Escala e gestão do dono

Quanto vale a minha clínica: o cálculo do lucro ajustado que abre a avaliação por múltiplo

Um sócio quer sair, um grupo manda proposta, um colega pergunta se você venderia a sua parte. A primeira resposta que vem à cabeça é o faturamento do ano, ou a soma do que foi gasto em reforma e aparelhos. Nenhum dos dois diz quanto a clínica vale.

A resposta direta: a clínica vale um múltiplo do lucro que ela gera sem que o dono trabalhe de graça, não do faturamento nem do que foi investido. O cálculo parte do lucro do DRE dos últimos 12 meses fechados: soma de volta a remuneração do dono lançada no DRE e as despesas pessoais pagas pela clínica; desconta o custo de mercado de um médico contratado para a agenda do dono e o de um gestor para a gestão que ele faz; tira receitas não recorrentes, devolve despesas não recorrentes e corrige o aluguel pago ao dono ou a parente fora do preço de mercado. O resultado é o lucro ajustado. O valor é esse lucro vezes o múltiplo que um avaliador informa e, no desenho mais usado de avaliação por múltiplo, fatores de desconto fracos baixam esse múltiplo.

Em que estágio da clínica este tema pesa

  1. 0Improvisar
  2. 1Monetizar
  3. 2Atrair
  4. 3Estabilizar
  5. 4Priorizar
  6. 5Produtizar
  7. 6Otimizar
  8. 7Organizar
  9. 8Especializar
  10. 9Capitalizar

Estágio 6 · Otimizar

Mais médicos, mais salas, às vezes mais uma unidade. O desafio é fazer melhor, não fazer mais: conversão de consulta, ocupação de agenda e margem por sala.

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O sistema invisível: os dois números errados e o dono que não aparece no DRE

Faturamento é o dinheiro que entra, não o que fica. Quem compra uma clínica compra o resultado, porque é ele que devolve o dinheiro pago. O investimento é o segundo número errado: o que o dono gastou em reforma e aparelhos é custo passado e não diz nada sobre o lucro de quem assumir. O aparelho caro no fim da vida útil é uma conta que o comprador vai pagar depois de assinar.

O erro mais caro fica dentro do próprio DRE. Quando o dono também atende, o lucro apurado mistura a remuneração do trabalho médico com o resultado do negócio. Se ele se paga pouco e atende a agenda cheia, o lucro parece alto — mas parte dele é trabalho não pago, e quem compra vai precisar pôr outro médico naquela agenda. Esse lucro não existe para o comprador. O mesmo DRE pode carregar o contrário: despesas da família lançadas na clínica reduzem o lucro no papel sem ser custo da operação.

O mecanismo: a planilha do lucro ajustado, linha a linha

O lucro ajustado é quanto a operação gera por ano quando cada pessoa, inclusive o dono, é paga pelo que faz, e nada além da operação entra na conta. A planilha abaixo é o cálculo inteiro; copie as linhas e preencha com os seus números.

LinhaO que entraSinalDe onde vem o número
1Lucro do DRE dos últimos 12 meses fechadosponto de partidaDRE mensal somado, depois de todas as despesas lançadas
2Remuneração do dono lançada no DRE (pró-labore e repasse pela produção dele)+Folha e lançamentos do contador. Distribuição de lucros não entra: ela sai do lucro, não é despesa
3Despesas pessoais pagas pela clínica+Extrato da PJ: carro da família, plano de saúde de casa, viagens, tudo que não serve à operação
4Custo de mercado do trabalho clínico do dono−O que a clínica pagaria a um médico contratado para a agenda que o dono atende hoje, na forma de remuneração que ela já usa (fixo, hora ou percentual da produção)
5Custo de mercado da gestão que o dono faz−O que custaria um gestor para a gestão que hoje é do dono. Com gestor já pago, a linha fica zerada
6Receitas não recorrentes−Venda de aparelho usado, recebimento atrasado de outro período, contrato pontual que não se repete
7Despesas não recorrentes+Reforma pontual, mudança de endereço, processo encerrado
8Diferença de aluguel, quando o imóvel é do dono ou de parente±(aluguel pago − aluguel de mercado) × 12. Pago abaixo do mercado dá número negativo
9Lucro ajustado=Soma das linhas 1 a 8, cada uma com o seu sinal

A planilha do lucro ajustado em uma linha

Lucro do DRE+Remuneração do dono lançada no DRE+Despesas pessoais pagas pela clínica−Trabalho clínico e gestão do dono a preço de mercado±Não recorrentes e diferença de aluguel=Lucro ajustado

A linha 4 separa esta planilha de um DRE comum: põe preço no trabalho do dono como se ele fosse um médico contratado. O preço sai de um número real — a remuneração que a clínica já paga a um médico com agenda comparável, ou uma proposta escrita. Cada real errado nela é um real errado no lucro ajustado.

