Repasse para o médico que atende na sua clínica: como calcular a porcentagem
A clínica contrata um segundo médico para atender na sala vaga das terças e quintas. Na hora de fechar o percentual de repasse, o sócio liga para um colega de outra cidade, ouve "aqui a gente faz 60/40" e propõe o mesmo número — sem saber se a estrutura da própria clínica custa o mesmo que a do colega. Três meses depois, ninguém sabe dizer se aquele percentual cobre o custo da sala ou só parece cobrir.
A resposta direta: o percentual de repasse não é um número de mercado — é o resultado de uma conta. A fórmula é Repasse = Receita do atendimento − custo direto (insumo, taxa de cartão, imposto sobre a receita) − rateio da hora de sala (custo fixo mensal ÷ (horas de sala disponíveis no mês × taxa de ocupação da agenda), multiplicado pelas horas que aquele atendimento ocupa) − margem da clínica (percentual declarado em contrato). O percentual de repasse sai depois, dividindo o repasse em reais pela receita. Como o rateio da hora de sala e o insumo são valores em reais, e não percentuais da receita, consulta e procedimento podem sair com percentuais diferentes na mesma clínica — e um "60/40" copiado do colega fixa um só número antes da conta.
Repasse pela Hora de Sala (RHS)
- O percentual é resultado da conta, nunca é definido antes dela.
- O rateio usa horas de sala DISPONÍVEIS × ocupação, não as horas do médico.
- A margem da clínica é o número declarado em contrato, não o que sobra depois de tudo.
Em que estágio da clínica este tema pesa
- 0Improvisar
- 1Monetizar
- 2Atrair
- 3Estabilizar
- 4Priorizar
- 5Produtizar
- 6Otimizar
- 7Organizar
- 8Especializar
- 9Capitalizar
Estágio 4 · Priorizar
A clínica diz sim para tudo, e isso custa margem. Aqui se escolhe o paciente ideal, o preço e o que deixar de fazer.
- Seu papel
- Gestor
- Equipe
- 5 a 9 pessoas
- O gargalo
- Você faz de tudo, para todo tipo de paciente
- Você sai quando
- A agenda está cheia do paciente ideal e dos procedimentos de maior margem
O sistema invisível: por que o mesmo "60/40" não serve para dois consultórios
Um percentual de repasse copiado carrega, sem declarar, todas as premissas da clínica que o inventou: o aluguel dela, o número de salas dela, a taxa de ocupação da agenda dela, o regime tributário dela. Quando esse número atravessa para a sua clínica, nenhuma dessas premissas atravessa com ele — só o número solto. O que sustenta um repasse justo, na sua estrutura, são quatro peças:
- Receita do atendimento — o valor bruto que o paciente paga por aquela consulta ou procedimento.
- Custo direto — o que aquele atendimento específico consome: insumo (quando há), taxa de cartão ou meio de pagamento, e o imposto que incide sobre a receita.
- Rateio da hora de sala — a fração do custo fixo mensal da clínica (aluguel, recepção, sistemas, contabilidade) que aquele atendimento deve pagar, calculada pelas horas de sala disponíveis vezes a taxa de ocupação da agenda, não pelas horas que o médico efetivamente atendeu.
- Margem da clínica — o percentual que a clínica declara em contrato como retorno sobre a receita daquele atendimento, antes de calcular o repasse.
Um consultório com duas salas e agenda de 75% de ocupação divide o custo fixo por outra base de horas que um consultório com uma sala só e agenda de 50%. Copiar o percentual do colega significa importar a estrutura dele sem verificar se ela é a sua.
O mecanismo: por que um único percentual não serve para consulta e procedimento
O erro do "60/40 copiado" não é só vir de fora — é assumir que um único percentual serve para qualquer tipo de atendimento dentro da própria clínica. Duas parcelas da conta são valores em reais: o rateio da hora de sala, igual para toda hora ocupada, e o insumo, que só alguns procedimentos têm. As outras três — imposto, cartão e margem — são percentuais da receita. Quando parcelas em reais se somam a parcelas percentuais sobre receitas diferentes, o percentual de repasse final varia — mesmo usando a mesma fórmula e a mesma clínica.
