Documentos e mensagens da clínica

Retoque do procedimento é cobrado? A política de revisão que a clínica escreve antes

A paciente volta semanas depois do procedimento e pede "o retoque". A recepção não sabe se é de graça, chama o médico entre duas consultas, e a resposta sai diferente conforme o tom de quem pediu: cortesia para quem reclamou alto, cobrança para quem perguntou com educação.

A resposta direta: o retoque é cobrado ou não conforme uma regra que a clínica escreve e entrega junto com o orçamento, antes do procedimento — nunca conforme a conversa no balcão. O desenho mais usado separa duas coisas. A consulta de revisão entra no preço, dentro de uma janela que o médico define por procedimento. O complemento de produto ou de sessão, quando o médico o indica nessa consulta, segue uma de duas regras publicadas: incluído até um limite, ou cobrado por valor fixo. Pedido fora da janela ou de mudança de plano não é revisão. Sintoma ou intercorrência não passa pela política: vai direto ao médico. E a palavra "garantia" sai do texto, porque promete resultado.

Em que estágio da clínica este tema pesa

  1. 0Improvisar
  2. 1Monetizar
  3. 2Atrair
  4. 3Estabilizar
  5. 4Priorizar
  6. 5Produtizar
  7. 6Otimizar
  8. 7Organizar
  9. 8Especializar
  10. 9Capitalizar

Estágio 3 · Estabilizar

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O retoque decidido no balcão é uma tabela de preço invisível

Quando não existe regra escrita, cada pedido de retoque vira uma negociação — e negociação tem vencedor. Quem insiste recebe o complemento sem custo; quem aceita a primeira resposta paga. O resultado são dois preços para o mesmo procedimento, decididos pelo temperamento do paciente.

Três custos ficam escondidos nesse arranjo. O primeiro é o material: produto usado em complemento sem cobrança sai do estoque e não aparece em nenhuma linha do orçamento original. O segundo é a agenda: o retoque improvisado ocupa horário que seria vendido. O terceiro é o mais caro e o menos visível — a palavra usada para justificar a cortesia. Quando a recepção diz "o procedimento tem garantia", ela transforma uma consulta de avaliação numa promessa de resultado, e o paciente passa a tratar qualquer insatisfação como defeito a ser consertado de graça.

Por que a revisão programada funciona: separar avaliação, complemento e promessa

O mecanismo é tirar a decisão do balcão e colocá-la em dois lugares: no orçamento, antes do procedimento, e na consulta de revisão, com o médico. A recepção deixa de decidir e passa a aplicar um texto.

Isso encontra lastro direto no Código de Ética Médica. No Capítulo VIII, sob o chapéu "É vedado ao médico:", o art. 61 veda "Deixar de ajustar previamente com o paciente o custo estimado dos procedimentos." — e o complemento é custo do procedimento, por isso a regra dele vai no orçamento, e não depois.

E quando o texto da política sai da sala e vai para o site, o perfil ou o material de captação da clínica, ele passa a ser comunicação ao público. Aí vale a Resolução CFM nº 2.336/2023, cujo art. 11 diz: "É vedado ao médico e, naquilo que couber, às pessoas jurídicas, entes sindicais e associativos de natureza médica:" — e o inciso XII: "garantir, prometer ou insinuar bons resultados do tratamento;". "Garantia de retoque" insinua resultado — é o que o inciso veda. O nome certo é revisão.

Política de revisão: os 6 itens do texto

  1. 1O que está incluído: uma consulta de revisão dentro da janela definida pelo médico
  2. 2Quem decide o complemento: o médico, na consulta de revisão
  3. 3Complemento: Opção A (incluído até um limite) ou Opção B (valor fixo)
  4. 4O que não é revisão: fora da janela, mudança de plano, procedimento novo
  5. 5Sintoma ou intercorrência: vai direto ao médico, com ou sem janela
  6. 6A revisão é avaliação médica, não garantia de resultado
Entregue junto com o orçamento, antes do procedimento.

A política escrita inteira

Modelo estrutural com redação-base para o assessor jurídico revisar antes do uso. Os campos entre colchetes são decisão do médico; a janela de revisão não tem valor sugerido aqui porque depende do procedimento e do critério clínico de quem o realiza.

