Abrir consultório

Consultório novo com agenda em branco: de onde saem os primeiros pacientes

A sala está alugada, o CNPJ saiu, a placa está na porta. A agenda da semana tem alguns horários marcados e você reconhece os nomes: são pessoas que já te conheciam antes da placa. O aluguel e a contabilidade, esses, vencem inteiros. É a fase em que o consultório novo queima reserva esperando uma demanda que ainda não sabe que ele existe.

A resposta direta: o consultório sem base própria, sem avaliação local e sem histórico aciona cinco fontes de primeiro paciente, e a ordem entre elas é publicada, não opinada: ordena-se pelo dinheiro que sai para acionar cada uma e, dentro de cada faixa de custo, por de quem depende o prazo — só de você, da resposta de uma pessoa nomeada, da autorização de um terceiro ou da indexação de uma plataforma. Nessa ordem: rede pessoal, colegas de encaminhamento, pacientes do vínculo anterior, presença local e a primeira ficha pública do consultório. Cada fonte vem com texto pronto do primeiro contato, e um sexto passo registra, semana a semana, quantas consultas cada uma produziu.

O que o consultório novo não tem — e o conselho corrente pressupõe

Três ausências definem o mês de abertura, e a combinação delas separa este caso de qualquer outro momento do consultório:

O conselho corrente de crescimento de consultório pressupõe pelo menos uma das três. "Reative sua base" pressupõe base; "peça avaliação" pressupõe quem avalie; "estimule a indicação" pressupõe alguém já atendido. Nenhum é errado — só não têm onde pegar antes do primeiro paciente sentar.

A conduta padrão diante dessa lacuna é esperar. Enquanto a demanda não aparece, o custo fixo corre inteiro — a sala não fica mais barata porque a agenda está vazia. É esse encontro entre custo integral e receita parcial que consome a reserva de abertura, e mais espera não o resolve.

O mecanismo: duas perguntas ordenam a fila, e você responde as duas sozinho

As fontes de primeiro paciente não são equivalentes, e o que as separa não é eficácia — é o que cada uma cobra e de quem ela depende para andar. Duas perguntas bastam, e nenhuma exige dado que você não tenha:

Os passos abaixo estão ordenados por essas duas respostas, nesta precedência: primeiro o custo; dentro de cada faixa, o prazo. Cada uma das cinco fontes publica as suas duas etiquetas.

O nome do modelo fixa a unidade de medida: consultório novo não conta seguidor nem impressão, conta conversa — uma mensagem nominal a alguém que pode marcar. O número no nome é o valor com que o modelo entra no topo da folha do passo 6, para ser trocado pelo que a sua agenda comporta.

Modelo: PRIMEIRAS 90 CONVERSAS — 5 fontes na ordem de custo e prazo, mais a régua
  1. Rede pessoal. Custo: nenhum · Prazo: depende só de você. É a única fonte cujo prazo não depende de mais ninguém. A regra do passo: uma mensagem por vez, nominal, sem lista de transmissão e sem imagem promocional. Texto pronto:

    "[NOME], estou escrevendo um por um, não é lista. Abri consultório em [BAIRRO, CIDADE] e comecei a atender [DIAS DA SEMANA]. Atendo [RECORTE CLÍNICO EM ATÉ SEIS PALAVRAS]. Se você ou alguém da sua casa precisar, o agendamento é por [CANAL]. Sou [NOME COMPLETO], CRM-[UF] [NÚMERO]."

  2. Colegas de encaminhamento. Custo: nenhum · Prazo: depende da resposta de uma pessoa nomeada. A mensagem tem três elementos, nesta ordem: quem você é com CRM e onde atende agora; o recorte clínico que você assume e o que devolve; o compromisso de retornar o paciente com relatório escrito e a conduta proposta. Texto pronto:

    "Dr(a). [NOME], sou [NOME COMPLETO], [ESPECIALIDADE], CRM-[UF] [NÚMERO], e passei a atender em [ENDEREÇO] desde [MÊS]. Assumo [RECORTE CLÍNICO]; não sigo [O QUE VOCÊ NÃO ATENDE], que devolvo. Quem você me encaminhar volta para você com relatório escrito e a conduta proposta."

