Anestesia para fios de sustentação
A anestesia do fio de sustentação é local e segue o caminho do fio: um botão no ponto de entrada, infiltração em pequeno volume ao longo do trajeto planejado e, onde o fio se fixa ou sai, anestesia no ponto de ancoragem — com bloqueio de nervo sensitivo quando ele cobre a região com menos volume e menos distorção. O que decide a técnica é a conta de dose de lidocaína, o tempo de espera depois da injeção e o cuidado para que o líquido injetado não mude o plano nem o desenho que o médico precisa ver na hora de tensionar.
O que precisa ficar anestesiado
O fio dói em três momentos diferentes, e cada um tem um alvo próprio:
- A punção da pele no ponto de entrada, por onde passa a agulha ou a cânula do fio.
- A passagem pelo subcutâneo, ao longo de todo o vetor desenhado, que é onde está a maior parte da sensação de tração.
- A fixação ou a saída: a região temporal em fios ancorados no couro cabeludo, o ponto de saída nos fios de agulha dupla, o periósteo nas técnicas que se fixam no rebordo orbital.
Na série de Myung e Jung (2020, Plast Reconstr Surg Glob Open), 64 mulheres fizeram lifting do terço médio com três fios de PDO espiculados 18G ancorados no periósteo da órbita lateral; todas sob anestesia local, com tempo médio de procedimento de 15 minutos e sem complicação maior. A anestesia, porém, não é detalhe neutro do resultado. Leguina-Ruzzi e colaboradores (2026, Clin Cosmet Investig Dermatol) descreveram um protocolo de fio com vetores guiados pela anatomia e infiltração anestésica otimizada, aplicado em 18 de 44 mulheres, e associaram a técnica a menos dor durante o procedimento, recuperação mais curta e menos complicações precoces que os dois outros métodos comparados. O estudo não foi randomizado, e o primeiro autor declara ser líder de opinião de empresas do setor, entre elas a Hansbiomed.
Infiltração no ponto de entrada e no trajeto
A sequência mais simples começa com um botão intradérmico no ponto de entrada, feito com agulha fina, e continua com a infiltração subcutânea ao longo do vetor desenhado, em pequenos depósitos, no mesmo plano em que o fio vai correr. Anestesiar o trajeto, e não só a pele, é o que permite passar o fio devagar, sentindo a resistência do tecido, sem a paciente se mexer a cada avanço.
O tempo entre a injeção e o fio muda a experiência. A revisão sistemática de Bajwa e colaboradores (2023, BJS Open), com 24 estudos e 1.013 participantes, encontrou média combinada de 2,1 minutos até a analgesia, com variação conforme o local e o calibre do nervo. A vasoconstrição da epinefrina demora mais: o tempo mínimo até a hipoperfusão foi de 7 minutos na pele da pálpebra e de 25 minutos no membro superior, e os autores concluem que esperar cerca de 7 minutos nas pálpebras e pelo menos 25 minutos nas outras regiões dá hipoperfusão ótima. No ensaio de McKee e colaboradores (2013, Plast Reconstr Surg), com lidocaína a 1% com epinefrina, o menor nível de hemoglobina cutânea apareceu em média aos 25,9 minutos — bem depois dos 7 a 10 minutos repetidos nos livros.

Na prática do fio, isso se traduz em uma ordem de trabalho: anestesiar primeiro, conferir a marcação e o vetor com a paciente sentada enquanto o anestésico age, e só então começar a inserção. Quem quer menos sangramento no trajeto ganha esperando mais; quem só precisa de analgesia já a tem em poucos minutos.
