanta falta?

A resposta direta: a cobrança por consulta não realizada é terreno minado na esfera ética. O entendimento clássico do CFM (Parecer-Consulta nº 65/1992) é que sem ato médico não há o que remunerar, e o art. 59 do Código de Ética Médica veda receber por atendimento não prestado; manifestações posteriores do próprio CFM reafirmaram essa leitura. Há advogados que defendem a viabilidade civil de uma taxa prevista em política de agendamento aceita previamente pelo paciente — mas a divergência entre a leitura civil e a posição ética existe, e quem assume o risco do processo ético é o médico. O caminho de menor risco e maior retorno não é a multa: é um sistema de confirmação que reduz a falta antes de ela acontecer.

O sistema invisível: as duas camadas da pergunta

A confusão nasce de misturar duas esferas que funcionam por regras diferentes:

Tradução prática: mesmo que a sua taxa sobreviva a uma discussão de consumidor, ela pode não sobreviver a uma sindicância no CRM. Para um titular de CRM, a segunda conta é a que importa. E há um agravante operacional: cobrar multa de quem faltou converte um problema de agenda em conflito de relacionamento — paciente multado raramente volta, e o que era uma lacuna de 50 minutos vira um detrator.

O mecanismo: por que a falta acontece (e onde se ataca)

O no-show não é um traço de caráter do paciente; é um fenômeno de fricção e memória. Estudos no sistema público brasileiro registram absenteísmo na casa de 25% das consultas agendadas — e o setor privado convive com taxas relevantes pelo mesmo trio de causas: esquecimento (a consulta foi marcada semanas antes), barreira de remarcação (desmarcar dá trabalho, então a pessoa simplesmente não vai) e ausência de custo percebido (nada acontece quando se falta, nem um constrangimento leve). Note que as três causas são atacáveis por desenho de processo — nenhuma exige multa.

Modelo: Escada da Confirmação — 4 degraus
  1. Política comunicada no agendamento. No ato da marcação, o paciente recebe por escrito a regra da casa: confirmação obrigatória, prazo para desmarcar sem constrangimento (ex.: 24h), e o que acontece com o horário não confirmado. Política comunicada muda comportamento mesmo sem punição.
  2. Lembrete D-2. Mensagem dois dias antes, com data, hora, endereço e a opção explícita de remarcar em um toque. Remarcar fácil é a válvula que evita a falta silenciosa.
  3. Confirmação ativa D-1. Não é "lembrete lido": é resposta. Quem não confirma até um horário definido entra em regra de liberação do horário — comunicada lá no degrau 1.
  4. Lista de encaixe. Horário liberado é oferecido na hora a uma fila de espera organizada (pacientes que pediram antecipação). A falta deixa de ser receita perdida e vira oportunidade de serviço.
Exemplo ilustrativo

Um consultório com 200 consultas/mês e 18% de falta perde 36 horários. A uma consulta média de R$ 350, são R$ 12.600/mês de agenda evaporada. Se a Escada da Confirmação reduzir a falta para 8% — patamar plausível com confirmação ativa e encaixe, mas que varia por perfil de público — recuperam-se 20 horários: R$ 7.000/mês, sem cobrar multa de ninguém e sem desgastar nenhuma relação. Números fictícios para ilustrar a ordem de grandeza da conta; meça os seus.

Aplicação prática

Perguntas frequentes

Pode cobrar do paciente que falta à consulta?

A posição ética é restritiva: o art. 59 do Código de Ética Médica veda receber por atendimento não prestado, e manifestações do CFM tratam a cobrança por ausência como afronta a essa regra. Há leituras civis mais permissivas quando existe política aceita previamente, mas a divergência é real — e o risco do processo ético é do médico.

Com quanto tempo de antecedência o paciente deve desmarcar?

Não há prazo único em norma; 24 horas é prática comum de mercado. O essencial é que a política de agendamento do consultório seja comunicada por escrito no ato da marcação — regra surpresa não se sustenta em nenhuma esfera.

Qual a taxa média de falta em consultas no Brasil?

Estudos no sistema público brasileiro registram absenteísmo na casa de 25% das consultas agendadas. No privado a taxa varia com o perfil do público e o processo de confirmação — meça a sua todo mês: faltas divididas por agendados.

Overbooking em consultório vale a pena?

Como regra, não: o custo de dois pacientes simultâneos (espera, experiência ruim) supera o ganho da falta compensada. Lista de encaixe acionada quando o horário vaga atinge o mesmo objetivo sem o dano.

Lembrete por WhatsApp reduz faltas?

Lembrete ajuda, mas o que muda o resultado é confirmação ativa: resposta do paciente até um horário definido, regra comunicada de liberação do horário não confirmado e fila de encaixe pronta para ocupá-lo.

Referências

  1. Conselho Federal de Medicina. Parecer-Consulta nº 65/1992 — consulta não realizada não gera remuneração.
  2. CFM. Código de Ética Médica — Resolução CFM nº 2.217/2018, art. 59.
  3. Migalhas. Taxa por falta do paciente: veja o que diz o CFM — compila os despachos SEI 102/15, SEJUR 309/15 e CONJUR 060/22.
  4. ENAP — repositório. Como reduzir o absenteísmo em consultas médicas — absenteísmo no setor público brasileiro.

Este artigo apresenta o panorama normativo para decisão de gestão e não substitui orientação jurídica nem consulta formal ao seu CRM em caso concreto.

Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Médico, dono de consultório particular em Brasília–DF. Escreve sobre gestão, precificação e operação de consultório a partir da própria prática — não de teoria de consultoria.

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