Botox nas linhas do pescoço (colar de Vênus): técnica
Toxina botulínica

Botox nas linhas do pescoço (colar de Vênus)

O colar de Vênus mistura dobra de pele e movimento do platisma, e a toxina só alcança a segunda parte. Saber ler qual componente domina — e aplicar na derme, longe da frente profunda do pescoço — decide se a sessão vale a pena.

As linhas horizontais do pescoço — o “colar de Vênus” — respondem à toxina botulínica quando há componente de movimento: microgotas superficiais ao longo de cada linha, com dose baixa por ponto, suavizam a dobra e a tração das fibras superficiais do platisma. Quando a linha é um vinco fixo de pele fina, o ensaio randomizado de Li e colaboradores (2022), que comparou toxina com ácido hialurônico não reticulado associado a mesoterapia, favoreceu o preenchedor, e a toxina passa a ser coadjuvante. Nenhuma das três bulas americanas (Botox, Dysport, Xeomin) traz indicação para essas linhas; o uso é fora de bula e o que orienta a técnica são os estudos e a anatomia.

O que é o colar de Vênus

São sulcos transversais que contornam a face anterior do pescoço, mais ou menos paralelos à mandíbula, e que se aprofundam com a idade. A revisão sistemática com metanálise de Wong e colaboradores (2026, Aesthetic Surgery Journal Open Forum) descreve as linhas horizontais como queixa comum tanto na população que envelhece quanto entre pessoas mais jovens.

O mecanismo tem mais de um componente, e é por isso que a escolha do tratamento começa no exame. Engerer e colaboradores (2022, Aesthetic Plastic Surgery) mediram a pele e o músculo do pescoço em 77 pessoas de três faixas etárias com imagem 3D, cutometria e eletromiografia de superfície. Do grupo jovem para o mais velho:

Os autores leem esses dados como uma interação entre a elasticidade da pele, a atividade do músculo e o movimento que ele reflete na pele do pescoço. O estudo recebeu financiamento da Merz North America, registrado no Europe PMC.

Camadas da pele em corte com a derme em destaque, plano da microgota de toxina no pescoço — Dr. Thiago Perfeito
Bloco de pele em corte: epiderme no topo, derme em destaque, tecido adiposo e músculo abaixo. Nas linhas do pescoço, a microgota de toxina fica na derme ou logo abaixo dela, acima do músculo — um plano bem mais raso que o da injeção intramuscular da face.

Linha dinâmica ou vinco fixo: o exame que decide

O exame é feito com o paciente sentado, olhando para a frente, e repetido em três situações: pescoço em repouso, pescoço fletido e contração do platisma (careta mostrando os dentes inferiores). Três perguntas organizam a decisão:

  1. A linha se aprofunda na contração? Se o sulco marca mais quando o platisma trabalha, há componente muscular superficial, e a toxina tem alvo.
  2. A linha persiste com o pescoço em extensão leve, pele esticada? Vinco que continua visível com a pele estendida é dobra fixa da derme; aí o tratamento principal é de qualidade de pele.
  3. Há bandas verticais, flacidez ou gordura submentual? São queixas diferentes, com ferramentas diferentes. Banda é músculo e tem técnica própria (ver botox no platisma e Nefertiti lift); flacidez e gordura não respondem à toxina.

Registre a foto padronizada nas três posições antes de qualquer injeção. No pescoço, a diferença entre antes e depois costuma ser sutil, e só a foto com a mesma luz e o mesmo ângulo permite avaliar o resultado e conversar com o paciente no retorno.

O que os estudos mostram com a toxina

Série prospectiva. Lee, Park e Park (2018, Aesthetic Plastic Surgery) trataram 20 mulheres, com idade média de 43 anos, com linhas horizontais leves a moderadas e sem toxina nos 3 meses anteriores. A avaliação pelo médico que aplicou e por dois médicos cegos mostrou melhora com significância estatística, com o máximo na 8ª semana, e acompanhamento até a 16ª. A taxa de melhora e a satisfação relatadas pelas próprias pacientes não passaram de 50%. As reações adversas foram leves e transitórias, e os autores atribuem parte da suavização da pele ao efeito intradérmico da toxina.

Revisão sistemática. Qiu e colaboradores (2021, Aesthetic Surgery Journal) reuniram 112 mulheres de 24 a 65 anos em 3 estudos de toxina isolada e 2 de terapia combinada. Só 1 dos 3 relatos de monoterapia teve taxa de satisfação e melhora abaixo de 50%, e não houve efeito adverso grave nem persistente. Os autores concluem que a toxina é provavelmente eficaz para as rugas do pescoço, isolada ou combinada.