O valor vem depois: valor = lucro ajustado × múltiplo. O múltiplo não sai desta página: é uma variável que o avaliador entrega para a clínica específica, e é nele que pesam os fatores abaixo.

Os 8 fatores que descontam o valor

Os fatores não são linhas da planilha: o desenho mais usado na avaliação por múltiplo é, com o mesmo lucro ajustado, dar à clínica com fatores fracos um múltiplo menor. Marque cada um como forte ou fraco antes de qualquer conversa.

  1. Dependência do dono. Quanto da receita vem de pacientes que marcam pelo nome dele. A linha 4 põe preço no trabalho; não resolve o risco de esses pacientes irem embora com o médico. Fraco quando nenhum outro médico da clínica atende esses pacientes hoje.
  2. Concentração de receita. Um procedimento, uma fonte pagadora ou um canal de indicação respondendo pela receita. Fraco quando perder um só desses itens deixaria o lucro ajustado negativo.
  3. Recorrência. Receita que volta sem nova captação — retornos, tratamentos em etapas, planos de manutenção — de pacientes que marcam pela clínica e não pelo médico. Fraco quando a receita de cada mês depende de captar paciente novo.
  4. Equipe e processo escritos. Recepção, agenda e financeiro rodam por rotina documentada, sem o dono decidindo cada caso. Fraco quando recepção, agenda ou financeiro param na ausência do dono.
  5. Qualidade dos números. DRE mensal fechado, contas da PJ separadas das pessoais, receita batendo com o extrato. Fraco quando o passo 1 precisou corrigir algum mês para bater com o extrato da PJ, ou quando a linha 3 não é zero.
  6. Contratos. Aluguel com prazo e condição de transferência; contratos com os médicos e fornecedores que continuam valendo depois da venda. Fraco quando o aluguel ou algum desses contratos não tem prazo ou não prevê a transferência.
  7. Reinvestimento pendente. Aparelho no fim da vida útil, reforma ou sistema que o comprador terá de pagar logo depois de assumir. Fraco quando existe algum desses itens.
  8. Prontuário e base de pacientes. O CEM 2019 põe o prontuário sob a guarda do médico ou da instituição que assiste o paciente (art. 87, § 2º): esclareça qual dos dois é o caso na sua clínica. A base de pacientes reúne dado referente à saúde, dado pessoal sensível na LGPD (art. 5º, II); a forma de passá-la a um comprador se valida com o assessor jurídico. Fraco quando não está escrito quem guarda o prontuário nem como a base passaria ao comprador.
Modelo: Lucro que Fica — a clínica vale um múltiplo do lucro que sobra sem o dono trabalhar de graça
  1. Fechar os 12 meses. Monte o DRE dos últimos 12 meses fechados, para a sazonalidade entrar inteira, e anote o lucro na linha 1. Pronto quando cada mês bate com o extrato da PJ.
  2. Devolver ao lucro o que é do dono. Some a remuneração do dono lançada no DRE (linha 2) e as despesas pessoais pagas pela clínica (linha 3). Pronto quando cada valor tem o lançamento de origem ao lado.
  3. Cobrar o trabalho do dono a preço de mercado. Preencha a linha 4 (médico contratado para a agenda do dono) e a linha 5 (gestor para a gestão que ele faz). Pronto quando os dois têm origem escrita: linha 4, a remuneração já paga a um médico com agenda comparável ou uma proposta escrita; linha 5, a proposta de um gestor, ou zero se o gestor já é pago.
  4. Limpar o que não se repete. Tire as receitas não recorrentes (linha 6), devolva as despesas não recorrentes (linha 7) e acerte a diferença de aluguel (linha 8). Some tudo na linha 9: é o lucro ajustado.
  5. Aplicar o múltiplo e marcar os fatores. Multiplique o lucro ajustado pelo múltiplo que o avaliador informar e marque os 8 fatores como fortes ou fracos. Pronto quando cada fator tem a marca e o critério de fraco conferido ao lado.
Exemplo ilustrativo

