Conversão de consulta

As perguntas que o médico faz antes de apresentar o plano: o roteiro de descoberta da consulta de avaliação

O paciente senta, diz o nome de um procedimento, e a consulta vira uma aula sobre ele. O médico explica técnica e etapas; o paciente agradece e sai dizendo que vai pensar. Ninguém perguntou por que ele veio agora, o que já tentou, o que não aceitaria ou com quem vai decidir — e o plano respondeu a uma pergunta que ele não fez.

A resposta direta: antes de apresentar qualquer plano, o médico faz 8 perguntas faladas, nesta ordem — o que trouxe você, por que agora, o que já tentou, o que não quer de jeito nenhum, quem decide junto, prazo ou evento, o que seria um bom desfecho e como prefere organizar o investimento — e registra cada resposta no campo dela no prontuário, ou "não sabe" / "não respondeu" quando ela não vem. Em seguida diz o espelho: o resumo das respostas, nas palavras do paciente, sem os campos "não sabe" / "não respondeu" e sem dizer se a expectativa é alcançável. Se o paciente corrige, o médico refaz o resumo; o plano só vem depois da confirmação, da anamnese e do exame, e pode ser não indicar procedimento. A resposta sobre investimento muda o cronograma e a forma de pagamento, nunca a indicação.

Em que estágio da clínica este tema pesa

  1. 0Improvisar
  2. 1Monetizar
  3. 2Atrair
  4. 3Estabilizar
  5. 4Priorizar
  6. 5Produtizar
  7. 6Otimizar
  8. 7Organizar
  9. 8Especializar
  10. 9Capitalizar

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O sistema invisível: a consulta que abre pelo procedimento

Quando a avaliação é desenhada ao redor do que o médico sabe fazer, o paciente cita um procedimento, o médico examina, explica a técnica e monta o plano. O que ficou sem perguntar aparece depois, como objeção: "preciso ver com meu marido", "tenho uma viagem antes disso", "já fiz algo parecido e não gostei". O paciente sabia de tudo isso antes de entrar; ninguém perguntou, e o médico passa a responder a uma recusa cujo motivo não conhece.

O segundo defeito: sem pergunta de organização no lugar certo, o dinheiro entra como teto — "quanto você pode gastar?" —, um convite a trocar o que é indicado pelo que cabe. O roteiro abaixo separa critério clínico de forma de pagamento.

O mecanismo: o paciente ouve o próprio motivo antes de ouvir o plano

A ordem vai do motivo para a organização do investimento, que fica por último porque só faz sentido com o resto dito. Nenhuma das 8 é pergunta de saúde: doença, medicação, alergia e exames pertencem à anamnese, outra etapa, que vem depois do espelho. O espelho é o ponto de verificação: o paciente confirma ou corrige, e o erro aparece antes do plano. Ele resume o que o paciente disse, sem avaliar se a expectativa é alcançável — isso é trabalho do plano.

A pergunta 5 não transfere a decisão. O Código de Ética Médica veda ao médico "desrespeitar o direito do paciente ou de seu representante legal de decidir livremente sobre a execução de práticas diagnósticas ou terapêuticas, salvo em caso de iminente risco de morte" (CEM 2019, art. 31). Numa avaliação eletiva, fora dessa ressalva, quem decide é o paciente ou seu representante legal; quando o paciente decide por si, a pessoa citada na pergunta 5 é quem ele escolheu ouvir.

