Financeiro e unit economics

Quanto o consultório precisa faturar para você largar o plantão: a conta da travessia

O plantão paga a casa enquanto o consultório aprende a andar. O problema aparece depois, quando o consultório já andaria sozinho e o plantão continua na escala — porque ninguém definiu em que ponto ele sairia. O sinal que o médico espera costuma ser subjetivo: agenda cheia, um mês bom, a sensação de que agora dá. Nenhum desses é um número — e por isso a saída não tem data.

A resposta direta: o número que autoriza a saída não é um faturamento — é um limiar de atendimentos por mês, e ele muda a cada plantão cortado. Calcule (retirada bruta necessária + custo fixo do consultório − receita líquida dos plantões que permanecem) ÷ margem de contribuição por atendimento, arredondando para cima; no corte do último plantão a receita que permanece é zero e o limiar fica no valor cheio. O corte é autorizado quando três condições valem juntas: os atendimentos realizados ficam no limiar ou acima; isso se repete por tantos meses fechados consecutivos quantos forem os meses que a sua agenda leva para repor a receita daquele plantão; e a reserva em conta cobre esse prazo multiplicado pela receita líquida mensal dele. A ordem começa pelo plantão de menor receita líquida por hora comprometida.

Por que "esperar o consultório dar certo" nunca vira data

A decisão de sair do plantão é adiada por uma razão estrutural, não por falta de coragem: ela nunca teve gatilho. Gatilho é uma grandeza medida todo mês mais um valor a partir do qual algo acontece. "Quando engrenar" não tem nenhum dos dois — e enquanto o critério for sensação, mês bom parece cedo demais e mês fraco confirma que ainda não é hora.

O plantão, além de pagar a casa, esconde três coisas que a travessia precisa separar:

O piso pessoal nunca foi escrito. O médico sabe o que ganha e não sabe o que a casa consome. Como o plantão cobre a diferença todo mês, ela nunca precisou ser medida — e número que ninguém mede não vira condição de saída.

O custo fixo do consultório é coberto em silêncio. Quando a receita do plantão entra na mesma conta que sustenta a operação, o extrato fecha positivo e qual das fontes fechou o mês fica sem resposta.

As horas do plantão são capacidade que falta do outro lado. A escala consome mais do que as horas de escala: consome o deslocamento e as horas de agenda do dia seguinte que você não abre por causa dela. Essas horas não aparecem como custo nas contas do consultório — e são as que faltam para o consultório bater o limiar que autorizaria o corte.

O mecanismo: travessia é conta de piso, não de faturamento

"Quanto preciso faturar" é a pergunta errada porque faturamento é bruto: dois consultórios com o mesmo faturamento sustentam vidas diferentes, conforme o custo fixo, o regime tributário e o que sobra de cada atendimento. O que decide é o que resta depois disso, comparado a dois pisos.

O primeiro piso é pessoal: o que sai da sua conta por mês para a casa rodar. O segundo é da operação: o custo fixo mensal do consultório, o que corre mesmo em mês de agenda vazia. Entre os dois existe uma conversão que não é de um para um: o valor que sai da PJ para que o piso pessoal chegue na sua conta depende da composição da retirada, e quem devolve esse número é o contador.

O que paga os dois pisos é a margem de contribuição por atendimento: o que sobra de um atendimento depois do custo variável dele e do imposto sobre aquela receita. Dividir a soma dos pisos por essa margem devolve o limiar do último corte, em atendimentos por mês; descontada antes a receita dos plantões que permanecem, a mesma conta devolve o limiar de cada corte anterior. É uma unidade que você conta na agenda, não estima.

Falta o terceiro elemento, o que separa a conta da aposta. Cortar um plantão é um degrau para baixo na receita, e a agenda leva um tempo para repô-lo. Esse tempo é medido na sua própria agenda, não arbitrado. Enquanto a agenda sobe, a reserva paga a diferença; sem ela, o degrau vira pressão de caixa, desconto improvisado e volta à escala.