Números fictícios, só para a conta fechar — troque cada um pelo seu. Lucro do DRE dos últimos 12 meses: R$ 420.000 (linha 1). O dono lançou R$ 120.000 de pró-labore e nenhum repasse pela produção no DRE (linha 2: + R$ 120.000). A clínica pagou o carro da família, R$ 2.500 × 12 = R$ 30.000, e o plano de saúde de casa, R$ 1.500 × 12 = R$ 18.000 (linha 3: + R$ 48.000). Uma proposta escrita a um médico contratado para a mesma agenda é de R$ 30.000 × 12 = R$ 360.000 (linha 4: − R$ 360.000). A proposta de um gestor para a gestão que o dono faz é de R$ 5.000 × 12 = R$ 60.000 (linha 5: − R$ 60.000). Entrou R$ 30.000 da venda de um aparelho usado (linha 6: − R$ 30.000) e saiu R$ 25.000 numa reforma pontual (linha 7: + R$ 25.000). O imóvel é do dono: a clínica paga R$ 4.000 por mês e o aluguel de mercado é R$ 6.000, então (4.000 − 6.000) × 12 = − R$ 24.000 (linha 8). Linha 9: 420.000 + 120.000 + 48.000 − 360.000 − 60.000 − 30.000 + 25.000 − 24.000 = R$ 139.000 de lucro ajustado. Com um múltiplo fictício de 2,5 informado pelo avaliador, a conta é 139.000 × 2,5 = R$ 347.500. O mesmo múltiplo aplicado ao lucro do DRE sem ajuste daria 420.000 × 2,5 = R$ 1.050.000. As linhas 2 a 8 somam − R$ 281.000, e esse ajuste vezes o mesmo 2,5 é a distância entre as duas contas: 281.000 × 2,5 = R$ 702.500.

Aplicação prática: a mesma planilha em especialidades diferentes

À esquerda, o valor pensado pelo faturamento, pelo investimento ou pelo DRE sem ajuste; à direita, a mesma situação pela planilha.

EspecialidadeComo o dono calcula hojePelo Lucro que Fica
Oftalmologia"Investi nos aparelhos do centro de exames; a clínica vale pelo menos o que eles custaram.""O que os aparelhos custaram é passado. Eles entram no fator 7: quanto falta para trocá-los depois da venda."
Pediatria"A clínica fatura bem todo mês, então vale um bom múltiplo do faturamento.""Faturamento não é linha da planilha. O ponto de partida é o lucro do DRE, e o atendimento que depende do meu nome vai para a linha 4 e para o fator 1."
Ortopedia"Tiro pouco pró-labore, então o lucro da clínica é alto.""O pró-labore volta pela linha 2 e o meu trabalho sai a preço de mercado pela linha 4: o que sobra pagando um ortopedista contratado pela minha agenda."
Psiquiatria"Os pacientes são fiéis; a carteira vale muito.""Paciente fiel ao meu nome pesa no fator 1. Conta como recorrência, no fator 3, a parte que volta marcando pela clínica."
Clínica de procedimentos estéticos"O carro da família e o plano de saúde de casa saem pela clínica; o lucro é o que o DRE mostra.""Essas despesas voltam ao lucro pela linha 3, e um DRE sem elas é o que o fator 5 cobra."

Onde a receita sai das mãos do dono — cirurgia, procedimentos, consulta com agenda nominal — a linha 4 é grande e o fator 1 é o primeiro a conferir. Onde a receita depende de aparelho, como em oftalmologia, o fator 7 pesa. Em acompanhamento longo, como psiquiatria e pediatria, a recorrência só conta no fator 3 se estiver presa à clínica. E na clínica com vários médicos, em que o dono atende pouco, a linha 4 encolhe, e a linha 5 só fica zerada se já houver gestor pago.

A planilha só funciona se a linha 1 for confiável. Se ninguém sabe para onde vai o resultado, o trabalho começa antes, em entender por que a clínica fatura mas não sobra dinheiro. E a linha 2 depende de separar o que o dono recebe pelo trabalho do que recebe como sócio — a diferença entre pró-labore e distribuição de lucros torna essa linha legível para quem compra.

Perguntas frequentes

Como calcular quanto vale minha clínica médica?

O cálculo parte do lucro do DRE dos últimos 12 meses fechados e faz ajustes até chegar ao lucro ajustado: soma de volta a remuneração do dono lançada no DRE e as despesas pessoais pagas pela clínica, desconta o custo de mercado de um médico contratado para a agenda do dono e o de um gestor para a gestão que ele faz, tira receitas não recorrentes, devolve despesas não recorrentes e corrige o aluguel pago ao dono ou a parente fora do preço de mercado. O valor é o lucro ajustado multiplicado pelo múltiplo que um avaliador informa para a clínica específica.