- Custo fixo por hora de sala. Divida o custo fixo mensal da clínica pelas horas de sala disponíveis no mês (número de salas × horas úteis por dia × dias úteis no mês) multiplicadas pela taxa de ocupação da agenda. O resultado é o custo, em reais, de uma hora de sala — a mesma unidade para consulta e para procedimento.
- Custo direto do atendimento. Some o insumo usado (quando houver), a taxa de cartão ou do meio de pagamento e o imposto sobre a receita daquele atendimento — variável, porque depende do regime tributário da clínica; confira com o contador.
- Rateio da hora de sala do atendimento. Multiplique o custo por hora de sala (passo 1) pelas horas que aquele atendimento específico ocupou na agenda.
- Margem da clínica. Aplique o percentual declarado em contrato sobre a receita do atendimento — é um número fixado antes, não o que sobra no fim da conta.
- Repasse e percentual. Repasse = Receita − custo direto − rateio da hora de sala − margem da clínica. Percentual de repasse = Repasse ÷ Receita.
Uma linha resume o passo 1: custo fixo mensal da clínica ÷ (número de salas × horas úteis por dia × dias úteis no mês × taxa de ocupação da agenda) = custo, em reais, de uma hora de sala.
Cenário da clínica (números fictícios): custo fixo mensal de R$ 39.600,00 (aluguel, recepção, sistemas, contabilidade), 2 salas, 8 horas úteis por dia, 22 dias úteis no mês, taxa de ocupação de 75%. Horas de sala disponíveis no mês: 2 × 8 × 22 = 352 horas; ocupadas, com 75% de ocupação: 352 × 0,75 = 264 horas. Custo por hora de sala: R$ 39.600,00 ÷ 264 = R$ 150,00/hora. Imposto sobre a receita considerado neste exemplo: 6%. Taxa de cartão: 3%. Margem da clínica declarada em contrato: 20% sobre a receita.
(1) Consulta de 1 hora, sem insumo, receita de R$ 400,00. Custo direto: taxa de cartão R$ 12,00 (3%) + imposto R$ 24,00 (6%) + insumo R$ 0,00 = R$ 36,00. Rateio da hora de sala: 1 h × R$ 150,00 = R$ 150,00. Margem da clínica: 20% × R$ 400,00 = R$ 80,00. Repasse = R$ 400,00 − R$ 36,00 − R$ 150,00 − R$ 80,00 = R$ 134,00. Percentual de repasse = R$ 134,00 ÷ R$ 400,00 = 33,5%. Conferência: R$ 36,00 + R$ 150,00 + R$ 80,00 + R$ 134,00 = R$ 400,00.
(2) Procedimento de 1 hora com insumo relevante, receita de R$ 1.200,00, insumo de R$ 250,00. Custo direto: insumo R$ 250,00 + taxa de cartão R$ 36,00 (3%) + imposto R$ 72,00 (6%) = R$ 358,00. Rateio da hora de sala: 1 h × R$ 150,00 = R$ 150,00 — o mesmo valor absoluto do exemplo (1), porque é a mesma hora de sala. Margem da clínica: 20% × R$ 1.200,00 = R$ 240,00. Repasse = R$ 1.200,00 − R$ 358,00 − R$ 150,00 − R$ 240,00 = R$ 452,00. Percentual de repasse = R$ 452,00 ÷ R$ 1.200,00 = 37,7%. Conferência: R$ 358,00 + R$ 150,00 + R$ 240,00 + R$ 452,00 = R$ 1.200,00.
O rateio da hora de sala foi idêntico em reais nos dois casos — R$ 150,00 — e ainda assim o percentual de repasse saiu diferente: 33,5% na consulta e 37,7% no procedimento. Duas parcelas são valores em reais e pesam conforme a receita: o rateio consome 37,5% da receita da consulta (R$ 150,00 ÷ R$ 400,00) e 12,5% da do procedimento (R$ 150,00 ÷ R$ 1.200,00); o insumo, ausente na consulta, consome 20,8% da receita do procedimento (R$ 250,00 ÷ R$ 1.200,00). Imposto, cartão e margem pesam o mesmo percentual nos dois. Os números são fictícios; a estrutura da conta é o que importa — refaça com os seus.