Modelo: PONTO DE TRAVESSIA — dois pisos, um limiar por corte e a reserva
  1. Levante o piso pessoal e converta em retirada. Some, do seu extrato pessoal dos meses fechados: [MORADIA] + [ALIMENTAÇÃO E CASA] + [ESCOLA E SAÚDE] + [PARCELAS E DÍVIDAS] + [APORTES OBRIGATÓRIOS] + [O QUE O VÍNCULO DO PLANTÃO CUSTEIA HOJE E PASSARÁ A SAIR DO SEU BOLSO — se não custeia nada, a linha vale zero]. O total é o piso pessoal. Leve-o ao contador e peça a retirada bruta: o valor que precisa sair da clínica para que esse piso chegue na sua conta. Pronto quando as duas linhas estão escritas, não estimadas.
  2. Traga o piso da operação como uma linha só. O piso da operação é o custo fixo mensal do consultório — tudo o que corre mesmo sem atendimento. Você não o levanta aqui: ele é o total do mapa de custo fixo, categoria por categoria, que é objeto de outro artigo desta série. Pronto quando você tem um número fechado, do mês mais recente.
  3. Calcule a margem de contribuição e o limiar de cada corte. A margem de contribuição por atendimento é o que sobra de um atendimento depois do custo variável dele e do imposto sobre aquela receita. O limiar do corte que você está avaliando é (retirada bruta + piso da operação − soma da receita líquida mensal dos plantões que permanecem) ÷ margem de contribuição, arredondado para cima. A receita líquida de um plantão é o que entra na sua conta depois do imposto; subtraí-la de um valor bruto é aproximação, e o erro é para o lado de exigir mais atendimentos, não menos. A cada plantão cortado, a soma que permanece encolhe e o limiar sobe — no último corte ela é zero. Pronto quando você tem um limiar por corte, em atendimentos por mês.
  4. Meça os meses de reposição e provisione a reserva. Pegue o crescimento médio mensal da sua margem de contribuição total: quanto ela subiu entre o primeiro e o último mês fechado que você tem, dividido pelo número de intervalos mensais entre eles. Os meses de reposição são a receita líquida mensal do plantão que você vai cortar dividida por esse crescimento, arredondada para cima. A reserva é esse prazo multiplicado por aquela receita líquida mensal — ela cobre o cenário de reposição zero: receber o valor cheio do plantão a menos durante todos esses meses. Pronto quando o dinheiro está em conta separada.
  5. Ordene os plantões, com precedência declarada. Critério 1, que decide sozinho: menor receita líquida por hora comprometida — a receita líquida mensal do plantão dividida pelas horas que ele consome de você no mês, somando escala, deslocamento de ida e volta e as horas de agenda do dia seguinte que você não abre por causa dele. Critério 2, que só entra quando dois plantões empatam no critério 1: sai antes o que ocupa a faixa de maior demanda do seu consultório — aquela em que você hoje recusa ou empurra agendamento. Há empate quando os dois valores por hora comprometida ficam iguais depois de arredondados para o real; qualquer diferença acima disso é decidida pelo critério 1. Pronto quando a fila de corte está escrita, do primeiro ao último.
  6. Corte quando as três condições valerem juntas. (1) Os atendimentos realizados no mês ficaram no limiar daquele corte ou acima. (2) Isso se repetiu por um número de meses fechados consecutivos igual aos seus meses de reposição — um mês bom isolado pode ser o mês do encaixe, e esse é o prazo que a sua agenda já mediu. (3) A reserva está em conta. Falhou a condição 1, não corta e a contagem recomeça no mês seguinte; falhou só a 3, a contagem segue e o corte espera a reserva fechar. Depois do corte, recalcule o limiar do próximo e refaça o passo 4 para ele — a soma que permanece e o plantão da vez mudaram.
Exemplo ilustrativo