Ensaio randomizado contra preenchedor. Li e colaboradores (2022, Aesthetic Surgery Journal) randomizaram mulheres com linhas horizontais moderadas a graves em dois braços: 25 receberam ácido hialurônico não reticulado aplicado nas linhas, associado a mesoterapia, em 2 ou 3 sessões; 23 receberam uma sessão de toxina. Com avaliador cego, o grupo do preenchedor teve melhor grau das linhas em todos os retornos (1, 3, 6 e 10 meses após o último tratamento), maior pontuação na escala global de melhora estética e maior satisfação. Em compensação, teve mais dor e mais eritema, edema e equimose, com recuperação mais longa. Nenhum evento grave nos dois grupos. O estudo foi financiado por fundos públicos de pesquisa chineses, e os autores declaram não ter conflito de interesse. Na introdução, eles lembram que toxina e aparelhos de energia agem bem sobre flacidez e bandas e menos sobre as linhas horizontais.

Abordagem combinada. Jeon e colaboradores (2018, Dermatol Surg) trataram 12 mulheres num único dia com ultrassom focado, ácido hialurônico de matriz polidensificada coesiva e incobotulinumtoxinA. O comprimento mediano das linhas caiu de 269,75 mm na linha de base para 91,5 mm no 1º mês e estava em 109,48 mm no 6º mês; a mediana da escala global de melhora ficou em 3 do 2º ao 6º mês. As petéquias regrediram em até 7 dias, e os nódulos do preenchedor desapareceram em até 1 mês.

O conjunto aponta para um lugar preciso da toxina nas linhas do pescoço: boa opção para a linha com componente dinâmico e para o paciente que quer pouco tempo de recuperação, e peça de um plano combinado quando o vinco é fixo. Uma mesa-redonda de educação médica continuada (Fabi e colaboradores, 2023, Aesthetic Surgery Journal) inclui as linhas transversais do pescoço entre os usos da toxina intradérmica em microdoses; a atividade foi paga por verba educacional da Merz Aesthetics e da AbbVie, e os quatro autores declaram vínculos com fabricantes de toxina.

O que as bulas dizem sobre o pescoço

Entre as indicações estéticas das três bulas americanas, só a do Botox Cosmetic trata do pescoço, e a indicação é outra: bandas platismais moderadas a graves, com injeção intramuscular superficial. Para essa indicação, a bula orienta a não injetar em estruturas abaixo do platisma, sobretudo na região anterior do pescoço. É essa orientação que se transporta para as linhas horizontais: o alvo é ainda mais raso que o da banda, e a frente do pescoço é exatamente onde ficam a laringe e os músculos da deglutição.

Platisma em destaque no pescoço sobre a laringe e o esternocleidomastóideo — Dr. Thiago Perfeito
Pescoço em três quartos com o platisma em destaque, da borda da mandíbula à clavícula; laringe e esternocleidomastóideo em cinza, por baixo. As linhas horizontais cruzam essa lâmina muscular de lado a lado, e a toxina para elas fica acima dela, na derme.

A advertência de bula que mais pesa aqui é a de disfagia e dificuldade respiratória: a bula do Botox Cosmetic registra que o tratamento com toxinas botulínicas pode causar dificuldade para engolir ou respirar, em geral por enfraquecimento de músculos da região injetada, e que pacientes com dificuldade prévia de deglutição ou respiração são mais suscetíveis. Esse é o paciente a ser excluído ou avaliado com mais cuidado antes da primeira aplicação.

Técnica: superficial, linear, com dose baixa por ponto

  1. Marque cada linha com o pescoço em posição neutra. Lápis branco sobre o sulco, de um lado ao outro, e uma marca na linha média. Com o pescoço fletido a linha engana, porque vincos que não incomodam também aparecem.
  2. Distribua os pontos ao longo da linha. No estudo de Lee e colaboradores, os pontos ficaram de 1 a 1,5 cm entre si, com 1 a 2 U por ponto e total de 15 a 30 U. O resumo não informa a marca da toxina, e esse é o protocolo do estudo, não dose de bula. Pontos alternados um pouco acima e um pouco abaixo do sulco espalham o efeito sem concentrar volume.
  3. Injete raso. A microgota vai na derme ou logo abaixo dela, formando uma pápula pequena. Se a pápula não aparece, a agulha está funda. Na conduta do Dr. Thiago, toxina se aplica com agulha de 30 a 32 G, em microbolus, sem aspirar e nunca com microcânula.
  4. Poupe a frente profunda do pescoço. Nada de injeção perpendicular profunda sobre a laringe; volume pequeno por ponto reduz o raio de difusão.
  5. Registre. Marca, lote, diluição, número de linhas tratadas, pontos e unidades — a dose do pescoço precisa estar no prontuário separada da dose da face.

