Conversão de consulta

Paciente quer fazer só parte do tratamento: como dividir o plano em fases sem desmontar a indicação

O médico termina a avaliação, apresenta o plano e o paciente responde: "consigo fazer só uma parte agora". Na hora, duas saídas parecem as únicas: cortar o plano ali mesmo para caber no orçamento, ou manter a indicação inteira e ver o paciente sair sem marcar nada. As duas custam caro, e a primeira custa em silêncio.

A resposta direta: divida a execução, nunca a indicação. Pelo Plano Faseado (PF), o plano é escrito inteiro antes de ser dividido, e a folha registra a soma de todas as fases mesmo quando só a Fase 1 é contratada. A Fase 1 resolve a queixa principal que o paciente declarou e nunca é escolhida só pelo menor preço. Toda fase seguinte leva prazo e valor próprios. O prontuário registra o indicado e o adiado em campos distintos, e o adiamento fica anotado como decisão do paciente, depois de informado. Não é pacote: cada fase tem valor próprio. É o médico quem apresenta as fases; a recepção só agenda.

Em que estágio da clínica este tema pesa

  1. 0Improvisar
  2. 1Monetizar
  3. 2Atrair
  4. 3Estabilizar
  5. 4Priorizar
  6. 5Produtizar
  7. 6Otimizar
  8. 7Organizar
  9. 8Especializar
  10. 9Capitalizar

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O corte feito no balcão apaga o que foi indicado

Quando o plano é reduzido na conversa, sem folha, o que sobra no papel é só o que foi vendido. O restante da indicação some de três lugares ao mesmo tempo. Some da memória do paciente, que sai lembrando do valor que pagou e não do que ficou para depois. Some da agenda, porque nenhuma fase seguinte ganhou data. E some do prontuário, que registra o procedimento feito e não o raciocínio que o cercava.

O efeito aparece meses depois. O paciente volta com a mesma queixa de fundo e não sabe que aquilo estava previsto. Outro colega da clínica atende e não encontra o plano original. O próprio médico, relendo a ficha, não consegue dizer se a segunda etapa foi recusada, esquecida ou nunca apresentada. A clínica perde a sequência do cuidado e perde a receita das fases que o paciente teria feito se alguém tivesse marcado a data.

A saída oposta, recusar o fracionamento e insistir no plano completo, tem outro custo: o paciente que não consegue pagar tudo agora não volta para fazer nada. A indicação fica íntegra no discurso e vazia na agenda.

Por que separar indicação de execução resolve os dois lados

O problema não está em dividir. Está em dividir a coisa errada. A indicação é o julgamento clínico sobre o que o caso pede; a execução é a ordem e o ritmo em que o paciente vai fazer. Quando as duas ficam na mesma folha, mas em linhas diferentes, o paciente pode escolher o ritmo sem que o julgamento mude.

Três decisões sustentam o desenho. A primeira é de ordem: o plano é escrito inteiro antes de qualquer corte, porque só assim a soma das fases fica visível. A segunda é de critério: a Fase 1 é o que resolve a queixa que trouxe o paciente ao consultório. Se o paciente veio por uma queixa e a primeira fase entrega outra coisa, mais barata, ele paga e continua com o problema que motivou a consulta. A terceira é de registro: o que foi indicado e o que foi adiado ficam em campos separados, e nada é apagado quando o paciente escolhe um ritmo mais lento.

O Código de Ética Médica sustenta as duas pontas dessa conversa. O art. 31 veda ao médico desrespeitar o direito do paciente, ou de seu representante legal, de decidir livremente sobre a execução de práticas diagnósticas ou terapêuticas, salvo em caso de iminente risco de morte. É esse direito que torna legítimo o adiamento por escolha do paciente. O art. 34 veda deixar de informar ao paciente o diagnóstico, o prognóstico, os riscos e os objetivos do tratamento, com a ressalva de quando a comunicação direta possa lhe provocar dano, caso em que a comunicação vai ao representante legal. Por isso o adiamento só é registrado depois de o paciente ser informado.

