Conversão de consulta

Roteiro da primeira consulta particular: os blocos que fazem o paciente voltar

O médico abre a porta, senta, e a consulta some dentro da queixa: o paciente fala, o médico examina, o tempo acaba e ninguém combinou o próximo passo. Ele sai satisfeito com o acolhimento e sem data marcada — e é exatamente aí, na saída sem próximo passo, que o retorno se perde. A consulta particular de 60 minutos não precisa de um roteiro rígido de perguntas: precisa de uma ordem que garanta que cada parte do tempo cumpra a função dela, e que a sala não se esvazie antes de a data seguinte existir.

A resposta direta: a consulta particular de 60 minutos funciona melhor dividida em cinco blocos, nesta ordem — acolher (5 min), investigar (20 min), explicar (15 min), recomendar (12 min) e combinar o próximo passo (8 min), somando os 60 minutos. A queixa ocupa só o bloco de investigar, no máximo um terço do tempo total; o bloco de explicar cobre diagnóstico, prognóstico, riscos e objetivos do tratamento; o de recomendar entrega uma conduta principal e no máximo uma alternativa, com prazo de resultado; e nenhum paciente sai da sala sem a data do próximo passo marcada, entregue por escrito num resumo de cinco campos. Para consulta de 40 minutos, os mesmos cinco blocos, na mesma ordem, na proporção 40/60.

Em que estágio da clínica este tema pesa

  1. 0Improvisar
  2. 1Monetizar
  3. 2Atrair
  4. 3Estabilizar
  5. 4Priorizar
  6. 5Produtizar
  7. 6Otimizar
  8. 7Organizar
  9. 8Especializar
  10. 9Capitalizar

Estágio 2 · Atrair

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O sistema invisível: por que "converse com o paciente" não é um roteiro

Estas instruções sobre a primeira consulta particular são negativas: não seja seco, não olhe para a tela, dê atenção. Nenhuma dessas frases diz o que fazer com os 60 minutos — e o vazio é preenchido pelo hábito que sobrou do convênio, onde o tempo curto empurra direto para o exame e a receita. Levar esse hábito para a consulta particular produz duas reclamações conhecidas: "o médico foi atencioso, mas não expliquei metade do que queria" ou, do lado do médico, "expliquei tudo e o paciente saiu sem marcar nada".

O problema não é o médico, é o desenho do tempo. Sem uma ordem declarada para os 60 minutos, três coisas competem pelo mesmo espaço: ouvir a queixa, examinar e decidir, e comunicar a decisão de um jeito que o paciente entenda e aceite. Quando a queixa consome o tempo todo, a explicação e a combinação do próximo passo ficam para os últimos cinco minutos — e são justamente os dois blocos que decidem se o paciente volta.

O mecanismo: por que a ordem fixa funciona melhor que o improviso

A ordem importa mais do que o conteúdo de cada bloco, porque cada bloco depende do anterior: não dá para explicar um diagnóstico antes de investigar, e não dá para recomendar uma conduta antes de explicar o que ela resolve. O desenho é fatiar o tempo total em blocos com função única, cada um com um minuto-limite declarado. O minuto-limite impede que o bloco anterior invada o espaço do seguinte. O bloco de combinar o próximo passo fica no fim, com teto de tempo fixo, porque é o último da fila quando a consulta atrasa.

Sobre o bloco de explicar, o Código de Ética Médica declara o dever de comunicação em quatro frentes: é vedado ao médico "deixar de informar ao paciente o diagnóstico, o prognóstico, os riscos e os objetivos do tratamento, salvo quando a comunicação direta possa lhe provocar dano, devendo, nesse caso, fazer a comunicação a seu representante legal" (CEM 2019, art. 34). As quatro frentes — diagnóstico, prognóstico, riscos e objetivos do tratamento — são o conteúdo mínimo do bloco Explicar nesta consulta; o artigo trata do que se comunica ao paciente, não de como o resumo é registrado por escrito, e a ressalva do próprio dispositivo — a comunicação ao representante legal quando a comunicação direta puder causar dano — é parte do dever, não uma opção do médico.