  1. O que está incluído. "O valor do procedimento inclui uma consulta de revisão com [NOME DO MÉDICO], a ser realizada dentro de [JANELA DE REVISÃO DEFINIDA PELO MÉDICO PARA ESTE PROCEDIMENTO], contada da data do procedimento. Nessa consulta o médico avalia a evolução e registra a avaliação no prontuário."
  2. Quem decide o complemento. "A indicação de complemento de produto ou de sessão é feita pelo médico na consulta de revisão, com base na avaliação clínica. A recepção não indica nem nega complemento."
  3. Complemento. A clínica publica uma das duas regras abaixo, por procedimento. Opção A: "Complemento indicado pelo médico na revisão está incluído no valor do procedimento até [LIMITE DE PRODUTO OU DE SESSÃO]; acima disso, segue o valor de [VALOR DO COMPLEMENTO]." Opção B: "Complemento indicado pelo médico na revisão é cobrado pelo valor de [VALOR DO COMPLEMENTO], informado neste orçamento."
  4. O que não é revisão. "Não são revisão, e seguem agendamento e valor de [VALOR DA CONSULTA] ou de novo orçamento: pedido feito depois de [JANELA DE REVISÃO DEFINIDA PELO MÉDICO PARA ESTE PROCEDIMENTO]; pedido de mudança em relação ao plano combinado antes do procedimento; tratamento de área ou procedimento diferente do realizado."
  5. Sintoma ou intercorrência. "Qualquer sintoma ou intercorrência relatado pelo paciente é encaminhado imediatamente ao médico por [CANAL DEFINIDO PELO MÉDICO PARA SINTOMA E INTERCORRÊNCIA], dentro ou fora da janela, e não passa por esta política." Este item vence todos os anteriores.
  6. O que a revisão é. "A revisão é uma consulta de avaliação médica. Ela não constitui garantia de resultado. Declaro ter recebido esta política junto com o orçamento, antes do procedimento. [NOME DO PACIENTE] · [DATA] · [ASSINATURA OU REGISTRO DE CIÊNCIA]."

A frase que entra no orçamento, logo abaixo do valor:

"Inclui consulta de revisão com [NOME DO MÉDICO] dentro de [JANELA DE REVISÃO DEFINIDA PELO MÉDICO PARA ESTE PROCEDIMENTO]. Complemento, se indicado pelo médico na revisão: [TEXTO DA OPÇÃO A OU DA OPÇÃO B]. A revisão é avaliação médica, não garantia de resultado. Política de revisão anexa."

A resposta da recepção ao pedido de retoque fora da política — duas situações, e a terceira nunca é respondida pela recepção:

Fora da janela: "[NOME], a consulta de revisão incluída no seu procedimento era até [DATA-LIMITE DA JANELA], como está na política que acompanhou o orçamento. Agora o caminho é uma consulta com [NOME DO MÉDICO], no valor de [VALOR DA CONSULTA]. Se o médico indicar complemento, você recebe o valor antes. Posso ver um horário para você?"

Pedido que muda o plano: "[NOME], o que você está descrevendo é uma mudança em relação ao que foi combinado antes do procedimento, e a política de revisão cobre a avaliação do que foi feito. Para esse novo pedido, o [NOME DO MÉDICO] faz uma avaliação e, se indicar, um orçamento novo. Posso agendar?"

Se o paciente relata dor, alteração ou qualquer sintoma, a recepção não aplica nenhum dos dois textos: encaminha na hora ao médico pelo canal do item 5.

Modelo: Revisão Programada — janela, critério e complemento escritos antes do procedimento
  1. Defina a janela por procedimento. O médico escreve, para cada procedimento da tabela, o prazo em que a consulta de revisão está incluída. Pronto quando nenhum procedimento orçado pela clínica fica sem o campo [JANELA DE REVISÃO DEFINIDA PELO MÉDICO PARA ESTE PROCEDIMENTO] preenchido.
  2. Tire a indicação do balcão. Registre no texto que só o médico, na consulta de revisão, indica complemento. Pronto quando a recepção tem instrução escrita de não indicar nem negar complemento.
  3. Escolha a regra do complemento com a conta. Para cada procedimento, calcule o acréscimo por paciente da Opção A e o valor do complemento da Opção B (conta abaixo) e publique uma delas. Pronto quando o orçamento traz a opção escolhida com o valor preenchido.
  4. Escreva o que não é revisão e a precedência do sintoma. Liste os pedidos que seguem consulta ou orçamento novo e publique que sintoma ou intercorrência vence a política. Pronto quando os itens 4 e 5 estão no texto.
  5. Entregue antes e registre a ciência. A política vai anexa ao orçamento, com a frase-padrão no corpo dele, e o paciente registra a ciência antes do procedimento. Pronto quando nenhum procedimento é realizado sem o registro do item 6.
Exemplo ilustrativo