Aplicação prática: a tabela de repasse por tipo de atendimento
Com a mesma clínica do exemplo (custo por hora de sala de R$ 150,00, imposto de 6%, taxa de cartão de 3%, margem de 20%), a tabela abaixo aplica a fórmula a quatro tipos de atendimento. Nenhuma linha usa estimativa — todas derivam da mesma conta.
| Atendimento | Receita | Custo direto | Rateio hora-sala | Margem | Repasse (R$) | Repasse (%) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Consulta (1 h, sem insumo) | R$ 400,00 | R$ 36,00 | R$ 150,00 | R$ 80,00 | R$ 134,00 | 33,5% |
| Retorno (30 min, sem insumo) | R$ 200,00 | R$ 18,00 | R$ 75,00 | R$ 40,00 | R$ 67,00 | 33,5% |
| Procedimento sem insumo (1 h) | R$ 800,00 | R$ 72,00 | R$ 150,00 | R$ 160,00 | R$ 418,00 | 52,25% |
| Procedimento com insumo caro (1 h) | R$ 1.200,00 | R$ 358,00 | R$ 150,00 | R$ 240,00 | R$ 452,00 | 37,7% |
Duas leituras da tabela merecem destaque. Primeiro, consulta e retorno têm o mesmo percentual (33,5%) porque mantêm a mesma proporção entre custo direto, rateio e receita — o retorno de 30 minutos ocupa metade da hora de sala e gera metade da receita, então a conta escala igual. Segundo, o procedimento sem insumo tem o maior percentual da tabela (52,25%): sem insumo, a receita de R$ 800,00 dilui o mesmo rateio de R$ 150,00 da hora de sala.
Vale registrar o que cabe e o que não cabe nesta conta. O imposto sobre a receita depende do regime de apuração da clínica (Simples Nacional, lucro presumido ou outro) — não existe alíquota única a citar aqui, e o enquadramento e a apuração se confirmam com o contador da clínica, inclusive consultando o portal do Simples Nacional quanto às regras do regime, quando ele for o caso. A fórmula do repasse não decide o vínculo entre o médico que atende e a clínica — se é prestação de serviço PJ, sociedade ou outro arranjo é definição jurídica e trabalhista, feita com o contador e o assessor jurídico da clínica, fora do escopo deste cálculo. O rateio da hora de sala parte do custo já apurado do consultório: se esse número ainda não existe na sua clínica, calcule-o primeiro (quanto custa manter o consultório) e precifique o próprio procedimento antes de repassar parte dele (como precificar um procedimento médico).
Perguntas frequentes
Qual a porcentagem certa de repasse para médico que atende na clínica?
Não existe porcentagem-padrão de mercado: o percentual de repasse é o resultado de uma conta, não uma entrada. Ele sai de Repasse = Receita do atendimento − custo direto (insumo, taxa de cartão, imposto sobre a receita) − rateio da hora de sala (custo fixo mensal da clínica dividido pelas horas de sala ocupadas no mês, disponíveis × taxa de ocupação, multiplicado pelas horas que o atendimento ocupou) − margem da clínica (percentual declarado em contrato). O percentual de repasse é esse valor em reais dividido pela receita — e ele pode variar entre consulta e procedimento, porque o rateio e o insumo são valores em reais, não percentuais da receita.
Por que consulta e procedimento podem ter percentuais de repasse diferentes na mesma clínica?
Porque duas parcelas da conta são valores em reais — o rateio da hora de sala, igual para toda hora ocupada, e o insumo, que o procedimento pode ter e a consulta normalmente não —, enquanto imposto, cartão e margem são percentuais da receita. Quando parcelas em reais se somam a parcelas percentuais sobre receitas diferentes, o percentual final de repasse muda de um atendimento para o outro, mesmo usando a mesma fórmula.