Modelo: C5B — Consulta em 5 Blocos (60 min)
  1. Acolher (5 min). Ouça o contexto: o que trouxe o paciente até aqui, o que ele já tentou e o que ele espera desta consulta. Pronto quando você consegue repetir, em uma frase, o que o paciente espera sair sabendo.
  2. Investigar (20 min). Conduza a anamnese e o exame necessários para sustentar uma decisão. Pronto quando você tem elementos suficientes para nomear um diagnóstico ou hipótese e uma conduta, sem precisar voltar à queixa.
  3. Explicar (15 min). Comunique diagnóstico, prognóstico, riscos e objetivos do tratamento (CEM, art. 34; quando a comunicação direta puder causar dano, ao representante legal) em linguagem que o paciente repete de volta. Pronto quando o paciente consegue reformular, com as próprias palavras, o que você acabou de explicar.
  4. Recomendar (12 min). Apresente uma conduta principal e, no máximo, uma alternativa, cada uma com o prazo em que o resultado esperado deve aparecer. Pronto quando o paciente escolheu entre as opções apresentadas — nunca quando o médico "convenceu" o paciente a aceitar a única oferecida.
  5. Combinar o próximo passo (8 min). Marque a data do retorno ou do início da conduta antes de o paciente sair da sala, e entregue o resumo por escrito. Pronto quando existe uma data no calendário, não uma intenção verbal ("depois a secretária liga").

Consulta em 5 Blocos (C5B) — 60 minutos

  1. Acolher — 5 minContexto: o que trouxe o paciente, o que já tentou, o que espera da consulta.
  2. Investigar — 20 minAnamnese e exame para sustentar a decisão.
  3. Explicar — 15 minDiagnóstico, prognóstico, riscos e objetivos do tratamento.
  4. Recomendar — 12 minUma conduta principal e no máximo uma alternativa, com prazo de resultado.
  5. Combinar o próximo passo — 8 minData do retorno ou do início marcada antes de o paciente sair da sala.
5 + 20 + 15 + 12 + 8 = 60 minutos. É recomendação de prática, não norma.

O roteiro completo, bloco a bloco, com frases prontas para levar para a sala (adapte o vocabulário à sua especialidade, mantendo a função de cada frase):

BlocoMinutosObjetivoFrase-modeloSaída do bloco
1. Acolher5Entender o contexto e a expectativa"Antes de eu examinar, me conta: o que te trouxe aqui, e o que você já tentou até agora?"Expectativa do paciente nomeada em voz alta
2. Investigar20Reunir elementos para decidir"Vou te fazer algumas perguntas mais específicas e depois examinar com calma."Diagnóstico ou hipótese sustentado
3. Explicar15Comunicar diagnóstico, prognóstico, riscos e objetivos"O que eu encontrei é isto: [diagnóstico]. Isso costuma evoluir assim: [prognóstico]. Os riscos de tratar e de não tratar são estes: [riscos]. E o que eu quero alcançar com o tratamento é isto: [objetivos]."Paciente reformula a explicação com as próprias palavras
4. Recomendar12Apresentar conduta e alternativa, com prazo"Minha recomendação é [conduta principal], com resultado esperado em [prazo]. A alternativa é [conduta alternativa], com prazo de [prazo]. Qual faz mais sentido para você?"Paciente escolhe entre as opções apresentadas
5. Combinar8Marcar o próximo passo e entregar o resumo"Vamos marcar seu retorno para [data] e eu te entrego este resumo por escrito antes de você sair."Data marcada e resumo entregue

Para a consulta de 40 minutos, a mesma ordem e a mesma proporção entre blocos — 5/60, 20/60, 15/60, 12/60 e 8/60 — aplicada aos 40 minutos disponíveis, com os minutos arredondados para baixo e o minuto que sobra somado ao bloco Combinar, o que o roteiro protege:

BlocoCálculo (40 × fração de 60)Minutos (40 min)
1. Acolher40 × 5/60 = 3,33
2. Investigar40 × 20/60 = 13,313
3. Explicar40 × 15/60 = 1010
4. Recomendar40 × 12/60 = 88
5. Combinar40 × 8/60 = 5,36
Exemplo ilustrativo

Um consultório fictício de 40 minutos por paciente aplica a mesma proporção do modelo de 60: divide cada bloco pela fração que ele ocupa no total (5/60, 20/60, 15/60, 12/60, 8/60) e multiplica pelos 40 minutos disponíveis. O bloco Investigar, que na consulta de 60 minutos leva 20, na de 40 passa a levar 40 × 20/60 = 13,3 minutos — arredondado para 13. Refaça a conta com a duração real da sua consulta: substitua os 60 e os 40 pelos seus números e mantenha a mesma fração para cada bloco.