A diluição para microgotas costuma ser maior que a do terço superior, para que cada ponto leve poucas unidades num volume que se consiga dosar; o cálculo de concentração por volume de soro está em diluição do Botox, e a lógica da toxina intradérmica em geral, em microbotox. Seringa com agulha fixa ajuda a não perder unidade no espaço morto quando a dose por ponto é tão baixa (agulha e seringa para botox).

Sobre marca: as bulas declaram que as unidades de Botox, Dysport e Xeomin não são intercambiáveis entre si. Mesmo assim, a formação do Dr. Thiago ensina uma referência prática de conversão — uma unidade de Botox para duas e meia de Dysport e uma para uma com Xeomin —, começando na dose equivalente ou ligeiramente abaixo quando se troca de marca e ajustando pela resposta no retorno. No pescoço, onde a dose por ponto já é pequena, esse ajuste fino é o que separa o efeito discreto do excesso.

Injeção no pescoço com marcação em lápis branco na pele — Dr. Thiago Perfeito
Injeção na região cervical, logo abaixo da mandíbula, com marcações em lápis branco sobre a pele; a outra mão apoia o pescoço durante a aplicação.

Quando combinar e com o quê

Quando o exame mostra componente de vinco fixo, o ácido hialurônico entra no plano. A metanálise de Wong e colaboradores reuniu 11 estudos e 379 pacientes tratados com ácido hialurônico nas linhas horizontais: melhora significativa na escala global de melhora estética e no grau das rugas, retratamento em 50% dos casos em até 12 meses e complicações em 14%, todas leves e transitórias; os autores declaram não ter recebido financiamento. Por isso, num plano bem montado:

Complicações e como evitá-las

Retorno e repetição

A revisão da toxina acontece entre 15 e 30 dias, com as fotos nas mesmas três posições. Se uma linha ainda marca na contração, faz-se um retoque pontual, de dose pequena, só nesse trecho. Novas aplicações respeitam o intervalo mínimo de 3 meses que as bulas americanas descrevem entre tratamentos (mais em intervalo entre aplicações de botox). Nota de transparência: o Dr. Thiago não tem relação comercial com nenhum fabricante de toxina botulínica ou de preenchedor.

Onde a região cervical é treinada

Distinguir a linha dinâmica do vinco fixo, colocar a microgota no plano certo de uma pele de pescoço e calibrar a dose por ponto são decisões que se aprendem melhor com alguém conferindo cada pápula. No módulo de Toxina e Preenchimento da Pós Prática, conduzido pelo Dr. Thiago Perfeito (médico, CRM-DF 23199, Medicina Estética e Regenerativa), o conteúdo de toxina inclui a plataforma cervical e o microbotox ao lado dos três terços da face. O sábado presencial em Brasília combina demonstração comentada, como parte teórica, com execução supervisionada pelo aluno em paciente modelo, para turmas de no máximo oito médicos que chegam com o pré-work gravado concluído. O que diferencia uma formação de toxina avançada está em melhor curso de toxina botulínica avançada; os demais módulos, em /cursos/.

Perguntas frequentes

Botox funciona nas linhas horizontais do pescoço?

Funciona melhor quando a linha tem componente de movimento. Numa série de 20 mulheres (Lee e colaboradores, 2018), a melhora avaliada pelos médicos foi significativa, com pico na 8ª semana, mas a satisfação das pacientes não passou de 50%. Num ensaio randomizado (Li e colaboradores, 2022), ácido hialurônico não reticulado com mesoterapia superou uma sessão de toxina em todos os retornos. Para vinco fixo de pele, a toxina entra como coadjuvante.

Quantas unidades de botox se usam no colar de Vênus?