  3. Pacientes do vínculo anterior. Custo: nenhum · Prazo: depende da autorização de um terceiro. É a fonte mais delicada, e a única que você não aciona sozinho: a lista de quem foi atendido no serviço onde você trabalhava antes não é sua, e a informação de que uma pessoa nomeada foi atendida ali é dado referente à saúde vinculado a uma pessoa natural — dado pessoal sensível na definição do art. 5º, II da LGPD. O art. 11 da mesma lei abre com "somente poderá ocorrer nas seguintes hipóteses" e fecha a lista; qual hipótese alcança o seu caso é pergunta para o seu assessor jurídico e para o serviço anterior, antes de qualquer mensagem. Sem lista nenhuma, o que dá para fazer é deixar o caminho pronto para quem procurar você. Texto combinado com a recepção do serviço anterior, para quem perguntar por você:

    "[NOME COMPLETO], CRM-[UF] [NÚMERO], deixou de atender aqui em [MÊS] e hoje atende em [ENDEREÇO]. O contato do consultório é [CANAL]. O prontuário do seu atendimento aqui continua conosco, e a cópia se pede [COMO]."

    Texto de resposta a quem chegar até você por conta própria:

    "[NOME], quem me procurou foi você, então respondo direto: continuo atendendo, agora em [ENDEREÇO], desde [MÊS]. Seu histórico ficou no prontuário de [SERVIÇO ANTERIOR] e a cópia se pede lá — eu não levei prontuário comigo. Para marcar, o caminho é [CANAL]. Se preferir seguir com quem assumiu o seu caso lá, também está certo."

  4. Presença local. Custo: variável · Prazo: depende da resposta de uma pessoa nomeada. Vá a pé até quem atende gente no mesmo quarteirão — recepção das outras salas do andar, farmácia, laboratório de coleta, academia — e apresente-se de balcão, deixando um cartão com nome, CRM, especialidade, endereço, dias e canal. Só custa o que você mandar imprimir. Texto pronto para a fala de balcão:

    "Bom dia. Sou [NOME COMPLETO], CRM-[UF] [NÚMERO], e abri consultório de [ESPECIALIDADE] na [SALA/ANDAR], aqui do lado. Atendo [DIAS] e o agendamento é por [CANAL]. Vim me apresentar e deixar o contato, para o caso de alguém perguntar aqui no balcão onde tem [ESPECIALIDADE] por perto."

  5. Primeira ficha pública do consultório. Custo: variável · Prazo: depende da indexação de uma plataforma. Fica por último porque o prazo não está na sua mão: depois de publicada, a ficha ainda precisa ser processada e indexada. Publique com os campos completos, sem adjetivo, e mantenha o mesmo endereço e o mesmo canal dos passos anteriores. Texto pronto para o campo de descrição:

    "[NOME COMPLETO], médico(a) com CRM ativo — CRM-[UF] [NÚMERO]. Consultório de [ESPECIALIDADE] em [BAIRRO, CIDADE], desde [MÊS/ANO]. Atendimento particular, [DIAS], das [HORÁRIO]. Agendamento por [CANAL]. Endereço: [ENDEREÇO COMPLETO], [PONTO DE REFERÊNCIA]."

  6. A régua das primeiras semanas. Uma folha, quatro linhas, uma por semana, no formato: Semana [N] · conversas enviadas: [ ] · respostas: [ ] · consultas marcadas: [ ] · consultas realizadas: [ ] · fonte de cada consulta realizada: [ ]. Conversas enviadas conta os passos 1 a 3; os 4 e 5 entram pela última coluna. No topo da folha, antes da primeira linha, escreva Meta de conversas: [NÚMERO] — o modelo entra com 90. Ao fim da quarta linha, some as colunas e escreva embaixo o custo fixo do mês dividido pelas consultas realizadas.
Exemplo ilustrativo

Números fictícios, escolhidos para a conta e não para a expectativa. Um consultório novo tem custo fixo de R$ 12.000 no mês, somando sala, contabilidade, sistema de agenda e telefone. Se a folha do passo 6 fechar o mês com 15 consultas realizadas, a linha de baixo é R$ 12.000 ÷ 15 = R$ 800 de custo fixo por consulta realizada. Com o mesmo custo fixo e um divisor de 40 consultas, a mesma linha dá R$ 12.000 ÷ 40 = R$ 300. Nenhum dos dois divisores é previsão: são dois valores para a mesma conta, e o que muda entre as linhas é só o divisor. Troque os R$ 12.000 pelo seu custo fixo e o divisor pelo número da sua folha.

Aplicação prática: a mesma mensagem ao colega, em vozes diferentes

No passo 2 a voz muda por especialidade, porque o que se assume e o que se devolve é diferente em cada uma. A coluna da direita traz o corpo da mensagem: a identificação com CRM e o endereço ficam fora deste recorte, e o que aparece são o recorte clínico assumido, o que você devolve e o compromisso de retornar o paciente com relatório escrito e a conduta proposta.