Os valores de entrada abaixo são fictícios e existem para você refazer a conta com os seus. Piso pessoal: R$ 18.000/mês. Retirada bruta devolvida pelo contador: R$ 22.000/mês. Piso da operação: R$ 11.000/mês. Margem de contribuição por atendimento: R$ 260. Três plantões na escala: A, R$ 6.000 líquidos em 60 horas comprometidas — R$ 100 por hora; B, R$ 5.200 em 40 horas — R$ 130 por hora; C, R$ 4.680 em 36 horas — R$ 130 por hora. Pelo critério 1, sai primeiro o A: o que mais paga no mês e o que menos paga por hora comprometida. B e C empatam em R$ 130, então o critério 2 decide entre eles: sai antes o que ocupa a faixa em que o consultório hoje recusa ou empurra agendamento. Limiar do primeiro corte: os plantões que permanecem somam 5.200 + 4.680 = R$ 9.880, então (22.000 + 11.000 − 9.880) ÷ 260 = 23.120 ÷ 260 = 88,9 → 89 atendimentos/mês. Limiar do último corte, quando nada permanece: 33.000 ÷ 260 = 126,9 → 127 atendimentos/mês. Meses de reposição: a margem de contribuição mensal subiu R$ 5.400 entre o primeiro e o sexto mês fechado, que são 5 intervalos mensais — 5.400 ÷ 5 = R$ 1.080 por mês; 6.000 ÷ 1.080 = 5,6 → 6 meses. Reserva: 6 × 6.000 = R$ 36.000. Convenção de arredondamento desta página: os valores com uma casa decimal são exibição, e o arredondamento final parte do valor cheio, sempre para cima, porque arredondar para baixo põe o limiar abaixo do piso; a reserva usa o prazo já arredondado.

Aplicação prática: a mesma conta, escalas diferentes

A conta não muda de especialidade para especialidade; o que muda é qual linha dela pesa mais. A tabela contrapõe a frase que o médico costuma dizer e a mesma decisão formulada pelo modelo, com os seus números nos colchetes. A coluna forte não repete os seis passos em cada linha.

EspecialidadeComo a saída costuma ser formuladaA mesma decisão pelo Ponto de Travessia
Clínica médica"Quando o consultório engrenar, largo dois plantões de uma vez.""Meu limiar para o primeiro corte é [LIMIAR] atendimentos/mês. Bati isso em [MESES DE REPOSIÇÃO] meses fechados seguidos e a reserva está em conta — corto um e recalculo o limiar do próximo."
Pediatria"Meu ticket é baixo, então nunca vou viver só do consultório.""Ticket baixo não trava a conta, muda o limiar: com margem de contribuição de [MARGEM] por atendimento, meu limiar é [LIMIAR] atendimentos/mês — é volume, não impossibilidade."
Ortopedia"O sobreaviso rende bem e quase não tira meu tempo.""O sobreaviso me custa [HORAS] horas comprometidas no mês, somando escala, deslocamento e a agenda do dia seguinte que não abro: [RECEITA LÍQUIDA] dividido por elas dá [VALOR POR HORA], o menor dos meus plantões. É o primeiro a sair."
Ginecologia e obstetrícia"Não dá para prever nada com obstetrícia, então nem faço a conta.""Conto as horas de escala que cumpri, não as previstas — parto não respeita a escala. Com deslocamento e dia seguinte somados, dá [HORAS] horas comprometidas; a receita líquida dividida por elas dá [VALOR POR HORA]."
Psiquiatria"Minha agenda é estável, já podia ter saído há tempos.""Estabilidade não é o gatilho: a margem de contribuição mensal cresceu [CRESCIMENTO MENSAL] nos meses fechados, repor o plantão leva [MESES DE REPOSIÇÃO] meses, e a reserva é esse prazo vezes a receita líquida dele."

Duas nuances pesam mais do que a especialidade. A primeira é o mix: quando o faturamento não é só consulta, a margem de contribuição média sai da combinação entre consultas e procedimentos, e comparar o peso relativo de procedimentos entre si pede uma referência técnica de hierarquização. A segunda é a carga tributária recorrente, que depende do regime em que a clínica está enquadrada e entra tanto na margem de contribuição quanto na conversão do piso pessoal em retirada bruta.

Dois insumos que o modelo consome têm casa própria nesta série: o piso da operação é o total do mapa de custo fixo, levantado categoria por categoria em quanto custa manter um consultório por mês, e a retirada bruta que corresponde ao seu piso pessoal depende da composição entre pró-labore e distribuição de lucros, que é o que muda o valor a sair da clínica para o mesmo chegar na sua conta. Esses dois insumos entram no modelo; o resto você mede, e a travessia vira uma data em vez de uma decisão de coragem.

Perguntas frequentes

Quanto preciso faturar para sair do plantão?