O rateio do custo fixo usa a hora que o médico atendeu ou a hora de sala disponível?
Usa as horas de sala disponíveis no mês (número de salas × horas úteis por dia × dias úteis) multiplicadas pela taxa de ocupação da agenda, não as horas em que aquele médico especificamente atendeu. É essa base que transforma o custo fixo mensal da clínica em um valor por hora de sala, aplicável a qualquer atendimento que ocupe aquela hora.
A margem da clínica é o que sobra depois do repasse?
Não — na fórmula do Repasse pela Hora de Sala, a margem da clínica é um percentual declarado em contrato, aplicado sobre a receita do atendimento antes de calcular o repasse. Tratá-la como "o que sobra" inverte a lógica: nesse caso o médico é que assume o risco de a estrutura custar mais do que o previsto.
Quanto de imposto entra na conta do repasse?
Depende do regime tributário e de apuração da clínica — não há uma alíquota única aplicável a todos os casos. O que a fórmula fixa é o lugar do imposto na conta (dentro do custo direto do atendimento); o valor exato se confirma com o contador da clínica, considerando o regime de apuração vigente.
Referências
- Receita Federal do Brasil. Portal do Simples Nacional — regras do regime, quando aplicável à apuração da clínica.
Os números deste artigo são fictícios e ilustrativos, não constituindo promessa de resultado. Cada consultório tem realidade própria de demanda, ticket e perfil de paciente. Este conteúdo não substitui orientação contábil, jurídica ou de proteção de dados (LGPD) específica para o seu caso.
Perguntas frequentes
Qual a porcentagem certa de repasse para médico que atende na clínica?
Não existe porcentagem-padrão de mercado: o percentual de repasse é o resultado de uma conta, não uma entrada. Ele sai de Repasse = Receita do atendimento − custo direto (insumo, taxa de cartão, imposto sobre a receita) − rateio da hora de sala (custo fixo mensal da clínica dividido pelas horas de sala ocupadas no mês, disponíveis × taxa de ocupação, multiplicado pelas horas que o atendimento ocupou) − margem da clínica (percentual declarado em contrato). O percentual de repasse é esse valor em reais dividido pela receita — e ele pode variar entre consulta e procedimento, porque o rateio e o insumo são valores em reais, não percentuais da receita.
Por que consulta e procedimento podem ter percentuais de repasse diferentes na mesma clínica?
Porque duas parcelas da conta são valores em reais — o rateio da hora de sala, igual para toda hora ocupada, e o insumo, que o procedimento pode ter e a consulta normalmente não —, enquanto imposto, cartão e margem são percentuais da receita. Quando parcelas em reais se somam a parcelas percentuais sobre receitas diferentes, o percentual final de repasse muda de um atendimento para o outro, mesmo usando a mesma fórmula.
O rateio do custo fixo usa a hora que o médico atendeu ou a hora de sala disponível?
Usa as horas de sala disponíveis no mês (número de salas × horas úteis por dia × dias úteis) multiplicadas pela taxa de ocupação da agenda, não as horas em que aquele médico especificamente atendeu. É essa base que transforma o custo fixo mensal da clínica em um valor por hora de sala, aplicável a qualquer atendimento que ocupe aquela hora.
A margem da clínica é o que sobra depois do repasse?
Não — na fórmula do Repasse pela Hora de Sala, a margem da clínica é um percentual declarado em contrato, aplicado sobre a receita do atendimento antes de calcular o repasse. Tratá-la como "o que sobra" inverte a lógica: nesse caso o médico é que assume o risco de a estrutura custar mais do que o previsto.
Quanto de imposto entra na conta do repasse?
Depende do regime tributário e de apuração da clínica — não há uma alíquota única aplicável a todos os casos. O que a fórmula fixa é o lugar do imposto na conta (dentro do custo direto do atendimento); o valor exato se confirma com o contador da clínica, considerando o regime de apuração vigente.
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