EspecialidadeVersão fracaVersão pelo passo 2
Cardiologia"Estou à disposição para os seus pacientes. Atendimento humanizado e de excelência.""Assumo investigação de dor torácica, arritmia sintomática e avaliação de risco cardiovascular pré-operatória; não sigo insuficiência cardíaca avançada, que devolvo. Quem você me encaminhar volta para você com relatório escrito e a conduta proposta."
Psiquiatria"Trabalho com saúde mental de forma completa e acolhedora. Pode indicar.""Assumo transtorno de humor e de ansiedade em adulto, incluindo ajuste de medicação; não atendo dependência química em fase aguda nem urgência psiquiátrica, que devolvo. Cada paciente encaminhado volta para você com relatório escrito e a conduta proposta."
Ortopedia"Ortopedista com vasta experiência, à disposição para os seus casos.""Assumo dor de joelho e de ombro sem trauma agudo e reabilitação depois de cirurgia feita por outro serviço; não faço trauma de plantão nem coluna cirúrgica, que devolvo. O paciente volta para você com relatório escrito e a conduta proposta."
Ginecologia"Atendo ginecologia geral com muito carinho. Conte comigo.""Assumo climatério, contracepção e rastreio de rotina; não faço pré-natal de alto risco, que devolvo. Quem você me encaminhar volta para você com relatório escrito e a conduta proposta."
Endocrinologia"Endocrinologista, atendimento de excelência. Estou à disposição.""Assumo tireoide, diabetes tipo 2 e obesidade em adulto; não atendo endocrinologia pediátrica, que devolvo. Cada paciente encaminhado volta para você com relatório escrito e a conduta proposta."

O que move o colega não é a sua disponibilidade — é saber o que não vai voltar para o consultório dele. Especialidade de porta de entrada encaminha por volume e reage ao recorte estreito; especialidade de destino encaminha por caso, e ali pesa o relatório de volta. Em qualquer uma, o desenho mais usado é o recíproco e clínico: você recebe o que assume, devolve o que não assume e retorna o paciente ao colega com o relatório escrito. Contrapartida financeira por encaminhamento não faz parte desse desenho, e a fronteira de cada arranjo se valida com o CRM da sua jurisdição.

Duas das cinco fontes põem texto seu diante de quem você não nomeou e não te procurou, e por isso mudam de regime. A Resolução CFM nº 2.336/2023 define no art. 1º o próprio objeto: publicidade ou propaganda médica é "a comunicação ao público, por qualquer meio de divulgação da atividade profissional, com iniciativa, participação e/ou anuência do médico". A ficha do passo 5 e o cartão deixado num balcão no passo 4 caem nessa régua; onde termina a conversa nominal e começa o público se valida com o CRM da sua jurisdição. A mesma Resolução, no art. 11 — que veda ao médico "e, naquilo que couber, às pessoas jurídicas" —, traz no inciso XVI "portar-se de forma sensacionalista ou autopromocional", e define no § 3º que promocional é "referir-se a si próprio, a serviço onde atue ou a técnicas e procedimentos de modo a conferir-se propriedades e qualidades privilegiadas". É por isso que os textos prontos dos passos 4 e 5 informam sem qualificar — e os dos passos 1 a 3 seguem a mesma redação por consistência, não por exigência.

Esta página termina no primeiro contato, de propósito. O que vem depois do primeiro paciente sentado — o ciclo de recall, o critério clínico de quem chamar de volta e a taxa de retorno — está em como reativar pacientes inativos sem virar spam, e depende de base própria, que é o que falta aqui. Transformar o comentário do paciente em canal gerenciado, com o mapa normativo das mecânicas de indicação, está em programa de indicação: o que o CFM permite. As duas começam onde esta acaba: com alguém já atendido.

Perguntas frequentes

Como conseguir os primeiros pacientes de um consultório novo?

O consultório que acabou de abrir não tem base própria, avaliação local nem histórico com colegas, então as fontes disponíveis são outras. São cinco, e a ordem entre elas sai de dois critérios que você mesmo verifica: quanto dinheiro sai para acionar cada uma (nenhum, variável, pago) e de quem depende o prazo (só de você, da resposta de uma pessoa nomeada, da autorização de um terceiro, da indexação de uma plataforma). Nessa ordem: rede pessoal, colegas de encaminhamento, pacientes do vínculo anterior, presença local e a primeira ficha pública do consultório. Cada uma vem com texto pronto do primeiro contato.