O caminho do Plano Faseado (PF)

  1. Indicação completaO plano é escrito inteiro antes de ser dividido, com a soma das fases ao pé da folha.
  2. Fase 1Resolve a queixa principal declarada pelo paciente, nunca escolhida só pelo menor preço.
  3. RegistroO prontuário separa INDICADO e ADIADO POR ESCOLHA DO PACIENTE. Nada é apagado.
  4. Fase 2 com dataToda fase seguinte leva prazo e valor próprios.
  5. ReavaliaçãoNa data prevista, o médico reavalia e a fase seguinte é confirmada ou reescrita.
Indicação inteira escrita, execução em etapas com data.
Modelo: PF — Plano Faseado: indicação inteira escrita, execução em etapas com data
  1. Escreva a indicação inteira. Antes de falar em orçamento, o médico lista tudo o que o caso pede, como se o paciente fosse fazer tudo de uma vez. O plano é escrito inteiro antes de ser dividido. É essa lista que depois vira as linhas da folha.
  2. Pergunte e registre a queixa principal. A queixa principal é a que o paciente declarou, com as palavras dele, não a que o médico considera mais relevante. Ela é anotada no topo da folha e decide o que entra na Fase 1.
  3. Monte a Fase 1 pela queixa. A Fase 1 é, por regra, o que resolve a queixa principal. Ela nunca é escolhida só pelo menor preço: se o que resolve a queixa é o item mais caro do plano, é ele que abre a sequência.
  4. Dê prazo e valor a cada fase seguinte. Toda fase seguinte leva um prazo (mês ou intervalo depois da fase anterior) e um valor próprio. Fase sem data não é fase; é intenção.
  5. Registre indicado e adiado em campos distintos. No prontuário, o campo INDICADO guarda o plano completo e o campo ADIADO POR ESCOLHA DO PACIENTE guarda as fases não contratadas, com a data prevista de reavaliação. Nada é apagado.

As três peças, prontas para copiar

Peça 1: Folha do Plano Faseado. Uma linha por fase. Os campos entre colchetes são preenchidos pelo médico na consulta.

FaseO que entraQueixa que resolvePrazo (mês/intervalo)Valor da fase
1[ITENS DA FASE 1][QUEIXA PRINCIPAL, nas palavras do paciente][DATA DE INÍCIO][VALOR DA FASE 1]
2[ITENS DA FASE 2][QUEIXA QUE A FASE 2 RESOLVE][MÊS OU INTERVALO APÓS A FASE 1][VALOR DA FASE 2]
n[ITENS DA FASE N][QUEIXA QUE A FASE N RESOLVE][MÊS OU INTERVALO APÓS A FASE ANTERIOR][VALOR DA FASE N]

Ao pé da folha, sempre escrita: "Indicação completa: soma das fases = [SOMA DOS VALORES DE TODAS AS FASES]". Essa linha existe para que o total indicado apareça no papel mesmo quando só a Fase 1 é contratada. O número de fases é o que o caso pede; a folha não fixa um número ideal.

Peça 2: Texto da apresentação ao paciente. Três blocos de fala, ditos pelo médico, na ordem abaixo.

Bloco 1, o que foi indicado por inteiro: "Pelo que avaliei hoje, o plano completo para o seu caso tem [NÚMERO DE FASES] fases. Vou mostrar tudo de uma vez, para o senhor ter a visão inteira antes de decidir o ritmo. A soma de todas as fases está aqui embaixo."

Bloco 2, o que resolve primeiro e por quê: "O senhor veio por causa de [QUEIXA PRINCIPAL]. A Fase 1 é o que resolve isso, e por isso ela vem primeiro. Ela não foi escolhida por ser a parte mais barata; foi escolhida por ser a que trata o motivo da sua consulta."