DAP — Descobrir Antes de Prescrever: 8 perguntas, 8 campos e o espelho

  1. 1O que trouxe você → MOTIVO
  2. 2Por que agora → POR QUE AGORA
  3. 3O que já tentou → JÁ TENTOU (a experiência do paciente, não o histórico clínico)
  4. 4O que não quer de jeito nenhum → NÃO QUER
  5. 5Quem decide junto → DECIDE JUNTO
  6. 6Prazo ou evento → PRAZO OU EVENTO
  7. 7O que seria um bom desfecho → BOM DESFECHO
  8. 8Como prefere organizar o investimento → ORGANIZAÇÃO DO INVESTIMENTO (muda o cronograma e a forma de pagamento, nunca a indicação)
  9. EEspelho falado → ESPELHO: confirmado ou corrigido
Campo com "não sabe" ou "não respondeu" e a nota "retomar na anamnese" ficam fora do espelho. O plano só vem depois do espelho confirmado, da anamnese e do exame.
Modelo: DAP — Descobrir Antes de Prescrever: 8 perguntas, um espelho, depois o plano
  1. Abra pelo motivo (perguntas 1 e 2). Regra para as 8 perguntas: se o paciente não sabe ou não quer responder, não insista; registre "não sabe" ou "não respondeu" no campo e siga. Pergunta 1, o que trouxe você: "Antes de qualquer exame: o que trouxe você aqui hoje?" → campo MOTIVO. Pergunta 2, por que agora: "E por que agora? O que fez você marcar esta consulta neste momento?" → campo POR QUE AGORA. Pronto quando os dois campos estão registrados.
  2. Mapeie o que já existe (perguntas 3 e 4). Pergunta 3, o que já tentou: "Você já tentou alguma coisa para isso? Do que gostou, do que não gostou e por que parou?" → campo JÁ TENTOU, com a experiência do paciente, não o histórico clínico: se ele cita procedimento, produto, exame, data, dose ou intercorrência, anote "retomar na anamnese" e siga. Pergunta 4, o que não quer de jeito nenhum: "Tem alguma coisa que você não quer de jeito nenhum?" → campo NÃO QUER. Pronto quando nenhum detalhe clínico ficou nos dois campos.
  3. Mapeie a decisão e a data (perguntas 5 e 6). Pergunta 5, quem decide junto: "Essa decisão é só sua ou você vai conversar com alguém antes? Se for com alguém, no fim eu explico de um jeito que você consiga levar para essa conversa." → campo DECIDE JUNTO. Com paciente que decide por si, a pergunta serve para oferecer a informação, nunca para pedir a presença de ninguém. Pergunta 6, prazo ou evento: "Tem alguma data ou evento em mente, como uma viagem ou uma festa?" → campo PRAZO OU EVENTO; se não há data, registre "sem data", que é resposta e entra no campo e no espelho. A data entra como informação: o médico não promete resultado para ela e, se o tempo até o evento for menor do que o procedimento e a recuperação pedem, diz isso no plano. Pronto quando os dois campos estão registrados.
  4. Mapeie a expectativa e a organização (perguntas 7 e 8). Pergunta 7, o que seria um bom desfecho: "O que seria, para você, um bom desfecho, com as suas palavras?" → campo BOM DESFECHO. Pergunta 8, como prefere organizar o investimento: "Última pergunta, só de organização: quando chegarmos ao plano, prefere resolver tudo de uma vez ou por etapas, e qual forma de pagamento funciona melhor? Isso muda o cronograma e a forma de pagamento, não o que vai ser indicado." → campo ORGANIZAÇÃO DO INVESTIMENTO. A resposta muda o cronograma e a forma de pagamento, nunca a indicação, que vem do critério clínico; se a organização preferida não comporta o plano indicado, o médico diz isso e apresenta as etapas possíveis na ordem clínica, sem trocar por um procedimento que caiba. Pronto quando os 8 campos têm resposta, "não sabe" ou "não respondeu".
  5. Diga o espelho e só siga depois da confirmação. Fala: "Antes das perguntas de saúde e do exame, deixa eu ver se entendi. O que trouxe você: [MOTIVO]. Por que agora: [POR QUE AGORA]. O que já tentou: [JÁ TENTOU]. O que não quer de jeito nenhum: [NÃO QUER]. Quem decide junto: [DECIDE JUNTO]. Prazo ou evento: [PRAZO OU EVENTO]. O que seria um bom desfecho: [BOM DESFECHO]. Como prefere organizar o investimento: [ORGANIZAÇÃO DO INVESTIMENTO] — isso vai orientar o cronograma e a forma de pagamento, não o que vai ser indicado. Foi isso? Entendi algo errado ou faltou algo?" Campo com "não sabe" ou "não respondeu" fica fora do espelho, assim como a nota "retomar na anamnese", e a expectativa é repetida como o paciente falou, sem dizer se é alcançável. Se o paciente corrige, refaça o resumo com a correção e pergunte de novo. Campo ESPELHO: "confirmado" ou "corrigido: [O QUE MUDOU]". Pronto quando o paciente confirmou; só então vêm a anamnese, o exame e, depois, o plano.
Exemplo ilustrativo

Caso fictício, sem valores: uma paciente numa avaliação estética responde às 8 perguntas; na pergunta 3, cita o nome de um aparelho e a data das sessões, e o médico anota "retomar na anamnese". Ele diz o espelho. Ao ouvir "quem decide junto: o marido", ela corrige: "a decisão é minha; só vou contar para ele". O médico refaz o resumo com a correção e pergunta de novo; ela confirma. O registro fica assim:

Nenhum campo diz qual será o plano: ele depende da anamnese e do exame. Troque as respostas pelas do seu próximo paciente e confira se cada campo cabe numa linha.

