Precificação e ticket

Quanto cobrar pela consulta particular: o cálculo que quase nenhum médico faz

A maioria dos médicos não precifica a consulta — copia. Liga para dois colegas, olha o valor médio da cidade e escolhe um número parecido, talvez um pouco abaixo "para não perder paciente". O resultado é um preço que não tem relação nenhuma com o custo da própria operação, e uma margem entregue ao acaso.

A resposta direta: o preço da consulta particular se calcula em três passos — custo da sua hora clínica (custo fixo mensal dividido pelas horas realmente vendáveis), piso de sustentação (o valor abaixo do qual a consulta dá prejuízo) e camada de posicionamento (quanto o seu contexto, experiência e proposta de cuidado sustentam acima do piso). O número do colega da porta ao lado não entra em nenhum dos três passos.

Em que estágio da clínica este tema pesa

  1. 0Improvisar
  2. 1Monetizar
  3. 2Atrair
  4. 3Estabilizar
  5. 4Priorizar
  6. 5Produtizar
  7. 6Otimizar
  8. 7Organizar
  9. 8Especializar
  10. 9Capitalizar

Estágio 4 · Priorizar

A clínica diz sim para tudo, e isso custa margem. Aqui se escolhe o paciente ideal, o preço e o que deixar de fazer.

Seu papel
Gestor
Equipe
5 a 9 pessoas
O gargalo
Você faz de tudo, para todo tipo de paciente
Você sai quando
A agenda está cheia do paciente ideal e dos procedimentos de maior margem
Veja os 10 estágios e em qual está a sua clínica →

O sistema invisível: o que uma consulta precisa pagar

A consulta parece um serviço "sem custo" porque não consome material relevante. Essa é a ilusão que sustenta o preço por mimetismo. Uma hora de consulta carrega, na verdade, uma fração de tudo o que mantém o consultório de pé:

Quando o preço é copiado do mercado, todos esses itens continuam existindo — só deixam de estar representados no número. É por isso que dois consultórios com a mesma tabela de preços podem ter resultados opostos: o custo por hora de cada um é diferente, e só um deles sabe disso.

O mecanismo: por que o preço copiado corrói a margem em silêncio

O preço médio da sua cidade é uma estatística sobre os custos dos outros. Quem cobra R$ 300 porque "todo mundo cobra R$ 300" está assumindo, sem verificar, que tem o mesmo aluguel, a mesma equipe, a mesma carga tributária e a mesma taxa de ocupação de agenda de quem definiu esse valor — e que esse alguém, por sua vez, fez a conta. Na prática, forma-se uma cadeia de cópias em que ninguém calculou nada. O erro não aparece no extrato do mês: aparece na sobra do ano, quando o médico percebe que trabalhou com agenda cheia e acumulou pouco.

Modelo: Margem por Hora Clínica — 3 passos
  1. Custo da hora clínica. Some todo o custo fixo mensal do consultório (estrutura, pessoas, sistemas, contabilidade) e divida pelas horas de agenda realmente vendáveis no mês — descontando tempo administrativo, intervalos e a ociosidade típica da sua agenda real, não da agenda ideal.
  2. Piso de sustentação. Multiplique o custo da hora pela duração real da consulta (incluindo o retorno embutido, se houver) e acrescente os impostos do seu regime. Abaixo desse valor, cada consulta paga para acontecer.
  3. Camada de posicionamento. Sobre o piso, defina a margem que o seu contexto sustenta: experiência, subespecialização, tempo dedicado por paciente, estrutura, conveniência, reputação. É a única camada em que o mercado entra — como referência de teto, nunca de piso.
Exemplo ilustrativo

Uma médica com consultório próprio tem custo fixo de R$ 14.000/mês (sala, secretária, sistemas, contabilidade). A agenda teórica é de 32 horas semanais, mas entre tempo administrativo, faltas e horários vagos, ela vende na prática 100 horas/mês. Custo da hora clínica: R$ 140. A consulta dela dura 50 minutos e embute um retorno breve — chame de 1,3 hora de agenda por paciente: custo de ~R$ 182 por consulta, antes de imposto. Com imposto efetivo de 10% sobre a receita, uma consulta cobrada a R$ 200 deixa cerca de R$ 0 de margem — ela trabalha para empatar. Cobrada a R$ 350, a mesma consulta gera ~R$ 133 de margem. Os números são fictícios; a estrutura da conta é o que importa — refaça com os seus.