Tumescência: quando diluir e o que muda
Tumescência é a infiltração de solução anestésica diluída no subcutâneo até o tecido ficar firme. Uttamani e colaboradores (2020, J Cutan Aesthet Surg) revisaram o uso dessa técnica fora da lipoaspiração e mostram por que a diluição muda a conta: na lipoaspiração tumescente, o teto recomendado de lidocaína com adrenalina chega a 55 mg/kg, contra 7 mg/kg na infiltração convencional — número da lipoaspiração, que não se transfere para a face. Na face, Ramon e colaboradores (2007, Ther Drug Monit) mediram a lidocaína plasmática em seis mulheres operadas de facelift com solução de lidocaína a 0,33%, bicarbonato de sódio e epinefrina 1:600.000; a dose média foi de 21,6 mg/kg, muito acima do teto da infiltração convencional, num contexto de cirurgia que não autoriza repetir esse número no consultório. O dado que interessa ao fio é outro: o pico plasmático só veio, em média, 9,3 horas depois da infiltração. A revisão de escopo de Beaufigeau e colaboradores (2026, Ann Chir Plast Esthet), com 21 estudos e 7.115 facelifts sob anestesia local, encontrou a lidocaína com epinefrina como combinação mais usada e descreve o bicarbonato e os bloqueios de nervo como recursos para dar conforto com dose menor.

O fio tem uma particularidade que a cirurgia aberta não tem: o médico trabalha às cegas, guiado pela resistência do tecido e pelo que vê na superfície. Volume grande de líquido no subcutâneo engrossa a camada, muda a sensação da pinça que confirma o plano e pode esconder, na hora, uma depressão ou uma assimetria que vai aparecer quando o edema for embora. Por isso, no fio, a infiltração costuma ser de pequeno volume e restrita ao trajeto; a tumescência ampla fica para quando a área é grande e a dose da solução concentrada não fecharia.
Bloqueios: quando trocam a infiltração
O bloqueio de um ramo sensitivo anestesia a área inteira que ele inerva com um único depósito, longe do campo onde o fio vai passar. Num ensaio prospectivo de Chen e colaboradores (2025, Aesthetic Plast Surg), em 162 pacientes com laceração facial, o grupo do bloqueio guiado por referências anatômicas usou 2,03 mL de anestésico, contra 4,94 mL da infiltração na borda da ferida, teve menos dor e menos distorção do tecido. O cenário é o pronto-socorro, mas o princípio vale para o fio: menos líquido no plano de trabalho, desenho preservado.
Têmpora e ancoragem temporal. O nervo zigomaticotemporal inerva a pele da têmpora anterior, onde muitos fios se fixam. Num estudo em 36 hemifaces de cadáver, Shin e colaboradores (2026, Plast Reconstr Surg) localizaram o ponto de emergência desse nervo 4,5 mm acima do tubérculo marginal do zigoma, e 17,6 mm lateral e 9,5 mm acima do canto lateral do olho; a veia temporal média estava a 7,3 mm, no mesmo plano fascial, enquanto o ramo frontal do nervo facial corria numa camada mais superficial. Hong e colaboradores (2026, Plast Reconstr Surg) compararam, em 24 adultos e desenho de hemiface, a técnica convencional — inserção profunda a 1,5 cm lateral ao canto — com uma injeção mais superficial no trajeto do nervo, usando 0,9 mL de lidocaína a 2% com epinefrina de cada lado: a dor da injeção caiu de 3,7 para 2,4 na escala visual analógica, com efeito anestésico semelhante.

Terço médio e mento. Os bloqueios infraorbital e mentual cobrem a pele da bochecha medial, do lábio e do mento. A anatomia dos forames, as vias intraoral e cutânea e a soma de anestésico estão em bloqueio anestésico infraorbital e mentual; no fio, eles servem sobretudo à extremidade distal dos vetores do terço médio e do jowl. A região pré-auricular e o ângulo da mandíbula recebem ramos de outros nervos — o auriculotemporal e o auricular magno —, e por isso, nos vetores que cruzam essa área, a infiltração do trajeto continua necessária mesmo com bloqueio.
O bloqueio também tem risco próprio. A mesma relação anatômica que facilita o bloqueio zigomaticotemporal — veia temporal média no mesmo plano, ramo frontal do nervo facial logo acima — explica por que Shin e colaboradores insistem nas referências: elas ajudam a evitar lesão vascular e o bloqueio inadvertido do ramo motor, que deixaria a elevação da sobrancelha fraca enquanto durasse o anestésico.