O registro e os casos que o roteiro precisa prever

Os 8 campos das perguntas e o campo ESPELHO ficam juntos no prontuário, cada um em uma linha: nos 8, a resposta resumida nas palavras do paciente ou "não sabe" / "não respondeu" e, em JÁ TENTOU, a nota "retomar na anamnese" quando houver; no ESPELHO, confirmado ou corrigido. Em DECIDE JUNTO, entra o vínculo ("marido", "filha"), não os dados da outra pessoa. O desenho segue o princípio da necessidade da LGPD: "limitação do tratamento ao mínimo necessário para a realização de suas finalidades, com abrangência dos dados pertinentes, proporcionais e não excessivos em relação às finalidades do tratamento de dados" (Lei 13.709/2018, art. 6º, III).

Paciente que chega pedindo um procedimento. As 8 perguntas acontecem igual. O pedido vira a resposta da pergunta 1, no campo MOTIVO: "quer fazer [PROCEDIMENTO PEDIDO]". A pergunta 2 busca o que está por trás dele; o pedido não é o plano.

Quando não há indicação. Se a anamnese e o exame, somados ao que a descoberta trouxe, mostram que não há indicação ou que o motivo não se resolve com procedimento, o plano pode ser não indicar procedimento. O espelho confirmado não obriga a plano nenhum.

Retorno de paciente antigo com queixa nova. A regra é uma só: as 8 perguntas, inteiras, sobre a queixa nova, e um espelho novo. Os campos da queixa anterior não respondem a nenhuma delas.

Aplicação prática: o mesmo espelho, vozes diferentes

A coluna da direita mostra o espelho a partir de "deixa eu ver se entendi", só com MOTIVO e POR QUE AGORA, com respostas fictícias; os outros campos seguem na ordem do passo 5.

EspecialidadeAbertura pelo procedimentoPelo modelo (começo do espelho)
Procedimentos estéticos"Você quer fazer preenchimento? Deixa eu olhar e já te explico como funciona.""Deixa eu ver se entendi. O que trouxe você: o cansaço que vê no rosto nas fotos. Por que agora: volta a dar aulas presenciais."
Ortopedia"Pelo exame de imagem, o caminho é infiltração. Vamos marcar?""Deixa eu ver se entendi. O que trouxe você: a dor no joelho que fez você parar de correr. Por que agora: quer voltar a treinar."
Nutrologia"Vamos pedir os exames e ajustar a dieta; na volta eu te passo o plano.""Deixa eu ver se entendi. O que trouxe você: o cansaço no fim do dia. Por que agora: voltou a trabalhar fora."
Angiologia"Essas veias a gente trata com escleroterapia. Quer agendar?""Deixa eu ver se entendi. O que trouxe você: deixou de usar saia por causa das veias. Por que agora: vai viajar nas férias."

As nuances ficam nas respostas, não nas perguntas. Em ortopedia e angiologia, a pergunta 3 pode trazer detalhe clínico: se o paciente cita procedimento, produto, exame, data, dose ou intercorrência, isso vai para "retomar na anamnese". Em nutrologia e em acompanhamento contínuo, a pergunta 6 pode não ter data; "sem data" é resposta e entra no campo e no espelho.

Este roteiro cobre o que vem antes do plano — perguntas, espelho e registro. A consulta inteira em blocos e tempos é assunto do roteiro da primeira consulta do paciente particular, em que estas perguntas e o espelho detalham a abertura, antes da anamnese e do exame; a apresentação do plano é assunto de como apresentar o plano de tratamento na consulta. Se, mesmo com o espelho confirmado, o paciente disser que vai pensar, veja o que o "vou pensar" revela sobre a consulta; para o contato depois do orçamento, o follow-up de orçamento.

Perguntas frequentes

Quais perguntas fazer na consulta de avaliação antes de apresentar o plano?

Oito perguntas faladas, nesta ordem: o que trouxe você, por que agora, o que já tentou, o que não quer de jeito nenhum, quem decide junto, prazo ou evento, o que seria um bom desfecho e como prefere organizar o investimento. Cada resposta vai para um campo do prontuário: MOTIVO, POR QUE AGORA, JÁ TENTOU, NÃO QUER, DECIDE JUNTO, PRAZO OU EVENTO, BOM DESFECHO e ORGANIZAÇÃO DO INVESTIMENTO. Depois o médico diz o espelho, o resumo das respostas, e registra no campo ESPELHO se o paciente confirmou ou corrigiu. O plano só vem depois da confirmação, da anamnese e do exame.

Como perguntar sobre dinheiro na consulta de avaliação sem adaptar a indicação ao orçamento?