Bloco 3, quando e quanto custa cada fase seguinte: "A Fase 2 fica prevista para [PRAZO DA FASE 2] e custa [VALOR DA FASE 2]. [Repetir para cada fase.] Se o senhor preferir fazer agora só a Fase 1, eu anoto as outras como adiadas por sua escolha, com a data em que vamos reavaliar. Nada sai do plano. A recepção só vai agendar as datas."

Peça 3: Anotação de prontuário. Dois campos separados, preenchidos no mesmo dia da apresentação.

INDICADO (plano completo): "[DATA]. Plano completo apresentado ao paciente em [NÚMERO DE FASES] fases, conforme folha anexa. Fase 1: [ITENS], para [QUEIXA PRINCIPAL]. Fases seguintes: [ITENS POR FASE], com prazo e valor registrados na folha. Diagnóstico, prognóstico, riscos e objetivos do tratamento informados."

ADIADO POR ESCOLHA DO PACIENTE: "Paciente, informado do plano completo, optou por realizar neste momento a Fase 1. Fases [NÚMEROS DAS FASES] adiadas por escolha do paciente. Data prevista de reavaliação: [DATA]."

Exemplo ilustrativo

Valores fictícios, só para a conta da linha do pé da folha, sem relação com tabela de qualquer clínica. Plano com três fases: Fase 1 a R$ 2.400, Fase 2 a R$ 1.800, Fase 3 a R$ 1.200. Soma das fases = 2.400 + 1.800 + 1.200 = R$ 5.400. É esse número que vai escrito no pé da folha, mesmo que o paciente contrate só a Fase 1. Refaça com as fases do seu plano: some o valor de cada fase para a linha de indicação completa. A soma é a soma dos valores de cada fase; nenhum desconto de conjunto entra na conta.

A mesma estrutura em especialidades diferentes

A folha é igual em qualquer consultório. O que muda é a forma como a queixa principal aparece na fala do paciente. A tabela compara a frase que costuma sair quando o plano é cortado na hora com a frase do Bloco 2 do PF.

EspecialidadeCorte feito na horaFase 1 pelo PF
Ortopedia"Então fazemos só o que cabe agora e depois vemos.""O senhor veio pela dor ao subir escada. A Fase 1 é o que trata essa dor; as outras fases ficam com data e valor na folha."
Procedimentos estéticos"Começamos pelo mais em conta, que já ajuda.""A senhora veio pela queixa que mais a incomoda no espelho. A Fase 1 trata essa queixa, mesmo não sendo a parte mais barata do plano."
Oftalmologia"Resolvemos um olho e o outro fica para quando der.""A queixa que o trouxe foi a visão para dirigir. A Fase 1 começa por aí, e a fase seguinte já sai com prazo marcado."
Ginecologia"Fazemos a parte urgente e o resto a senhora decide depois.""A senhora veio pelo sintoma que atrapalha o dia a dia. A Fase 1 resolve esse sintoma; o restante está anotado como adiado por sua escolha, com data de reavaliação."
Fisiatria"Fazemos algumas sessões e vemos como fica.""O senhor quer voltar a caminhar sem dor. A Fase 1 é para isso; a Fase 2 tem mês previsto e valor na folha."

As nuances são de conteúdo, não de estrutura. Quando a queixa é estética e subjetiva, vale anotar as palavras exatas do paciente, porque é contra elas que a Fase 1 será julgada. Em qualquer caso, a página não diz qual procedimento vai em cada fase: isso é decisão clínica de quem avalia. O que o PF fixa é o critério da Fase 1 e o registro de tudo o que ficou para depois. A data de reavaliação também não é regra do modelo; ela sai do julgamento do médico sobre o caso.

Duas páginas irmãs completam esta. O plano faseado não é pacote: cada fase tem valor próprio, e a comparação entre vender o ciclo como oferta única e cobrar sessão a sessão está em pacote de tratamento ou sessão avulsa. E o seguimento das fases adiadas, o contato que chega perto da data prevista, fica em follow-up de orçamento do paciente.

Perguntas frequentes

O paciente quer fazer só parte do tratamento, o que eu faço?