Abri o consultório e não aparece paciente: por onde começar?

Pela fonte cujo prazo depende só de você, que é a rede pessoal. Ela não precisa de resposta de terceiro, de autorização nem de indexação de plataforma, e também não custa nada — por isso encabeça a lista. A regra do passo é mandar uma mensagem por vez, nominal, sem lista de transmissão e sem imagem promocional, e o texto pronto está publicado no passo 1. Só depois vêm as demais, e a precedência é a publicada — primeiro o custo, depois o prazo: colegas de encaminhamento e pacientes do vínculo anterior não custam nada e por isso vêm antes; presença local e a primeira ficha pública têm custo variável e fecham a lista.

Posso avisar meus pacientes antigos que abri consultório próprio?

A lista de quem foi atendido no serviço onde você trabalhava antes não é sua, e a informação de que uma pessoa nomeada foi atendida ali é dado referente à saúde vinculado a uma pessoa natural, que é dado pessoal sensível na definição do art. 5º, II da LGPD. O art. 11 da mesma lei abre com somente poderá ocorrer nas seguintes hipóteses e fecha a lista. Qual hipótese alcança o seu caso é pergunta para o seu assessor jurídico e para o serviço anterior, antes de qualquer mensagem. Sem lista nenhuma, dá para deixar o caminho pronto: o passo 3 traz o texto combinado com a recepção de lá e o texto de resposta a quem procurar você por conta própria.

Como divulgar um consultório recém-aberto sem ferir a publicidade médica?

A Resolução CFM nº 2.336/2023 define no art. 1º o que ela rege: publicidade ou propaganda médica é a comunicação ao público, por qualquer meio de divulgação da atividade profissional, com iniciativa, participação e/ou anuência do médico. A ficha pública do consultório e o cartão deixado num balcão caem nessa régua, e onde termina a conversa nominal e começa o público se valida com o CRM da sua jurisdição. A mesma Resolução veda, no art. 11, XVI, portar-se de forma sensacionalista ou autopromocional, e o § 3º define promocional como referir-se a si próprio, a serviço onde atue ou a técnicas e procedimentos de modo a conferir-se propriedades e qualidades privilegiadas. Por isso os textos prontos dos passos 4 e 5 não trazem adjetivo de qualidade.

O que escrever na mensagem para colegas pedindo encaminhamento?

A mensagem do passo 2 tem três elementos, nesta ordem: quem você é, com CRM, e onde atende agora; o recorte clínico que você assume e o que devolve; o compromisso de retornar o paciente com relatório escrito e a conduta proposta. O que move o colega não é a sua disponibilidade, é saber o que não vai voltar para o consultório dele, e por isso o recorte é a parte que muda de especialidade para especialidade. Contrapartida financeira por encaminhamento não faz parte desse desenho, e a fronteira de cada arranjo se valida com o CRM da sua jurisdição.

Como medir se a divulgação do consultório novo está funcionando?

Pela folha do passo 6: quatro linhas, uma por semana, cada uma com conversas enviadas, respostas, consultas marcadas, consultas realizadas e a fonte de cada consulta realizada. No topo da folha, antes da primeira linha, fica a meta de conversas, e o modelo entra com 90, número que está lá para ser trocado pelo que a sua agenda comporta. Ao fim da quarta linha, some as colunas e escreva embaixo o custo fixo do mês dividido pelas consultas realizadas. É esse número, o custo fixo por consulta realizada, que o bloco de exemplo da página demonstra com valores fictícios.

Referências

  1. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.336/2023 — art. 1º (publicidade médica é comunicação ao público) e art. 11, XVI e § 3º (sensacionalismo e conduta autopromocional): sustentam o regime dos passos 4 e 5 e a redação sem adjetivo dos dois textos.
  2. Brasil. Lei nº 13.709/2018 — Lei Geral de Proteção de Dados — art. 5º, II (dado referente à saúde é dado pessoal sensível) e art. 11, caput (lista fechada de hipóteses): sustentam a cautela publicada no passo 3.

Os números deste artigo são fictícios e ilustrativos, não constituindo promessa de resultado. Cada consultório tem realidade própria de demanda, ticket e perfil de paciente. Este conteúdo não substitui orientação contábil, jurídica ou de proteção de dados (LGPD) específica para o seu caso.

Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Médico, dono de consultório particular em Brasília–DF. Escreve sobre gestão, precificação e operação de consultório a partir da própria prática — não de teoria de consultoria.

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