A pergunta é sobre organização, não sobre teto: quando chegarem ao plano, o paciente prefere resolver tudo de uma vez ou por etapas, e qual forma de pagamento funciona melhor. A resposta muda o cronograma e a forma de pagamento, nunca a indicação, que vem do critério clínico. Se a organização preferida não comporta o plano indicado, o médico diz isso e apresenta as etapas possíveis na ordem clínica, sem trocar por um procedimento que caiba. A pergunta quanto você pode gastar fica fora do roteiro, porque convida a trocar o que é indicado pelo que cabe.

O que é o espelho de resumo que o médico diz antes do plano?

É a fala em que o médico repete as respostas que o paciente deu às 8 perguntas, na ordem, cada uma depois do nome da pergunta, e pergunta se entendeu certo. Campo com não sabe ou não respondeu fica fora do espelho, assim como a nota retomar na anamnese. A expectativa é repetida como o paciente falou, sem dizer se é alcançável. Se o paciente corrige, o médico refaz o resumo com a correção e pergunta de novo; o campo ESPELHO registra confirmado ou corrigido, com o que mudou. Só depois da confirmação vêm a anamnese, o exame e o plano, e o espelho confirmado não obriga a plano nenhum.

E se o paciente não souber ou não quiser responder uma das perguntas?

O médico não insiste. Registra não sabe ou não respondeu no campo daquela pergunta e segue para a próxima, na mesma ordem. Esse campo fica fora do espelho: o resumo repete só as respostas que o paciente deu. A regra vale para as 8 perguntas, inclusive a de organização do investimento. Sem data não é falta de resposta: na pergunta 6, prazo ou evento, sem data é resposta e entra no campo e no espelho. Não saber responder não impede a consulta de seguir para a anamnese, o exame e, depois, o plano.

O paciente já chega pedindo um procedimento. Preciso fazer as perguntas mesmo assim?

Sim. As 8 perguntas acontecem igual. O pedido vira a resposta da pergunta 1, registrado no campo MOTIVO como quer fazer, seguido do nome do procedimento pedido, e a pergunta 2 busca o que está por trás dele. O pedido não é o plano. Se a anamnese e o exame, somados ao que a descoberta trouxe, mostram que não há indicação ou que o motivo não se resolve com procedimento, o plano pode ser não indicar procedimento. O espelho resume o que o paciente disse e não compromete o médico com nenhum plano.

Posso perguntar sobre doenças e medicamentos nessa parte da consulta?

Não nessa parte. Nenhuma das 8 perguntas é de saúde: doença, medicação, alergia e exames pertencem à anamnese, outra etapa, que vem depois do espelho. Na pergunta 3, sobre o que o paciente já tentou, o campo JÁ TENTOU registra a experiência dele, do que gostou, do que não gostou e por que parou, e não o histórico clínico. Se ele cita procedimento, produto, exame, data, dose ou intercorrência, o médico anota retomar na anamnese e segue. A descoberta pergunta sobre a pessoa e a decisão; a anamnese, sobre o corpo.

Devo pedir que o marido ou a família venha junto na consulta de avaliação?

Não, quando o paciente decide por si. A pergunta quem decide junto serve para o médico oferecer que o paciente leve a informação a quem ele escolheu ouvir, nunca para pedir a presença de ninguém. A pergunta também não transfere a decisão: o Código de Ética Médica veda ao médico desrespeitar o direito do paciente ou de seu representante legal de decidir livremente sobre a execução de práticas diagnósticas ou terapêuticas, salvo em caso de iminente risco de morte (art. 31). Numa avaliação eletiva, fora dessa ressalva, quem decide é o paciente ou seu representante legal. No campo DECIDE JUNTO entra só o vínculo, como marido ou filha, e não os dados da outra pessoa.

Referências

  1. Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica (CEM 2019) — Capítulo V ("É vedado ao médico:"), art. 31: o direito do paciente ou de seu representante legal de decidir livremente, salvo em caso de iminente risco de morte; numa avaliação eletiva, a pergunta 5 não transfere essa decisão.
  2. Presidência da República. Lei nº 13.709/2018 — Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais — art. 6º, III (princípio da necessidade): o registro da resposta resumida e, em quem decide junto, do vínculo, não dos dados da outra pessoa.

Este material apresenta modelos de comunicação para organização do atendimento e não constitui orientação jurídica. A redação final das mensagens, o registro do contato e a guarda dos dados do paciente devem observar as normas do CFM, as orientações do CRM da sua jurisdição e a LGPD.

Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Médico, dono de consultório particular em Brasília–DF. Escreve sobre gestão, precificação e operação de consultório a partir da própria prática — não de teoria de consultoria.

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