O resumo por escrito: o que sai da sala com o paciente

O bloco Combinar só está completo quando o paciente sai com dois itens: uma data marcada e um resumo por escrito. O resumo não é prontuário nem termo de consentimento — é uma orientação ao paciente sobre o que foi conversado, em cinco campos fixos, para que ele não dependa da própria memória para lembrar o que foi decidido.

Modelo: Resumo por escrito — 5 campos
  1. O que avaliei. [RESUMO DO QUE FOI EXAMINADO/INVESTIGADO] — em uma ou duas frases, sem jargão.
  2. O que isso significa. [DIAGNÓSTICO OU HIPÓTESE EM LINGUAGEM SIMPLES] — a mesma explicação do bloco Explicar, resumida.
  3. O que recomendo. [CONDUTA PRINCIPAL] com [PRAZO DE RESULTADO ESPERADO].
  4. Alternativas e riscos. [CONDUTA ALTERNATIVA, SE HOUVER] e [RISCOS DE TRATAR E DE NÃO TRATAR].
  5. Próximo passo. [DATA DO RETORNO OU DO INÍCIO DA CONDUTA] — a mesma data marcada no bloco Combinar, nunca uma data em aberto.

Aplicação prática: a mesma estrutura, vozes diferentes

Os cinco blocos e os cinco campos do resumo não mudam entre especialidades — o que muda é o vocabulário de cada frase-modelo. A tabela abaixo contrapõe a fala que costuma sair sem estrutura com a versão que passa pelo modelo:

EspecialidadeSem estruturaPelo modelo (bloco Recomendar)
Cardiologia"Vamos ajustar a medicação e ver como fica.""Minha recomendação é ajustar a dose do [medicamento], com reavaliação da pressão em 30 dias. A alternativa é trocar a classe do remédio, com o mesmo prazo de reavaliação. Qual prefere tentar primeiro?"
Ortopedia"Faça fisioterapia e volte se não melhorar.""Minha recomendação é fisioterapia dirigida, com melhora esperada em 6 semanas. A alternativa é infiltração, com resposta em até 2 semanas mas efeito mais curto. Qual faz mais sentido para sua rotina agora?"
Ginecologia"Vamos tentar esse tratamento hormonal.""Minha recomendação é o ajuste hormonal com reavaliação em 60 dias. A alternativa é o método não hormonal, com prazo semelhante de reavaliação. Qual faz mais sentido para você?"
Nutrologia"Segue o plano alimentar e me conta depois.""Minha recomendação é o plano alimentar com reavaliação de exames em 90 dias. A alternativa, se preferir uma mudança mais gradual, é o mesmo plano em duas etapas, com reavaliação intermediária em 45 dias."
Clínica de procedimentos estéticos"Podemos fazer o procedimento quando você quiser.""Minha recomendação é [procedimento], com resultado esperado a partir de [prazo]. A alternativa é [procedimento alternativo ou combinação], com prazo diferente. As duas opções e os riscos de cada uma ficam registrados no seu resumo."

A diferença entre as colunas não é o tom, é a informação: a versão pelo modelo sempre nomeia uma conduta, um prazo e, quando existe, uma alternativa com o prazo dela — nunca promete um resultado sem prazo nem empurra o paciente para a única opção apresentada. O bloco Recomendar existe para o paciente decidir com dado, não para o médico decidir por ele.

O mesmo roteiro serve tanto para a consulta particular quanto para a de convênio quando houver tempo para os cinco blocos — a estrutura em cinco blocos é uma questão de desenho do tempo, não do tipo de pagamento. Para aprofundar a conversa de retorno que nasce do próprio bloco Combinar, veja o roteiro de consulta de retorno; e quando o próximo passo envolve um orçamento em análise, o follow-up de orçamento continua o combinado a partir daqui.