Aplicação prática: os quatro erros que a conta expõe

Erro comumO que a conta revela
Copiar a média da cidadeA média é o custo dos outros. O seu piso pode estar acima dela — e aí a média é prejuízo com fila.
Ignorar a ociosidadeDividir o custo fixo pela agenda ideal (e não pela vendida) subestima o custo da hora em 20–40% em agendas típicas.
Não embutir o retornoConsulta + retorno é mais de uma hora de agenda. Precificar só a primeira visita esconde metade do custo.
Não reajustar anualmenteCusto fixo sobe todo ano (aluguel, salários, sistemas). Preço parado é margem caindo em câmera lenta.

Vale registrar o que a regulação diz sobre transparência: desde a Resolução CFM nº 2.336/2023 (em vigor desde março de 2024), o médico pode informar o valor da consulta, meios e formas de pagamento (art. 9º, VI). Precificar bem e comunicar com clareza deixaram de ser atividades em conflito.

Para procedimentos, o raciocínio é o mesmo com uma camada a mais: o custo direto de material — que deve sempre entrar na conta como faixa realista de aquisição, não como número de catálogo. E para quem busca um referencial técnico de hierarquização de procedimentos, a CBHPM (Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos, da AMB) serve como base de comparação — referência, de novo, não substituto da sua conta.

Perguntas frequentes

Quanto custa uma consulta particular no Brasil?

Não existe valor único: o preço varia por especialidade, cidade, experiência e estrutura do consultório. O caminho correto é calcular o custo da própria hora clínica, definir o piso de sustentação — abaixo dele a consulta dá prejuízo — e só então posicionar o valor em relação ao mercado local.

Posso divulgar o valor da minha consulta?

Sim. Desde a Resolução CFM 2.336/2023, em vigor desde março de 2024, o médico pode informar valores de consulta, meios e formas de pagamento (art. 9º, VI).

Devo cobrar menos no início da carreira?

Cobrar abaixo do seu piso de sustentação significa pagar para atender. Se a agenda está vazia, o problema costuma ser demanda e posicionamento, não preço — e desconto generalizado rebaixa a percepção de valor sem encher a agenda de forma sustentável.

De quanto em quanto tempo reajustar o valor da consulta?

Pelo menos uma vez ao ano, acompanhando o aumento real dos custos fixos. Preço parado com custo subindo é margem caindo — e reajustes anuais menores são mais fáceis de comunicar do que correções grandes e espaçadas.

O retorno deve ser cobrado?

Retorno dentro do prazo combinado integra o episódio de cuidado da consulta — e por isso deve estar embutido no preço dela. O erro comum é não contar o tempo do retorno no custo da consulta ao precificar.

Referências

  1. Conselho Federal de Medicina. Resolução CFM nº 2.336/2023 — publicidade e propaganda médica; art. 9º, VI (divulgação de valores de consulta).
  2. CFM. Publicidade Médica — o que muda com a Resolução 2.336/2023.
  3. Associação Médica Brasileira. CBHPM — Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos.

Os valores das simulações são fictícios e marcados como exemplo ilustrativo. Faixas de custo de material, quando citadas em outros artigos desta série, seguem levantamento próprio de mercado e variam por volume e canal de compra.

Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Médico, dono de consultório particular em Brasília–DF. Escreve sobre gestão, precificação e operação de consultório a partir da própria prática — não de teoria de consultoria.

Do preço certo para a clínica que sustenta o preço

A Mentoria Clínica Empresarial leva margem, mix e reajuste à prática no seu consultório, fase a fase — para dono de clínica de qualquer especialidade.

Conhecer a Mentoria →