A conta da dose, antes da primeira punção
A revisão de Uttamani e colaboradores registra os tetos convencionais da infiltração: lidocaína até 4,5 mg/kg sem adrenalina e até 7 mg/kg com adrenalina. A revisão narrativa de Ucer e colaboradores (2026, Dent J (Basel)) confirma que o formulário britânico e o FDA sustentam 7 mg/kg, com máximo de 500 mg, para a lidocaína com adrenalina, e acrescenta dois pontos que importam no consultório: fatores da própria paciente baixam o limiar tóxico efetivo, e quem combina dois anestésicos do grupo amida precisa somar as frações de dose de cada um.
| Concentração | Lidocaína por mL | O que somar na mesma sessão |
|---|---|---|
| 1% | 10 mg/mL | Botões, infiltração do trajeto e bloqueios |
| 2% | 20 mg/mL | Tubetes de bloqueio e solução não diluída |
| Preenchedor com lidocaína | Conforme a bula do produto | Seringas aplicadas no mesmo dia |
A conta se faz antes de começar, com o peso anotado: numa paciente de 60 kg, por exemplo, 7 mg/kg com adrenalina dão 420 mg — o equivalente a 21 mL de lidocaína a 2%, abaixo do máximo absoluto de 500 mg. É um teto, não uma meta. Fio no mesmo dia de preenchedor com lidocaína entra na mesma soma. E a revisão de Uttamani lembra que os sinais de toxicidade sistêmica podem aparecer horas depois do procedimento, o que pede orientação de alta escrita e protocolo de emergência no consultório.
Dor da própria injeção. A meta-análise em rede de Liu e colaboradores (2022, J Plast Reconstr Aesthet Surg), com 11 ensaios randomizados em cirurgia oculoplástica menor, encontrou menos dor de injeção com lidocaína tamponada com bicarbonato e epinefrina quando a dor foi medida por preferência da paciente, sem diferença pela escala visual analógica; os autores classificam a confiança nesse resultado como muito baixa. Agulha fina, injeção lenta e botão inicial pequeno continuam sendo o que a paciente mais percebe.
Modelo · Sequência anestésica do fio
- Peso anotado e teto calculado de lidocaína, somando o que mais entrar na sessão.
- Marcação com a paciente sentada: vetores, pontos de entrada, de ancoragem e de saída.
- Escolha da via por região: bloqueio onde ele cobre a área com um depósito; infiltração do trajeto no restante.
- Botão intradérmico no ponto de entrada, com agulha fina e injeção lenta.
- Infiltração do trajeto em pequenos depósitos, no plano subcutâneo, sem engrossar a camada.
- Espera: minutos para a analgesia; mais tempo se o objetivo for menos sangramento.
- Teste de sensibilidade em toda a extensão do vetor antes da primeira inserção.
- Conferência final sentada, sabendo que o edema anestésico pode esconder depressões que aparecem depois.
Onde a anestesia do fio é treinada
A anestesia é a primeira etapa do fio que a paciente sente — e a que mais muda a qualidade do resto do procedimento. No Módulo A1, Face Avançada, da Pós Prática do Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), a anestesia dos fios faz parte do próprio bloco de fios, ao lado dos materiais (PDO, PLA/PCL e Aptos), do vetor oposto à queda e da anatomia de risco do ramo temporal, do marginal mandibular e do ducto parotídeo. Os bloqueios anestésicos da face são ensinados na parte prática da formação. O pré-work gravado vem antes; no sábado presencial em Brasília, a demonstração comentada é a parte teórica e a parte prática é a execução supervisionada, em paciente modelo, numa turma de até oito médicos. Os critérios para comparar formações estão em como escolher um curso de fios de sustentação; a técnica de inserção, em como aplicar fios de PDO na face; e os quatro módulos, em Cursos.
Perguntas frequentes
Fio de sustentação se faz com anestesia local?
Sim, o fio se faz sob anestesia local. Na série de Myung e Jung, as 64 pacientes do lifting de terço médio com fio de PDO foram tratadas sob anestesia local, com procedimento médio de 15 minutos.
Onde se aplica o anestésico no fio?