Nenhuma bula americana de toxina traz dose para essas linhas. No estudo de Lee e colaboradores (2018), os pontos ficaram a 1–1,5 cm entre si, com 1–2 U por ponto e total de 15–30 U; o resumo não informa a marca, então é protocolo de estudo, não dose de bula. As unidades de Botox, Dysport e Xeomin não são intercambiáveis segundo as bulas.

Em que profundidade aplicar toxina nas linhas do pescoço?

Superficial: na derme ou logo abaixo dela, formando uma pápula pequena, acima do platisma. A bula do Botox Cosmetic, para as bandas platismais, orienta a não injetar abaixo do platisma, principalmente na frente do pescoço — e a linha horizontal pede um plano ainda mais raso que o da banda.

Toxina no pescoço pode causar dificuldade para engolir?

Pode. A bula do Botox Cosmetic adverte que toxinas botulínicas podem causar dificuldade para engolir ou respirar, geralmente por enfraquecer músculos da área injetada, com risco maior em quem já tem esse problema. Dose baixa por ponto, injeção superficial e cuidado na região anterior do pescoço reduzem o risco.

Toxina ou ácido hialurônico para o colar de Vênus?

Depende do exame. Linha que se aprofunda na contração do platisma tem alvo para a toxina; vinco que persiste com a pele estendida é dobra fixa e responde melhor a ácido hialurônico de baixa reticulação ou skinbooster. Numa metanálise de 11 estudos (Wong e colaboradores, 2026), o ácido hialurônico melhorou o grau das rugas, com retratamento em 50% dos casos em até 12 meses. Muitos casos pedem os dois.

Quanto tempo depois posso repetir a toxina no pescoço?

A revisão acontece entre 15 e 30 dias, com retoque pontual e de dose pequena só onde ficou atividade. Nova aplicação completa respeita o intervalo mínimo de 3 meses descrito nas bulas americanas.

Referências

  1. Lee JH, Park YG, Park ES. A Prospective Observational Study of the Effectiveness and Safety of Botulinum Toxin in the Horizontal Neck Lines. Aesthetic Plast Surg. 2018;42(5):1370-1378. · PMID 29922842 · DOI 10.1007/s00266-018-1160-8
  2. Li Y, Liao M, Zhu Y, et al. Hyaluronic Acid Compound Filling Plus Mesotherapy vs Botulinum Toxin A for the Treatment of Horizontal Neck Lines: A Multicenter, Randomized, Evaluator-Blinded, Prospective Study in Chinese Subjects. Aesthet Surg J. 2022;42(4):NP230-NP241. · PMID 34758056 · DOI 10.1093/asj/sjab387
  3. Qiu H, Zhao R, Cao L, et al. The Aesthetic Concerns of Botulinum Toxin Type A in the Treatment of Neck Wrinkles: A Systematic Review. Aesthet Surg J. 2021;41(6):NP592-NP601. · PMID 33220046 · DOI 10.1093/asj/sjaa312
  4. Jeon H, Kim T, Kim H, Cho SB. Multimodal Approach for Treating Horizontal Neck Wrinkles Using Intensity Focused Ultrasound, Cohesive Polydensified Matrix Hyaluronic Acid, and IncobotulinumtoxinA. Dermatol Surg. 2018;44(3):421-431. · PMID 28902030 · DOI 10.1097/DSS.0000000000001312
  5. Fabi SG, Park JY, Goldie K, Wu W. Microtoxin for Improving Pore Size, Skin Laxity, Sebum Control, and Scars: A Roundtable on Integrating Intradermal Botulinum Toxin Type A Microdoses Into Clinical Practice. Aesthet Surg J. 2023;43(9):1015-1024. · PMID 36857534 · DOI 10.1093/asj/sjad044
  6. Engerer N, Frank K, Moellhoff N, et al. Aging of the Neck Decoded: New Insights for Minimally Invasive Treatments. Aesthetic Plast Surg. 2022;46(4):1698-1705. · PMID 35701594 · DOI 10.1007/s00266-022-02961-0
  7. Wong ZY, Limbu S, Karanasios G, et al. Efficacy and Safety of Hyaluronic Acid Fillers for Horizontal Neck Lines: A Systematic Review and Meta-Analysis. Aesthet Surg J Open Forum. 2026;8:ojaf163. · PMID 41560960 · DOI 10.1093/asjof/ojaf163
Dr. Thiago Perfeito, CRM-DF 23199
Dr. Thiago Perfeito · CRM-DF 23199
Medicina estética e regenerativa, Brasília–DF. Anatomia aplicada, complicações em injetáveis e medicina regenerativa.

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