Números fictícios; troque pelos do seu registro. Num procedimento, o material de um complemento custa R$ 400 à clínica. No último semestre a clínica fez 60 desses procedimentos e o médico indicou complemento em 12, cada um dentro do limite da Opção A. A consulta de revisão ocupa 20 minutos de agenda, e o custo da hora clínica é R$ 150 — logo, a revisão custa 150 × 20 ÷ 60 = R$ 50 por paciente, e esse valor entra no preço nas duas opções, porque a revisão está sempre incluída. Opção A, complemento incluído: o custo de material se distribui por todos, 12 × 400 = R$ 4.800 ÷ 60 = R$ 80 por paciente; o preço do procedimento sobe 50 + 80 = R$ 130. Opção B, complemento cobrado: o preço sobe R$ 50, e [VALOR DO COMPLEMENTO] é, no mínimo, os R$ 400 do material mais o tempo de agenda que a aplicação ocupa. A conta dá o acréscimo de preço de cada opção e o piso de [VALOR DO COMPLEMENTO]; qual opção publicar é decisão do médico.

A mesma política em especialidades diferentes

A estrutura não muda entre especialidades; muda o que é complemento. A coluna da direita mostra só a frase do orçamento.

EspecialidadeVersão fracaVersão pelo modelo
Procedimentos estéticos injetáveis"Tem garantia: se não ficar bom, a gente retoca.""Inclui consulta de revisão dentro de [JANELA]. Complemento, se indicado pelo médico na revisão: incluído até [LIMITE]; acima disso, [VALOR DO COMPLEMENTO]. A revisão é avaliação médica, não garantia de resultado."
Cirurgia"Qualquer ajuste depois a gente vê.""Inclui consulta de revisão dentro de [JANELA]. Complemento cirúrgico, se indicado pelo médico na revisão: [VALOR DO COMPLEMENTO]. A revisão é avaliação médica, não garantia de resultado."
Oftalmologia"Se precisar mexer de novo, não se preocupe.""Inclui consulta de revisão dentro de [JANELA]. Procedimento complementar, se indicado pelo médico na revisão: [VALOR DO COMPLEMENTO]. A revisão é avaliação médica, não garantia de resultado."
Angiologia e cirurgia vascular"As sessões extras a gente combina depois.""Inclui consulta de revisão dentro de [JANELA]. Sessão complementar, se indicada pelo médico na revisão: [VALOR DO COMPLEMENTO]. A revisão é avaliação médica, não garantia de resultado."
Ortopedia"Se não melhorar, volta que a gente resolve.""Inclui consulta de revisão dentro de [JANELA]. Nova aplicação, se indicada pelo médico na revisão: [VALOR DO COMPLEMENTO]. A revisão é avaliação médica, não garantia de resultado."

Nas quatro últimas linhas a frase usa a Opção B; em cirurgia e ortopedia é a escolha coerente, porque o complemento tem custo de sala e de agenda que não cabe diluir no preço de todos. Em procedimentos por sessões, a pergunta que a política responde é se a sessão a mais é revisão ou é mudança do plano — e ela responde pelos itens 3 e 4: sessão indicada pelo médico na revisão é complemento, pela regra publicada; pedido do paciente que muda o plano combinado é orçamento novo. A precedência do sintoma é a mesma em toda especialidade.

A regra do complemento conversa com duas decisões que vêm antes dela. Se o procedimento é vendido em pacote, a revisão precisa dizer se complemento consome sessão do pacote ou é cobrado à parte — o desenho está em pacote de tratamento ou sessão avulsa. E o acréscimo que a conta da Opção A põe no preço só faz sentido sobre um preço calculado a partir do custo, como em como precificar procedimento médico.