Perguntas frequentes

Quanto tempo deve durar cada parte da primeira consulta particular?

Numa consulta de 60 minutos, o modelo C5B divide o tempo em cinco blocos: acolher (5 min), investigar (20 min), explicar (15 min), recomendar (12 min) e combinar o próximo passo (8 min) — a soma dá os 60 minutos. Numa consulta de 40 minutos, a mesma ordem e a mesma proporção entre blocos se aplicam aos 40 minutos disponíveis, com os minutos arredondados para baixo e o minuto que sobra somado ao bloco de combinar o próximo passo: 3, 13, 10, 8 e 6. Os tempos são os do modelo, não uma norma, e servem como referência para não deixar um bloco engolir o tempo do seguinte.

Qual a diferença entre conduzir a consulta particular e a de convênio?

A diferença está no tempo disponível, não no tipo de pagamento. Com pouco tempo, o hábito é ir direto ao exame e à receita; levado para uma consulta particular de 60 minutos, esse hábito deixa os blocos de explicar e de combinar o próximo passo espremidos nos últimos minutos, que são justamente os dois que decidem se o paciente entende a conduta e sai com uma data marcada. Quando a consulta de convênio tem tempo para os cinco blocos, o mesmo roteiro vale.

O que o médico precisa explicar na consulta, segundo o Código de Ética Médica?

O art. 34 do Código de Ética Médica veda ao médico deixar de informar ao paciente o diagnóstico, o prognóstico, os riscos e os objetivos do tratamento, salvo quando a comunicação direta possa provocar dano ao paciente — caso em que a comunicação deve ser feita ao representante legal. No roteiro de 5 blocos, essas quatro frentes são o conteúdo do bloco Explicar (15 min numa consulta de 60), e o critério de pronto é o paciente conseguir reformular a explicação com as próprias palavras.

O resumo por escrito entregue ao paciente é um prontuário?

Não. O resumo por escrito é uma orientação ao paciente, entregue ao final da consulta, com cinco campos: o que foi avaliado, o que isso significa, o que o médico recomenda, as alternativas e riscos, e o próximo passo com data. Ele não substitui o prontuário nem qualquer termo de consentimento — serve para o paciente não depender da própria memória para lembrar o que foi decidido, e existe em paralelo aos registros clínicos e documentos que a consulta já exigir.

Quantas opções de conduta o médico deve apresentar na consulta?

O modelo recomenda uma conduta principal e, no máximo, uma alternativa, cada uma com o prazo em que o resultado esperado deve aparecer. O limite de duas é o que cabe no bloco Recomendar (12 min numa consulta de 60); apresentar só uma, sem alternativa e sem prazo, deixa o paciente sem parâmetro para decidir — o bloco só está completo quando o paciente escolhe entre as opções apresentadas.

O que significa 'combinar o próximo passo' no fim da consulta?

Significa marcar, antes de o paciente sair da sala, a data do retorno ou do início da conduta recomendada — não apenas comunicar a intenção de que 'a secretária liga depois'. No modelo de 5 blocos, esse é o último bloco (8 min numa consulta de 60) e o critério de pronto é a existência de uma data no calendário, junto com a entrega do resumo por escrito. Como é o último da fila quando a consulta atrasa, o roteiro protege o tempo dele.

Referências

  1. Conselho Federal de Medicina. Código de Ética Médica (Resolução CFM nº 2.217/2018, modificada pelas Resoluções CFM nº 2.222/2018 e nº 2.226/2019) — art. 34, dever de informar diagnóstico, prognóstico, riscos e objetivos do tratamento, com a ressalva de comunicação ao representante legal.

Este material apresenta modelos de comunicação para organização do atendimento e não constitui orientação jurídica. A redação final das mensagens, o registro do contato e a guarda dos dados do paciente devem observar as normas do CFM, as orientações do CRM da sua jurisdição e a LGPD.

Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Médico, dono de consultório particular em Brasília–DF. Escreve sobre gestão, precificação e operação de consultório a partir da própria prática — não de teoria de consultoria.

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