Divida a execução, não a indicação. Escreva o plano inteiro antes de dividir, com a soma de todas as fases ao pé da folha. A Fase 1 é o que resolve a queixa principal que o paciente declarou, e nunca é escolhida só pelo menor preço. Toda fase seguinte leva prazo e valor próprios. No prontuário, o indicado e o adiado ficam em campos distintos, e o adiamento é anotado como decisão do paciente, depois de informado. Assim o paciente escolhe o ritmo sem que o julgamento clínico mude, e ninguém perde o registro do que foi indicado.

Como escolher o que entra na primeira fase do tratamento?

Pela queixa principal, com as palavras do paciente, anotada no topo da folha. A Fase 1 é o que resolve essa queixa. O critério não é o menor preço: se o que resolve a queixa é o item mais caro do plano, é ele que abre a sequência. Se a primeira fase entrega outra coisa, mais barata, o paciente paga e continua com o problema que motivou a consulta. Qual procedimento vai em cada fase é decisão clínica de quem avalia; o modelo fixa só o critério.

Plano de tratamento em fases é a mesma coisa que pacote?

Não. No plano faseado cada fase tem valor próprio, e a linha ao pé da folha é a soma dos valores de cada fase, sem desconto de conjunto. O pacote vende o ciclo como uma única oferta. O faseado serve ao paciente que escolheu fazer agora só uma parte: a indicação continua inteira no papel, e cada fase seguinte tem prazo e valor escritos. A comparação entre pacote e sessão avulsa tem página própria nesta mesma seção.

Como registrar no prontuário que o paciente adiou parte do tratamento?

Em dois campos separados, preenchidos no dia da apresentação. O campo INDICADO guarda o plano completo, com as fases, os itens e a nota de que diagnóstico, prognóstico, riscos e objetivos do tratamento foram informados. O campo ADIADO POR ESCOLHA DO PACIENTE guarda as fases não contratadas e a data prevista de reavaliação. Nada é apagado. Valide a redação final com seu assessor jurídico e com o CRM da sua jurisdição.

O paciente pode escolher não fazer todas as fases indicadas?

Sim. O art. 31 do Código de Ética Médica veda ao médico desrespeitar o direito do paciente, ou de seu representante legal, de decidir livremente sobre a execução de práticas diagnósticas ou terapêuticas, salvo em caso de iminente risco de morte. É esse direito que sustenta anotar as fases não contratadas como adiadas por escolha do paciente. O art. 34 trata do dever de informar diagnóstico, prognóstico, riscos e objetivos do tratamento; por isso a escolha é registrada depois de o paciente ser informado.

Quem apresenta o plano em fases, o médico ou a secretária?

O médico. A apresentação segue três blocos de fala: o que foi indicado por inteiro, o que resolve primeiro e por quê, e quando e quanto custa cada fase seguinte. A recepção só agenda as datas das fases. Deixar a divisão do plano para o balcão é o que faz o corte acontecer sem folha, e com isso o restante da indicação some da memória do paciente, da agenda e do prontuário.

Referências

  1. Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica (CEM 2019, PDF) — art. 31 (direito do paciente ou de seu representante legal de decidir livremente sobre a execução de práticas diagnósticas ou terapêuticas, salvo em caso de iminente risco de morte), que sustenta o adiamento por escolha do paciente; e art. 34 (dever de informar diagnóstico, prognóstico, riscos e objetivos do tratamento, com a ressalva da comunicação ao representante legal), que sustenta registrar o adiamento só depois de o paciente ser informado.

Os números do exemplo são fictícios e ilustrativos, não constituindo promessa de resultado. Cada consultório tem realidade própria. Este conteúdo não substitui orientação contábil, jurídica ou de proteção de dados (LGPD) específica para o seu caso.

Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Médico, dono de consultório particular em Brasília–DF. Escreve sobre gestão, precificação e operação de consultório a partir da própria prática — não de teoria de consultoria.

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