Perguntas frequentes

Retoque de procedimento é cobrado ou é de graça?

Depende da regra que a clínica escreveu e entregou junto com o orçamento, antes do procedimento. No desenho da revisão programada, a consulta de revisão com o médico entra no preço, dentro de uma janela que o médico define para cada procedimento. O complemento de produto ou de sessão, quando o médico o indica nessa consulta, segue uma de duas regras publicadas: incluído até um limite, ou cobrado por valor fixo informado no orçamento. O que não pode acontecer é a resposta mudar conforme quem pede e como pede, porque isso vira dois preços para o mesmo procedimento.

Posso chamar a revisão de garantia do procedimento?

Não é o nome recomendado. Garantia sugere que o resultado está assegurado, e a revisão é uma consulta de avaliação médica. Quando o texto da política é divulgado ao público, no site, no perfil ou em material de captação, vale a Resolução CFM 2.336/2023, cujo art. 11 veda ao médico e, naquilo que couber, às pessoas jurídicas, no inciso XII, garantir, prometer ou insinuar bons resultados do tratamento. Por isso a política e a frase do orçamento dizem que a revisão é avaliação médica, não garantia de resultado.

Qual deve ser o prazo para o paciente pedir o retoque?

A janela de revisão é decisão clínica do médico que realiza o procedimento, e muda de um procedimento para outro. Por isso a política traz o campo janela de revisão definida pelo médico para este procedimento, sem valor sugerido. O que a gestão exige é que a janela esteja escrita para cada procedimento da tabela antes de qualquer orçamento sair, e que o mesmo texto apareça na política, na frase do orçamento e na resposta da recepção. Pedido feito depois da janela segue consulta com valor próprio.

Como responder ao paciente que pede retoque fora do prazo?

A recepção usa um texto fixo: informa a data-limite da janela que estava na política entregue com o orçamento, oferece uma consulta com o médico pelo valor da consulta e avisa que, se o médico indicar complemento, o paciente recebe o valor antes. Se o pedido é uma mudança em relação ao plano combinado, o texto é outro: o médico faz uma avaliação e, se indicar, um orçamento novo. Se o paciente relata dor, alteração ou qualquer sintoma, nenhum dos dois textos se aplica e o caso vai ao médico na hora.

Vale mais a pena incluir o complemento no preço ou cobrar à parte?

A conta decide o valor de cada opção, e a escolha é do médico. Some o custo da consulta de revisão, que entra no preço nas duas opções. Para incluir o complemento, divida o custo total de material dos complementos do período pelo número de procedimentos e acrescente ao preço de todos. Para cobrar à parte, o preço sobe só o custo da revisão e o valor do complemento parte, no mínimo, do material mais o tempo de agenda da aplicação. Quando o complemento tem custo de sala e de agenda que não cabe diluir no preço de todos, a cobrança à parte é a opção coerente.

Quem decide se o paciente precisa de complemento, a recepção ou o médico?

O médico, na consulta de revisão, com base na avaliação clínica, e a política registra isso por escrito. A recepção tem instrução de não indicar nem negar complemento: ela agenda a revisão dentro da janela e aplica os textos de resposta. Essa separação é o que tira a decisão do balcão. Na política, essa regra é o item 2, entregue ao paciente junto com o orçamento.

Referências

  1. Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica (CEM 2019) — Capítulo VIII, sob o chapéu "É vedado ao médico:": art. 61, "Deixar de ajustar previamente com o paciente o custo estimado dos procedimentos." (sustenta a regra do complemento no orçamento, antes do procedimento).
  2. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.336/2023 — art. 11, caput: "É vedado ao médico e, naquilo que couber, às pessoas jurídicas, entes sindicais e associativos de natureza médica:", inciso XII: "garantir, prometer ou insinuar bons resultados do tratamento;" (sustenta a retirada da palavra "garantia" quando a política é divulgada ao público).

Conteúdo educacional de gestão para médicos. Não substitui orientação jurídica, contábil ou a consulta ao CRM da sua jurisdição.

Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Médico, dono de consultório particular em Brasília–DF. Escreve sobre gestão, precificação e operação de consultório a partir da própria prática — não de teoria de consultoria.

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