No ponto de entrada, ao longo do trajeto e no ponto de fixação ou de saída. O botão intradérmico anestesia a punção; a infiltração no subcutâneo cobre o vetor; a região de ancoragem pode receber infiltração própria ou bloqueio de nervo.
Quanto tempo esperar depois da lidocaína com epinefrina?
Para analgesia, poucos minutos; para menos sangramento, bem mais. Na revisão de Bajwa, a analgesia veio em média em 2,1 minutos, e a hipoperfusão ótima pediu cerca de 7 minutos na pálpebra e pelo menos 25 minutos nas outras regiões.
Qual a dose máxima de lidocaína na sessão de fios?
Os tetos convencionais são 4,5 mg/kg sem adrenalina e 7 mg/kg com adrenalina, com máximo de 500 mg na referência britânica e do FDA. Tudo o que entra na sessão soma: botões, trajeto, bloqueios e a lidocaína de preenchedor aplicado no mesmo dia.
Tumescência atrapalha o fio?
Em volume grande, pode atrapalhar. O líquido engrossa o subcutâneo, muda a sensação da pinça que confirma o plano e pode esconder depressões que aparecem quando o edema regride. No fio, a infiltração costuma ser pequena e restrita ao trajeto.
Qual bloqueio ajuda nos fios com ancoragem temporal?
O bloqueio do nervo zigomaticotemporal, que inerva a pele da têmpora anterior. Shin e colaboradores localizaram sua emergência 4,5 mm acima do tubérculo marginal do zigoma; Hong e colaboradores mostraram que uma injeção mais superficial no trajeto do nervo dói menos que a técnica profunda.
Bicarbonato na lidocaína diminui a dor da injeção?
Pode diminuir. Na meta-análise de Liu, a lidocaína tamponada com epinefrina doeu menos pela preferência das pacientes, sem diferença pela escala visual analógica, com confiança muito baixa no resultado.
Referências
- Myung Y, Jung C. Mini-midface Lift Using Polydioxanone Cog Threads. Plast Reconstr Surg Glob Open. 2020;8(6):e2920. · PMID 32766067 · DOI 10.1097/GOX.0000000000002920
- Leguina-Ruzzi A, Rawshani N, Brito S, et al. VectorLift: Anatomically Guided Thread-Lifting Technique With Reduced Pain and Downtime - Results from a Real-World Non-Randomized Comparative Study. Clin Cosmet Investig Dermatol. 2026;19:613245. · PMID 42299445 · DOI 10.2147/CCID.S613245
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- Uttamani RR, Venkataram A, Venkataram J, Mysore V. Tumescent Anesthesia for Dermatosurgical Procedures Other Than Liposuction. J Cutan Aesthet Surg. 2020;13(4):275-282. · PMID 33911407 · DOI 10.4103/JCAS.JCAS_192_19
- Ramon Y, Barak Y, Ullmann Y, et al. Pharmacokinetics of high-dose diluted lidocaine in local anesthesia for facelift procedures. Ther Drug Monit. 2007;29(5):644-647. · PMID 17898657 · DOI 10.1097/FTD.0b013e3180eaa10a
- Beaufigeau M, Brochet L, Varazzani A, et al. Facelift surgery under local anesthesia: A scoping review of current practices and outcomes. Ann Chir Plast Esthet. 2026;71(4):358-366. · PMID 42034464 · DOI 10.1016/j.anplas.2026.03.001
- Chen C, Mi J, Zhou L, Li F. Aesthetic Unit Preservation in Emergency Facial Lacerations: A Prospective Evaluation of Landmark-Based Nerve Blocks. Aesthetic Plast Surg. 2025;49(11):2915-2924. · PMID 39810002 · DOI 10.1007/s00266-025-04664-8
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- Ucer C, Wright S, Khan R, Kumar S. Local Anaesthetic Systemic Toxicity in Dental and Oral and Maxillofacial Surgery: Safe Dosing, Combination Agents, and Emergency Management - A Narrative Review. Dent J (Basel). 2026;14(7):457. · PMID 42505765 · DOI 10.3390/dj14070457
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