Faturamento é a métrica errada, porque é bruto. O número que autoriza a saída é um limiar de atendimentos por mês. Some a retirada bruta que sustenta o seu piso pessoal ao custo fixo mensal do consultório, subtraia a receita líquida mensal dos plantões que permanecem depois do corte e divida pela margem de contribuição por atendimento, arredondando para cima. Essa subtração mistura um valor bruto com um líquido, ou seja, é aproximação, e o erro é para o lado de exigir mais atendimentos, não menos. No corte do último plantão nada permanece, e o limiar fica no valor cheio da soma dos dois pisos.

Como sei que é hora de largar o primeiro plantão?

Por três condições que valem juntas, não por sensação. Primeira: os atendimentos realizados no mês ficaram no limiar daquele corte ou acima. Segunda: isso se repetiu por um número de meses fechados consecutivos igual aos seus meses de reposição, porque um mês bom isolado pode ser apenas o mês do encaixe. Terceira: a reserva está em conta separada. Se a primeira falhar, o corte não acontece e a contagem dos meses consecutivos recomeça no mês seguinte; se faltar só a reserva, a contagem segue e o corte espera o dinheiro entrar em conta. Depois do corte, o limiar do próximo plantão é recalculado e os meses de reposição são medidos de novo para ele.

Quantos meses de reserva preciso ter para sair do plantão?

Não existe um número geral: é o tempo que a sua agenda leva para repor a receita do plantão que você vai cortar. Meça quanto a margem de contribuição total do consultório subiu entre o primeiro e o último mês fechado que você tem e divida pelo número de intervalos mensais entre eles. Divida a receita líquida mensal daquele plantão, isto é, o que entra na sua conta depois do imposto, por esse crescimento e arredonde para cima. A reserva é esse prazo multiplicado pela mesma receita líquida mensal, porque ela cobre o cenário de reposição zero: receber o valor cheio do plantão a menos durante todos esses meses.

Qual plantão devo largar primeiro?

O de menor receita líquida por hora comprometida. Receita líquida é o que entra na sua conta depois do imposto. Hora comprometida é a hora de escala somada ao deslocamento de ida e volta e às horas de agenda do dia seguinte que você não abre por causa dele. Divida a receita líquida mensal do plantão por esse total de horas e ordene do menor valor para o maior. Quando dois plantões ficam com o mesmo valor por hora comprometida depois de arredondados para o real, entra o segundo critério: sai antes o que ocupa a faixa em que o seu consultório hoje recusa ou empurra agendamento.

O plantão que paga mais no mês é o que devo manter?

Não necessariamente. O valor que cai na conta não diz quanto aquele plantão custa a você em horas, e são as horas comprometidas que faltam do outro lado, no consultório que precisa bater o limiar. Um plantão pode ter a maior receita mensal da sua escala e ser o pior por hora comprometida, quando soma escala noturna, deslocamento e as horas de agenda que você não abre no dia seguinte. A ordem de corte se decide pela receita líquida por hora comprometida, não pelo valor que o plantão paga no mês.

Como calculo a margem de contribuição por atendimento do consultório?

É o que sobra de um atendimento depois do custo variável dele e do imposto sobre aquela receita. Custo variável é o que só existe quando o atendimento acontece: material, descartáveis, taxa de cartão sobre a venda, comissão. O custo fixo não entra aqui, porque ele é o piso da operação e aparece do outro lado da conta. Quando o faturamento não é só consulta, a margem média sai da combinação entre consultas e procedimentos, e o peso relativo de cada procedimento pede uma referência técnica de hierarquização para ser comparado.

Referências

  1. Associação Médica Brasileira. CBHPM — Classificação Brasileira Hierarquizada de Procedimentos Médicos — sustenta a frase de que comparar o peso relativo de procedimentos entre si pede uma referência técnica de hierarquização.
  2. Receita Federal do Brasil. Simples Nacional — portal oficial — sustenta a frase de que a carga tributária recorrente depende do regime em que a clínica está enquadrada.

Os números deste artigo são fictícios e ilustrativos, não constituindo promessa de resultado. Cada consultório tem realidade própria de demanda, ticket e perfil de paciente. Este conteúdo não substitui orientação contábil, jurídica ou de proteção de dados (LGPD) específica para o seu caso.

Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Médico, dono de consultório particular em Brasília–DF. Escreve sobre gestão, precificação e operação de consultório a partir da própria prática — não de teoria de consultoria.

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