Posso calcular o valor da clínica pelo faturamento?

Não. Faturamento é o dinheiro que entra, não o que fica, e quem compra uma clínica compra o resultado, porque é ele que devolve o dinheiro pago. Na planilha do lucro ajustado, faturamento não é linha: o ponto de partida é o lucro do DRE, que já descontou todas as despesas lançadas. O mesmo raciocínio vale para o que o dono investiu em reforma e aparelhos, que é custo passado e não diz nada sobre o lucro de quem assumir a clínica.

O que é lucro ajustado na avaliação de uma clínica?

Lucro ajustado é quanto a operação gera por ano quando cada pessoa, inclusive o dono, é paga pelo que faz, e nada além da operação entra na conta. Ele corrige duas distorções do DRE de uma clínica em que o dono atende: o trabalho que ele faz, na agenda e na gestão, pago abaixo do preço de mercado, que infla o lucro, e as despesas da família lançadas na clínica, que o reduzem no papel sem ser custo da operação. Também tira o que não se repete e acerta o aluguel quando o imóvel é do dono ou de parente.

Por que o pró-labore do dono muda o valor da clínica?

Porque o lucro do DRE mistura a remuneração do trabalho médico com o resultado do negócio. Se o dono se paga pouco e atende a agenda cheia, o lucro parece alto, mas parte dele é trabalho não pago, e o comprador vai precisar pôr outro médico naquela agenda. Por isso a planilha soma de volta a remuneração do dono lançada no DRE e desconta o custo de mercado de um médico contratado para a mesma agenda e o de um gestor para a gestão que ele faz. O médico sai da remuneração que a clínica já paga a um médico com agenda comparável ou de uma proposta escrita.

Qual múltiplo usar no valuation de clínica médica?

O múltiplo não é um número que se copia de uma página ou de uma conversa: é uma variável que o avaliador entrega para a clínica específica. O que o dono controla é o lucro ajustado, que é a base sobre a qual o múltiplo é aplicado, e os fatores que pesam nele. O desenho mais usado na avaliação por múltiplo é, com o mesmo lucro ajustado, dar à clínica com fatores fracos um múltiplo menor. Por isso o passo final do modelo é multiplicar pelo múltiplo informado e marcar os 8 fatores como fortes ou fracos.

O que reduz o valor de uma clínica na hora da venda?

São os 8 fatores que o modelo manda marcar: dependência do dono, concentração de receita, recorrência, equipe e processo escritos, qualidade dos números, contratos, reinvestimento pendente e prontuário e base de pacientes. No desenho mais usado de avaliação por múltiplo, fator fraco baixa o múltiplo. Cada fator se marca como forte ou fraco antes de qualquer conversa com comprador. A dependência do dono aparece nas duas pontas: a planilha põe preço no trabalho dele, mas isso não resolve o risco de os pacientes que marcam pelo nome dele irem embora com o médico.

O que investi em equipamentos entra no valor da clínica?

Não como linha da planilha. O que foi gasto em reforma e aparelhos é custo passado e não diz nada sobre o lucro que a clínica vai gerar para quem assumir. Os aparelhos entram na avaliação pelo fator reinvestimento pendente: aparelho no fim da vida útil, reforma ou sistema que o comprador terá de pagar logo depois de assumir. Onde a receita depende de aparelho, como em oftalmologia, esse fator pesa, porque o que falta para trocar os equipamentos é conta que o comprador terá de pagar.

Referências

  1. Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica (CEM 2019) — art. 87, § 2º: "O prontuário estará sob a guarda do médico ou da instituição que assiste o paciente"; sustenta o fator 8 (quem guarda o prontuário).
  2. Presidência da República. Lei nº 13.709/2018 — Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais — art. 5º, II: define dado pessoal sensível, incluindo "dado referente à saúde"; sustenta a classificação da base de pacientes no fator 8.

Os números do exemplo são fictícios e ilustrativos, não constituindo promessa de resultado. Cada consultório tem realidade própria. Este conteúdo não substitui orientação contábil, jurídica ou de proteção de dados (LGPD) específica para o seu caso.

Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Médico, dono de consultório particular em Brasília–DF. Escreve sobre gestão, precificação e operação de consultório a partir da própria prática — não de teoria de consultoria.

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